Capítulo XXXIV Os Brilhantes · Capítulo 34 de 48
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Capítulo XXXIV

O soldo novo dia, entrando pela claraboia da Casa de Pedra, deixava ver os habitantes da caverna quasi na mesma posição em que haviam ficado em começo da noite. Jesuino velava á cabeceira da retirante, que dormia placidamente. José se espreguiçava na rède, prestes a se levantar. O Brilhante mandou que o libertopreparasse café. A faminta accordou pelas oito horas da manhă. Abriu os olhos, olhou com indiffereuçapara tudo que a cercava, como aturdida, sem dizer palavra. Jesuino que a não, perdía de vista, apressou-se em levar-lhe uma chicara de café. Ella abriu a bocca, mas continuou immovel. O Brilhante levou lhe com a maior delicadeza a taça aos labios e esperou que ella bebesse gole a gole todo o liquido. Ainda bem a faminta não tinha acabado de esgotara chicara, cahiude novo no lethargo. Dormiu uma hora e despertou mais animada. Abriu os olhos, uns grandes olhos negros, menos embaçados, e fitoucom consciencia o criminoso.

Jesuino perguntou-lhe: -Sente -se melhor, minha filha? A retirantenão respondeu, mudou a vista e olhou vagamente para o aposento, procurando orientar-se. Depois voltou o olhar para o Brilhante e disse com uma voz fraca e sumida. -Onde estou? . . . -Em nossa casa. --De quem? -Logo direi. Agora só deve querer é ficar boa. Tomará um caldo e depois the darei as informações que pedir. E Jesuino, fazendo vir o alimento, deu -o á faminta, que fez um esforço para se erguer, mas embalde. Resentia-se do grande jejum, as forças ainda não tinham voltado. O criminoso aquietou-a e ella adormeceu um instante depois de lhe ter cahido o caldo no estomago.

Tres dias se passaram assim, durante os quaes o Brilhante não arredou pé de junto da faminta, embora muito precisa fosse a sua presença entre os companheiros. Cheio de piedade, alimentava a retirante e nem por um momento viu-se-lhe nas feições o enfado d'aquellascompridas horas de vigilia. O libertoficava pasmo ante o zelo e interesseque o chefe mostrava por aquellamulher. Emquanto lhe pareceu uma esfomeada commum, das muitas que enchiam as cavernas da serra, olhou-a com indifferença, mas, logoque as linhas cadavericasse apagaram das feiçõese o rosto retomou a expressão juvenil, foi outro o seu sentimento. Temperamento ardente e libidinoso, obrigado pela força das circumstancias a uma intermina continencia, sentia-se devorado de de sejossensuaes, que lhe haviam despertadon'alma as scintillaçõesmelancholicas do olhar da moça. Aquelles desejos, vagos ao principio, ardentes depois, se fundiram n'uma sede desesperada de concupiscencia. O cerebro do liberto dia e noite ardia em pensamentos luxuriosos O Brilhante com sua aguçada percepção havia penetrado n'alma do cabra e lido todas as impressões, todos os desejos, que elle procurava esconder.

Jesuino havia surprehendido um olhar do liberto, um d'estesolharesde fogo, lançado sobre o rosto moreno da retirante. O criminoso revoltou-se e um instante pensou em punil-o com a morte. Grave era a offensa de José. O Brilhante levava ao extremo os preconceitos de casta. Grande crime commettia um homem de côr levantando os olhos para uma mulher branca, quanto mais seduzindo -a, fazendo d'ella sua amasia! Para não esfaquear o mulato, procurou esquecer o olhar que o havia trahido. Mesmo assim, mortificava-o a idéa de que seu ex -escravo tivesse um pensamento deshonesto com relação á uma mulher de condição superior a sua. Temendo apanhal -o outra vez em flagrante ordenou ao liberto que se mudasse para o rancho dos outros companheiros.

José cumpriu a ordem, porem de muito má vontade. Não era só a paixão sensual que o torturava, mas um ciume diabolico o devorava, que não podia dominar. Chegando á nova habitação, premeditou vingar -se do chefe e, com grande astucia, começou a plantar a sizania no sequito. Para Silvestre e João Soares era differente sua linguagem, revelou -lhes sómente a mancebia do Brilhante. A Pajehú e Cobra -Verde, fallava de outro modo, mostrava -lhes a necessidade da revolta e de ser elle o chefe, promettendo -lhes grandes haveres. Os companheiros ouviam -no e respondiam por meias palavras. Não sabiam onde José achava coragem para se declarar em opposição ao amo. O libertonão pensava em se bater com Jesuino, pretendia matal -o a falsafé, apossar -se da Casa de Pedra, amasiar -se com a retirante e ter como guarda -costas Pajehú e Cobra -Verde.

Esperava somente o momento opportuno para realisar o seu plano. Os dias corriam e a oc casião azada não chegava. Quanto mais horas passava o Brilhante em companhia da retirante, mais crescia no liberto o ciume, maior era o odio e a sua sêde de vingança. Jesuino tinha conseguido salvar a faminta e, todo dedicação, a tratava como filha. N'alma do criminoso não passava por um instante o desejo de seduzil-a. As luctas de tantos annos e a forçada continencia tinham esfriado de todo o temperamento do Brilhante; não parecia o mesmo homem do tempo da adolescencia a assistirhoras inteiras o acto da procreação dos bodes e dos outros brutos. O crime de seducção era para elle hediondo e só havia uma pena - a de morte. Era inexoravel para os seductores e para os ladrões.

A friezade seu temperamento concorria poderosamente para assim proceder. Era n'ella que estava a maior garantia da honra da retirante. Os escrupulos podiam desapparecer, a incapacidade physica, não. A faminta recebia todos os cuidados e desvellosde um bom pai. Estava forte, mais gorda, porem muito triste. Quando soube que estava em poder de Jesuino Brilhante, não pôde conter a estranhesa que tal nova lhe causou. Estremeceu da cabeça aos pés e essa manifestação magoou sobre modo a alma do criminoso. Maria de Góes, assim chamava -se, não podendo dissimular o seu espanto, filhoda má conta em que tinha o seu protector, pediu-lhe perdão. Jesuino disse-lhe com grande pesar:

-Minha filha, triste de quem chega a ter má fama n'este mundo! Maria meditava, seriamente apprehensiva. Havia contado ao Brilhantesua historia, desde o momento em que deixara com a familia a terra de seu nascimento até o instante em que a fome fel-a desmaiar e elle encontrou -a sem sentidos. Em caminho perdera a mãi e um irmão pequeno, seus unicos companheiros, de uma molestiaque os matou em poucas horas. Quasi enlouquecera de pena e medo, sosinha pelas estradas. -Deus amparou -me, dizia ella a Jesuino, e morrendo e vivendo, arrastei-me até onde o Snr. me encontrou. Uns presos que encontramos em caminho, haviam dito a minha mãi, logo ao sahir de casa, que a serra do Cajueiro era farta e que n'ella poderiamos escapar. Um d'elles, o velho Soares da Casa Forte, no meio de toda sua dôr nos consolou e deu -nos comer para dous dias.

O Brilhante não pôde esconder o espanto que aquella nova the causava, exclamou: -O velho Soares? ! . . . -Elle e mais dous filhos. Jesuino estava desfigurado; a bondosa expressão do seu rosto se fundira n'um ar de sombria ferocidade, Maria, vendo -o assim, disselhe a tremer de susto: -Se soubesse, senhor, que essa noticiatanto o incommodaria, de certo não a teriadado. -Como poderia ella deixar de me affligir si se trata de meu pai e irmãos! -Tem razão, Sur. Jesuino, e se os visse maltratados como eu os vi, odiaria ainda mais aos seus inimigos. -Conte -me tudo, Maria, nada encubra, pois tenho necessidade de saber o que fizeram os perversos com minha familia. O demudamento de minhas feições lhe assustou, bem sei, mas de mim nada receie, pois sou incapaz de offender sómente por maldade. Os meus inimigos emprestaram- me qualidades que não tenho e apregoaram a minha má fama por toda parte.

Sou um criminoso incapaz de offender a quem não me offendeu. -E o modo porque me salvou e me tem tratado até agora, não é de um malvado. -Sim, Maria, mas o mundo só ouve o estampido do meu bacamarte e só vê os que cahem derribados por elle O Brilhante calou -se e ficou alguns instan tes sem coragem de pedir á retiranteinformações da familia. Nunca estivera em situação mais embaraçosa. Não era o temor da travessia e a luctacom os inimigos, era a impossibilidade de sahirda caverna, deixando n'ellaMaria. -Continúe a historia dos meus e nada encubra, disse o Brilhantemais calmo e disposto a ouvir com mais sangue frio a atrocidade dos seus perseguidores.

-Eram mais de vinte os soldados e tres os presos, proseguiu ella. Iam todos com os braços dentro de pesadas algemas, como se ellespo dessem fugir cercados de tanta gente. Os rapazes eram os mais judiados. As algemas tinhamlhes feridoos braços, abertofundas chagas, que fazia dó vel-as sangrar. Soffriam muito, mas ninguem ouvia d'ellesum gemido, uma queixa. O velho, este, quando seus olhos encontravam as feridas dos filhos, se desviavam, baixavamse e um fio de pranto mudo descia e se embebia nas compridas barbas brancas. Jesuino soltou um ruido surdo. -Não parava ahi a deshumanidade dos soldados, obrigavam -nos a marcharem a pé, embora tivessem cavallos.

--E, para onde os conduziam? -Para a cadeia de Pombal. -E porque crime, não ouviu dizer? -Não, o tempo que estivemos juntos por mais de uma vez ouvi menoscabar da força e coragem do senhor e por mofa pediam aospresos que mandassem avisal-c para que os tomasse em caminho. -Bandidos! E na physionomia do Brilhante assomou tanta colera, a decomposição de suas feiçõesfoitamanha, que Maria ficou aterrada. A indignaçãohavia desfiguradoo rostodo cri minoso a ponto de tornal-o hediondo. A retirante assombrada exclamou, chorando. -Perdoe -me, senhor, não desejavaaffligilo, mas me ordenou que nada encobrisse e disse-lhe o que sabia. Jesuino não ouviu a supplica. Dominado pela exaltação de uma crise nervosa, palpava a scena descripta pela retirante como se a estivesse vendo representar. Tremiam -lhe os musculos das faces e os olhos dançavam, esbogalhados dentro das orbitas. Accentuava mais a decomposição do rosto a côr livida que lhe cobria a pelle.

Parecia possesso. Maria continuava a chorar em silencio. Não tinha animo de fallar, tal era o medo de que estava possuida. A vida para ella ia ser de agora em diante muito tormentosa. Morar com um homem dentro de uma furna, um homem que, enraivecido, é uma féra, capaz de todos os desatinos, seria o cumulo do padecimento. Os dias tinham corrido placidos até então. O criminoso the havia dado os melhores commodos de sua rustica morada. A par do bom agasalhoe do bom tratamento, o respeito, o decoro ao seu estado de donzella, Maria não tinha recebido de Jesuino senão provas de generosidade e de abnegação. Em recompensa aos serviçosque recebia, dirigia a casa, fazia cosinha procurava adoçar quanto lhe era possivel a vida de seu protector.

a e Tudo foi bem até o momento em que o Brilhante soube da prisãodos seus. Nem por um gesto havia offendido a retirante; mas a ferocidade de seu rosto bastava para tortural-a. Sentados defronte um do outro, em silencio, estiveram por mais de duas horas até que Je suino, conjurando a criseque o allucinava, se dirigiuá retirante. -Grande foi o medo que você teve de mim, não, Maria? A raiva me desorienta, me desfigura, mas não me endoidece, e assim, não poderia offendel -a. A vida nestes dez annos tem sido para mim de dias aziagos. Quando eu penso repousar das fadigas da tormenta, estoura de novo a tempestade, recrudesce o odio de meus inimigose sou obrigado a luctarpara defender, não este pedaço de vida enfadonha e pesada, porem a minha honra e a existencia dos meus.

Ha mezes que me recolhi a esta caverna e durante esse tempo, se bem não tenho feito, mal algum tenho praticado. Pensava que me tinham esquecido, quando a noticiaque me deu, tiroume dessa grata illusão. A minha situaçãoé difficil. Depende hoje somente de você salvar meu pae e meus irmãos. --Como, Senhor? perguntou Maria com voz fraca e tremula. -Sahindo d'aqui. A retirante disparou a chorar. Sua imaginação voltou-se immediatamente para a Titéla do Perigo e viu abertas de par em par as fauces do enorme pego, que teriade engulil-a se ellaousasse approximar -se delle. -Animo, Maria, eu a levarei para fóra d'aqui como trouxe, sem risco algum. Irá de olhos vendados e assim não verá as profundezas do abysmo.

---E ' impossivel! exclamou a retirante, inteiramente convencida de que não teria forças para transpôr tão arriscadopasso. -Vamos, coragem, eu lhe juro que não adivinhará o tempo em que estivermos sobre a Titéla. -Não posso, mesmo de olhos fechados, eu vereitudo e não me podendo dominar, tremerei de medo e então será inevitavela queda. -Qual, filha, você exagera o temor que tem do precipicio. Eu garanto leval-a em paz e salvamento e se The mereço alguma cousa, não recuse o meu pedido. Lembre -se, Maria, que a vida de meu pae e de meus irmãos mais novos está em suas mãos. -Sei, senhor, de tudo isso, seimais que lhe devo a vida, porem não tenho forçaspara atravessar a ponte, nem para ficar aqui sosinha.

Quanto eu teriasidofeliz, se tivesseficadodormindo para sempre, quando o senhor me encon trou e com os maiores sacrificios trouxe -me até aqui! Se assim tivesseacontecido, eu não o estariaagora contrariando. -Assim, pretende ficar aqui o resto da vida? ! E ' impossivel. Animo, Maria, é uma loucura essa reluctancia, com que não posso condescender, porque é em prejuisoseu e dos meus. -Piedade, senhor! Se eu não tivesse tanto horror á morte pediria que me matasse e que fossesalvar os seus, porem eu tenho tanto medo de morrer! . . . -Mas eu lhe garanto a vida, filha, chegará do outro lado da Titélaperfeitamente să. Deixa conduzil-a, não, Maria? Deixe para amanhã, senhor, essa perigosa viagem; eu me encommendarei a Deus e pedireiforças para emprehendel -a.

-Sim, será amanhã, e o Brilhante, sahindo para a ponte, deixou Maria na caverna, entregue aos mais desalentadores pensamentos.

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