Capítulo XLIII Os Brilhantes · Capítulo 43 de 48
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Capítulo XLIII

Grande foi o desapontamento do commandante da força publica quando, pela manhã, lhe vieram dizer que a cadeia estava vazia, sem armas, e a sentinella amarrada. A noticia da fugida dos presos espalhou -se por toda a cidade com rapidez e pôl-a em so bresalto. Eram algumas dezenas de féras, que se acoitariam nos arrabaldes para commetterem toda a sorte de crimes. Os soldados, corridose envergonhados, não sabiam como responder ao superior. A sentinellacontou que fôrasurprehendida pelas costas e agarrada por quatro homens que a amarraram e lhe poseram mordaça. Estava mais ou menos justificada. O commandante veiu á cadeia acompanhado de todas as auctoridades da cidade e grande massa de povo.

Inquerida a sentinella, souberam ser aquella uma façanha dos Brilhantes. O capitão estomagado e insuflado pelos inimigos de Jesuino, que tiraram partidodo acontecimento, decidiu-se a perseguir os incendiarios, até prendel -os ou matal os. Armas e munições foram fornecidasá tropa por um matuto rico, inimigo figadal dos Soares. A ' serra das Cabeças foimandado um emissario afim de reunir os Calangros, para guiarem a força aos valhacoitos dos Brilhantes. Poucos delles haviam escapado a secca e ao bacamarte do inimigo. Vieram os que po diam brigar e a tropa se organisou. Jesuino deixou Pombal ao amanhecer, depoisde convencido da retiradados sentenciados.

Estacionou nas Barrocas o tempo necessario aos companheiros para fazerem o transporte do armamento e, ainda pela manhã, partiucom o sequito para o Patú. Entrou desassombrado na villa, e depois de visitaraos amigos e parentes, tomou o caminho da casa de seu pai. Duas dezenas de leguas havia feito, de Pombal á fazenda do velho Soares A grande vivenda sertaneja, tão bellapela sua posição topographica, escondia-se n'um espesso bamburral, que o inverno havia creado e era poupado pelos moradores, cujo abatimento moral não lhes dava forçaspara cousa alguma. No espaçoso pateo, apenas serpeava uma apagada vereda, que ia ter á casa. Jesuino tomou o estreito e tortuoso caminho.

O cerrado mattagal de mata pasto e marmeleiros encobria os cavalleiros até a copa do chapéo. O Brilhante caminhava, pensando no abandono em que tinham ficado aquelleslogares, tão queridos de sua alma. O pateo sempre limpo, sempre varrido, sem um pé de malva sequer, estava agora feitouma capoeira em fim d'aguas! As reminiscencias dos tempos da infancia lhe acudiam á mente, se avivavam as vagas recordações da mocidade e o criminoso embe vecido, contemplava aquellesquadros, os unicos quadros innocentes de sua vida. As juritys, pousadas nas moitas de mufumbo, arrulavam saudosas, e o seu canto, um gemido longo e plangente, se enterrava inteiro pela alma a dentro de Jesuino, e ellescismava nos dias de felicidadeque haviam passado e para sempre havia perdido.

As nambús, espantadas com o tropeldas cavalgaduras, se levantavam dos ninhos, num vôo rapido de flexa disparada; o zunido metallico de suas azas, cortando os ares, trazia ao espirito do criminoso saudades de seus tempos de menino! . . . Até a teimosiado negro sanharão, com as patas louras de pollen, procurando ennovelar-se nos troncos da barba do Brilhante, era recebido com agrado por aquelleinfeliz, sequiosode tudo que lhe recordasse os bellos dias placidos da infancia! Tudo ali fallava-lhe ao coração. Não havia uma pedra, uma arvore n'aquelle sitio, que não tivesse uma ligação mais ou menos intima com os seus dias de moço. Assim cavando o passado, chegou com sua gente ao terreiroda casa. As portas estavam fechadas, como se nin guem morasse ali.

O Brilhante olhava mais surprehendido ainda para o estado de abandono da vivenda. As heras tinham invadido até o peitorildas janellas. Os musgos enfeitavam os beiraes da tacaniça, como verdes lambrequins. O lodo es verdeava as paredes e os bancos de aroeira que se encostavam no claro das portas. As lagartixas caçavam os minusculos insectos que viviam n'aquellaflorestaem miniatura. Um ar soturno de estancia abandonada se percebia para onde quer que se lançasse a vista. O proprio curral tinha os esteios dentro de um balseiro de melão S. Caetano, e corridosos páos da porteira fechavam uns quatro bezerros, das poucas vaccas que a secca havia poupado.

Em diversos pontos da frente da casa, viam se as mossas que as balas haviam deixado no reboco. As portas e janellas estavam tambem crivadas de buracos redondos, como feitos a púa. O Brilhante, farto de contemplar aquellas tristezas, bateu á porta dando o signal convencionado, a senha do sequito. A porta não se demorou em abrir-se eo velho Soares apressou -se a recebel-os. Jesuino entrou com os parentes; e os seus guarda -costas, recebendo as cavalgaduras, rodearam a vivenda e foram se arranchar na casa de farinha. A espaçosa sala, pouco illuminada pela luz que entrava por uma unica porta, tinha um ar sombrio que mais accentuava o silencio e falta de habitantes. Aquella estancia parecia abandonada desde muito tempo aos morcegos e ás aranhas. A atmosphera era humida e tinha um cheiro particular de môfo.

As cadeiras estavam em desordem, algumas de pernas para o ar, com a solla dos assentos coberta por uma camada de pó. Tudo ali reve lava grande abandono e o desanimo que ia pela alma dos moradores. Soares sentou -se e cercaram -no os filhos e mais parentes. Estiveram alguns minutos no mais completo silencio; ouvia-se o murmurio das respirações e o voar das moscas. Jesuino, ancioso de novas, de se pôr a par dos ultimos acontecimentos que tiveram por theatro aquelle sitio, e dos quaes a mossa nas paredes e buracos nas portas eram vehementes vestigios, pediu ao pai uma conferencia, e seguiram os dois para o interiorda casa. Antes de findar-se o comprido corredor, pararam á porta de um quarto vazio e entraram. Duas redes armadas, perto uma da outra, era toda a mobilia do aposento. Cada um tomou a sua e sentou -se. O velho, com grande serenidade e sem mostras de fraqueza, contou ao filhoas perse guições de que fôra victima, desde o prejuiso dos escravos até a prisão injusta que soffrera.

Mostrou-lhe as cicatrizesdos pulsos, e em phrases graves e concisas, relatoulhe a tortura moral que o opprimira quando, em caminho, lhe castigavam os filhos. O Brilhante espumava de colera e o velho, vendo -o assim temeroso, receiando novos e maiores desastres, disse: -Por meu gosto, meu filho, não continuarás na vida trabalhosa que tens levado ha quasi nove annos. E ' já tempo de abandonar as armas e de emigrar, pois na terra de teu nascimento não poderás viver. O meu conselho é que dissolvas hoje mesmo o sequitoe que amanhã deixes para sempre estes logares, onde foste tão infeliz. -E os ultrajes feitos a Vmc. , a meus irmãos e até a minha santa mãi, ficarão impunes?

Os cabras das Cabeças são covardes, mas perversos. Quando souberem que estoulonge, virão aqui e Vmc. será victima dos maiores insultos e acintes. -O parecer de todos nós é que emigres. A tua retirada abrandará a colera dos nossos inimigos e deixar -me -hão em paz. -Não devo e nem posso abandonar o campo! Jesuino calou se como escutando, depoislevantando -se, disse com precipitação: --Não tarda aqui a força, bateu -me o co ração. Vou acampar perto. Feche suas portas e na hora do perigo estarei com Vmc. E o Brilhante, atravessando o corredor, veiu á sala e disse aos companheiros o que pensava, sahindo com ellesa tomar as cavalgaduras. O velho Soares fechou a porta e quando voltava, encontrou -se com a mulher que, morta de saudades dos filhos, vinha vel-os, abraçal -os e pedir -lhes que deixassem as armas. Não os encontrou e soube, para maior desassocêgo de sua alma, que tinham sahido ás carreiras por que Jesuino tivera o presentimento de que uma força chegaria em breve. Ainda bem os Brilhantes não se tinham encoberto de todo no caminho, que cortava a matta ao poente, entrava pela vereda do pateo da fazenda o piquete de Pombal. Era uma força de mais de trinta ho mens, paisanos e soldados, commandada pelo capitão, toda a cavallo e bem armada.

Os Brilhantes pararam a um kilometro da fazenda e se metteram em uma gruta, que terminava por um cocoruto ôco e crivado em di versos pontos de buracos grandes e pequenos. Este esconderijo, apenas accessivel pelo lado do sul, era conhecido por pedra furada e, pela altura em que estava collocado dominava uma area de alguns kilometros. Os criminosos deixaram os cavallosno pavimento terreoda gruta e subiram ao andar superior. Jesuino tomou logo posição, apossou -se do oculo fronteiroá fazenda do velho Soares e não tirou mais os olhos d'ella. A força cercou a casa; um soldado diante de cada porta e de cada janella. O Brilhante via mais ou menos o que se passava na vivenda, e o que os olhos não podiam ver, adivinhava-o a perspicaciado homem pratico e habituado ás luctas.

A' pedra furada, até então em silencioquasi completo, chegavam as primeirasondas de um ruido surdo e confuso, depois o rumor de algazarra, de vozeria, e por fim o som cavo de bordoadas. Jesuino comprehendeu que os inimigosprocuravam arrombar a casa do velho. Fiel á sua promessa, disse aos companheiros: -Fiquem todos aqui de vigiae preparados para a lucta, que vou fazer um reconhecimento. E desceu com precipitação. -E ' uma temeridade, Jesuino, ponderou João Soares. O Brilhante, sem parar, respondeu: -Disse a meu pai que estariacom ellena hora do perigo. E chegando ao pavimento onde descançavam as cavalgaduras, montou -se no Exhalação e partiu.

O cavallopareciainteiradoda pressaque tinha o senhor e tão veloz corria que parecia voar. Eriçadas as clinase a cauda, de cabeça erguida, o animal se estirava de deveza a fóra em carreira de galgo, sem que fosse preciso tocal-o o chicote ou a espora. A deslocação do ar era tal que quasi atordoava cavalloe cavalleiro. O vento zunia nos ouvidos e o solo e as arvores, aos olhos de Jesuino, se empastavam n'uma téla de confusos tons. Pouco mais de dois minutos gastaram para vencer a travessia. O Brilhanteparou quasino pateo da fazenda; protegido pelo cerrado bamburral, ouvia claramente as palavras insultuosas dos Calangros e a intimação dos soldados na frente da casa.

De quando em vez, davam uma bordoada de coronha na porta ou nas janellas. Jesuino ouvia tudo e querendo ver tambem, tocou de leve a redea do cavallo, e este se esgueirou até onde outro signal do senhor fel-o parar. Por entre o mattagal, descobriu Jesuino o acampamento do inimigo ao alcance de seu bacamarte. Não erraria o tiro. Um violento estremeção sacudiu -lhe os nervos quando descobriu o cerco da casa paterna. A sua physionomia, em uma crispação horrida, tinha um ar diabolico e aterrador. O Brilhante parecia possesso durante aquella crise de nervosismo e todo odio, todo fel, no accesso que o allucinava, derramaria todo o sangue dos inimigossem conseguir saciar a sêde de vingança, o desejo de exterminar.

O espasmo serenou e pôde com mais calma enfrentar a situação. Era impossivel bater-se em campo descoberto contra trintahomens. Devia provocar os inimigose fugirpara a pedra fu rada; lá então, intrincheirado, pelejare matalos a todos. O cartel de desafio seria um tiro de bacamarte sobre a força; saber contra quem disparar a arma, é o que estava demorando a provocação. Os que mais se mostravam dignos de bala, eram o commandante do piquete e um Calangro que vociferava, lançando os mais vis improperios sobre a familia Soares. O Brilhantelastimavasó poder dar um tiro. Matando o cabra, ficariao capitão. Continuavam as ameaças de arrombamento, mas as grossas e rijasportas resistiamás pancadas que atiravam os soldados com as coronhas das armas.

Na faltade machado, lembrou-se um dos Calangros, o mais falastrão, do expediente que usara o Brilhante para arrombar a cadeia de Pombal e gritou: -Queime -se a porta. A idéa foi acolhidapor todos; cada qual procurava ajuntar no pateo braçados de gravetos e conduzil -os para o limiar da porta. Em breve uma tulha de lenha se erguia á entrada da casa e o Calangro que lembrara o alvitre, arranjava o facho para atear o incendio. A labareda se ennovelava roendo o molho de gravetos, e o mestiço, para actival-a, soprava com toda a força dos pulmões. Quando julgou bem forte e segura a chamma, o incendiarioapproximou -se da tulha de combustivel e procurava fazer n'ella a cama em que deitaria o facho, quando se ouviu o estampido de um tiro.

Attonitos, olharam uns para os outros. O incendiario cahira de bruços sobre o facho, baleado na cabeça; logo expirou. O capitão recobrando o animo, que o tinha abandonado nos primeiros segundos do aconte cimento, procurou saber de onde partira a detonação. Olhou em derredor do acampamento e viu a poucos metros de distancia uma tenue e azulada espiral de fumo subindo para as regiões ethereas. Era o logar de onde partira o tiro. Reunida a força com a maior presteza, o commandante fel-a seguir para o sitiosuspeito. As primeiras praças que entraram no bamburral, deram com o Brilhante, que, vendo -as, deitou a toda brida, recebendo pelascostasalgunstiros que não o alcançaram.

Segundos depois, os soldadosque perseguiam Jesuino, embora picassem os cavallos, não viam mais a poeira levantada pelos cascos do Exhalação. O Brilhante estava longe. Seguiram -no. Não era difficilsaber o rumo; por onde passava o criminoso, ia ficando aberta uma batida no cerrado mattagal. Corriam com vontade de alcançal -o, quando a trilhaacabou -se no sopé de uma grande rocha de granito. Os cavallos estacaram no lagedo e, antes dos cavalleiros orientarem se, o cocoruto vomitou por todas as aberturas uma nuvem de fumo e immediatamente atroou os ares o estampido de uma fuzilaria. Um grito unisono partiu dos soldados: mortos e feridos cahiram, com as cavalgaduras que montavam.

O commandante, que vinha atraz com o restodo piquete, ouvindo a detonação, fustigava o cavallo e mandava que os soldados corressem em soccorro dos companheiros. Os Calangros, aterrados com a ousadia de Jesuino, que se atrevera a matar um d'ellesno meio da escoltado governo, haviam ficadotodos, a pretexto de cuidar do parente morto. A força corria em direcção á pedra furada, mas a duzentos metros d'ella, o capitãodemorou a vista casualmente no cocoruto e viu o perigo de approximar -se. Mandou fazer alto; dois soldadosque iam adiante, não tendo ouvido a ordem, seguiram, porem, não chegaram á base da rocha; nova descarga e elles cahiram mortos.

O capitão comprehendeu bem a posição dif ficilem que se achava. Tinha perdido já cin co homens e perderia todos si continuasse a marcha. Nada conheciad'aquelleslogares, e sem guia, era bem possivel cahir, como um parvo, na mais grosseira emboscada. Parecia fóra de duvida que Jesuino com o seu sequitoestava mettido n'aquellafurna, protegidapelamatta densa, que cobria o terreno de norte a sul. Reuniu a gente e acampou. Era possivel sitiar a trincheira, que, pela posição, pelas faces que mostrava, parecia inaccessivel. O commandante era homem valente. Pouco conhecia a arte da guerra, e em combates só tinha entrado nos simulados. Era preciso muita prudencia para não se deixar bigodear pelos Brilhantes.

Pensou em pedir soccorro para Pombal, mas era quasi certo não chegar a tempo. Os inimigosdos Soares, tendo noticiade que Jesuino estava cercado e prestes a morrer de fome ou se entregar á justiça, viriam todos en grossar o cerco e não faltariam provisões. Sabendo disso, o capitão mandou um soldado á fazenda do pai do Brilhante avisar os Calangros do occorrido e pedir-lhes que fossem a Pombal relatar o que se passava afim de vir com grande pressa algum soccorro. Jesuino, pelas vigiasdo cocoruto, espiava a força. Os companheiros faziam o mesmo com as armas preparadas para atirar. O dia já declinava muito e nem o piquete se mobilisava e nem os Brilhantes deixavam as posições.

Jesuino achava perigosa a situação. Lembrou-se de evadir-se, mas temia as emboscadas. Era provavel a existencia d'ellasnas cercanias da pedra furada. Os Calangros, conhecedores do terreno, teriam bem acoitado alguns soldados para impe dir a fuga. Via que a escolta diminuia cada vez mais e estavasendo, sem duvida, espalhada pelos arredores da trincheira. Não se illudia o Brilhante. O capitão havia formado um piquete e mandado, com maxima precaução, reconhecer o terrenoe a posição topographica da pedra furada. Os enviados houveram -se com grande habilidade. Voltaram ao pôr do sol a informar sobre a fortificaçãode Jesuino. Só havia uma entrada, que era tambem sahida; vedada que fosse, estavam ellesseguros. Scientesd'isso, o capitão levantou o acampamento e foi, de matta a dentro, contornando a rocha atépostar-se na direcção da entrada da furna, fóra do alcance das balas dos inimigos. Acampou. Jesuino presenceou parte da manobra, mas não pôde ver que direcção havia tomado a escolta. Sahiu, de vigia em vigia, observando o campo de norte a sul, de leste a oeste; só descobria a matta e o céo.

A noite veiu e escondeu a tropa. O commandante, aproveitando a escuridão, avançou, evitando o menor ruido, e foise pos tar a cincoenta metros da entrada da furna. Ahi, todos a postos, esperavam que sahisse algum rumor da rocha para dar uma descarga cerrada na entrada da mesma. Os Brilhantes estavam esmorecidos, excepto o chefe, que não se rendia e muito menos dava mostras de fraqueza. O que o inquietava, era o jejum das cavalgaduras, que, com os va zios lá dentro, n'uma tristezamortal, roiam os freios, olhando desejosospara o capim, que cobria o solo, perto da gruta. O sequito, baldo de todo de provisões, sem comer nem beber, perderia as forças, e a victoria seria dos inimigos.

Jesuino comprehendia bem a difficuldade da situação. Continuar entalado n'aquella garganta de pedra, até os inimigos agarrarem -no, como um criminoso commum, o Brilhante com issonão se conformava. Os companheiros, já um pouco abatidos pela fome, se conservavam em silencio. Os traços das physionomias denotavam o desanimo que lhes ia pela alma. A noite estava em meio e, do acampamento inimigo, chegava á pedrafurada um vago rumor. Jesuino percebeu -o e ficou muito apprehensivo. Era sem duvida algum reforço que chegava de Pombal. A situaçãocada vez mais se complicava. Com viveres e munições, resistiriaao du plo dos inimigose a victoriaseriasua, mas, sem pão e sem polvora, só poderia escapar, e isso difficilmente, fugindo.

A força das circumstancias o coagira a ac ceitar a fuga como o unico meio de salvação. Adiando -a, seria certo o desastre. Não contava nem com os cavallos. Dos animaes, só o Exhalação e o Peixe Branco poderiam correr ainda uma legua, os outros talvez nem metade. O tempo corriae o sol, assomando no horisonte, maiores difficuldadeslevantaria, tornando assim a fuga impossivel. Aos companheiros disse o Brilhante, com a maior franqueza, o que pen sava da situação e a sua idéa de fuga. Ouviram -no e se entregaram nas mãos d'elle. O chefe não desmerecia o conceito que fa ziam d'elle. Conservava inteiro o animo e uma calma de espantar. A ' hora de deixar a gruta, acenou que o seguissem, e desceram todos ao pavimento terreo.

Ahi tomaram os cavallos, prepararam as armas e tendo na frente Jesuino, sahiram a toda brida pela bocca da caverna. A noite estava escurissima. O ruido cavo dos cascos dos animaes no lagedo repercutiu no espaço e poz os inimigosalerta. Os fugitivos protegidospela escuridão corriam sem rumo, e a força que os cercava, ouvia-lhes a carreira, mas não lhes via os corpos. A inação da tropa durou poucos segundos; detonou um bacamarte, depois outro e mais outro, emfim cerrou-se o tiroteioás cegas, sem alvo, na direcção do tropel dos cavallos. Os soldados e paisanos corriam ás tontas, ás cabeçadas, atirando sempre. O sequito, que havia partido junto, se dispersou logo.

O Exhalação, em poucos instantes, sahiudo alcance das balas. Jesuino nada via; a carreira em que ia, não deixava ouvir mais que o zumzum do vento, que lhe entrava pelosouvidos, ou o sibilar de alguma bala que lhe passava zunindo perto da cabeça. Não sabia dos companheiros, havia soado a hora suprema do- salve-se quem poder. João Soares, montado no Peixe-Branco, havia, com grande riscode vida, atravessadoo campo inimigo; seguia em rumo differentedo irmão. Silvestre e Cobra Verde atordoaram -se logo nos primeiros segundos da carreira, completamente tontos pela escuridão; moderaram a andadura dos cavallos e foram alcançados pelas balas da tropa. Silvestre cahiu ferido e CobraVerde perdeu o cavallo.

O mestiço sahiu de gatinhas tacteando pela treva, a procura de um esconderijo, deixando o companheiro no solo, a estorcer-se de dor. O Brilhante continuava a correr á desfilada, de matta a fóra. Não sabia o rumo que levava, mas parecia-lhe marchar para o norte e em breve entrar em franca varzea. A floresta, entretanto, cada vez mais se espessava e o terreno, em vez de plano, se accidentava. Jesuino illudira-se, caminhava para oeste em direcção à Serra Preta. O solo se eriçava com os contrafortes da montanha e começavam as ladeiras de declives ainda bons de subir. Ao Brilhante passava despercebida a desegualdade do solo e, pensando somente em se pôr a salvo das armas dos inimigos e perseguil-os depois, animava o cavallopara mais depressa correr.

Cegos aos precipicios, que escondiaa noite, sem enchergarem os abysmos, que enchia e disfarçava a escuridão, seguiam cavallo e cavalleiro, quando a terra desappareceu dos pés do animal e cahiram ambos de fundura abaixo. Jesuino sentio um vazio do estomago á cabeça, como se todas as suas viscerasse tivessem reduzido a gaz, e, num atordoamento difficilde definir, entrelacouas pernas na barriga do cavallo, abraçou-se com o pescoço do animal, e os dous em um novello rolaram no espaço até que chegaram á terra. A queda durou um instante, e nesse curtissimo espaço, o Brilhante não teve uma idéa. Tinha o cerebro de todo vazio. Assim continuaria se o choque da queda não o arrancasse do selim, e o atirasse ao chão, abalando -o até os miolos. Seguiu -se a detonação de um tiro, que foi echoando de quebrada em quebrada, de covoada em covoada, até o som esmorecer de todo nas profundezas do espaço.

O criminoso ainda ouviu a detonação da arma e os seus olhos, até então entupidos pelas trevas, enxergaram uma infinidadede faiscas, que scintillavam, que se crusavam cambiantes no espaço, e depois, tudo apagou -se-lhe da vista e dos sentidos. A caverna cheia de trevas até a bocca escondia no profundo bojo as victimasdo desastre. O silenciodo antroera interrompido, de espaço em espaço, por um gemido grosso e fundo, que parecia sahir das entranhas da terra. O resto da noite se passou e a claridade do sol se refractava no levante muito antes do apparecimento do disco do astro. O pallido crepusculo matutino se derramava pela terra a fora, seus raios chegavam aos cimos das montanhas e desciam ás funduras das cavernas.

Era enorme a gruta onde o Brilhante tinhase precipitado. A luz entrava de furna a dentro, allumiava uma profundidade de dezenas de metros, mas não chegava ao fundo. Jesuino, em um barranco, n'uma anfractuo sidade do precipicio, especie de prateleira, que sahia da rocha, estava desaccordado. O choque que o desmontara, levou-o de rojo de alcantilabaixo até cahir na prateleira. Ahi ficou estendido n'aquelle pedaço de barro, quasi pendurado na parede do abysmo Não havia anteparo que o protegesse. O corpo, mudando de posição, não encontraria espaço para occupar e rolaria. O Brilhante esteve assim até que os raios quentes do sol, batendo-lhe em cheio no rosto, o reanimaram, fizeram -no tornar a si.

Accordando, nada viu; de palpebras pregadas, não podia abrir os olhos. Sentou -se e levou a mão ás pestanas; estavam grudadas, e com grande custo começou a soltar os cabellos da massa que os unia. O dia para elle foiamanhecendo aos poucos e se coando a luz atravez dos pequeninos espaços abertos entre as louras pestanas. Tirada a venda, Jesuino viu, com espanto, que estava sentado á beirade um precipicio. O cerebro ainda se resentia da queda, e um vago atordoamento fazia-lhe a cabeça leve; zuniamThe os ouvidos. Lembrou -se da fuga, estava tudo explicado. Restava saber se podia contar com os mus culos para escalar o penhasco. O corpo todo lhe doia e algumas ecchymoses o azulavam em differentes partes; mas os membros estavam inteiros, nenhuma junta tinha-se luxado.

A testa lhe ardia muito e o Brilhante, desconfiando de um ferimento, pelo sangue coalhado que lhe entupia os olhos, e manchava a roupa, levou a mão á fronte; uma brecha se abria em quasi todo o frontal. Jesuino pensou no caso, mirando o sitio. Cercava -o um precipiosó. Em uma de suas investigações, viu dentro de uma socava, pouco abaixo delle, a cabeça do Exhalação. A distancia não lhe permittia saber se o cavallo estava morto ou vivo. O Brilhante pensou logo em sahir d'ali e ir ter com o seu amado corsel. Poz -se de cocoras para experimentar as pernas; nada sentiu. Ajoelhou -se depois e teve uma ligeira tontura. Ergueu -se e quasi teve uma vertigem. Temendo precipitar-se, sentou-se e, pouco a pouco, passou-lheo atordoamento. Sentia, entretanto, que sua cabeça não estava bôa, as vezes parecialhe ôca, outras vezes grande de mais.

Parecia tresnoitado, com um tresnoitamento de semanas, tal era o mal estarque lhe esmorecia o corpo e alma. A quentura do sol, em vez de espertal -o, o abatia. Só havia um caminho para sahir d'ali, e este era uma cristade penhasco, ingreme e perigosissima. Para subil-a era pre ciso ir de rastos, como as serpentes. Como não era preciso levantar-se para transpor o abrupto desfiladeiro, Jesuino partiu, arrastando-se. Assim mesmo, de quando em vez, parava, fechava os olhos, evitando assim ver a fundura da gruta. A Titélado Perigoera tambem um abysmo profundo, e elleo transpunhasem o mais leve arripio. Agora, qualquer buraco lhe ameaçava vertigem, pelo sangue que perdera.

O Brilhante conseguiu, depois de algumas horas de lucta, durante as quaes a vida esteve muitas vezes em perigo imminente, chegar a uma furna que se abria na parede da gruta. Ali estirou-se na planura da pequena caverna, moido de cançaço. Quasi toda a epiderme das mãos e pés, ficara nas pedras e cipós em que se havia agarrado para não cahir. O corpo estava cobertode arranhaduras abertaspelosespinhos, que as agruras da rocha não consentiam evitar. Descançou um pouco e continuou o caminho. Muitas vezes foi-lhe preciso descer de costas tal era a ingremidade dos declives. De perigo em perigo, arriscando a vida a cada passo, chegou Jesuino a uma sentada espaçosa, onde suppunha encontrar o seu cavallo. Não se illudiu.

Um gemido o orientou, e o criminoso tomou a direcção do lamentoso som. Proximo, dentro de uma rasa socava, lá estava o Exhalação. Jesuino o avistou e marchou para elle. O cavallo reconheceu o senhor e soltou um relincho brando, quasi guttural- o costumado cumprimento. Grande foi a alegriado Brilhante, quando ouviu a saudação do animal, e maior o seu pezar quando, logo depois, descobriu o corpo in teiro do seu amado cavallo. O Exhalação, firmado nas mãos, tinha levantado metade do corpo; a outra metade se arrastava no chão: estava com o espinhaço partido. Jesuino chegou-se a elle, alisou-lhe as crinas, e o animal fitou-o com um olhar bondoso e docil, que o commoveu; Jesuino se abraçou com elle, e as lagrimas de ambos se fundiram estreitandoaquelle leal e supremo abraço.

O Brilhante chorava com um sentimento profundo. Parecia prantear a perda de todasas suas esperanças. O pranto serenou e Jesuino tirando os braços do pescoço do cavallo, se afastou um pouco e sentou-se. Os seus olhos, ainda lacrimosos, se cravaram no corpo do animal. Depois de miral-o muito, exclamou em voz convulsa: -Perdido de todo! . . . O Exhalação continuava a olhar o senhor, cada vez com mais ternura e bondade. De espaço a espaço, um gemido manifestava a dôr que o torturava. O Brilhante retirou bruscamente a vista do corpo do animal e, todo absorto em uma idéa, meditava. Chegava para aquelle espirito a hora mais angustiada da vida, o momento em que lhe era preciso grande somma de energia para não succumbir. Devia deixar aquelle sitio antes que a fome impedisse a retirada, mas, como deixar o Exhalação a soffrer, atrozmente dias e dias, até que a morte viesse alliviar-lhe as dores! A maior prova de amisade ao seu amigo de luctas, o unico meio de encurtar o tempo das agonias, era dar -lhe a morte.

Jesuino estava convencido da necessidade de matar o cavallo, mas esse acto demandava uma ancia tal, que julgava não poder realisal-o. Os gemidos, entretanto, se amiudavam, e o Brilhante, vendo que cada vez mais doídos eram elles, decidiu-se a terminar os padecimentos do animal. Arrancou a faca da bainha e se approximou do Exhalação, evitando fital-o. Quando the pareceu estar diante do peito do cavallo, calculou a direcção do coração. Ia craval -o, mas hesitou, faltouThe a coragem. O animal gemeu profundamente. Jesuino vibrou todo num espasmo de dor, fechou os olhos e enterrou a faca. O cavallocahiuestrebuchando para um lado e o senhor para o outro. Foi tal a emoção que Jesuino sentiu, quando o ferro atravessou as carnes do animal, que, tomado de vertigem, cahiu. Instantesdepois se erguia, tendo no rosto impressa a mais profunda magoa.

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