Capítulo XI Os Brilhantes · Capítulo 11 de 48
Obra Menu

Capítulo XI

Esplendidas manhãs de Agosto, ricas de luz e de encantos, amenisavam a vida campesina. O espaço, a immensa abobada azul, sem nuvens que lhe embaçassem a transparencia, arqueava -se sobre a floresta opulentamente enfolhada, e com ellapareciase limitar, confundirse nos tons de uma aguarella desmaiada. Revoadas de verdes papagaios passavam exercitando as azas e saudando os dias quentes do verão. Os lagartos deixavam os abrigos e vinham se estiraçar preguiçosamente nos lagedos; sequiososde um banho de luz, arripiavam as escamas e ficavam horas inteiras, como hibernados. Tudo se alegrava com o bemfasejo sol, cujos raios o inverno havia por longos dias amortecido.

As andorinhas em grandes bandos fendiam os ares caçando as tanajuras, que, atrahidas pela luz, sahiam dos formigueirospara nunca mais voltarem. Aquelles formigões cor de fogo, de grandes abdomens, depois de esvoaçarem pelo azul, des ciamá terrae obedecendo ao instincto, despiamse das azas, das quaes não precisavam mais, cortando-as com os dentes com pasmosa mestria e agilidade. A mór parte delleslogo que pisavam no solo, eram devorados pelos sapos, que osespreitavam quando se saciavam de claridade pelo espaço. Os que conseguiam escapar, enterravam -se para desovar. Da enorme barriga sahiriam aos milhares os habitantes do novo formigueiro. O inverno havia cessado, deixando accumulados thesouros de fertilidade. A vegetação luxuriante dos tropicos ostentava todo o seu vigor. Os rios, que haviam transbordado, se recolheram aos leitose agora corriam em escassos fiosprestes a cortar.

Nas margens e nos alagadiços, fermentavam os detritos trazidos pelas enxurradas e accumulados pelo remanso, e agora a luze o calorfaziam pullularcoloniasinteirasde algas e lichens; e á sombra d'aquella floresta em miniatura, viviauma grande população de vermes. Aves ribeirinhas caçavam os pequenos crustaceos que habitavam aquelle sitiohumido. As lagoas e as ipueiras, como um grande aquario velado por uma pasta verde de aguapé, creavam algumas variedadesde peixespretos, que eram perseguidos pelos socós e martinspescadores. Algumas familias de patos viviam bem no meio d'aquellasplantas aquaticas. As marrecas já haviam procreado, e seguidas dos filhos, voavam á tona d'agua; os potriões chocavam deitados nos ninhos habilmente tecidosna rede dos hervanços, que cobriam o lago; e as precaparasgrasnavam, comendo os uruds escondidos no canniçal.

Toda a natureza emfim, animada pelo sopro vivificadordo inverno, rejuvenescidae louçă, procreava seres vigorosos. A ' tenda de Soares chegavam tambem as notas da orchestra festival. A luz e os cantos, que lhe entravam de casa a dentro, não arrancavam o velho fazendeiro da profunda tristezaem que viviamergulhado. Não era a atonia dos annos que lhe abatia o animo, o gelava de indifferença, mas um pezar que o consumia, um desgosto que não deixava de tortural-o. Os dias, para elle, estavam sendo aziagos. O velho julgouconjurada a crise com a retiradade Francisco Calangro para o Catolé do Rocha e com a saúde de Jesuino mais ou menos restabelecida; mas illudiu-se. O assassinode Botelho voltou mezes depois ao theatro do crime e longe de procurar gosar da impunidade do delicto, vivendo da sua lavoura, começou a blasonar de valente e a mandar recados insultuososa Jesuino, até por seus proprios parentes.

O mal do Brilhantehavia estacionado, não desapparecido; voltou, provocado pelas ameaças do Calangro. O accesso foi violento e determinou -o o desafio que encontrou escripto a carvão em sua porta, ao abril-a em certamanhã; dizia assim: -Faz hoje um anno que morreu teu pri. mo, e sua morte não foivingada. Os Calangros são cabras, mas cumprem o que dizem e morrem, não correm como os teus irmãos fizeram na noite de festa no Catolé! Jesuino, quando concluiua leitura, estava possesso. Sua mulher procurou contel-o, mas embalde. Os musculos das faces do Brilhante executavam uma dança tal que incommodava vel -a. O olhar desvairado encheu de medo as creanças, que fugiram para a camarinha.

Os vaqueiros, amedrontados, procuravam accommodar o amo, e este, sem lhesprestar atten ção, tratava de aprestar o bacamarte, cuja cruz de sangue beijoutres vezes. Soares, chamado em soccorro do filho, veiu immediatamente. O Brilhante, depois de saudal-o, levou-o á porta e mostrou -lhe o insulto. O velho tremeu de indignação. Era uma faisca, que ateariaum incendio. O praso de sua prohibição estava esgotadohavia muito tempo, e antes que dissesse sua opinião a respeito, ouvia do filhoestas palavras: -Se não quer ser desobedecido, meu pai, não prohiba a vingança que vou tomar. O fazendeiro ouviu com grande tristezaas palavras de Jesuino. Que fazern'aquellaemergencia? Quiz, com muita finura, adiar a vindicta, pensando que o tempo desarmaria o filho e lembrou a conveniencia de esperarem a chegada de um pa.

rente ausente, pois não convinha se exporem a uma desfeita; estasconsideraçõesnão calaram no espiritoenfermo do Brilhante, e finalmente, vendo que nada conseguia, Soares pediu-lhe que antes de qualquer acção conversasse com seu irmão João e seu cunhado Silvestre. Jesuino prometteu.

1/1
Menu

Fazer anotação