Capítulo IX
Jesuino Soares, cognominado o Brilhante, já era criminoso quando assistiuao sermão do vigario da primeira villa que se insurgiu contra o systema metricodecimal. Casara -se muito novo e era creador como todos os seus ascendentes. A sua cultura intellectuallimitara-se ás primeiras letras, embora sua intelligenciapermittisse melhor cultivo. Até ser homem não se fez notavel por nenhum acto extraordinario, bom ou máo. Nem mesmo a adolescencia trouxe -lhe paixões violentas. Quando menino chamavam -no - o empalemado, e diziam os companheiros que um rapaz que vivia batendo o papo nunca teria coragem de correr atraz de um boi na catinga. O desanimo do espiritoe o desenvolvimento tardio do corpo, alimentados por uma teimosa hypohemia intertropical, acabaram -se com a puberdade, e o menino, de franzino e amarello que era, tornou -se um rapaz sadio e forte.
Afeiçoado á vida do campo, a exemplo do seu progenitor, o Brilhantefez-se o vaqueiro de seu gado e mezes depois, ninguem melhor do que elle derribava uma rez ou montava um poldro bravo. A musculatura, que pouco se desenvolvera na primeira edade, adquirira depois tal vigor, que surprehendia aos que não davam coisa alguma pelo valor do empalemado. A sua agilidade tornou -se afamada. Pulava como um gato para traz e para deante, e por fanfarrice montava a cavallo sem pôr o pé no estribo. A tristezaque lhe amortecia a expressão do rosto, a tibiezaem todas as suas acções, desappareceram quando o sangue da adolescencialhe correu nas veias. Já não era o mesmo homem.
Aquella apathia que lhe abatia o animo e enfermava o corpo, fazendo que sentisseum tedio profundo pela vida e grande aversão a tude que fosse movimento, o havia deixado, e o seu espirito se tornou alegre, o seu genio expansivo e folgasão. Evitava d'antes as mulheres e agora procurava conviver com ellas. O clima, a luz tonica do sol e os perfumes aphrodisiacos das flores silvestresdespertavam -lhe os desejoslascivos. A vida n'aquelle meio passava -se na contemplação quasi intermina de scenas sensuaes. A virgindade moral dos espectadores era a todo momento profanada pelo acto da procreação, ao qual os animaes sem rebuço se entregavam, desde a delicada borboleta até o touro vi goroso.
Aquellas scenas, que Jesuino testemunhara com a indifferençade sua pouca edade, agora deveras o impressionavam. Ardia em desejos voluptuosos e sentiaa bêsta devorada de sensualidade atirar botes ao pudor do homem todas as vezes que seus olhos viam a copula dos brutos. As faces se lhe incendiavam de pejo, o coração batia precipite, e desejoso de igual deleite promettia á sua animalidade gosar em breve de todas aquellas sensações. Não lhe sahia da mente o acto da procreação. Todos os dias ia campear, mais com o fim de ver quadros eroticos do que de revistar o gado. Quantas vezes parava para admirar o idylliodas rôlas, que se beijavam, arrulhando canções voluptuosas! Uma inveja infrene d'aquelle amor gosado em plena natureza o devorava todo!
O seu organismo era excitadopor tudo, até pela equitação, mas a equitação durante dias inteiros, em dura sella. Uma noite, depois de ter passado horas deleitando -se em ver os amores dos bodes no chiqueiro, o rapaz foi-se agasalhar com o espirito saturado de concupiscencia. Adormeceu, e a imaginação ainda impregnada dos aphrodisiacos da vigilia creou um sonho erotico. Jesuino sentiu pela primeira vez na vida o contacto morno de um corpo macio de mulher, que cingiu intimamente. Pouco a pouco aquelle goso carnal, como um philtromysterioso, foi-lhe invadindo o ser, e em doce enleioficariamergulhado, se a luz da manhã, o trinar das aves e os rumores da lida, que recomeçava, não viessem arrancal-o de sua amada illusão. Despertou saboreando ainda o deleite, que por minutos suppoz real. Agora, menos do que nunca, supportaria a continencia.
Os assomos de sensualidadeque o devora vam, viam -se-lhe nas grandes olheiras negras e na expressão abstracta do semblante. O espirito dominado pela besta se recolhia e se deleitava, cavando todas as recordações da ultima noite, beijando as sombras, que desfilavam de mente a fóra, e as phantasiasde todo aquelle sonho. Agora a sua idéa fixa era ver realisado o drama do qual elle havia sido um dos protogonistas. O meio em que vivia, longe de desviar o seu pensamento, pelo contrario mais o vigorava. Tudo que o cercava, em muda linguagem, fallava-lhe dos deleites gosados em sonho. Precisava de uma mulher, queria sentiraccordado a impressão gostosa que lhe causara a mornidão de sua pelle macia, sorver o halito quente de creatura de outro sexo, sentir o cheiro suave da carnação femenina todo sua, todo volupia.
Era difficila realisação desse desejo. As mulheres, que conhecia, eram virgensou tinham os seus homens. Aperreado pelos desenganos, espicaçado de sensualidade e embebido dia e noite em recordar as delicias de seu amoroso sonho, decidiu-se a casar. Tinha só desoito annos, mas com essa mesma edade tinham dado egual passo todos os seus ascendentes. Não faltariaparenta para o matrimonio. As moças eram tambem testemunhas dos amores dos brutos, e excitadaspor isso e pelo clima, precisavam de marido. Assim não foi difficil a Jesuino casar com uma prima. Celebrado o sacramento, foram viver os recem casados em uma propriedadesua, construidapelos paes de am bos. Nella havia o necessarioa vida sertaneja;
como prova de abastança alguns escravos na cosinha e quatro duzias de vaccas paridas no curral. Era um optimo começo. As occupações mais serias dos noivos nas primeiras semanas do casamento foram as deliciasdo amor, que arrefeceram com os primeiros signaes da concepção. Em breve os antojos da consorte, trazendo -a numa constante irritabilidade, foram pretexto sufficiente para fazer Jesuino campear mais tempo do que era preciso. Nasceu a primeira filha e a vida do casal continuava na mesma monotona placidez. A mulher representava o seu papel; um papel bem secundario, que se resumia em conceber, parir e aleitaros filhos. O marido cuidava dos meios de fazer prosperar a fazenda e a lavoura. Viviam assim, tranquillos, porque não tinham odios nem aspirações, quando um desequilibriosérionas qua lidades psychicas do Brilhante veio alterara placidez, que havia alguns annos reinava n'aquella habitação.
Tres louras meninas, tendo a mais nova dous annos apenas, eram o encanto de Jesuino. A sua familia, como todas as familias sertanejas, não deixava de ter suas rixas, intrigas motivadas em sua maioria pela politica. O Brilhante, entretanto, viviaalheioás luctas, porque o seu genio, como elle dizia, não dava para brigar. Assim era e continuaria a ser, se um estranho accidente não viesse accordar inclinações latentes. Jesuino viajava com o seu parente FranciscoBotelho, auctoridade policialdo Patú, em tempo de grande agitaçãopopular, devida ao recrutamento que então se fazia. Ao atravessarem uma picada, já ao morrer do dia, foidisparado sobre Botelho um tiro de bacamarte, cuja bala, despedaçando -lhe o craneo, matou -o immediatamente.
Jesuino pôde conhecer o assassino, mas não teve coragem de perseguilo. Immovel, quasi assombrado deante do cadaver ficariaalli, se a criseque o estatelouem começo não tivessedepois trazidoa mais violentareacção. O sangue da victima havia -lhe borrifado o rosto, e a physionomia do Brilhantefoipouco a pouco perdendo a expressão de assombramento, para se carregar de uma ferocidade que mettia medo. Aquelle semblante placido de outr'ora era crispado agora pelas fundas linhas do odio. Uma mudança radical havia se operado naquella creatura. Portador da nevrose do homicidio, herdada de um de seus ascendentes maternos, mas até então em estado latente, Jesuino teriatalvez logrado viver sem matar, se não tivesse sido testemunha do assassinato de seu parente.
A nevrose explodiu com violencia. Ao periodode atordoamento, no qual pareciapor completo suspensa no Brilhante a intellecção, á essa crise de adormecimento de suas qualidades psychicas, succedeu um accessode loucura, cujo furor via-se-lhe estampado no semblante. Com o olhar scintillantee desvairado, um olharque feria, com os musculos do rosto em uma dansa constante, Jesuino se achegou ao morto e molhando o dedo indicador no sangue, muito vivo e muito rubro, que ensopava o cadaver, fez uma cruz na coronha do seu bacamarte. A luz crepuscular havia de todo esmorecido e o Brilhante desorientado, no mais completo desequilibrio, ia ficando de pé no meio da estrada até resolver-se a crise que o accommettera.
Assim o encontraram, já tarde da noite, os parentes do morto que, desconfiadosda demora procuravam a auctoridade policialdo Patú.