Capítulo XIV Os Brilhantes · Capítulo 14 de 48
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Capítulo XIV

A ' tragedia seguiu-se a comedia, que começou no cemiterio com a inhumação do cadaver de Honorato e continuou na sala das audiencias. O coveiro não quiz dar sepultura ao corpo no sagrado, allegando que o infeliztinha morrido de desgraça. Consultado o vigario, approvou a decisão do seu empregado, muito justa e de perfeitoaccordo com a sua theologia, pois não padecia duvida que o assassinado estava em peccado mortal. Concordaram em enterrar o cadaver no campo e, por lembrança do sacristão, com uma moeda de prata na bocca e de bruços. Assim, o assassinonão poderia caminhar, ficando, como cobra, presa á ordem de S. Bento. A moeda, não faltouquem a offerecesse;

collocada que foi dentro da bocca do defuncto, viraram-no de bruços dentro da cova, que en tupiram, socando -a depois a malho. Feito aquelleserviço, com a maior naturalidade, cada um voltou aos seus affazeres. -Uma alma de mais no inferno e um ca chaceiro de menos na terra, diziam os menos caridosos. O subdelegado, montado em seus tamancos, andou acompanhado dos soldados até a tarde, pelosarrabaldesda villa, na pistados assassinos; mas não lhes viu o rasto. -Uma diligenciabem feita, diziaelle, infelizmente, já fóra de tempo. Nenhum habitante do Patú testemunhára o crime, mas por ouvirem Francisco Calangro, apontavam como auctoreso Brilhante, João Soares e seu cunhado Silvestre.

O subdelegado, em ridiculaazafama, mandou annunciar pelos seus esbirrosque, no dia seguinte, ás nove horas da manhã, daria audiencia para tomar testemunhas e fazer o inquerito. A população do Patú dividiu-se em dous partidos, um contra e outro a favor dos Soares e dos Silvestres. Não havia occasiãomais propiciapara as vindictas, para o desabafodos odiosgerados nas luctaspoliticase bastante azedos na maioria das familias do logar. O dono da casa em que se deu o assassinato, tinha, como todo sertanejo abastado, as suasidéas politicas, e as suas desavenças tambem. Acontecia estar debaixo com o seu grupo, sujeitoa todos os caprichos dos adversarios, entreos quaes o subdelegado, figura saliente, que se muda no sertão todas as vezes que sobe um partido. O ensejo era magnificopara uma desforra. Quando nada um processo por crime de cumplicidade, que arredariao adversariodas proximas eleições.

O subdelegado saboreava o goso da perse guição, embora longe ainda. Ancioso, esperava o dia de iniciara vingança. Aberta a audiencia na camara municipal á hora annunciada pelo beleguim, sentou-se a auctoridade á cabeceirade uma mesa, tendo a esquerda o seu escrivão. Ao lado de um pequeno boião de barro, que servia de tinteiro, estavam alguns livros: Guia do Processo, um Codigo Criminal, as Horas Mariannas, emfim o indispensavel para iniciar a mais complicada acção criminal. Escriptasno altode uma folhade papel as palavras sacramentaes: --Aos tantos dias de tal mez do anno tal- de N. S. Jesus Christo, e feita a descripçãosuccintado assassinatoe do logar onde se déra, fazendo carga, mais ou menos, ao dono da casa, o escrivão começou a escrever o exame cadaverico dictadopela commissão de peritos ali representada pelo boticario.

A sciencia de Hippocrates estava malamparada no feito. O perito, que fallavaabrindo caminho á justiçapublica, tinha-se em conta de profissional, pois prestara exame perante o Physico -mór de Pernambuco, no tempo de El -rei, nosso Senhor, de Portugal. Examinador e examinando em sciencia medica corriam parelhas. Os conhecimentos d'aquelle cifravam -se na leitura quotidiana do Curvo Semedoe este manipulava dóses de quintiliopara curar todas as molestias. O boticario respondeu a todos os quesitos. Quando teve de determinar a causa da morte e o instrumentoque a produzira, o velho endireitou-se na cadeira, procurando o mais pos sivel desdobrar o espinhaço de octogenario, e disse:

-O instrumento que produziu a morte, foi faca de ponta e a causa foi o mesmo instrumento, que atravessou metade da fossura. Concluido o exame, começou o subdelegado a fazer o inquerito, com o fim unico de envolver no crime o seu adversario politico. Já tinha comprado testemunhas, entre as quaes o sapateiro da villaque, havia quarenta annos, usava da sovela e de jurar falso em todo processo clandestino que se forjava no logar. Nunca fôra testemunha de vista, istonão, por dinheiro al. gum. Por ouvir dizer, sempre estava prompto e tanto era assim que o subdelegado tinha ido sondalo na vespera, como o visinhomais proximo do logar em que se dera o crime, para ver se elle juraria de vista, e nada conseguiu.

-Conte -me a historiaque quer que jure, e está servido, disse elle. O subdelegado contou que era voz publica que o dono da casa chamou Honorato para dentro da sala e, com o Brilhante, Soares e Silvestre, mataram -no. -Pode ir descansado, já posso jurar por ouvir dizer toda a sua historia, disse o sapateiro. Depeseram algumas testemunhas e todas indigitavam o inimigo politicodo subdelegado como um dos auctores do assassinato. Cinco dias durou o inquerito, findos os quaes foi cercada a casa onde tinha sido morto o Calangro e preso Botelho, como principal co -réo. Levado á presença da auctoridade, foi in terrogado e disse que na occasião do assassinato estava em sua taverna no mercado, o que provava com o testemunho de muitos feirantes e o do sapateiro, seu visinho, com quem esteve toda manhã e acompanhou da feiraaté sua casa, quando o povo ia descendo para o logar do conflicto.

O subdelegado disse não duvidar das palavras do accusado, mas que a voz publica o apontava como um dos auctores da morte, e que o testemunho do sapateiro, invocado em seu favor, nada destruia, pelo contrario mais corroborava a imputação; para provar que procedia com a maior isenção de animo, mandou ler pelo escrivão o depoimento de todas as testemunhas. Botelho ouviu em silenciotudo o que o nota rio leu e, indignado com o manejo de seus adversarios, dissepara o subdelegado: - Hoje por mim e amanhã por ti. . . A auctoridade mandou aos soldados e beleguinsque recolhessemo preso á cadeiapublica, onde seria conservado até o julgamento do tribunal competente.

Botelho era assim perseguido; e o Brilhante, livre em sua casa, gosaria da paz de uma vida tranquilla, se não tivessejá enfermo o espirito, cheio de idéas de vingança. No dia do homicidio pernoitou em casa de seu pai, onde chegou com os companheiros ao escurecer. O veľmo Soares recebeu os com as lagrimas nos olhos; seu coração tinhatudo adivinhado. A 'noite, posta a ceia, serviram-se e Jesuino comeu a sua tigellade coalhada com bom appetite e sem dar mostras de grande preoccupação. O velho, inteiradode tudo pelo filhoJoão, admirava se da calma do Brilhante, que só era perturbada, de longe em longe, por algumas contracçõesdos musculos das faces.

Jesuino tinha consciencia do crime que haviacommettido. Durante as primeirashoras, suas idéasestiveram confusas a ponto de quasi tudo ignorar. Esse estado de exaltação, de atordoa. mento, serenou e elle lembrou -se então do que setinha passado. Não se perturbou, nem teve remorsos. Achou regular o seu procedimento e, como um criminoso provecto, afastava de si toda a idéa que podesse mortifical-o inspirando-lhe o mais ligeirosentimento de piedade pelo morto. O velho Soares lembrava -se que Cazuzinha havia tambem recobrado o sangue friodepois do primeiro crime e ninguem mais o conteve. Era, entretanto, dever de pai, procurar desviaro filhodo caminho em que ia, tentarfazel-o parar, pois a queda no abysmo seriainevitavel.

Assim pensando, finda a ceia, dirigiu-se á Jesuino: -Sei que mataste um homem. . . --E nào matei dous porque erreio alvo, interrompeu o Brilhante. O velho, assim interrompido sem a devida cortezia, calou-se emquanto sua alma desabafava a magua em uma multidão de lagrimas, que rolavam nas faces, e de soluços, que lhe estrangulavam a garganta. Jesuino rendeu -se de todo á emoção que Thecausou no espiritoo pranto do pai, tornouse tristee dispoz-se a ouvil-o sem replicar mais. Soares tudo vira no rosto do filho e continuou: -Meu filho, estáscavando assim a tua ruina e a dos teus. Sei que fosteinsultado, mas deviaster tido mais prudencia e evitado quanto possivel assassinar o teu inimigo. Alguns de teus avós foram criminosos, quanto nos custaram a nós e a elles as suas faltas! Não te é estranha, meu filho, a historia de Cazuzinha, e devo confessar com franqueza de pai e amigo, que está reservada para ti a mesma sorte que elle teve, se não abandonares, já e já, esta terra.

Emigra, vai para bem longe desta familia de perversos que ha mezes procura nossa perdição. Deve ser te custoso deixar o logar de teu nascimento, as amisades dos primeiros annos, porem, mais custoso será supportar a vida trabalhosa que te espera. Partes, não é assim? -Não, meu pai. -Sahe ao menos por alguns mezes d'aqui; deixa o tempo esfriaras paixõesque incendeiani os animos, o teu e dos que te querem mal. Eu te facilitareios meios de te pôres longe das intrigasque crescem dia a dia, e tomarei, durante a tua ausencia, conta de tua familia. --Dirão que matei e fugi. -Deixa apreciar a tua retirada como quizerem. Perante a tua consciencia não és um covarde e sim um filhoque tomou o conselho prudente de seu velho pai.

-E pensa Vmc. que, retirando-me d'aqui, cortariao mal pela raiz? -E ' possivel que se acalmassem as desavenças. -Não avalia Vmc. de quanto é capaz a perversidade daquelles cabras. Com minha re tirada se julgariam inteiramente senhores do campo, e ai de Vmc. e de meus irmãos! -Experimenta, sahe, e se formos atacados vem em nosso soccorro. -Vou pensar, meu pai, e direimuito breve se tomo ou não o seu conselho. E assim terminou a reunião, retirando-se cada um para sua casa, ficando o velho Soares a lamentar em silencio a sorte do filho. O Brilhante chegou a sua fazenda já tarde da noite. Todos dormiam. Chegando ao quarto, acom panhado pela mulher que veiu abrir-lhe a porta, despiu se e deitou-se sem nada lhe dizer do que se tinha passado durante o dia.

Uma semana esteve ellesem sahir, sem dizer cousa alguma sobre o occorrido. A mulher continuaria a ignorar o crime se uma tarde não ouvisse uma conversa do ma. rido com João Soares, a qual inteirou-a de tudo. Ficou afflicta e interrogou Jesuino quando se viram sós. Elle disse-lhe tudo, a resolução em que estava de viajar, em obediencia ao pai, o que suppunha não levariaa effeitopor causa da noticia que lhe acabava de dar seu irmão, vindo do Patú, da prisão de Botelho como cumplicedo assassinatodo Calangro. Jesuino declarou a mulher o proposito em que estava de se apresentar como auctor do crime. Ella quiz dissuadil-o, mas elle cortou a discussão assim:

-Seria eu o mais infame dos homens se consentisseum innocente pagar as faltas, que commetti. Amanhã restabelecerei a verdade; direiá justiçaque é a mim que elladeve punir. O Brilhante não dormiu toda aquella noite. Quando os galloscomeçaram a amiudar, já elle estavade pé, armado de punhal e bacamarte, de sahidapara o Patú. A's nove horas do dia entrava na villa com admiração de todos os que o viam passar. Dirigiu-se á casa do subdelegado e lásoube que este estava dando audiencia. Seguiu para a municipalidade. Apeiou se na porta, amarrou, com o maior sangue frio, o cavallo no frade, e entrou na sala, calmo e sereno. O tinirdas pesadas espóras de prata nas lages do pavimento despertou a attenção dos circumstantes, que o fitaram estremecendo. O subdelegado interrogava Botelho e o escrivãotomava o depoimento.

Não se ouviu mais palavra. Aturdidos com a apparição, olhavam surpresospara Jesuino que descobrindo -se disse: -Dão licença? . . . O subdelegado não teve voz para responder e, muito menos, pernas para se levantarda cadeira. As scintillaçõesdo bacamarte do Brilhante eram de uma eloquencia feroz. Os soldados, que guardavam o preso, embasbacados, n'um accesso tremedor de medo, suando frio, teriam corrido se tivessem pernas para isso. O escrivão, n'um entorpecimento do corpo e d'alma, deixava a penna garatujara escripta sem poder impedir o tremor da mão n'um constante tremelicar. O proprio Botelho perdera a calma e estava um tanto desnorteado. Os curiosos que assistiama audiencia, sahiram immediatamente após a entrada de Jesuino. O Brilhante approximou -se da mesa e collocando o couce d'arma sobre ella, fallou ao subdelegado:

-Constando -me que está sendo processado o meu parente Botelho como cumplice do assassinatode Honorato Calangro, feitopor mim em sua casa, venho declarar á justiça, que fui eu, e sómente eu, quem matou o referidoHonorato; que Botelho nem estava em casa na occasiãodo conflicto, e finalmente que estou prompto a responder perante os tribunaes pelo que fiz; mas sómente depoisque o sceleradoFrancisco Calangro fôr punido pelo assassinatoque praticou, a minha vista, na pessoado ex-subdelegado do Patú. A vista desta minha declaração, supponho que a policia nada mais terá com o meu parenteallie que ellepode desde já voltarao seiode sua familia e cuidar de suas obrigações.

Não é assim, Snr. subdelegado? -Assim é, sim. . . gaguejou a auctoridade, a bater o queixo como se estivesseatacada de maleitas, O Brilhante não abusou da sua força, nem do quebramento de animo que a sua presença tinhaproduzido na policiado Patú. Despediu-se do subdelegado e do escrivão com respeitosa veniae approximando -se de Botelho, apertou -lhe a mão, dizendo: -Vamos. O parente levantou -se e seguiram de porta a fóraconversando, emquanto os circumstantes estateladosdesejavam que o Brilhantese pozesse longe. Chegado á rua, Jesuino desatou o cavallo, que foi puxando, sempre ao lado de Botelho até a casa deste, onde deixou-o para voltará sua fazenda.

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