Capítulo XLVI Os Brilhantes · Capítulo 46 de 48
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Capítulo XLVI

A debandada dos Brilhantesfoi completa. Nenhum d'ellesse encontrou com outro na fuga. Ignoravam as prisões de Silvestree CobraVerde. Se não fosseo desastrede que foivictima, Jesuino teriasido o primeiro a chegar ao Cajueiro; mas, a pé e todo contuso, não podia saber quando lá chegaria. João Soares foi mais feliz, protegeu-o o acaso e levou -o o Peixe Branco, são e salvo, dentro de poucas horas, á Casa de Pedra. A serra estava deserta. Nem um só vivente habitava aquellas paragens. Os retirantes haviam comido até as aranhas e voltadoás suas habitações, logo que começou o inverno. A vegetação era luxuriante, admiravel o viço das plantas. Até os rochedos se cobriam de verdura.

A terra tinha descançado muitos mezes e os vegetaes, tendo apenas uma vida latente, não precisavam de seiva e todo o humus era agora por ellesabsorvido; d'ahi o seu grande vigor e desenvolvimento. João Soares pensava encontrar o irmão na caverna. Na subida da serra, entretanto, não vira o rasto do Exhalação, o menor vestigioda pas sagem de Jesuino. Podia ser que elletivesse subido por outro caminho. Assim não fora, em breve se convenceu, quando, chegando em frente á Títélado Perigo, por elle chamou gritando muitas vezes. O echo monotono da gruta repetiu todas as syllabas pausadamente, calou-se e o Brilhantenão appareceu. João Soares viu-se só, quasi esmorecido.

Era o chefe quem dava valor a todos. Recolheu -se ao rancho. Muitas horas depois, ouviu um tropel. Oc cultou-se n'um barranco. O ruido parecia de andadura de cavallo, em direcção ao rancho. Não se enganava. Muito tempo não se passou para chegar um cavalleiro, que se apeou: era Pajehú. O cabra vinha fulo de fome. O animal completamente esbofado, logo que lhe tiraram os arreios, sahiutrambecandoe morreu pouco adiante sem tocar na pastagem. João Soares, logo que reconheceu o companheiro, sahiu do esconderijo mais encorajado. Saudaram -se. O mestico perguntou -lhe: -Onde está o amo? -Ainda não veiu. Que noticias me dá dos outros? dias.

-Só sei de mim e de um jejum de tres -Ha muito que comer, mas ruim, muito ruim. Na despensa ha farinha pôdre e carne ardida. -Eu não sou nenhum tapurú. -Nem lhe digo que coma. Eu tambem não sou filho de varejeira e comi até encher a barriga. -Não foi este o trato: boa comida e bom salario. --Isso é lá com o chefe. ---Ou com quem suas vezes faça. -Não deixou substituto, devemos esperal-o a qualquer hora. -Virá ou não. . . - Estou o desconhecendo, Pajehú. Sabe de alguma cousa? diga. -Por Deus que não sei de nada; mas cousa grande ha. -Então diga, homem. -O seu João não vê logo que se o amo estivesse bom e são, era o primeiro que chegava aqui.

-Lá isso era. Então? -O que se faz? -Eu cá por mim se não estivessea pé, com a barriga pregada no espinhaço, podia ainda dar umas viravoltas a ver se achava o chefe dentro de alguma grota por ahi. E acolávem mais um e tambem nos cascos. -Parece o Cobra -Verde. -Eéoenxofrado mesmo. O mulato entrou no rancho, muito desconfiado e tão esbaforidoque não podia fallar. O papo lhe batia tanto como se fosse de sapo. -Como vem este diabo cançado! . . . disse Pajehú. -A la-dei-ra. . . não -é-de -gra. . . ça, respondeu offegando o Cobra -Verde. -E ' porque és um empalemado, disse Pajehú. Cobra -Verde não fitava os companheiros; tinha os olhos baixos e o olhar atravessado de porco. Isso não causava surpresa porque elle não fitava ninguem.

João Soares estava ancioso por noticias, e logo que o mestiço descançou, interrogou: - Que novas dá V. dos nossos companheiros? -Só sei de mime de seu cunhado Silvestre. Escapei pelo páo do canto, perdendo o cavallo, que ficou lá espichado de bala. -E Silvestre? ! ! -Cahiu perto de mim, penso que ferido, porque ouvi -o gemer muito. Ainda fiz tres avançadas para ir buscal -o e trazel-o ás costas, mas as balas zuniam de todos os lados e eu voltei. Ainda fiz fogo no inimigo quasi até de madrugada, derribando alguns. -Quantos? ! perguntou Pajehú. -Eu sei bem de quatro. E não davam comtigo? -E eu serei alguma besta? Atirava de uma moita e mudava -me para outra, e assim os enganei, e teria acabado a escolta se a noite désse tempo.

---Quem havia de dizer que o empanturrado do bando seria o mais homem da Pedra Furada! disse Pajehú com admiração. -Quanto mais se V. souber que mandei uma bala ao capitão, que passou-lhe raspando os ouvidos. -E Silvestre, teriamorrido, Cobra -Verde? perguntou João Soares. -Pelos roncos de seus gemidos, parecia o negocio ter sido grosso. -Pensas então que morreu? -Não sei, porque as balas não me deixavam chegar perto e mesmo a força deu logo com elle e cercou -o. -Então mataram -no! . . . disse Soares. -Se o tomaram pelo chefe, como sem duvida, ponderou Pajehú. -E o chefe, onde está? perguntou titubiando Cobra -Verde, que ficoumais amarello, mas sem despertar suspeitas.

-Até agora não chegou! . . . -Ali vem gente, disse o Pajehú. E todos se voltaram para o caminho. Eram os companheiros, que faltavam e que subiam tangendo os cavallos que, de esbofados, mal podiam comsigo. Chegaram todos, menos Silvestre e Jesuino. Reunidos em conselho, depois de quebrado o longo jejum, accordaram que ao amanhecer sahiriam todos em busca do chefe, João Soares desceriaá planicie, e os outros, por esta rem a pé, percorreriam toda a serra do Cajueiro. Assim foi. Soares não esperou por ninguem, pouco dormiu durante a noite e muito antes do sol sahir, descia a serra, montado no PeixeBranco. O dia veiu apanhal -o quasi ao sopé da montanha.

Soares parou um pouco na ultima ladeira e olhou a planiciejá completamente illuminada. Para onde ir? que direcção seguir? Um labyrintho de veredas se cruzavam em todos os rumos. Era preciso escolher um caminho e tomal -o. Alem, muito alem, se salientavaum ponto, que lhe attrahiu a attenção, talvez por se destacar do horisonte raso, que esbatia a linha da floresta: era a Serra Preta, cujasmattas, rochas e abysmos, a distancia empastava n'uma tela morticor pardacenta. Soares tomou a esmo aquelle ponto para o marco de seu itinerario, na falta, talvez, de outro, e partiu. Não tinhacaminhado muitas leguas, quando, ao passar um regato, ouviu o som estridentede um assobio. Parou immediatamente. Outro assobio silvou mais forte e mais agudo, com o mesmo timbre que o Brilhante dava para chamar João Soares á sua presença. Não havia duvida, pensou o cavalleiro, era Jesuino ou a alma d'elle, que assobiava por aliperto.

Apeou -se, prendeu o cavallo a um tronco e entrou pela matta. Pouco andou para encontrar o irmão. O Brilhante estava sentado perto de um cotovello que fazia a corrente, e vira, pelas clareiras das moitas de mufumbo, João Soares atravessando o riacho. Achando -se sem animo de seguil-o, deu o signal ajustado. Soares quasi desconheceu Jesuino, tão mu dadas tinha as feições. Saudaram -se. O Brilhante, alem da fealdade que lhe decompozera o rosto, quando se fingiradoente de cancro, tinha a côr terrea e o semblante aparvalhado. Da grande brecha da fronte sahia um cheiro de carniça e João Soares viu, com grande espanto, que dentro da ferida fervilhava uma colonia de bichos. A que estado achava -se reduzido o invencivel Jesuino Brilhante! . . . pensava o irmão, mirando -o com verdadeiramagua. Quanto mais o fitava, mais signaes encontrava da catastrophe de que elle fôra victima. A roupa es tava feita em trapos e pelos rasgões, via -se a pelle arranhada mais ou menos profundamente, azulada de contusões e as mãos quasi sem couro.

Bastante commovido, João Soares perguntou: ---Quem lhe fez tão grande estrago, meu irmão? -Ninguem. Cahi na Furna do Diabo e por mercê de Deus não morri. Soares tudo comprehendeu. Era preciso tratar de Jesuino, cuja vida corria serioperigo. Leval-o á serra do Cajueiron'aquellees tado, por caminhos desconhecidos, era tarefa bastante penosa. O Brilhante, de quando em vez, levava a mão á testae uma expressão de dor crispavaThe as linhasdo rosto. Eram os tapurús que, roendo as carnes, a fervilhar no podre repasto, produziam -lhe uma angustia mortal. João Soares, vendo o irmão comido em vida pelos vermes e temendo que fossem fataes as consequencias da feridaassim bichada, antesde tudo tratou de matar os tapurús. Em falta de mercurio, lembrou se do mercurio dos vaqueiros e ainda uma vez os conhecimentos praticos da botanica sertaneja vieram em seu auxilio.

Perto de sitioem que estavam, vivia uma colonia de vigorosos tinhorões. Soares, grande conhecedor das proprieda des de algumas d'essasArroideas, chegou-se a uma d'ellas e mirou -a de relance. Era um pequeno vegetal, exquisito, com haste herbacea de pouco mais de trintacentimetros de altura, coroada por uma fronde, uma especie de chapéo de tres bicos. Estava em flor. Não se podia idear uma inflorescencia tão bella. Nunca se viu cousa egual nas floras de outros climas. Era uma joia da terra tropical. Do seio de uma folha verde canna, delicada bractea, sahia a flor, uma pequena espiga de prata, tendo encrustados, a guisa de sementes, pequeninos rubis de uma côr ru bra de sangue. Velava esseprimor, guardando -o dos insectos e do vento, uma tunica de uma brancura argentina, cujo tecido era uma trama de estrellinhas, que se reuniam pelos angulos das arestas, formando um brocado tão fino, tão leve como jamais se viu sahir dos dedos de prendada rainha.

A ' forma pouco commum da planta juntavase um lavor escuro na epiderme verde-gaio, muito semelhante ás malhas formadas pelas escamas na pelle da cobra de cascavel. Olhando -se repentinamente para o tinhorão, se acreditaria ser o corpo d'uma d'aquellas serpentes e não a haste de uma planta. João Soares approximou -se do vegetal e escarnou a terra. A haste se prolongava de chão a dentro, n'um esporão branco, n'uma especie de batata, que o criminoso arrancou e separou pelo colleto. Um cheiroacre, viroso, se espalhou pelo ambiente logo que a planta foi feridae a raiz esmagada entre duas pedras. doente. João Soares levou a massa para perto do Jesuino viu todos os passos do irmão, com um olhar apatetado. Quasi não lhe restava um vislumbre de sua energia de outr'ora.

Soares espremeu a polpa entre os dedos e deixou cahir o succo dentro da ferida. A bicharia, que até então fervilhavamuito a vontade n'aquella podridão, logo que as primeiras gottasdo veneno se misturaram á salmoura, assanhou -se e os corpos cabelludos dos tapurús executaram toda a sorte de movimentos, de cambalhotas, procurando sahir d'aquelie meio. As cocegas, que faziam os vermes, produziam no Brilhanteum phrenezique o arripiava todo. Jesuino já tinha tesosos cabellos, quando, para maior tortura de seus nervos, o ferimento despejava-lhe no rosto gotta a gotta a fetida salmoura, misturada com os bichos, que se arrastavam moribundos. Dentro do talho, no fim de poucos minutos, não existia um verme, mas o toxico, que os tinha varrido, não se limitou a esse serviço, actuava como corrosive sobre os tecidos. Agora, já não eram sómente as cocegas importunas dos pellosdos tapurúsa ro çarem -lhe a pelledo rosto, porem a dôr lancinante da corrosão da carne, como se lhe tivessem posto dentro do talho um pedaço de ferro em brasa.

O Brilhante não gemia, porque não sabia gemer; mas torcia-se de dôr, rangendo os dentes. João Soares havia limpado o rosto do ir mão, e vendo -o cada vez mais desfigurado, per guntou lhe: -O que está sentindo de mais? -Uma agonia mortal no estomago, como quem vai morrer. Lava me a ferida, que não resisto á dôr. Soares condemnou a lavagem, mas Jesuino instoupor ella, e fela. Grande foio allivioque sentiuo criminosologo que as primeirasporções d'agua lhe cahiram sobre o ferimento. O excessivo calor que sentiano talho, foipouco a pouco moderando e uma frescura ineffavel succedeu áquelle intenso abrasamento. O estomago ainda se conservava nauseoso, porem, uma pequena refeição, que Soares fez o Brilhante tomar, curou -o.

Jesuino, logo que se viu livreda bichariae alimentado, cahiu em profundo somno. O irmão deixou -o dormir. Quasi ao pôr do sol, despertou elle, um pouco menos aparvalhado. Soares fez-lhe ver a conveniencia de aproveitarem a noite para fazerem a travessia até o Cajueiro; concordou. O Peixe Branco pastava perto e tinha a barriga a estourar de cheia. Uma vez arreado, montaram -se os irmãos, o Brilhante na sellae João Soares na garupa. O cavallo não se deu por achado com a sobre-carga, pisava seguro e subtil, de vereda a fóra. Acabara -se a luz do sole seguiam agora na densa escuridão da matta. Assim era preciso para evitar os inimigos. Um encontro com a tropa lhes seria fatal.

Andaram quasi a noite inteira, só pela madrugada chegaram á Titéla do Perigo; o Peixe Branco parou, rinchou e, vendo que não se apeavam, o cavallo seguiu para o rancho. Um fogo ainda valente allumiava a caverna. Apearam -se. Os companheiros dormiam e só accordaram depois que entraram os recem -vindos. Todos cercaram o chefe de cuidados e at tenções. O Brilhante estava moido de fadiga, e deitando -se em uma das redes, aliarmadas, ferrou no somno.

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