Capítulo XXI Os Brilhantes · Capítulo 21 de 48
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Capítulo XXI

O armisticio entre Calangros e Brilhantes foi de pouca duração. Na familia dos mestiços não havia um que se atrevesse a perseguir Jesuino, tal era o terror que este havia incutido no animo de todos elles. Os ultimos assassinatos, com razão attribuidos ao Brilhante, o celebrisaram tanto entre os habitantesd'aquellasparagens, que difficilseria á policiaformar um piquete de paizanos para prendel -o. Todos, mais ou menos, estavam convencidos de que o poder e agilidadede Jesuino vinham de um pacto com o diabo. E, quem se arriscaria a perseguil-o? As lendas mais extravagantes já circulavam e os factos mais maravilhosos contavam -se como verdadeiros.

Que tinha corpo fechado e se encantava todas as vezes que queria, ninguem punha em duvida. O fazendeiro protector dos Calangros, cujo odio á familia Soares por questões politicas, vinha de longa data, havia cançado de instigar os protegidospara uma vindicta, mas sem resultado. Inimigo rancoroso e encarniçado, vendo infructiferassuas fomentações, mudou de orientação, pondo em jogo perante o governo da provinciatodo seu prestigiode chefe politico. Instaurados os processos contra Jesuino, João Soares e Silvestre, como auctores de sete mortes, a auctoridadepolicial, insufladapelo fazendeiro, levou ao conhecimento do governo o estado de anarchia em que se achava aquellemunicipio, devido ás correrias de um grupo de facinoras capitaneadopelo Brilhante.

A representação surtiu o desejado effeito. N'ellahaviam sido relatadas com exageração e parcialidadeas mais horriveis atrocidades, desde o barbaro assassinato do inerme Honorato até o trucidamentodo pacato Pedro Jurema, As providencias não se fizeram esperar. Jesuino nem sonhava no trama que ás escuras urdiam os seus inimigos. Havia dissolvido o grupo e cuidava de seus gados e lavoura. A mania do crime voltaraao estadolatente, fazia seis mezes. O governo, mais para satisfazerao pedido dosamigos do que por amor á tranquillidade publica, fez seguir uma forçade linhacommandada por um superior. O clarim marcial estrugiupelas florestasespantando a caça bravia e apavorando o sertanejo, como o prenuncio de horridadesgraça. As casasonde chegou o som bellicoso, fecharam-se e os seus habitantescomo se ouvissem a trombeta annunciadora do fim do mundo, ficaram n'um desalento mortal. Pelos alcantise devezas desappareciam, em carreira vertiginosa, como veados capoeiros, os rapazes d'aquellascercanias, temendo a escoltae o recrutamento.

A ' medida que o som da cornêta enfraquecia, os sertanejos iam -se animando. Afastava -se o perigo e assim cessava o temor que infundia n'ellesa força publica. O piquete seguiu atéo ponto do destino, pondo em sobresaltoos pacificosmoradores dos logares por onde passava. Viam no soldado, não uma garantia da ordem, mas o germen da desordem, o instrumento cego da perversidade e dos odios dos mandões a cujo serviçoellevinha. A força entrou na villa pela manhã marchando em dous pelotões, ao som do clarim. A população meio receiosachegou ás portas, e os adversarios politicosdas auctoridadeslocaes, com grande pesar seu, viram um piquete de linha, de cincoentapraças, cujos reflescalados nas boccas das armas scintillavam ao sol. A maioriaignorava o fim d'aquellavisitade Marte.

A força aquartelou no copiar da cadeia e o official, conforme as instrucções do governo, apresentou-se ao delegado de policia. O matuto recebeu o militar no seu traje domingueiro. Em poucas palavras entenderam -se. Dos dous era difficilsaber qual o mais rombo. O delegado nào tinha más entranhas e as per seguiçõesque movia, eram devidas ás exigencias do meio, ao qual se havia fatalmenteadaptado. Já outro tanto não se podia dizer do commandante da escolta- era máo, por indole. O protector dos Calangros, logo que soube da chegada da tropa, veiu immediatamente visitar o officiale offerecer-lhe hospedagem. Convinha -lhe muito ter em sua casa o agente do governo, não só pelo partido que tirariacontra os Soares, como pelo prestigioque lhe daria ter debaixo das suas telhas um capitão do exercito que tinha cincoentasoldados á sua disposição. Tinha razãoo sertanejo. O hospede fez quadruplicar a influenciado chefe de partido e, mais por temordo que por sympathia, os que andavam arredios, vieram se chegando, os proprios adversarios já o cortejavam na rua, sabe Deus com que odio dentro d'alma.

A feira foidesanimada e a missa pouco concorrida no domingo que succedeu á chegada da tropa. Grande desconfiança esfriava toda aquella gente. O vigario, do pulpito, procurou levantar o animo do povo, aproveitando o ensejo para tecer os maiores elogios ao sertanejo inimigo dosSoares, em quem diziareconhecer uma garantiasolida da paz e tranquillidadeda freguezia. O matuto ouviu gostoso as palavras encomiasticas: com a prole do cura não se mexeria. O commandante da escolta estava inteirado de tudo o que tinha feitoJesuino com uma exageração proporcional ao odio do informante. Accusavam -no até de ladrão de gados. Todo animalque desapparecia, era furtadopelosBrilhantes e todos os malfeitos dos arredores a elles eram attribuidos.

Os Calangros, quando se viram de costas quentes, mostraram o odio que tinham aos Soares. Podiam ser uns vinte; todos se apresen taram ao commandante da escolta e se offereceram para guiar o piquetenas diligencias. Co nhecedoresdo terreno, muito fariamcontraos inimigosuma vez que levassem a forçaao logar em que estivessem estes. Por mais secretasque fossemas conferenciase por maior segredo que procurassem guardar sobre a causa que trouxera ali o piquete de linha, não impediram a noticia de se divulgar e saberem -na João Soares e Silvestre, mas já á ultimahora. Ambos fugiram e, na precipitaçãoda fuga, esqueceram -se de mandar avisarJesuino. Quando d'issose lembraram, era impossivel pela distancia em que estavam d'elle e pela hora avançada da noite. Se ignorasse, o que era quasi certo, cahiria antes de amanhecer o dia em poder da escolta e ellesestariam para sempre perdidos.

Os fugitivos não foram illudidos. A meia noite mais ou menos a força, dividida em piquetes, cercava á mesma hora as casas de Jesuino, João Soares e Silvestre. Guiados pelos Calangros, mesmo assim foi difficilacertar com as habitações, tão bem occultas estavam por uma noite escurissima. Os mestiços, mesmo em companhia dos soldados, temiam o Brilhantee tanto era assim que dous somente, e um pouco coagidos, foram servir de guia a força que devia pôr cerco á casa de Jesuino. O Brilhante ignorava tudo, dormia tranquillo na sua alcova e o liberto fechado na cosinha e tambem adormecido, nem sonhavam na difficilsituação que se approximava. Por maior precaução que tomassem os soldados, Je suino os presentiu. A vida de vaqueiro e as luctas em que se tinha envolvido desenvolveram -lhe extraordinariamente os sentidos da vista e do ouvido.

A noite em completa calmaria deixava perceber o mais fraco ruido, e o espaço cheio da mais densa treva tudo occultava da vista dos soldados. O Brilhante sentiu gente ao redor de casa e levantou-se. Sahiu de ponta de pé, ta cteando na escuridão até chegar á sala de visitae escutou. Apenas ouviu a respiração de alguem que resfolegava por aliperto. Voltou pelo corredor e foi ter á cosinha. José dormia como um porco. Pôz -lhe a mão de leve. Estremeceu. Chamou -o ao ouvido muito baixinho. Accordou e sentou -se. Jesuino tomou o libertopela mão e voltou ás apalpadellas ao interiorda casa. Ahi segredou -lhe: -Estamos cercados. Procura tuas armas, mas de modo que não se ouça o menor barulho;

anda com pés de gato. Debaixo do cangaço espera por mim aqui, que vou tomar alturas. E o Brilhante apartando -se do liberto, encaminhou -se para a sala de jantar. A outro ouvido que não fosse o seu, passariam sem ser percebidos alguns sons que vinham de fóra. Para ouvir melhor, Jesuino collocou o ouvido sobre uma estreita fenda da porta. As palavras de uma conversação em voz mui baixa chegaram -lhe aos tympanos. Muito lheinteressava o que diziam e, todo attenção, não perdeu da palestra uma syllaba sequer. A conversação era esta: -Máos raios te partam, Brilhante de todos os diabos. -Já o gallo quer amiudar e o capitão não chega para acabar logo com tal porqueira.

E que frio, passa a farda e vai cortar a gente no tutano dos ossos! -E nem uma bodega onde a gente fosse de uma fugida matar o bixo. -Quasi seis leguas de marche -marche ás topadas, no escuro de metter páo pelo olho e no fim não molhar a guela. --Só se a gente fosse cururú para não sentir a curviana. -Mas eu hei de me vingar fazendo do cou ro do Brilhante bainha de meu réfle. -Estão custando! - Podera não, iam cercar duas casas. -Quando vierem, então será aqui a tribusana. -Ora voute com essa agora. Jesuino ouviu tudo e de tudo inteirado, reflectiuum instante sobre o caso e achando gravissima a situação, resolveuevadir-se. Não havia duvida que tinha a casa cercada por uma escolta, que seria reforçada, não tardaria muito, e que, para augmentar as probabilidadesde bom exito, a fuga devia se effectuarjá e já. Voltou á sua alcôva e encontrando no corredor o liberto prompto e bem armado, lhe communicou o perigo de que estavam ameaçados. Chegando ao quarto, foiao canto em que guardava as ar mas e muniu -se d'ellas. Sahiu, fechando-o depois sem bulha pelo lado de fóra e deitando a chave por baixo da porta. Encaminhou -se para a sala de visitasacompanhado de José. Era muito provavel que a força se empenhasse em guar dar com mais vigilanciaos fundos da casa do que a frente. A escolta não cuidava em fuga, não fizera bulha alguma e se o criminoso es tava dentro, deveria continuara estar, poisnão houve causa para accordal -o. No caso de ter adivinhado o cerco, era natural que procurasse fugir, mas pela porta de detraz e não pela da frente. Assim quasi toda a escolta guardava a trazeira da casa e dous soldados apenas es tavam de sentinella á porta de entrada. O Brilhante foi ter á porta da rua e notou que alguem resonava muito perto de si e visinho ao chão.

Abaixou -se e, com o ouvido encostado a porta, desceu escutando sempre até que parou na altura de um homem sentado. A escuta deu -lhe a certeza de que dormia ali mais de uma cre atura. Um fungava mais fino e outro mais grosso. A alternativade sopros nasaes orientouo. Era bem possivelque as sentinellasfossem sómente duas, que mortas de cançaço se sentassem no batente da porta e que o somno as pegasse quando menos quizessem e esperassem. O liberto nada ouvia, atordoado pela escuridão. Jesuino disse-lhe ao ouvido o que pensava do cerco e o propositoem que estava de se evadir pela portada frente, ordenando-lhe que o seguisse. Dada a ordem, o Brilhante puxou o ferrolho da porta, que se escancarou, batendo em cheio na parede. Pela abertura não entrou a minima claridade. A mesma treva inteiriça!

Apenas sentiram o ar se deslocar em uma lufadafriae ouviram o baque de dous corpos, que cahiam resupinos dentro da sala. Jesuino e José sahiram de porta a fóra n'uma carreira douda; não sabiam aonde punham os pés tal era a escuridão da noite. Correram até esbarrar com a matta, moderaram a marcha e entraram a passo. Estavam livres dos soldados. As sentinellasdespertadas immediatamente pelochoque do trambolhão e sentindono corpo ainda a impressão dolorosa dos pés dos fugitivos, gritaram alertae n'issoficoua providencia. Aturdidas, de nada sabiam a não ser a queda. Em breve se reuniu quasi toda a força na frenteda casa e quatro soldados, tendo as baionêtascaladas na bocca das armas, furavam o espaço aberto pela porta, impedindo assim a sa hida de alguem.

Assim se conservaram até a chegada do capitão, já dia claro. As casas de Silvestree João Soares foram corridas, mas ellesandavam longe. Restava ao officiala esperança de apanhar o Brilhante, porem grande foia sua decepção quando viu a porta aberta e os soldados lhe contaram a fuga. Assim mesmo correu a casa, insultando com palavras a mulher de Jesuino, que medrosa tremia de susto, magoada pelas chufas que lhe dirigiam os soldados. XXC

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