Capítulo XXVIII
Jesuino voltou com o sequito ao valhacoito. A vida agora não the corria tão facil, como outr'ora, os horisontesse carregavam e a borrasca estava imminente. Não era a grande escolta que o impressionava; a Casa de Pedra continuava a ser ignorada da força do governo e, caso fosse descoberta, só artilheriapoderia derrocala. Uma outra casta de mal o inquietava seriamente, porque todos os seus esforços, valore actividade seriam nullos para debellal-a. Era uma calamidade que Jesuino nunca vira, porem crescera ouvindo d'ellacontar as scenas mais horrorosas. Era a secca, que chegava acompanhada de seu cortejo de miserias e tribulações. Os campos ennegreciam com as folhas, que o sol crestava e o vento atirava ao chão.
As aguas desappareciam das fontes, e os riosiam pouco a pouco se reduzindo a regatos prestes a cortar. Era em Maio, e em vez de uma florestaem flor, uma florestanúa, semi-morta, de esqueletos a bracejarem no espaço, a aquecerem -se ao sol, a um sol que torrava, que lhe gretava a pelle e a mataria por fim. Jesuino via n'aquellas manifestações da morte o prologo de um drama terribilissimo. A calamidade se extendia em uma area de centenas de leguas. Os sertõesdo Rio Grande do Norte, Parahyba, Ceará, Pernambuco torciam-se flagelladospela sêcca, que dizimava largamente homens e rebanhos. Estava declarada a sêcca de 1877, reproduzia-se fatalmente o terrivelcentenario, a tremenda crise, que no seculo passado havia avassallado os animos de quasi toda a população do norte do Brazil.
As searas não tinham produzido uma espiga, e os celleirosvasios de todo preludiavam bem a conflagração que a fome levantaria em todo o sertão, logoque escasseasseo recurso das raizes silvestres. Jesuino recebia todos os dias as mais tristes novas sobre o estado de sua fortuna pastoril. A secca estava ainda em começo e os vaqueiros, apavorados com o flagelloe cançados detanto labutar, não tardariam a deixar á dis creção da fome os rebanhos até então alimentados com enorme somma de sacrificios. A escassez de forragem não constituia o maior perigo para a vida dos gados, não, o que levava o creadorá desesperação era a faltad'agua, era a usura com que a terra a vertiagotta a gotta, issomesmo nem em todos os bebedouros.
O Brilhante, na Casa de Pedra, estava de algum modo livre de ser alcançado pelo flagello. A sua vivenda, encravada em um oasis bello e floridoe até então respeitado pela sécca, permittia-lhe uma vida mais tranquillado que aos seus conterraneos em um sertão raso e queimado por um sol ardente. A serra do Cajueiro surgia d'entre aquellas ruinas de incendio vestida de verdes arvoredos, como o tom vivo da alegriana pretidãoda floresta núa, esqueletica. Jesuino se impressionava com a secca, mais pela desordem que observava na natureza viva do que pelo receio de ser uma de suas victimas. Do torreão de sua fortaleza, levava contemplando horas inteirasos campos ennegrecidos, que se abriam a seus olhosde todos os lados, e onde homens e rebanhos luctavam pela vida com valor e desesperação.
O agonisar da vida n'aquelles sitiosenchia a alma do Brilhante de grande piedade. Não podia ver moribunda aquella natureza tão sadia outr'ora, no seio da qual havia gosado os melhores dias de sua mocidade. O flagello continuava sem esperança de termo proximo. A fome, a sêde e a peste, como consequencia, dizimavam osgados de um modo assombroso. Jesuino tinha perdido a maior parte de seus rebanhos. Não tinha coragem de descer e ver de perto os horrores que a secca havia levantado no seioda população sertaneja. A instancias repetidasde seu procurador, resolveu-se a descer com suagente ao sertão para ser testemunha ocular dos prejuisosque lhe causava o flagelloe dar combate á calamidade. Logo que entrou no valle, começou o Brilhante com os companheiros a sentiros effeitosda secca, que até então tinham vistosómente de longe. A vida ali fazia um contraste perfeito com a vida que levavam na unontanha.
Acostumados á temperatura doce da serra, estranhavam a atmosphera afogadiça da planicie, aquecida a 38° centigradosá sombra e viciada pelopó impalpavel que o vento levan tava dos campos e deixava suspenso no ar, e pelos miasmas das carniças. Os cavallos esbofados affrontariam em breve se os cavalleiros, presentindoisso, não continuassem a jornada com menos pressa. Mesmo assim, a soalheira e a andadura arrancavam da pelledos animaes grossas bagas, que, com a poeira, formavam escura amalgama, que cobria-lhes o corpo todo. Jesuino seguia pensativo. Aquellas tristezas The entravam d'alma a dentro em borbotões, e o criminoso de hoje voltava dez annos para o passado e chorava, commovido deante das ruinas d'aquelleslogares queridos. O genio do exter minio não havia deixado sequer, no coração das populações flagelladas, uma esperança de salvação!
Tudo parecia acabado! O solo, semelhante a uma solfatara, gretava -se em longas e fundas vallêtase faziaper feitocontrastecom o céo de lindo e puro azul, d'onde o sol, sem nuvens que lhe empanassem os raios, emittiagrande calor, que a terra em cheio recebia. A ' sombra da florestade esqueletos, o ga do magro e doente illudiaa fome comendo al guma folhasecca, que o vento havia deixado de carregar em seu adoidado remoinhar. Em fundas malhadas grande numero de rezes arquejavam prestesa morrer e eram vigia OS BRILHANTES 203. das pelos urubús, que esperavam somente a immobilidade da morte ou o marasmo da fome para saciar a gula n'aquelles pobres repastos.
O Brilhante via todas essas miserias com pasmo e grande pena. A magua que o pungia, tinha-lhe apagado a ferocidade das feições dando -lhe um ar sombrio e dolente. Jesuino caminhou o dia inteiro, testemunhando sempre os tristes quadros da sècca, de cores mais ou menos escuras, até que chegou a uma de suas fazendas. O sol se punha e as derradeiras ondulações da luz esmoreciam nas cristasdos mais altos penhascos. As tristezas da Ave -Maria vinham augmentar o desconforto, que desalentava a alma dos que viviam n'aquel le meio, de todo sem gozos e escasso até de esperanças! O Brilhante apeou se com os companheiros á porta da vivenda, um casarão com duas azas de alpendres.
Um velho sahiu a recebel -os triste como quem abraça uma visita de pesames. Era o vaqueiro, cuja velhice prematura e abatimento moral, Jesuino estranhou. Os poucos mezes de lida haviam -lhe consumido a carne do corpo e a paz do espirito. Entraram para a sala. Ahi encontraram a mulher do vaqueiro e um bando de creanças magras e núas. A sertaneja, uma caboclade tez escura, alta, de olhospequenos e negros, estavamagrissima, uma figura esqueletica, menos a barriga que se avolumava, prenhe d'agua, e os pés inchados a rachar. Os meninos, macilentos e hydropicos, sentadosno ladrilho, descançavam na terra o abdomem infiltrado e estiravam as finissimas pernas, procurando assim uma posição que os incommodasse menos.
Jesuino contemplou o quadro e não proferiu palavra. Acontecia áquella familia o mesmo que se dava com as populações desvalidas dos outros logares flagellados pela secca. Alimentavam -se de mucună e, em consequencia dessa alimentação venenosa, desenvolviam -se molestiasque dizimavam de um modo assombroso os habitantes dos sertões. O Brilhante, convencido de que a fome morava havia muito tempo com aquellagente, deu pressa a José de recolheros viveres e pol-os á disposição da dona da casa. A ceiafoiservida cêdo e a familia, livreda inappetencia, produzida pela carne de gado magro e doente e pela farinha de mucună, comia esfomeada. Depois da refeição, agazalharam -se.
O Brilhante, com os companheiros, se aboletou na sala de entrada. A noite foi para Jesuino de penosa tribulação. Não pregou olhos. Não se podia conformar com a devastação d'aquelles sitios. Ao deitar-se, quasi chorou quando lhe deram para beber uma agua turva, intragavel, mistura de barro e caparrosa. Fez -lhe repugnancia o liquido, e era o melhor, o mais po tavel; custava cada pote aos musculos cançados do vaqueiro duas leguas de caminho! Jesuino não sabia como ficar ali oito dias sem agua para beber. Quasi esmoreceu em frenteás difficuldadesque se levantavam de todos os lados. De tudo, o que mais o affligiae lhenão sahia da imaginação, era o ar doentiodas cre anças e a gula com que se atiravam sobreare feição da noite.
Contou todas as horas e levantou-se logo que vibraram no espaço os primeiros clarões d'aurora; sahiu para o pateo da fazenda. O espiritoatribulado do Brilhante vinha sequioso procurar algum conforto, alguma cousa que lhe disfarçasse as penas, no drama do amanhecer. Tremenda foi a desillusão! O sol assomava no oriente e deixava ver o seu disco de fogo atravez da rêde de galhos seccos da floresta núa e semi -morta. Aquelle quadro representava com eloquenciaum campo incendiado e no extremo, ainda acceso, o facho que ateára o incendio. Nem um passarinho trinava, nem um in secto zumbia com a vinda do sol. Era uma floresta sem verde e sem cantores.
Grande era o silencio, um silencioque magoava a alma. Apenas de quando em vez, o rangirdas arvores seccas sacudidas pela ventaniaou o crocitarlugubre dos urubús, que tinhamamanhecido nas carniças. Jesuino, que nunca tinha perdido o valor nos maiores perigos, sentiu que a coragem pouco a pouco o abandonava. Sahiu de campo a fóra, a ver se distrahia o espiritotão abatido pelas impressõesd'aquellasscenas e, quanto mais caminhava, mais tristezasdescobriam olhosn'aquellasdesoladas paragens. os seus O Brilhante seguia quando encontrou-se, semesperar, com os cavallosda sua comitiva. O Exhalaçãoavistando o senhor rinchou e caminhou a se encontrar com elle.
A essa prova de amisade correspondeu Jesuino. Chegou -se ao animal e alisou-lheo pellodo lombo com carinho e pena. O cavallo estava esguiocomo um galgo. Os ossosda anca esti raçavam a pelle, quasi a fural-a. O jejum havia sido absoluto. Jesuino teve tanto pezar de ver assim o seu querido corsel, que quasi chorou Se não fosse possivel tiral-o d'alie mandal -o aos pastos do Cajueiro, o mataria para não vel-o soffrer. Voltou á casa e ordenou a José que regressasse com os cavallos á serra, onde ficaria tratandod'ellesoitodias. O libertopartiulogo, com recommendação de voltar com a conducção no fim d'aquelle praso. O Brilhante, n'esse mesmo dia, foi com o vaqueiro e companheiros fazer um reconhecimento nas aguadas. Sahiram levando pás e picaretas. Chegaram ao primeiro bebedouro aberto no leito de um riacho. No centro de altas barreiras de areia vermelha e grossa, abria-se funda excavação e, lá em baixo, estavauma pequena poça d'agua coberta de uma nata esverdeada e tenue.
Jesuino, de pé na cristados barrancos, olhou com attenção o buraco e lamentou a usura com que a terra alimentava aquella fonte. O riacho que conhecera tão fartod'agua, a ponto de nunca cortar, estava secco e até as cacimbas pouco ou nada vertiam! O Brilhante estava pasmo deante das manifestações do flagello, todas desconhecidas d'elle. Não se fartava de olhar a pobreza da fonte, talvez para se animar a descer e rasgar as entranhas da terra. Assim estava, quando viu que algumas rezes se approximavam para beber. Espantou -se. Não eram mais aquelles nedios touros e aquellas gordas vaccas de outr'ora. Um gado magro, de pello arripiado, caminhava trambecando, sem forçaspara descer ao bebedouro. O primeiro que chegou ao alto da rampa que ia ter á aguada, foi um grande touro. Tinha somente ossos e pellangas. Perecia um esqueleto bovino armado de grandes chifres.
Parou, e, se a sede era grande, maior era a atonia da fome, o cançaço da inanição. Afinal desceu com passo vacillante e pôz a bocca n'agua. Alguns goles bastaram para seccar a fonte. A frescura do liquidomais aguçou a sêde e a rez sequiosa conservava os labios colladosá terra molhada, na esperança de mais agua para refrescar as entranhas, que ardiam em febre. Assim esteve algum tempo e não lhe dando o bebedouro mais um gole, ergueu a cabeça, e os seus grandes olhos, de uma ternura doentia, se fitaram em Jesuino. O criminoso, cuja crueldade tantas vezes havia aterrado os inimigos, commoveu -se com aquelle melancholico e amortecido olhar.
O touro esmorecido e sem forçaspara subir a rampa continuava a fitarJesuino. A agua, embora pouca, pesava -lhe na pança, e elle mal podia com os ossos e o couro. O vaqueiro, notando a attençãoque o amo prestava ao novilho, informou ao Brilhante que rez era aquella. Mais cresceu a piedade de Jesuino, mais pena lhe fazia agora a magreza do touro. O Faisca, o fama d'aquelles sertões, cuja carreiracavalloalgum pôde acompanhar, reduzido a um esqueleto vestido de pelle e sem forças para dar um chôto! O Faisca, o famoso touro, cujos urrospossantesatroavam vallese montanhas, cujo vigor era tal que fazia tremer a terra que pisava, agora, na mais completa atoniae sem animo para o menor desforço com os vaqueiros, dos quaes havia sido o terror!
A sorte má da rez impressionava Jesuinoe pensando n'elladeduziu uma illaçãoque o mortificou. O Faisca havia sido até pouco tempo o rei d'aquelles campos e agora desthronado não resistiriaá aggressão de uma creança. Assim, quem sabe se sorte igual não estava reservada para elle? Teve esses pensamentos e sentiu-se mal. Precisava afugentalos e só o trabalho poderia fazel-o. Chamou os companheiros e desceu ao bebedouro. O novilho, vendo -os descer, foisubindo a rampa a custo e muito devagar. Jesuino ao passar por elle poz -lhe a mão no cupim com amisade e respeito; em logar da musculatura tesa e vigorosa havia uma pelanga molle e engilhada. Desceram á cacimba e começou a lucta. Os braços sadios dos trabalhadores manejavam as pás com agilidade e a camada de areia desaggregada era movida para longe. O serviço marchava accelerado e a excavação mais se aprofundava. A camada arenosa foi rareando até desapparecer de todo. As pás, não tendo mais que fazer, foram substituidas pelas picaretas. Os ferros cortavam com difficuldade a argila compacta da rocha. Os trabalhadores redobravam de esforços; mas o solo resistiaao rasgamento de suas entranhas.
Nada podiam contra a viscosidade do barro que, adherindo ao bicodas picaretas, retardava sobremodo a marcha do serviço. Os Brilhantes, qual mais aguçoso, esforçavam -se para chegar á veia d'agua, mas a terra não mudava a aridezdo seu aspecto, apenas tinha a ductilidadeda cera para estorval-os, para gastar-lhes inutilmente as forças. Sobre as ribanceiras da cacimba, rezes de todas as idades olhavam sequiosas para o buraco que se abria, lambendo pacientemente a terrahumida, na esperança d'agua que lhesmatasse a sede. A lida se tornava cada vez mais afanosa. Aquelles homens robustos e bem alimentados golpeavam a rocha com coragem, mas eram improficuosos seus esforços. A soalheira tostavalhesa pelle, que vertiasuor em copiosasbagas.
O calore o cançaço os extenuavam quasi. As respirações offegantes tinham um ruido, um estertor rouquenho de fadiga; isso não impedia que os ferros cavassem a terra. Não se ouviauma palavra, uma queixa, uma maldição. O Brilhantemanejava a sua picaretacom grande animo, mas a terra continuava a desilludil-o com a sua aridez. Mesmo assim, trabalhou com oscompanheiros até o pôr do sol, quando voltaram para casa. Iam moidos de fadiga, com as mãos estouradas de callos. A excavação havia ficado mais profunda, mas a terra não promettia dar agua tão cedo. O gado se contentou em lamber o barro humido e, sem forças para procurar outro bebedouro, ficou ali malhado o restodo dia e a noite inteira.
Quando, pela manhã, voltaram os trabalhadoresá cacimba, já encontraram os urubús devorando as carniças das rezes, que a fome havia derribadonas ribanceirasdo bebedouro. A gula e o crocitardas aves disputando o melhor quinhãodo podre repasto, deram maior animo aos Brilhantes para continuarem o serviço, que a noite havia interrompido. Desceram e começaram a cavar. O esforço, entretanto, não correspondia á anciedade que tinham de matar a sêde do gado. Entanguidos, custavam a manejar os ferros; tinham os musculos perros e doídos. A primeira hora de trabalho foi bastante incommoda; as carnes dos braços e dos lom. bos estavam tão sensiveis como se tivessem sido largamente contundidas. Não esmoreceram, supportaram com coragem aquelles soffrimentos atė que o calor da lida restituiu-lhes a energia que a fadiga da vespera havia diminuido. Voltaramlhe as forças e o trabalho continuou em marcha mais accelerada. Passou -se o dia e da terra nada conseguiram para salvação do gado, que á beira do secco bebedouro morria de fome e sêde. A mesma rocha de argilla, pegajosa e arida.
Jesuino, irritado com a seccura do solo, despresou o conselho do vaqueiro de experimentar outra cacimba. Havia de tirar agua d'aquelle logar embora furasse o mundo de um lado ao outro! O trabalho continuou por espaço de oito dias, só sendo interrompido á noite e durante as refeições. O liberto chegou com a conducção no praso que o Brilhante tinha marcado, e nada haviam feito os companheiros em prol dos rebanhos que a fome e a sêde continuavam a dizimar. O bebedouro tinha maiores ribanceiras, estava mais fundo, porem mais secco ainda do que no dia em que haviam chegado. O Brilhanteestava com a pelle da cor de camarão torrado. O sol havia -lhe chamuscado a ruiva cabelleira e arripiado tanto que parecia ter o duplo do volume.
A epiderme lustrava como envernisada. Sovado assim peloflagelloe desilludido, Jesuino resolveu, a estourar de colera, voltarpara a serra. Fôra vencido, d'ahio seu desespero. Não podia bater o sol que esterilisavao solo e nem tão pouco arrancar agua das entranhas da terra. A certeza de sua pequenez, do seu nada, o irritoua ponto de apressar a partida para não ver mais provada a sua nullidade. Chamou o vaqueiro, deu -lhe viveres e dinheiro e ordenoulhe que sahisse e abandonasse á sorte o resto dos gados que possuia. N'essemesmo dia voltou com os companheiros para a serra.