Capítulo XXXIX
A negridão dos campos e a figuraesqueleticada florestapouco a pouco se transformaram. Uma vegetação sadia e luxuriante alcatifou o solo, revestiuas arvores, e as sombrias tristezas d'esses logares se mudaram em ridentes alegrias. Foi completa a resurreição! O sol havia reduzido a terra a uma enorme queimada, despido os vegetaes, reduzido os homens a ossos e pelangas, morto a maioria dos rebanhos, e, agora, d'essesdestroçosda morte, resurgia a vida com todos os seus encantos e louçanias! Da serra ao sertão, um tapete de verdura cobria a terra. A côr verde em todas as suas gradações, desde o gaio até o negro, se confundia na mortecôr da grande tela.
Os rios e regatos, as lagoas e as fontes, to. dos os mananciaes transbordavam emfim. As aves ribeirinhas, que haviam emigrado, de volta do exilio, mariscavam nos alagados. Fendiam os ares algumas revoadas de papagaios, de regresso do desterro. Em uma d'essas tristesmanhas de inverno, o espaço coberto de pesados nimbus, que o dia tornava de uma claridade duvidosa, Jesuino deixava com o sequitoa serra do Cajueiro. Caminhava taciturno. Não lhe sahia da mente o desapparecimento de Maria. Quando, de volta ao logar onde havia deixado a retirante, deu pela faltad'ella, sentiu-se seriamente incommodado. Chamou -a em vão. Dez vezes o echo repetiu a sua voz na solidão da montanha e ninguem The respondeu. Mais receioso de um rapto do que de um desastre, sahiu tacteando pela escura matta. Bateu toda a cercania da Casa de Pedra e nada viu nem ouviu que o orientasse.
A noite cada vez se tornava mais soturna. Completamente desilludido esperou o dia para re começar a busca. Mal chegaram á terra os primeiros clarões crepusculares, o Brilhante voltou á caverna. Estava muito distanted'ella, tinha-se internadoalgunskilometrospelomatto a dentro, sem receio das cobras, pois os retirantes haviam -nas comido todas. Atravessou a Titéla e entrou na gruta. Seus olhos se fitaram nas poças de sangue. Aquelle coagulo negro, aljofrado de soro, não impressionou o Brilhante; retirou a vista e seguiu. Na sala de armas municiou-se; voltou depois ao leitoe preparou a maca de viagem. Prompto e equipado, sahiuda Casa de Pedra e chegando á extremidade da ponte, disparou o bacamarte. Pela rarefacçãodo ar, o tiropareceu o maior que já estrugiran'aquellasquebradas.
Minutos depois estava todo o sequito a postos em frenteá Titélado Perigo. O Brilhante saudou -os, rosnando um bom dia por entre os dentes. Os homens se descobriram, respeitosos. Depois de lhes passar revista, relatou -lhes os acontecimentos da ultima noite, desde a lucta e morte de José até o desapparecimento de Maria. Todos o ouviram com a maior admiração. Cobra -Verde ficou mais enxofrado e Pajehú mais fulo. Escaparam de bôa! O chefe fez-lhes ver a necessidade de descobrirem o raptor da moça, para punil-o severamente, Dividiram -se em tres grupos e sahiram de serraa fóra, Jesuinoem companhia de Pajehú; Silvestre, com Cobra -Verde, e João Soares, com o primo. Todos montados desfilaram pelas estreitas ladeiras. Os cavallos descançados e avigorados pela forragem nova, subiam com alento os empinados caminhos. A serra toda vestida de verde parecia em festa. Destoavam do festivalas physionomias tristese doentiasdos habitantes da montanha. A população estava reduzida a um terço. Haviam descido para o valle em busca dos logares queridosdo berço.
Ficaram os mais inanidos esperando que brotassem as hasteas das batatas silvestresdas quaes a secca apagára os vestigios. Já havia muito que os renovos arroxeados das tuberosasguiavam os famintos ás suas feculentas raizes e d'ellas se alimentavam. Voltar-lhes-iam as forças e então diriam á serra o ultimo adeus. O Brilhante correu séca e méca com grande empenho de alcançar o raptor de Maria. Deitou inculcas pelos esconderijosdos retirantes e nada soube que o orientasse. O chão havia se aberto com a moça. Sem probabilidadede descobrir o paradeiro d'ella, Jesuino decidiuse, depois de um dia inteirode pesquizas, a voltar e seguir em soccorro de seu pai e irmãos. A's seishoras da tarde chegavam, elle e Pajehú, á Titéla; já os esperavam os companheiros, tambem desenganados de encontrar Maria. Era preciso correr a Pombal em soccorro do velho Soares, e deu ordem para a partida, que seriana seguintemadrugada.
Retiraram-se os companheiros e Jesuino entrou na caverna. A escuridão denegria toda a estancia e o criminoso, tacteando, foi até o fogão. Ahi, com algum trabalho, conseguiu fogo e em breve se illuminou o salão. Jesuino despiu -se das armas, preparou café, que tomou. Estava calmo. As horridascontracções do rostodo assassinado, nos ultimosparoxismos da vida, não lhe vinham perturbara paz. Deitou-se e por alguns momentos pensou em Maria; nada mais podendo fazer em favor d'ella, desterrou para longe as idéas sobre o desapparecimento da retirante e adormeceu. A ' hora marcada, o Brilhante accordou, preparou -se para a viagem e sahiu a se reunir aos companheiros na Titélado Perigo.
Não esperou muito por elles e uma vez juntos, montou -se no Exhalação. O sequitopartiu, caminho do sertão. Poucas horas gastaram em vencer as escabrosidades da montanha. As ingremes ladeiras foram se disfarçando pouco a pouco, o solo mudando de aspecto e a flora se transmudando de todo. Eram outras as especies vegetaes; aos piroás e aos mangues substituiaa grande variedade das mimosas. O clima não era o mesmo, o ar se aque ciagradualmente como se caminhassem da super. ficiepara o centro da terra. As ultimas accidentações do terreno desappareceram e os viajan tesentraram em rasa planicie. Andaram um dia inteiro, parando sómente o tempo necessarioás refeiçõese ao somno. Na tardedo segundo dia, quasi ao lusco fusco, chegaram ao pateo de uma bella vivenda sertaneja, uma pittoresca casinha branca, trepada n'um oiteiro, com um curral á vista.
Jesuino se dirigiupara lá a pedir rancho. Na sala da frente, encontrou uma mulher branca, nova e bonita; era a dona da casa. Saudou -a com respeito, mas a submissão do cortejo não dissipou a má impressão do armamento. A sertaneja estremeceu, e ao Brilhante não passou despercebido o sobresalto. Mesmo assim animou -se a pedir-lhe agasalho. Disse -lhe quem era, e a mulher, ao ouvir-lhe o nome, soltou involuntariamente um ui, que o desconcertou um pouco. Jesuino, mais tristedo que despeitado, disse á sertaneja: --Desgraçado d'aquelle de quem a bocca do mundo apregoa a má fama. Eu peço perdão á senhora do desgosto que lhe causei vindo á sua casa.
E, descobrindo -se em respeitosa venia, ia retirar-se quando a mulher, ainda tremula, deteve -o, dizendo: -O senhor haja de me desculpar. Meu marido não está em casa, mesmo assim tem na quebrada do alto uma casa de farinha e um cercado ao lado, pode Vmc. arranchar-se n'ellacom sua gente e deitar os cavallosna capoeira. -Obrigado, minha senhora, acceitoa hos pedagem, pois os animaes estão muito batidos, e nós, muito enfadados. -Boa noite. -Nosso Senhor the dê as mesmas. E Jesuino, dando de redeas ao Exhalação, seguiu com o sequito para o rancho. A noite se fechou de todo; mas as brumas que turvavam a tarde, em vez de se espessarem e escurecerem o espaço, dissiparam-se, descobrindo o céo de um azul saphira, limpido, recamado de brilhantes estrellas.
A lua em minguante se conservava occulta, porem, os outros astros, sem nuvens que lhes empanassem o brilho, illuminavam a terracom sua desmaiada claridade. Os Brilhantes estavam arranchados e Pajehú, de volta da arrumação dos cavallos, dizia á Cobra -Verde: -Passou o Grangeiro debaixo do cangaço, para a casa do dono da fazenda. -Que Grangeiro, homem? -Pois você não conhece o negro mais serepentino d'estes logares? -Não! . . . -Basta que lhe diga, que é valente, ladrão e tem gosado muita moça branca por este mundo a fóra. Vive para furtar e fazer mal ás filhas alheias. O brazão d'elle é offender as brancas; com as pretas, diz elle, não se suja.
E se o visses! . . . E ' um pedaço de fumo! -Tem bom gosto o diabo; mas, um dia não The caia a casa! . . . -Isso é lá com elle. E Pajehú deitando se accendeu o cachimbo e calou-se. O Brilhante, que ouvira toda a conversa, tomou o bacamarte e foiespreitara vivenda do fazendeiro. Estava aberta a porta de entrada da pe quena salaque alumiava uma candeiade azeite; Jesuino, de fóra, viu o negro refesteladoem uma cadeira de espaldar de sola, na bocca do estreito corredor que dava para o interior da casa. Sentada a um canto, estava a senhora com quem o Brilhante fallarapouco tempo antes; com o semblante todo decomposto, enxofrado, as feições cadaverosas, parecia presteso instantedo seu acabamento. Jesuino comprehendeu tudo e approximou -se da porta quanto lhe permittiu a sombra da vivenda.
O Grangeiro tinha deixado o cavallo amarrado a um dos esteiosdo copiar e, logo que a dona da casa negou -lhe hospedagem pretextando a ausencia do marido, entrou e sentou -se á bocca do corredor, impedindo toda a communicação com o interior da vivenda. O bacamarte descançava ao lado. O negro era asqueroso como um sapo. Para mais aterrar a senhora, havia tirado a faca da bainha e diziacom o maior cynismo, limpando as unhas: -Tinha que ver dormir eu misturado com bodes e porcos, podendo gosarda companhia dadona. Estou enfadado e quero me deitar cedo. As escravas, que me botem agua para lavar os pés, issodepois da ceia, pois janteimal. O Grangeiro disse as ultimas palavras repimpando -se na cadeira com tanto descaro que o Brilhante ainda levou a arma ao rosto para arrebentar-lhe o craneo. Conteve-se e esperou o fim do drama.
A senhora cobrou algum animo, lembrandose que, a pretexto de dar ordens para o lava pés do negro, poderia entrar e pôr-se longe do scelerado. Levantou -se para isto, mas o Grangeiro oppoz-se, dizendo-lhe que chamasse á sala uma escrava para ordenar o que queria. A sertaneja obedeceu muito constrangida. Jesuino custava conter -se. Lamentava a falta de sua faca, pois, para um negro tão infame a morte á bala era nobre de mais. Queria pical-o, esfaqueal-o, devagar, fazendo -o soffrer as dores mais atrozes. Occorreu -lhe uma idéa, que applaudiu, e depois de reflectirum pouco, resolveu executal -a. Para isso necessitava do concurso dos companheiros, pois tratava-se de agarrar o negro, amarral-o, castral-o e depois queimal -o vivo.
O Brilhanteachava pouco todos esses tormentos: não havia castigo que punisse o Grangeiro. Um negro estuprar uma mulher branca e casada! . . . diziacomsigo Jesuino, cego de raiva! Em faltade suppliciomaior, resolveua castração e o queimamento do negro; ia avisar o sequito quando o preto, erguendo -se da cadeira, caminhou para a porta e fechou-a. O Brilhante não esperava por essa. Temendo que sua ida ao rancho désse ganho de causa ao Grangeiro e que a sertanejafosse violada, rodeou a casa e foi ter à cosinha. Quatro escra vas, todas muito novas, e um molecotede doze annos, apavorados com a presença do hospede que, na sala, lavava os pés para depois cear e dormir com a senhora, olhavam uns para os outros sem dizer palavra e sem saber o que fazer.
A presença do Brilhante amedrontou ainda mais os pretos, mas Jesuino os tranquillisou, dizendo que nada temessem, que era um dos arranchados da casa de farinha, e vinha salvar a honra e a vida da dona da casa. Acreditaramno e poseram -se immediatamente ao serviço d'elle. Jesuino pediu que o levassem, por portas travessas, á alcova da sertaneja, servissem a ceia ao negro e o mais deixassem por conta d'elle. Chegado que foiao quarto, occultou-se debaixo da cama nupcial, armada havia somente um anno, e esperou. O negro, concluida a lavagem, temperou a garganta e disse, do corredor para dentro: -Oh negra, tira a gaméla e vem botar a ceia. Jesuino estremeceu de raiva. Quasi sahe a matar o scelerado.
O Grangeiro foi obedecido. Uma escrava trouxe uma panella com coalhada, farinha e rapaduras em um prato, que collocou na pequena mesa em que estava o candieiro. O negro sentou -se a mesa e comeu a se fartar. Bem ceiado, levantou -se e convidou a se nhora para acompanhal -o até o quarto de dormir. A sertaneja suffocava-se em pranto e não se movia do logar em que estava. O negro, indifferenteao transe por que passava a senhora, agarrou -a por baixo dos braços e conduziu -a quasi arrastada, de corredor a fóra. Uma das escravas, por ordem de Jesuino, havia aberto a porta da alcova que dava para o corredor e accendido uma candeia. O negro não precisou que lhe ensinassem o quarto do casal e entrou por elle a dentro.
A senhora, em gritoshorriveis, empregava de balde todas as suas forças para livrar-se das mãos possantes do negro. O Grangeiro, chegando perto do leito, atirou n'ellea sertanejae fechou a porta. Quando voltou para junto da victima, en controu-se cara a cara com o Brilhante, que havia sahido de debaixo da cama, horrivel, aterrador. Enorme foi a surpreza do negro. Com o rosto fulo, como se fosse de figadoassado, olhou em babacado para Jesuino. Parecia-lhe phantastica aquella apparição: 0 diabo em figura de gente. Um homem de semblante tão terrivel seus olhos nunca tinham visto. Esmoreceu. O Brilhante, medindo o Grangeiro da cabeça aos pés, disse lhe:
-Negro, não ha morte que puna o teu delicto, não ha castigono mundo para o teu crime. Vaes morrer, perverso! Jesuino Brilhante nunca perdoou aos seductores e muito menos aos estupradores. O preto, ao ouvir o nome de Jesuino, cahiu por terra de joelhos. O Brilhante, exasperado com aquelleacto de covardia, não se conteve; apontou para a cabeça do Grangeiro e disparou o bacamarte. Um estampido medonho abalou os alicerces da casa, ao mesmo tempo que o craneo do ne gro voava em estilhaços e seguravam -se na parede os miolos, reduzidos a papa. A sertaneja, attonitaante tão inesperado acontecimento, quasi fóra de si, ergueu-se au tomaticamente e ajoelhou-se de mãos postas aos pés do Brilhante.
Jesuino, recobrando a calma e vendo a sertaneja prostrada, disse-lhe: -Levante -se, minha senhora, por quem é. A pobre mulher, completamente desorientada, continuou de joelhos até que o criminoso tomando -a pela mão, fel-a levantar e sentarse na cama. A crise resolveu se em pranto. Os companheiros de Jesuino, despertados pelo tiro, correram ao logar do conflicto. Em breve a alcova do fazendeiro foi invadida por elles. Todos em armas cercaram o chefe. O Brilhante mostrou -lhes o cadaver e contou-lhes em poucas palavras o que se tinha passado. Cada qual mais indignado ouviu a historia. O corpo do Grangeiro foi retirado do quarto a ponta pés por Pajehú e Cobra Verde e ati rado no pateo da fazenda. Não quizeram tocal -o com as mãos.
Não tendo mais que fazer ali, Jesuinochegou -se a sertaneja e disse-lhe: --Fique em paz, minha senhora, volto ao rancho para descançar, pois tenho que continuar a viagem de madrugada. A mulher, cobrando animo, levantou -se e fitando o criminoso com grande reconhecimento, disse -lhe: --Com que lhe pagarei, senhor, tão grande beneficio? ! Peço-lhe que acabe a noite em nossa casa e espere por meu marido, que che gará amanhã, para elle conhecel-o. Não ha preço aos serviços que acaba de me prestar. A ' sua disposição estão todos os meus haveres e se lhe faltam recursos para a jornada, diga-me em que poderei servil-o. -Obrigado, muito obrigado, minha senhora.
Sintodeveras não poder satisfazerao seu pedido, esperando pelo seu marido. Deveres imperiosos me chamam com a maior urgencia, para muito longe d'aqui. Qualquer delonga na viagem me póde ser funesta. Agradeço os seus offerecimentos. De nada preciso. Os recursos de que disponho, são sufficientespara o resto do caminho. Peço-lhe que, logo ao amanhecer, mande chamar os visinhose conte-lheso occorrido, para que o mundo saiba que Jesuino Brilhante tem morto mais para punir scelerados do que para satisfazervinganças e odiospessoaes. Fique em paz, minha senhora. E o Brilhante apertou a mão da sertaneja, e sahiu para o rancho, acompanhado do sequito.