Capítulo X
Amanhecia. A luz suave da estrella d'alva esmaecia a medida que o clarão crepuscular se derramava na terra. A passarada accordava nos poisos. Já a graúna soltavaa primeira nota de seu agudo canto, e o sabiá solfejava a sua gamma de sau. dades. A 'musica alegredo amanhecer juntava-se a toadade uma prece, o officiode Nossa Senhora, cantadoem honra da Virgem, em todas as casas, por amos, escravos e servos. Da vivenda do velho Soares, um casarão de tacaniça, trepado num oiteiro, coava-se a luz vermelha das vellas de cera que allumiavam o oratorio, e vinha ter fóra pelas frinchas das portas; ao mesmo tempo sahiam e se derramavam no espaço as notasdos versiculosdo officio:
Sêde em meu favor, Virgem Soberana, Livrai-me do inimigo Com vosso valor. Gloria seja ao padre, Ao filhoe ao amor tambem, Que Elle é um só Deus Em pessoas tres. Agora e sempre, Sem fim, amen. Terminado o officio, o velho Soares sahiu para o pateo da fazenda. Vinha com a alma saturada d'aquellemys ticismodevoto, que praticava desde os verdes annos, felizpor ter entoado a prece a Virgem, aquellaresa tão forte, tão poderosa, que domina o raio e aplaca a furiadas tempestades. O fazendeiro, felizpor ter resado, felizpor ter fé, sahiapara gosar das deliciasdo amanhecer sem suspeitaro que de máo ia pelo mundo e de muito perto o tocava. Trepado na porteirado curral, assistiaao mugir das vaccas, pesarose de não poder tomar parte na tarefa por causa da gôta que lhe tolhia a junta dos dedos.
Assim estava quando ouviu rumores de passos na estrada e o grito de alarma: -Chega, irmão, das almas! . . . O velhosobe mais altona porteirae vê descendo a encosta visinha uma grande procissão. Homens a pé e a cavallo acompanham e carregam uma rêde com um defuncto. Chegando ao pateo da fazenda, o sequito dirigiu-se para a casa. O fazendeiro, percebendo a direcção que tomava, desceu e foi ao encontro delle. Reconheceu que eram pessoas de sua familia, e que o panno branco da rêde estava em diversospontos manchado de sangue. Não havia duvida, tratava-se de uma desgraça. O velho encorporou-se á procissãoe seu filho Jesuino chegou -se a ellepara lhe contar a historia.
- Sua abenção, meu pai, disseo Brilhante, em tom aspero e ares desusados. -N. S. te abençôe, diz Soares, fitando o filho, cujo desequilibrioo impressionou immediatamente de modo tal que o velho não teve animo de interrogal o sobre o que se passara. -O diabo do cabra Francisco Calangro matou a falsa-fé o Chico Botelho, mas eu jurei com o sangue do morto vingal-o, disseJesuino com tanta fereza no semblante, que seu pai desviou a vista, evitando-lhe a catadura. O sequitoparou emquanto os mais proximos parentes do assassinadopediam conselhos a Soares. O fazendeiro, mais attonito com o estado do filho do que com o assassinatode Botelho, quasi nada adiantou; pôde, entretanto, recommendar que apresentassem o cadaver á policia da villa e fizessem depois o enterramento.
Assim fariam, prometteram. O Brilhante quiz continuar a acompanhar o defuncto, mas seu pai, que não o perdera mais de vista, ordenou -lhe que ficasse. Jesuino, de muito má vontade, cumpriu a ordem e seguido do velho, entrou para a sala. Ahi encontrou sua mãe, que vendo -o completamente desfigurado, disparou a chorar. O Brilhantesuppondo que a velha pranteasseo morto, exclamou com furia: -Hei de vingal-o, minha mãe; com o san gue delle jurei acabar com a raça dos Calangros. Soares olhou para a mulher e meneando a cabeça deixou algumas lagrimas lhe cahirem dos olhos; depois, olhando commovido para o filho disse -lhe: -Perdido! . . . Jesuino nada viu d'aquella scena. Com o cerebro cheio da idéa de vingança, o coração transbordando odio, todo desequilibrado, continúava a blasonar de valente e a lançar toda sorte de epithetos injuriosos á familia dos Calangros.
Soares sentia se esmagado sob tão imprevisto transe. Sua mulher inqueria d'elle o que queria dizer tudo aquillo. O velho comprehendeu a necessidade de oriental-a e perguntou -lhe: -Não te lembras do Cazuzinha? -Oh! năo, José, não! . . . Aquellas negativas formaes e repetidas indicavam quanto o espiritoda velha repelliaa idéa que o marido the suscitava. --Por desgraça nossa, sim, disse Soares. Jesuino continuava a ameaçar céos e terra. Sua mãi seriamente afflictachegou -se a elle e supplicou: --Meu filho! pelo leite que mamaste, não te botes a perder. -Minha mãi, peça -me tudo, até a vida, e eu lhe darei, mas não quebro o meu juramento feito com o sangue do morto. Olhe a cruz de sangue e diga-me se quer que seu filhosejaum renegado.
E o Brilhante mostrou a coronha do baca marte onde bem visivel se via o alludido em. blema. O velho, valendo -se de sua auctoridade pa terna, até então soberana no seio da familia, e dominando todas as emoções, que podiam abater-lhe o animo, enfrentou o filho com severidade e lhe fallou: -Estás prohibido, sob pena de maldição, de tomar qualquer desforracom os Calangros dentro do praso de tres mezes. Vai para tua casa cuidar de tua mulher e de tuas filhas. Eu e tua mai estamos velhos, e um filhode benção não dá desgostos a seus pais, ainda mais no fim da vida. Jesuino ouviu o pai e mesmo desorientado, como se achava, não faltou com o respeito que lhe tinha. Recebeu a ordem, e como ella não prohibiae sim adiava a vingança, não replicou.
O espiritoadoentado do nevropatha parecia entrar em recolhimento. Na physionomia do Brilhante percebiam -se já uns lampejos de outros sentimentos que não eram odio e vingança. Soares não perdia uma só d'aquellasmanifestaçõesque, longe de tranquillisalo, pelo con trario mais corroborava o juiso desfavoravel que elle formava do estado do filho. Cazuzinha, tio materno de Jesuino, começara tambem assim e chegou a conquistar triste celebridade no crime. O fazendeiro ainda tinha na mente as recordações terriveis da noite em que o cunhado lhe entrou de porta a dentro com as mãos ensanguentadas e quasi louco. Os espasmos que lhe agitavam os musculos das faces, de que jamais se esquecera, são os mesmos que observa agora no rosto do filho. O mesmo olhar, a mesma alteração nos traços da physionomia.
O Brilhante foipouco a pouco se acalmando. O olhar já não tinha as mesmas scintillações. Ali, no regaço pacificoda familia, na presença de creaturas que só lhe inspiravam respeito e amor, Jesuino foisentindo serenar a paixão que o exaltava, amainar a tempestade que o havia atordoado. Cahiu em um estado apathico. A calma das feições, era, entretanto, perturbada de tempos a tempos. A crise, embora incompleta, impressionava desagradavelmente a quem o observava. Era um relampago de ferocidade que transtornava em sua curta duração as linhas de todo o rosto. Os olhos faiscavam e as faces tremiam em repetidos espasmos. Jesuino, a instancias de sua mai, havia tomado algum alimento. A refeiçãoparece que o calmou, porque o olhar já não se desvairava tão a miudo e os traços do semblante não se decompunham tão repetidas vezes.
O fazendeiro não se alegrava com o espaçamento daquelles assustadores phenomenos. Desejava que desapparecessem de uma vez e quan. do suppunha não perturbada mais a tranquillidade da physionomia do filho, um novo espasmo vinha desilludil-o! E que má impressão lhe causavam aquellas contracções musculares, as vezes em horrida carêta! O velho calava as expressões de pena que The sahiam d'alma, porém a mãi do enfermo, nào se continha e gritava: -meu filho! . . . filho. O dia inteiropassou o casal ao lado do A tarde Soares lembrou a conveniencia de levar Jesuino para sua casa, alvitreque foiacceito, e partiram a cavallo. O enfermo, na occasião de montar, não esqueceu o bacamarte, cuja cruz o impressionou, dando logar a uma crise de maior duração.
O velho, percebendo a manifestação, pediulhe a arma, que ellerecusou dar, mas Soares ordenou-lhe energicamente que a entregasse e Jesuino obedeceu. Seguiram silenciosos. O esmorecimento da luz crepuscular, a solidão da estrada faziam o espirito recolher se e scismar. O fazendeiro não esquecia um instante o estado do filho. A idéa da sorte que o esperava, associavase á idéa tristissimados crimes do Cazuzinha, e o velho cahia em uma penosa meditação, enchendo o cerebro dos mais lugubres pensamentos. Soares não podia se conformar com a perdição do filho, tão novo e tão bem encaminhado na vida! . . . Andaram cerca de uma legua, e quando a noite cahiu de todo, estavam no pateo da fazenda do Brilhante.
Apearam -se e entraram. Na sala a mai da familia sentada num sofá de sola ensinava a resar ás filhas, que a cercavam de pé e de mãos postas, repetindo as ultimas palavras da Ave -Maria. Aquella scena, que Jesuino testemunhava diariamente sem se impressionar, agora o havia tocado. Commovido abraçou a mulher e beijou as filhas. A's creanças passaram despercebidos os espasmos que contrahiam as faces do pai, mas não aconteceo o mesmo á mulher, que reparara n'ellessem comtudo lhes dar o valor que tinham e muito menos adivinhar -lhes a causa. O velho despediu-se para partir, porem, antes, disse á nora que Jesuino estava doente e não consentissede modo algum que ellesahisse de casa.
A noite se passou sem incidente notavel. O enfermo parecia melhor, embora o somno tivesse sido attribulado. As contracções musculares das faces espaçavam -se, mas não desappareciam. De pé aos primeiros clarõesdo dia, sahiu para o pateo da fazenda. Seus passos não tinham a firmeza habituale nem a physionomia nos momentos placidos a sua antiga expressão de bondade. Havia n'aquelle organismo uma desordem profunda. A musculatura, morosamente se movia. A marcha, o olhar, a falla, tudo annunciava cançaço, uma atonía mais ou menos profunda. Jesuino marchava de pateo a fóra cambaleando ás vezes. Passeou muito, mas o que de belloe attrahente o cercava não era percebido por sua men talidade em uma abstracção enferma. Sua mulher o observava de longe e mandou as creanças ao encontro do pai. Em breve o bando de pequeninos acercou -se do doente, cuja attenção d'alidesviada, era reclamada agora pelas meninas na mais alegre folgança.
Davam caça aos insectos, que prendiam, e vinham depois, no meio de gostosasgargalhadas, offerecel-os ao pai, que os recebia seccamente, sem retribuir a gentileza das creanças com um carinho sequer. Assim veio, como espectador inconsciente de um drama, que outr'ora seu espiritocontemplava embevecido, até chegará porteira do curral. Os vaqueiros ordenhavam as vaccas, admirados de não terem a seu lado o amo, que não costumava perder aquella tarefa matutina. Jesuino olhou-os com indifferença alguns instantes e voltou para casa.