Capítulo III
O vigario, fiela sua promessa, condemnou do pulpitoo systema metrico decimal, mais por terum Y do que pelo conhecimento que tinha d'elle. O povo escutouo com toda a attençãoe antes de terminado o sermão, já todos estavam no firme proposito de reagir contra aquella ordem do governo. As velhas resmungavam, benziam se, vendo em tudo aquillomachinações de Satanaz, como bem dissera o cura. O sacristão, todo ouvidos, meneava a cabeça affirmativamente, approvando todas as theorias do padre. Concluida a pratica, entrou a missa no mais completo silencio. A igreja estava repleta, e não se ouvia o mais leve rumor. As proprias creanças de peito, incommodadas n'aquellaat.
mosphera afogadiça, a tresandar suor e sebo, estavam quietas e caladas, como se partilhassem das apprchensões que iam pelo espirito dos pais. Era talo silencio, que da porta principalse ouvia perfeitamente o latim murmurado junto ao altar pelo vigario. Os novos pesos e medidas prendiam em apertado circuloo espiritod'aquella pobre gente, que, guiada por um padre, quasi tão ignorante como ella, commetteria os maiores attentados. Entre aquellas figuras transtornadas, umas pelomedo e outras pela colera, destacava se um homem, cuja expressão do rosto, as vezes de uma tristezaferoz, impressionava mal os nervos de quem o fitava. Vestia uniforme de couro, perfeitamente acabado e novo. Pelas feições parecia contar vintee poucos annos. Havia mais on menos harmonia nas linhas do rosto, onde não se encontrava um traço que destoasse, ou fosse extravagante. Os cabellos, de um ruivo côr de fogo, casavam bem com os olhos, que tinham a mesma côr e eram ligeiramente estrabicos. A pelle alva emosqueada de sardas assentava com a cor da cabelleirae barba, que apontava, ruiva como os pellos do croatá. A estatura era mediana e o corpo franzino, porem musculoso. Esta figura, que não discordava do commum dos homens, encostadaa uma das arcadas do templo, ouvia a missa devotamente. Quem a observasse, ficaria surprehendido com as mutações que ella apresentava. O ar beatifico do semblante, que mais accentuava a funda melancholia do olhar, de repente se transformava em tão feroz catadura, quehorrorisavavêl-o. Estes eclipses, toldando por instantesa placidez da physionomia, se an nunciavam por uma serie de crispações dos musculos do rosto. A fronte se cavava de sulcos, tremiam todos os musculos das faces em rapidascontracções, os olhos perdiam a ex pressão doentia de animal que rumina, e accesos scintillavam como os da onça encabritada e prompta a pular sobre a preza. A execução de todas essas manobras era rapida como o fuzilarde um relampago. Em um instanteapagavam -se as linhas, que crispavam o semblante, o olhar se amortecia, e com tamanha rapidez dava -se a transfiguração, que ao attento observador parecia tudo isso, uma pura illusãodos sentidos. Se naquelle homem havia uma desordem mental nem sequer se podia suspeitarpela correcção do traje, pelo decoro guardado ao templo e a completa observancia das cerimonias da missa. A expressão do rosto não era de louco, nem de idiota: mas de santo ou de malvado.
Concluida a missa, foielleum dos primeiros a sahir da igreja; montou em um grande cavallo russo, e quando passava por uma das tavernas da villa, o taverneirovendo -o, disse; - Brilhante volta cedo!