Capítulo XXXV
Os Brilhantes, divididos em dous grupos, ao mando de João Soares e Silvestre, continuavam a sahir todos os dias para distribuircom os famintos os viveres que tomavam aos freteiros. Tres vezes tinham descido á planicie e subido depois com grandes partidasde generos, Silvestreia-se celebrisandopelasua perversidade, e se não fosse a influenciaque Jesuino tinha no animo d'elle, teria assassinado todos os famintos para livrar-se das penosas excursões pela serra e pelo valle. O Brilhante recommendava todos os dias que tratassem com toda humanidade os retirantes, ameaçando de punir se veramente aquelle que por qualquer motivo quebrasse tão terminante ordem. Silvestre obedecia mais por temor do castigodo que pela compaixão que lhe inspiravam aquelles des graçados. Uma manhã, andava elle de muito má vontade fazendo a distribuição aos famintos.
A fome ali já não era tão intensa. A perversão dos sentimentos diminuia: avaliava -se pela vergonha com que as mulheres agora occultavam -se dos bemfeitores, temendo que lhes vissem os seios nús e parte das formas que a decenciatrazescondidas. Aquella infelizgente, pensava Silvestre, parecia em vias de restabelecimento, e assim em breve estaria terminada tão enfadonha tarefa. Entretanto, em breve, o criminoso se desilludiria. A serra do Cajueiro se comparava bem a uma ulceramal cicatrisada, coberta de crostasà, tendo sob ella pontos podres onde fazia pasto a gangrena. Silvestre não se apercebia d'isso. Caminhava pensando na terminação do flagello, alegre talvez de voltar á casa, quando na proximidade de um desfiladeiro, logar ermo e muito exquisito, começou a lhe impressionar mal um cheiro de chaga, de couro ardido. Parou e resfolegoubrandamente, procurando sorver todas as particulas do fedor suspenso n'aquelle ambiente.
Cheirou por algum tempo o ar e o mais que pôde saber, foi o logar de onde vinha a fedentina. Curioso de ver o corpo que exhalava tão nauseabundo cheiro, atravessou o desfiladeiro e deu na bocca de uma furna. O fedor mais sensivelse tornava, a ponto de nausear o criminoso. Quasi a vomitar, penetrou na gruta. Poucos passos havia dado quando os seus olhos descobriram a figura hedionda de um homem que a fome reduzira a hyena. O monstro, que estava accordado, levantou-se. Havia na caverna bastante luz para que Silvestre visse 0 corpo bronzeado do caboclo inteiramente nú. A pelle de engilhada parecia escamenta. As juntas dos membros pareciam nós nas extremidades de finos cylindros. Do pescoço até as nadegas estendia-se um rozarioformado pelas vertebrasdo espinhaço. Ao tronco, cujos ossos se contavam todos pelas salienciasdas superficies, articulavam-se magrissimos braços e pernas; por cumulo de fealdade e com.
plemento da horripilante figura, uma cabeça de rosto escaveirado, coberta de cabellos grossos e hirtos, coroava a mumia, balançando -se arti culada em finissimopescoço. Animavam o rostod'aquellacreaturabestificadaas scintillaçõeshydrophobas dos seus pequenos olhos, encovados em fundas orbitas. A ferocidadedo olharcontrastavacom o riso, que a fome havia tornado perenne, atrophiando os labios e deixando os dentes descobertos. Aquella expressão desdenhosa, motejo mudo de um es queleto, impressionava peior do que todos os traços que a fome havia impresso no corpo do desgraçado. Silvestrefitou o faminto e um arrepiamento de nojo franziu-lhe toda a pelle. O retirante, depois de bem firmado nas pernas, investiu para o criminoso. Este, temendo mais o contacto do corpo delledo que a aggressão, procurou sahir da furna. Silvestrenunca suppoz que aquella armação sem forças e mal equilibradapodesse acompanhal -o e seguiu a passo. Mas o faminto como um ataxico, governando mal, cahindo aqui e acolá, encontrou-o antes de acabar de vencer o desfiladeiroe o aggrediu, rosnando como cão de fila. Atirou -se sobre Silvestrepara agarral -o.
A arena para uma lucta era estreita e perigosissima. Embora as forças do criminoso fossem superioresás do faminto, não era possivelpôl-as aliem acção, bastaria um encontrão para perderem ambos o equilibrioe rolarem no desfiladeiro. Silvestre viu-se perdido e gritou ao retirante que não o tocasse. Mas a besta estava esfaimada e fóra de si. Executando na crista do penhasco equilibriosimpossiveis, poz-se cara a cara com o criminoso, mas este aproveitando um tombo do faminto, empurrou o esqueletocom a coronha do bacamarte. A armação descreveu uma curva e o corpo cahiu no despenhadeiro. Nos primeirosmomentos a queda foivagarosa, os ossos quebravam -se nas anfractuosidades da rocha, as articulações se desconjunetavam, e o corpo, cuja queda lentaao principio, adqueria mais velocidade, rolava mais depressa quanto mais corria o tempo e mais proximo estava o fundo do pego.
O criminoso acompanhou com a vista, até o fim, a queda do esqueleto. As cristas dos rochedos, as salienciasdos desfiladeiros, tinham reduzido o faminto a um embrulho sem forma no qual ninguem reconheceriaa identidadehumana. Nem sangue havia para tingira massa e attestar que a vida existira ali! Apenas uma salmoura, um soro escuro molhara as superficies sobre as quaes o corpo havia rolado! Silvestre sorriavendo as cabeçadas, as cambalhotas que dava o esqueleto, de pedra em pedra. Quando cessou aquelle divertimento lembrou -se da fedentina, que o tinha attrahido á furna, e voltou á caverna. Entrou e achou -a deserta. O cheiro que o nauzeava era intenso. A gruta tinha um só compartimento, mas era francamente illuminada pela luz do sol que entrava por algumas fendas do tecto.
Silvestre olhou o recinto; pareceu -lhe estar em um cemiterio. Ossos de todos os tamanhos, cabeças humanas juncavam o chão da furna. A um canto, sobre uma trempe de pedras, fervia uma panella de barro cheia pela bocca de ossos e tendões. D'aquellapanelladaé que sahia o cheirode ulcera, de couro ardido. Grande foio espanto do criminosoquando, olhando com attenção para o conteúdo da panella, viu que as peças que coziam, eram orelhas humanas, a se mecherem no borborinho da fervura e no meio d'ellas alguns peitos murchos de mulher: era a refeição do faminto.