Capítulo XXIV
A força do governo havia mais de dous mezes faziaexcursõespelos arredoresdo Patú, com o fim de prender os Brilhantes. Jesuino, refugiado com os companheiros na serrado Cajueiro, preparava-se para repellira escolta, caso ella atacasse o seu esconderijo. Eram em numero de oito; os seis que estiveram em Tuyuyú e mais Cobra -Verde e Pa jehú. A gruta em que estavam acoitados, era espaçosa e os accommodava bem. Tinham vive res, dinheiro, munições e cavalgaduras em quantidade sufficientepara as suas necessidades. O Brilhantena chefia do grupo portava-se como um veterano capitão. O que mais admi rava, era a disciplina que ellehavia conseguido impôr á sua gente. Todos o temiam porque o julgavam mais que corajoso, invulneravel.
Todas as tardes sahiam a cavallo para o exerciciode fogo. Iam a uma legua da gruta, á uma extensa chapada e ahi se exercitavam no tiro. Atiravam ao alvo, simulavam luctas, sempre montados. Os cavallos já amestrados faziam proezas de agilidade. O estampido das armas não os espantava mais. A um assobio estridentedo cavalleiro, o animal corriadesembestado, e parava em cima dos pés quando um outro signal o avisava para isso. Todos já montavam admiravelmente bem. Tomavam todas as posições a cavallo, chegando mesmo a correrem abraçados á barriga da cavalgadura. Jesuino dirigiao exercicio com a maior superioridade. Não via aliparentes e sim inferiores.
Pajehú e Cobra -Verde já estavam quasi mestres nas manobras. Tinham grande respeito ao chefe, respeito que se tornou em grande temor depois que viram Jesuino fazer no peito um alvo e mandar atirará bala peloscompanheiros, cada um por sua vez. O primeiro que atirou foio liberto; a bala passou zunindo pelo logar em que estivera o tronco do Brilhante um se gundo antes. Seguiram-se os outros, e sempre o mesmo resultado. Quando chegou a occasião dos recrutas, sabe Deus com que constrangimento dispararam as armas. Estavam convencidos de que aquelle homem tinha o diabo nas tripas e que jamais poderiam se desvencilhar d'elle. Uma tarde demoraram -se mais no exercicio amestrando os cavallos, e a noite fechou-se de todo quando estavam ainda muito distantes do rancho. Marchavam dous a dous. Jesuino, com José, fechava a columna. Ao atravessarem um regato, o cavallo do Brilhante murchou as orelhas e bufou. Jesuino mandou fazer alto. Havia gente, nem que fosse a uma legua de distancia;
o Exhalação tinha sentido e denunciado. O ani mal fazia prodigios de instincto. Parecia entender o dono e seguir á risca a vontade d'elle. O Exhalação estava inquieto; tinha a cabeça voltada para o sul e continuava a soprar. O Brilhante, sciente de que na matta havia gente, disse aos companheiros: -Não estamos sós. O cavallo cada vez sente alguem mais perto. O rancho talvezestejacercado, e é o mais certo. Todos deitados nas sellas. Os cavallos a passo e pisadas de gato. Qualquer vulto suspeito, falleo bacamarte! E seguiram sem fazer a menor bulha. Os animaes, adestrados áquella manobra, por certa posiçãodo freio, pisavam sem ruido. O Exhalação, quanto mais se approximava do rancho, mais soprava.
A cem metros da gruta, Jesuino mandou fazeralto e apearam -se. Seguras as cavalgaduras foi com José fazer um reconhecimento. Com a maior precaução approximou -se do rancho. A escuridão quasi nada deixava ver. O Brilhante via e ouvia como ninguem; quando estava no escuro sentia que as ouças maisfinasse lhetornavam. Não viu nada, mas ouviu rumores á entrada da gruta, resfolegar de gente e coxixos. Era a força, não havia duvida, que tinha cercado o rancho, Jesuino voltou com José para oscompanheiros e ordenou que cada um tomasse a posição mais conveniente sobre as rochas da gruta e sobre as arvores até que a luz do dia permittisseenxergar os sitiantes; que elleromperiao fogo quando achasse conveniente. Dadas as ordens, cada um occupou o seu posto. Uns subiram e se esconderam nas rachaduras da pedra, outros treparam até o cimo das arvores.
Assim entrincheirados, muito difficilseria atirar sobre elles. O Brilhante metteuse dentro de uma lóca que havia na parte mais elevada da rocha, excellenteponto estrategicodominando uma grande areae difficilde ser escalado. Logo que começou a clarear, Jesuino ergueu -se um pouco na cova e espiou por entre umas touceirasde coroatás que guardavam a lóca. Não se havia illudido, era a força do governo, commandada por um capitão e guiada por alguns Calangros, que lhe cercava o rancho. Todo o odio antigo á familia dos mestiços reviveu -lhe no coração. O sentimento de vingança apoderou -se d'elle elevando o bacamarte ao rosto, fez fogo no official, que mui tranquillamentefumava, recostado sobre o tronco de uma arvore. A arma explodiu e a bala enterrou -se de peito a dentro do capitão, matando -o instantaneamente.
Os soldados surprezos olhavam attonitos procurando o logar d'onde havia partido o tiro. Outro estampido se ouviu, e uma praça fórade combate. A força, commandada pelo sargento, com grande actividade, fazia rigorosa vistorianas immediações da gruta, mas de quando em vez perdia um soldado. Atordoados, não atinavam com os logares de onde sahiam os projectis. O commandante, desenganado de prender os criminosos e com a perda de um officiale oito praças, resolveu mandar tocar retirada e conduzir os mortos. Logo que a força retirou-se e se poz longe, o Brilhantesahiu do esconderijopara a gruta de onde fez soar um longo assobio. Pouco tempo depois estavam todos reunidos.
Jesuino tinha resolvidoabandonar aquelle rancho e se fortificar na Casa de Pedra. Ordenou que tudo fosseposto em via de transporte, pois partiriam dentro de uma hora. Suas resoluçõeseram tomadas de prompto. Quando tinha uma idéa, diziaelle, e o coração batia fóra do compasso natural, devia executal-a, custasse o que custasse. Assim, em menos de uma hora, deixaram a gruta e foram com armas e bagagem para a Casa de Pedra. A travessiafoipenosa, iam perdendo dous dos melhores cavallos. Atravessando despenhadeiros, rompendo matta cerrada, chegaram á Titélado Perigomuito depois de meio dia. O Brilhante mostrou -lhes a futura habitaçãoe a ponte que tinham de atravessar.
Todos recuaram medrosos, excepto o liberto. Jesuino, para os encorajar, passou a Titélapara láe para cá, nada, porem, conseguiu dos companheiros. Mandou a José que passasse a ponte e o liberto, com o maior sangue frioe sem maromba, andou na cristado abysmo, sem que o coração batesse mais apressado. O exemplo nada influiu no animo dos outros. Jesuino convidou -os a tentarem a passagem da ponte, mas se negaram, a uma voz, dizendo que se precipitariam logo no segundo passo. Cobra -Verde estava aterrado e cada vez mais convencido de que o Brilhante tinha o diabo no couro Jesuino contrariou-se muito com a impossibilidadede ter reunida sua gente na Casa de Pedra. Ainda lembrou -se de forçalos a passar a Titéla, mas temeu que se precipitassem no abysmo. Desenganado de tel-os comsigo, ordenou a Silvestre que procurasse com João Soares um logarseguro nas immediações da Casa de Pedra e se entrincheirassem, que elleficariacom José arranchado ali. Foram cuidar da futura accommodação e o Brilhante com o liberto transportaram a bagagem para a gruta. Cobra -Verde cria o chefe endemoninhado por vel-o passara ponte escoteiro, quanto mais se o visse agora de carga ás costas, pisando em cheio sobre a Titélado Perigo!
Transpor a crista do precipicio não era agora o mais difficile sim levantar a carga na ponta dos dedos, erguido no bico dos sapatos, para deposital-a na salienciada rocha. Com grande riscode vida e a custade muita fadiga conseguiu Jesuinopor dentro da gruta sua ba gagem e munições, depois do que foitercom os companheiros, afim de examinar o ponto escolhi do para acampamento.