Capítulo XVIII Os Brilhantes · Capítulo 18 de 48
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Capítulo XVIII

Era uma bella vivenda o Тиуиуй. Um casarãode pedra e cal erguido no dorso de um outeiropedregoso, de tacaniça, com esplendidos horisontese magnificos panoramas de campo e bosque. A barlavento, uma extensa varzea alcatifadade capim e ornada de altascarnahubeiras, cujosleques das verdes frondes tremiam aosbafejosda aragem, n'um ciciarsaudoso. A sotavento, muito além, como encravada no céo, via-se uma cadeia de montanhas azues, com o perfilesbatidopela brancura dos cumulus que em grandes moles se acastelavam mais proximos do horisonte. As paredes da casa, grossas como as de uma fortaleza, perfiladasem quatro frentes, encardiam se ao tempo, havia mais de cem annos. De uma das encostas do outeiro, sahiaum paredão de barro a encontrar com a encosta de um monte visinho e fechava assim aquellagarganta, onde corria na estação das chuvas um valenteriacho, formando um grande açude, cuja bacia cheia de uma agua amarel lada, reflectiaa imagem do casarão com todas as suas dependencias.

Ao nascente, na quebrada do alto da vivenda, estendia-se um espaçoso curral de páo a pique, dentro do qual ruminavam deitadasnedias e leiteiras vaccas. Mais adeante, via-se um grande estabulodividido em dous compartimentos cheios de cabras e ovelhas. Os cabritosalegrespulavam, berrando, nas pedras do chiqueiroe os cordeiros, em saudosos balidos, se aqueciam ao sol nascente. Aquelle casarão, construido por um dos avós do Brilhante, havia testemunhado as scenas alegres e tristesde duas gerações. Pertencia agora ao pai de Jesuino e n'ellemorava com a familiaum vaqueiro encarregado de guardar algumas dezenas de rezes. O Brilhante chegou á fazenda pela madru.

gada. Conservava ainda na mente a imagem das filhas e no coração uma saudade d'ellas, como nunca tinha sentido. Um presentimento, pensava elle, talveznão as vissemais. Estas idéas que o mortificavam, foram varridasda imaginação, para terem curso outros pensamentos suggeridos pela presença dos seus companheiros de lucta. José tinha chegado havia muito tempo e dava conta ao Brilhante de sua commissão. Entregou a cartaem mão propriae voltando em cima do rasto, não pôde ouvir a explosão que ellaproduziu, mas percebeu o estampido de tiros, ao longe, disparados pelas costas. João Soares e Silvestrehaviam pernoitado ali, mas não acharam meios de conciliaro somno.

A vastidãodosaposentos, de uma monotonia de deserto, augmentava -lhes o desalento. Aquellacasatinhauma lenda lugubre. Ti nham presentesna memoria os maos vaticinios transmittidospor seus antepassados. Era possivela sua realisação e seriam elles os protogonistasde drama sangrento. A todos estespen. samentosse juntava mais a lembrança da familia, que tudoignorava, e seriade subitoferida domaisrude golpe. Os sertanejoscahiram em completomarasmo. Apavorados cada vez mais pelasidéasas mais extravagantes, tiveram vontadede fugir. Era um fraquesa de animo, de queera cumplice mais o temor dos vaticinios doTuyuyú, do que a ameaça dos Calangros. Jesuinoencontrou-os, n'um desfallecimento pusillanime. Encorajou-os chasqueando de suas apprehensões. As suas palavras, vibrantes de energiaou mordazes de escarneo, os reanimaram.

As visõesque os perseguiam, desappareceram na presença de Jesuino. Era necessario cuidarno plano de defeza, caso os inimigos se lembrassem de atacal -os. Aquellacasa offereciaos melhores meios de resistencia. Tinha oculos de pequeno diametro em diversasalturasda parede, sendo alguns d'elles falsos. Estasvigiasserviam, as verdadeiras, para espreitare por ellasfazerfogosobre o inimigo, asfalsas, para desorientalos. Jesuinorevistou as armas e as munições e comoscompanheirosse entrincheirouna grande salade visita. Não era a primeira vez que aquelleaposento vasto e sem mobilia, servia depraçad'armas. Aquelles oculosmuitas vezes tinhamvomitadofumo e balas sobre os inimigos quandoestes menos pensavam. A porta e as duasjanellasque deitavampara fóra, feitasde madeirarija, com uma espessurade dez centi.

metros, giravam sobre grossas dobradiças de ferro e não eram de facil arrombamento. Fechados ali, estavam mais ou menos seguros, po dendo se defenderem de qualquer lado, pois as frentes das casas estavam crivadas de setteiras. O Brilhante havia ordenado á familia do vaqueiro que se conservasse recolhida. José mungiu as vaccas pela manhã e voltou para a sala. Depois do almoço, Jesuino e os companheiros poseram -se de sentinella. Cada um tomou conta de uma das frentesda casa e pelas vigias espiavam o que se passava lá fóra. Todas as portas e janellas estavam fechadas. Ao gritode alerta, todos deviam se reunir no logar do aviso. Ao meio dia mais ou menos, o Brilhante, que guardava a frente de leste e a sala de armas, viu assomar no extremo da varzea alguns vultos. Observou -os com attenção e conheceu que eram homens a cavallo e que corriam a toda brida em rumo da casa. Um grito de alertasoou nos vastos aposentos e um instante depois todos estavam a postos.

-Os cabras se approximam. Preparem as armas, que os receberemos com uma descarga quando estiverem na distancia de vinte passos, disse com a maior calma o Brilhante, revistando o seu bacamarte. Soares e Silvestre, pallidose tremulos, procuravam esconder a fraquesa que os amofinava. Era -lhes impossivel dominar a emoção que os acovardava. Jesuino, conhecendo o desanimo d'elles, encorajou -os. --Coragem, não é mais tempo de recuar. A victoria será nossa. Dentro deste baluarte só se deixam matar os cégos e os aleijados. E voltou á vigia de onde continuou: -Estão mais perto. A nuvem de pó que levanta a cavallaria não me deixa contar os inimigos. Fazem uma algazarra dos diabos. Pa raram. . . dous tiros. . . continúam a marcha.

-Abre, Jesuino, abre, gritaram batendo com força na porta de detraz. -Vai ver quem é, José, pela vigia. Se for gente nossa, abre. Estão mais perto. --Os malfeitores vem ahi todos armados e eu vim avisal-os, disse João Caboclo entrando na sala. ---São muitos? perguntou o Brilhante. ---Vinte, talvez. --Que venham. Pararam de novo. . . mais tiros. . . perversos, estão atirando nos animaes que encontram. Continuam a marcha. Pude conhecer o Jurema, vem na frentefazendopiruêtas, melhor será n'elleo meu tiro. . . Estão já muito perto. Todos a postos, armas preparadas, que abrireia porta quando for tempo e daremos uma descarga. . . Pararam. . . conversam. Um. . . quatro. . . sete. . .

dez. . . doze, treze. . . quinze. . . dezesete. . . Todos a cavallo e armados. Marcham agora em silencio e a passo. Estão a cem passos. José, põe-te na vigia, que eu vou para o ferrolho. Quando estiverem a trinta passos avisa. . . Prompto? . . . -Prompto, senhor! E o Brilhante deixou o oculo e veiu para a porta. Segurava em uma das mãos o bacamarte e tinha a outra no ferrolho. Esperava o signal do libertocom perfeitapresença de espirito. -Estão a trinta passos. E desceu a reunirse aos companheiros. A portagirounos gonzos, e no espaço aberto entre os adversarios appareceram, o Brilhante e os companheiros, que pozeram um joelho em terrae descarregaram as armas sobre o grupo, que cada vez mais se approximava. A manobra durou segundos, finda ella a porta fechou -se e Jesuino collocou-se em uma das vigias.

Lá fóra rugia um fervedouro dos diabos. O estampido inesperadodos bacamartes havia as sustado cavallos e cavalleiros. Não houve tempo de reflectirsobre o caso, mal poderam conter as cavalgaduras, que mordiam os freios, prestes á desembestar. As balas alcançaram a fileirada vanguarda abrindo um claro não pequeno. Ao som dos tirosseguiuse a quéda de quatro corpos. Dous homens mortos e dous feridos. Os cavallos dos baleados, sem brida que os contivessem, fugiam espantados de varzea a fóra. Era grande a confusão nos assaltantes. Só Francisco Calangro e Pedro Jurema conservavam o sangue frio; aquelle, porque acreditava -se invulneravel e este, pelos habitosde luctae pela sua grande coragem. Os cavallos recuaram bufando e assim pozeram os Calangros fóra do alcance das armas de Tuyшуй.

Os cadaveres, resupinosno chão, ensanguentados, eram de dous rapazes imberbes, mas mus culosos e de boa estatura. Os feridos, ambos de bruços, gemião estorcendose nas dôres dos fe rimentos. De um, a bala estraçalhou a coxa, e do outro, o projectilestilhou o osso de um braço. O calor do chão e o sol a morder em cheio o dorso, mais angustiosatornava a vida dos baleados que, obrigados pelos ferimentos a uma postura afflictivae devorados de sêde, pe diam soccorro ou a morte. Padeciam muito, emquanto os companheiros a boa distancia procu. ravam resolveras difficuldades, mas não achavam meios. Era prudente uma retirada, porem no campo estavam os feridos, que deviam ser soccorridos e nunca abandonados á furia dos inimigos.

De quando em vez um gemido fundo vinha como uma supplica de soccorro, mas os obstaculosa vencer eram insuperaveis. Aquelles ais prolongados cada vez mais amofinavam osque os ouviam, incutindono espiritogrande temor da situação. As expressões angustiosas achavam echo n'aquelles corações, quasi todos de parentes muito proximos e amigos de muito tempo. Estiveram para avançar e apossarse dos mortos e feridos, mas as setteirasde Tuyuyú vomitariam balas e outras mortes teriam que lamentar. O sol já pendia muito para o poente e a perplexidadeque os tolhia, mais e mais crescia e se apoderava d'elles. Francisco Calangro, de todos que ali se achavam, era o unico que ousariaavançar desassombrado, pois estava convencido do fechamentodo seu corpo. Já tinha querido irsó, mas Jurema, que conhecia o perigo e a posição estrategicada fortificação, oppoz-se, declarando retirar-se si elle insistisse em commetter semelhante loucura.

Na salado Tuyuyú, de armas embaladas, os Brilhantesesperavam sómente a ordem de Jesuinoque, na sentinella, observavaosinimigos. Haviam de vir pelos feridos, pensava elle, e n'essa occasião ficariam mais alguns fóra de combate. O dia declinou, acabou-se de todo, deixando o espirito dos Calangros na tribulação de angustiosa espectativa. Aguardavam a noite, cuja escuridão seria favoravel ao transporte dos corpos. Ao lusco fusco simularam uma retirada, que nenhum effeitoproduziu. Voltaram ao mesmo logar, e a noite, como se podesse ter pena da sorte dos feridos e das afflicçõesdos assaltantes, fechou -se em densa treva. Dos feridos não se ouvia o menor signal de vida. Nem o mais leve sussurro vinha de lá; era geral o silencio.

Francisco Calangro e Pedro Jurema, mais ou menos senhores de si, decidiram -se a fazer o transportedos companheiros alcançados pelas balas. A escuridão os protegia. Nada se enxer gava dous palmos distantedo nariz. Apearam -se e foram andando surrateiramente de gatinhas, com o dedo no gatilho das armas e o ouvido alertaao menor ruido. Seguiram em rumo da casa. O silencioera completo. Depois de alguns minutos de um caminhar fatigante, fizeram alto; pararam em cima de um corpo estendido no chão a fiocomprido. Jurema poz-lhe a mão, que tocou o rosto; estava frio, de uma frieza que tranzia a carne. Apalpou mais a cara, estava rija: era um defuncto.

Francisco Calangro, um pouco adeante, havia esbarrado sobre uns pés humanos, e por elles guiou-se ao tronco e apalpou o rosto. Estava quente como uma brasa. Perguntou baixinho quem estava ali, e não teve resposta. Era um dos feridos. Continuaram o reconhecimento. Pouco adeante Jurema tropeçou em um corpo duro, apalpou, era uma cabeça humana, que ardia em febre e cujo halitoquasi lhe queima os dedos. Solavancou -a e nem um signal de movimento. O facinora teve uma idéa sinistra. Seria menos penoso conduzir um cadaver do que um ferido. Sem mais reflexão sacou a faca da bainha e tacteandoa garganta do baleado abriu-a com profundo golpe. Uma onda de sangue quente lavou -lhe as mãos.

Nenhuma impressão desagradavel sentiu. Para occultar o crime limpou quanto pôde o ferro nas roupas da victima e metteu a faca na bainha. Esgueirou-se surrateiramented'aquellelogar e poucos passos deu para topar outro corpo estendidono chão. Apalpou o e achou calor. Pozlhe o ouvido no rosto e sentiu que respirava. Era preciso tambem acabar com aquelle e ajoelhando-se sobre o peito do ferido, suffocou-o, tapando-lhe o nariz e a bocca com as mãos. Era este o primeiro baleado encontrado por FranciscoCalangro. Jurema affastou-se surrateiramente e pouco adeante encontrou -se com o companheiro que lhe perguntou: - Quantos achou? Dous! -Vivos? Parecem mortos.

Vamos leval -os? -Sim, cada um de nós leva um. -Sim. O Calangro e Jurema tomando ás costas a carga voltaram para o acampamento. O corpo que Francisco conduzia, tezo, em completa rigidez cadaverica, facilitavao transporte, o mesmo não acontecia com o que carregava Jurema; molle como um molambo, seriamente o incommodava. Deixaram os dous cadaveres entregues aos companheiros e voltaram, com as mesmas precauções, sempre de gatinhas e preparados para fazer fôgo. Com alguma difficuldade, conseguiram achar os outros defunctos, que conduziram ao mesmo logar. Nada mais havendo que fazer ali, Francisco Calangro deu ordem de retirada, sendo conduzidosatravessadosnas luas das sellas, os corpos dos mortos por seus mais proximos parentes.

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