Capítulo XXXII
Escurecia. Ao sopé da serra do Cajueiro, depoisde doisdias de viagem, chegavam os Bri lhantescom o comboio de viveres do governo. Nenhum incidente se tinha dado. Os freteiros cumpriam as ordens do novo amo com inteira submissão, tal era o temor que tinham d'elle. Jesuino havia dispostotudo para chegar á Casa de Pedra fóra de horas. A ascenção da montanha dia claro era impossivel; os retirantes embaraçariam o transportedos generos, que o Brilhante deixaria á discreção d'ellesou os repelleria, e então a matança seria demasiada. Para que não fossem infructiferosos seus esforços, Jesuino deixou que se apagassem todos os fogos da serra, e quando the pareceu tudo adormecido n'aquellasbrenhas, deu ordem para subir o comboio. Todas as precauções foram tomadas para evitar, quanto possivel, fortesarruidos. Arrolhadas as campase chocalhos, ouviase apenas o tropelmonotono dos animaes e, de quando em vez, um som agudo produzido pelo resvalar dos cascos dos burros nas empinadas cristas dos rochedos.
A claridade do céo mal deixava ver a estreitatrilha, que subia formando agudos cotovellose cortava ora penhascos a pique, ora ingremes alcantis. Do cimo de taesprecipicios, nem homens, nem animaes podiam avaliar o perigoe a fundura dos abysmos, que se abriam nos lados, tal era a pretidão que os enchia até as bordas. A atmosphera já não era tão pesada; á proporçãoque subiam, sentiam que ellase tornava mais leve. A temperatura tinha descido muito; o ambiente afogadiço do sertão, que havia poucas horas tanto torturava os viajantes, se mudava na montanha em um ar fresco, que restaurava as forças entorpecidas pela soalheira. Assim caminharam mais de duas leguas de ladeira, inconscientes dos perigos por que tinham passado, e chegaram sãos e salvos á Titéla do Perigo, quasi de madrugada.
Poseram as cargas abaixo, e o Brilhante pensava agora onde recolher os viveres, antes de serem vistos pelos retirantes. Os vastos salõesda Casa de Pedra se prestavam perfeitamente bem para armazenal os, mas, como transportar mais de cem volumes, alguns de sessenta kilogrammas, por tão perigoso e estreito caminho? Difficilera agora a situação Jesuino estava moido de fadiga, mas o valor de seu espiritosuperava o cançaço, que lhe tolhia os membros. Pensou algum tempo no caso e decidiu-se a completar a obra. Para auxilial-o só contava com José, o unico dos companheiros que atravessava a Titéla. Chamou o libertoe, com elle, levou as primeiras saccas. Cada um com o seu volume ás costas, atravessavacom pé seguro o precipicio.
Depois de umas vinteviagens, já ao quebrardas barras, José esmoreceu de todo e cahiu esba forido. O Brilhante não estava menos cançado que o companheiro, o que o fazia ainda caminhar era o valor do seu espirito tenaz. Poucas viagens deu depois que o liberto esbofou. Cahiu tambem, tão afadigado que os companheiros pensavam vel-o morrer. Jesuino tinha as faces de uma lividez de cadaver e o rosto banhado de suor. A bocca se conservava aberta e dilatadas as ventas; mesmo assim, parecia que estava se afogando. A quietação foi pouco a pouco melhorando aquelle estado; o Brilhante fechou a bocca e cerrou os olhos n'um somno profundo e restau rador, Adormecido o chefe, todos procuraram imital -o. O sol assomou no horisonte e não o viram sahir nem Brilhantes, nem freteiros.
Todos dormiam pesadamente. As bestas, livres das cargas e dos arreios, cortadas de fome e sêde, comiam com avidez os hervanços que cresciam á sombra das grandes arvores. Grande era o silencio, apenas ouvia-se o monotono resonar dos que dormiam e o som especial da mastigação dos animaes. O dia cresciae continuavam os tropeiros na mesma posição em que tinham adorme cido. Quasi todos resupinos, fazendo das saccas travesseiro, recebiam em cheio a luz no rosto, mas o calor e a claridade podiam menos do que o somno que os prendia. : As bestas haviam -se affastado muito do rancho e d'ellasnão se ouvia mais ruido algum. Agora, a aragem, que brandamente ciciava, trazia vagos rumores, sons confusos, que não se podiam distinguir.
Era o accordar dos famintos, os primeiros arruidos da lucta que alguns milhares de desgraçados sustentavam havia uma centena de dias. Nas solidõesda serra, pouco a pouco, echoava confusa vozeria. Das grotas e esconderijos surgiam figurasesqueleticas. Gageiros da miseria subiam ao cimo das penedias e olhavam a Casa de Pedra, o unico porto de salvação. Em breve a montanha, que parecia deshabitada, povoou -se de mumias vivas. As grutas, as furnas, as cavernas vomitavam retirantes ás centenas, e as levas de esfomeados derramavam -se por toda a serra. Trepavam nos ingremes cabeços, andavam de gatinhasnas escarpas dos rochedos, nos logares mais ermos e inaccessiveis, na esperança de encontrar um lagarto, um sapo para comer. Com o dia começou a lucta titanica, que havia -lhes avassallado o animo e reduzido o corpo ao esqueleto e a murchas pelangas. Do cimo dos precipicios descobriram na Casa de Pedra, perto da Titéla, alguma cousa que lhes pareceu viveres.
Os que estavam mais perto, reconheceram logo as saccas de farinha, os fardos de carne. Grande foi a emoção que lhes abalou a alma. Pelas necessidadesdo estomago, deveriam cor. rer á Titéla e matar a fome de tantas semanas: mas as pernas mal podiam caminhar a passo. Alguns dos mais famelicos, allucinados com a presença do alimento, não tiveram paciencia de descer das eminencias e se deixaram cahir. O choque da queda n'aquella massa de ossos e pelles, sem carne mais que protegesse as articulações, desconjunctou-as pela maior parte. E agora, sem se poderem mover, verdadeiros em brulhos de pellangas, gemiam e praguejavam, mais desgraçados ainda porque tinham na cabeça gravada a imagem das saccas de viveres.
Os que tinham as faculdades mais equili. bradas, desciam das arvores ou dos penhascos com precaução e seguiam caminho da Casa de Pedra. Em breve, em todas as veredas que desemboccavam nas cercanias da Titélado Perigo, formigavam os famintos. E que tristeprocissão aquella! Como era sombrio o cortejo da fome! . . . Nem um rosto que não estivesse escaveirado, nem um corpo que não vestissetrapos. Os mais fortes marchavam na frente, embora para isso tivesse sido preciso atropellar os mais fracos: estes cahiam, cedendo o caminho e vomitando toda a sorte de imprecações. Fechavam o prestitomagrissimas creaturas, de ar doentio e que muito a custo se arrastavam n'aquellepenoso Calvario. A marcha, embora muito lenta, os fatigava e, se o desejo vehemente de chegar cedo ao repastoque, de longe, tinham avistado, fazia que augmentassem um pouco o passo, esbofavam logo; o coração sem compasso queria-lhes sahir pelabocca e, arquejantes, se encostavam ás arvores das bordas do caminho, temendo cahirno chão e serem asphyxiados pelo pó da estrada.
Ainda assim, alguns dos mais esbaforidose enfermos, sem tempo de evitaro atropellamento, cahiam dentro da nuvem de poeira e morriam asphyxiados. O prestito, nem por isso, moderava a marcha, passava por cima dos cadaveres sem lamentar a sorte dos que tinham morrido em caminho. Só tinham uma idéa; só ouviam osalve-se quem poder- e por issopisavam os companheiros que esmoreciam na jornada. O sol já estava bem altoquando chegaram á Titélaos primeirosretirantes. Dormiam ainda osBrilhantese os freteiros, e tão profundamente que não deram pela chegada dos famintos. Estes estacaram a alguma distancia dos viverese teve logarentão uma scena muda, mas de uma eloquenciasingular. Não se ouvia o som deuma palavra, apenas um zum -zum, semelhante ao esvoaçar de um enxame de abelhas, derra mava -se pelas cercanias da Casa de Pedra.
Espreitavam receiosos os comboeiros e a fome, que cresciacom a vista do alimento, levava-os a um estadode frenesi, que mais lhes desfigurava o semblante, já tão cavado pelas fundas rugas da miseria. A custo se continham de pé, mas a exaltação que os desorientava, trazia-os em mortificantedesassocêgo. As repetidas contracções dos mirrados musculos das faces em horridascarêtas e os espasmos dos braços e pernas davam aquellas esqueleticas figuras uma expressão phantasticae aterradora. A pequena mó de retirantes foi, pouco a pouco, se avolumando e não tardou a encher o sovaco em que se erguia a Casa de Pedra. Na pequena area não cabia mais gente. O comboio estava completamente sitiadopelosfamintos, que guardavam distancia e pouco a pouco apertavam o cerco. A hesitaçãonão devia durar muito. Alguns dos mais animosos, torturadospelo suppliciode Tantalo, sahiram da mó e cahiram sobre os viveres como porcos esfomeados. Rasgavam com os dentes, a estopa dos saccos de farinha com gula e frenesi. Nada mais foi preciso para que a onda revolta de famintos se derramasse na area até então respeitada. Um ruido exquisito, um borborinho confuso espalhou -se de serra a fóra. A legião de mumias vivas se ennovellava sobre o repasto e, quanto mais se movia, mais empestava o ambiente de um cheiro nauseabundo de carniça. Não fallavam, ganiam. Os mais fortes esmurravam -se, disputando o melhor quinhão. Os mais fracos rolavam por terra, derribados pelos que podiam caminhar. Crescia a fedentina que sahia dos seus nojentos e esqueleticos corpos.
Ninguem se entendia naquelle fervedouro. Pelejavam todospela vida, que aliestava dentro d'aquelles feios saccos. O sol havia subido bastante e deixava ver bem o grande novello de creaturas magrissimas e sujas, movendo -se sempre. Os Brilhantes e freteiros, tão tresnoitados estavam, que não accordaram com a bulha que tão perto d'ellesfaziam os esfomeados. Jesuino, que tinhao somno leve como o do Tetéo, dormia, e, se não lhe arrancassem o travesseiro, continuaria adormecido por muito tempo. O Brilhante abriu os olhos e acreditou sonhar. A imagem do real entrava -lhe de cerebro a dentro, ao mesmo tempo que lhe atordoava os ouvidos aquelleestranho borborinho.
Cerrou as palpebras e de olhos fechados, via o quadro que pensava ser uma phantasiade seus sentidos. Continuava a ouvir os sons confusos levantados pelos famintos Quiz ver de novo a mó de retirantes a se ennovellar, a se esmurrar sobre o repasto e os seus olhos se certificaram da tristerealidade. Jesuino ergueuse, tinha acreditado por um minuto tudo aquillo uma creação caprichosa de sua imaginação, mas tocava a verdade, palpava com todos os sentidos a realidade do quadro. Cercavam -no muitas centenas de desgraçados que, allucinados pela fome e reduzidos somente á animalidade, sa tisfaziam, como a mais infima besta, as neces sidades do estomago em longo jejum.
A primeira idéa que teve o Brilhante, foi enxotar os famintos como magros cães do monturo. Quiz pôl-a em pratica, ameaçando de leval -os a faca se não se retirassem, mas não lhe deram ouvidos. Esmurrou alguns dos que lhe ficavam mais proximos, porem isso não impedia que voltassem ao repasto logo que cessava a aggressão. Jesuino, nada conseguindo, suppôz intimidal-os disparando o bacamarte. O estampido enorme repercutiu nas quebradas da serra e o echo foirepetindo-o de covoada em covoada, até se perder de todo. Os famintos não se assustaram e continuaram. O tiro serviu só para accordar os companheiros. A mesma estranheza que surprehendera o Brilhante, sentiram -na elles ao despertar, envolvidos pela turba de esfomeados.
Jesuino havia comprehendido a impossibilidadede chamar á ordem os retirantese, melhororientado, mandou aos companheiros que o seguissem, evitando quanto possivel no trajecto maltratar os famintos. Foi penosa a travessia e o cerco difficilde romper. N'aquella téla, que tão bem representava a miseria humana, havia tons de uma expressão tão cruciante que os Brilhantes e os freteirosnão poderam conter as lagrimas. Jesuino, cuja forte tempera de animo haviam tantas vezes comprovado actos de valor, sentia o espiritoprofundamente abalado; cho rava. O que mais o affligia, era o soffrimento, era a agonia das creanças. O bando dos pequeninos, misturado a turba multa dos famelicos, que, com a consciencia embotada e adormecidos n'alma pela fome, que tudo desorganisa, todos os sentimentos bons, não viam aquellas creaturinhasinanidas, não procuravam protegel-as. Tudo havia fugido d'aquelles corações, até os sentimentosda maternidade! O que a fome não havia dissolvido, tinha anesthesiado.
A velhice e a infancia, mais do que todos, soffriam a rudeza do golpe. Não era preciso um transe tão lancinante para atiral-os por terra: qualquer embate os derribariae seriabastante para matal-os o pó levantado pelos que ainda podiam se conservar de pé. Jesuino sentia n'alma grande piedade por aquellesdesgraçados. E, como se encontravam aquellaspequenas mumias! A maior parte estavam esborrachados, tendo os mirrados intestinos espirrado por um rasgão da pelle nos ossos dos quadris. Alguns tinham morrido asphyxiados, o que francamente se via nos olhos esbugalhados e nos traços de funda angustia, ainda impressos nas feições. O Brilhante, depois de testemunhar repetidas scenastristes, chegou com sua gente a Titéla.
Ordenou aos companheiros que se reco lhessem ao rancho, dessem agasalho aos fre teiros, e, acompanhado de José, atravessou a ponte. A Casa de Pedra estava como sempre, solitaria e triste. Jesuino ordenou ao liberto que cuidasse do serviço e ficou sentado no limiar da entrada da gruta. D'aquelle elevado palanque, tinha debaixo de vista o formigar dos famintos sobre o comboio de viveres. O espectaculo, embora visto de longe, era o mesmo, tristee desolador. O Brilhante não podia dis. tinguiras vertebras do esqueleto, não via o engilhamento da pelledesorganisadapela miseria, via uma enorme mumia formada de centenas de creaturas bestialisadas pela fome! Não lhe chegavam aos ouvidos as pragas, as imprecações, mas um zum-zum surdo, um ruido em que se fundiam desde o ai até a blasphemia.
A massa compacta, que parecia um corpo só, foipouco a pouco se distendendo. A figura alterou-se; tomava as formas de um grande polvo. Innumeros tentaculosmoviam -se, procurando a orla da floresta. Aquelles compridos appendices eram for mados por famintos que, tendo saciado a fome, fugiam para os covis arrastando saccas de viveres. Os que apenas tinham forças para car regar a ossada e as pelangas, depois de cheio o estomago de farinha e de carne crua, não podendo nem comsigo e entorpecidoscomo giboia, ficavam na mais estupida quietação. Estes formavam o corpo do mollusco. Os tentaculos se reproduziam e entravam de matta a dentro, se estirando até os mais empinados penhascos. Era uma lucta desespe rada aquella; magrissimas creaturas, com a carga muito superior as forças, cahindo aquie acolá, sempre no proposito firme de levaro fardo ao covil.
A procissão dos carregadores era como o assalto das formigas aos celleiros; sendo maior a ambição do que a força, põem ás costas mais carga do que podem e vão aos trambolhões até o formigueiro. O sol já descambava muito para o occi dente, quando Jesuino, fatigadode testemunhar scenas tão afflictivas, se recolheu aos salõesda Casa de Pedra.