Capítulo XIII Os Brilhantes · Capítulo 13 de 48
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Capítulo XIII

O Anno -Bom, o legendarioAnno -Bom trazia a villasertanejan'um rebuliçofolgazão. A casariade taipa, perfiladaem ruas tor. tuosas, abria mais cêdo as portas, por onde penetravaa claridadecrepuscularainda embaçada de um matiz acinzentado, uns tons ligeirosde escuridão. Os habitantes fervilhavam nas camarinhas e nos caminhos das aguadas. Soffregos, procuravam se desobrigar cédo para que o sol do anno novo os encontrasse em trajesainda não usados. Nas pequenas alcovas, quasi ás escuras, as maisde familiadesarrumavam as malas de pre garia, pondo á mão a roupa de ver a Deus n'aquelle dia. As creanças, espichadasnas redes, dormiam ainda, um dormirtãosegurocomo o do primeiro somno.

A matriz da freguezia, uma igrejamuito commum e pobre, trepada em um oiteiro, era o azylodas corujase morcegos d'aquellascercanias. O sacristão, para arejala, já a tinha aberto áquella hora, e assim mesmo, varrida pelo terral, ainda tresandava a rabugem. ruas. O dia crescia e com elle o rebuliço nas Começavam a entrar os moradores de fóra. Nas cercas dos quintaes, rara era a estaca que não tinha amarrado o cabresto de um cavallo. Quasi todos os frades das esquinas estavam tambem occupados. Do mercado sahiam os primeiros zuns-zuns da lida em dias de feira. A festa era a missa assistida com trajes novos, e á noite um samba, pois assim acreditavam folgar o anno inteiro.

Os Calangros não faltaram n'esse dia ao Patú. Logo ao amanhecer entraram na villa esquipando e debaixo do cangaço, o Francisco e o Honorato. Correram todas as ruas mostrando a habilidadedas cavalgaduras, cujos jaezes de prata scintillavamao sol como o metal polido dos bacamartes. Andaram e viraram, fazendo recortespelas estradas até que se apearam á porta de uma taverna, para beber aguardente. Nessa occasião passavam Jesuino e os companheiros. Os Calangros, logo que o Brilhante e os parentes lhes deram as costas, sahiram á porta a espreitar o rumo que seguiam. Assim ficaram até que os inimigos pararam no fim da rua. Iam -se arranchar alli; apearam -se e um d'elles levou os cavallospara o quintal. Certos do logar, que ficava na distancia de um tiro de espingarda, voltaram ao balcão e beberam mais.

Queriam animo para a provocação e o pediam ao alcoolque engoliam, certosdo bom effeito. Quentes de aguardente, montaram -se e fo ram procurar Jesuino. O Brilhante, com os companheiros, conversava sentado na sala de visitade um parente. A um canto descançava o bacamarte, cujo metal espelhava, de polido. Soares e Silvestre pediam a Deus que dos Calangros não apparecesse nem a sombra no Patú. Estavam inquietos, desconfiados, e o que mais os desnorteava era o estado nervoso de Jesuino que, de tempos a tempos, parecia fóra de si. No melhor da conversa as vezes soltava uma phrase sem nexo, alheia a palestra, deixando ver que seu pensamento se empenhava, longe d'aquellesitio, em peior tarefa.

Assim estavam quando os Calangros chegaram á porta da rua sem serem presentidos. Honorato, que vinha mais aguardentado, apeou -se primeiro e o Francisco tomou conta do cavallo, que, com o seu, foiamarrar em uma cerca proxima. Honorato, logoque pisou no chão, encaminhou -se para a sala. A figura do mestiço assomou á porta com grande desgostoe surpresados que conversavam dentro. Soares e o cunhado sentiram um calafrio, que os crispou até o tutano dos ossos. Nos cerebros dos dois sertanejostiveram curso as mais extravagantes idéas durante o espaço de alguns segundos. N'aquelle curtissimolapsode tempo, bateram-se, sentiram o ferro embeber -se nas carnes, mataram, morreram! . . .

Jesuino percebeu o cabra, e, contra a espectativa dos companheiros, não lhe foi ao encontro. A intellecção do perigo foi instantanea e mortificante. Em um abrir e fechar de olhos o cerebro do Brilhante havia assistido a todas as phases de uma lucta sangrenta. Pela decomposiçãodas feiçõeselleparecia aterrado. A côr era enxofrada, o olhar espantado e a fronte se alagava em um banho de suor. Quem o visse, o acreditariaacovardado ante a figura bronzeada do mestico, que o desacatariaá vontade. Honorato, uma vez em pé no batente da porta, com uma simples vista de olhos poz -se em relação com o meio e mediu as resistencias a vencer. Estavam alitres poltrões mais dignos do seu chicote do que do seu bacamarte.

O mestiço já saboreava o goso ineffavel da vingança, phantasiando as humilhações por que fariapassarem os inimigos. Em um segundo Honorato havia infligidoao Brilhante toda a casta de aviltamentos. Mentalmente arrastava Jesuino ao mais ignominioso papel, fazendo-o passar tres vezes por baixo da barriga do seu cavallo, quando seu olhar encontrou-se com a physionomia desconcertadado Brilhante. Fital-a e procurar realisar a sua ultima idéa foi cousa de um instante. Honorato marchou para Jesuino, parando a dous passos de distancia, depois olhando-o com grande desdem, disse-lhe: -Agora, ladrão de bode, chegou a occasião de mostrares a tua fama e vingares a morte de teu primo.

E Honorato levantou o chicote para descarregar nas faces do inimigo. O Brilhante, immovel na cadeira, viu o Calangro se approximar. Um tremor nervoso, como um espasmo tetanico, contrahiu e distendeu -lhe todos os musculos do corpo, e quando o mestiçoacabou de proferir o desafio, Jesuino, como se todo ellefosseuma molla livre do tambor, saltou sobre o cabra e enterrou -lhe a faca pelo vão esquerdo. O ferro penetrou rangendo de peito a dentro, e chegando ao coração, feriu-o em cheio. Uma onda de sangue jorrouda bocca e narinas do moribundo e o braço que erguia o chicote, foi pouco a pouco esmorecendo até cahir de todo. A expressão desdenhosa do olhar foi desapparecendo com o iris, que se encobriu nas palpebras, e as orbitas, somente cheiasdo branco do olho, faziam com o semblante, ani.

mado ainda de desdem, um perfeitocontraste. Jesuino arrancou a faca da ferida e o mestiçoperdendo o equilibriofoi-se empinando para traz nos calcanhares até se estender a fio comprido no chão. Uma contracção muscular mudou o ar do rosto e com ella a vida cessou de todo. Francisco Calangro, alheiointeiramenteao que se passava com o irmão, dirigiu-se a sala, e chegando á porta estacou. Soares e Silvestregritaram, a uima voz, com os punhaes fóra das bainhas: -Entrou, morreu! . . . O mestiço atordoado com o que via, um instante esteve sem saber que partido tomasse, mas a vista do cadaver do irmão dentro de uma poça de sangue incita-o, e dominado pelo desejo vehemente de vingança, leva a arma ao rosto e faz pontaria no Brilhante.

Jesuino, que tinha adivinhado a intençãode Francisco, já tinha o olho na mira de sua arma, quando este levou á cara o bacamarte. Uma detonação se ouviu e logo uma outra. A primeira, da arma do Brilhante; o projectilatravessando os musculos do braço direito do cabra, não impediu que a arma d'elleexplodisse, mas desviou a pontaria, e a bala cravouse na parede fronteira, alguns centimetrosacima do alvo. Francisco Calangro, feridoe portanto im possibilitadode luctar, sem pensar nas consequencias da fuga, deu as costas aos inimigos e correu de rua a fóra. O Brilhantequiz seguilo, porem o irmão teve a lembrança de fechar a porta da rua im mediatamente depois que o mestiço sahiu.

Jesuino teimou em sahir, mas João fallouThe com energia: -Estás louco, Jesuino? Ainda não estás vingado? O Brilhante ouvia o irmão com alguma surpresae fitouo morto. A figurado assassinado estava medonha. O bronzeado do rosto destacava ainda mais os grandes olhosbrancos, que as palpebras, tesas pelo espasmo dos ultimos instantes, tinham deixado de todo descobertos. A bocca aberta mostrava uma linha de alvos dentes meio enterrados n'uma posta de sangue coalhado. O assassino contemplava a victima com certa admiração. Seu olhar não estava mais tão desvairado. Tinha as idéas confusas, e os maos pensamentos atropellavam se. O cadaver de Honorato, as palavras de João Soares e a sua faca ensanguentada impunham -lhe a auctoriado crime.

O Brilhante quasi não tinha consciencia do delicto; lembrava -se de ter visto entrar Honorato, ouvido o insulto, visto o chicote erguido e nada mais. Preso de um atordoamento, ficou até que o irmão lhe exprobrou o procedimento. Ainda não podia comprehender, com as faculdades quasi embotadas, como nos primeiros instantesdo despertar de um pesadelo. Jesuino se conservava n'aquellemeio, sem ver a figura hedionda do morto, os semblantes afflictosdos parentes e sem ouvir a familia que, fechada em um quarto, a dous metros, gritava pedindo soccorro. Na rua, cercava a casa uma multidão de paisanos e soldados, cujasphrases ameaçadoras se fundiam em agúda voseria que entrava de sala a dentro, atemorisando ainda mais os companheiros do Brilhante e a familia do parente, que clamava por soccorro.

Jesuino, no meio de tão grande berreiro, se conservava apatetado. Não pensava no fervedoiro que ia lá por fóra e menos no escandalo que havia commettido, matando um homem dia de Anno -Bom. A população da villa nunca fôra testemunha de igual attentado. Tinha sido assassinada muita gente no Patú, nunca n'aquelledia. Era necessarioportantoprender o criminosoepunil-o. Crescia a agitação com a caudal que descia da feira para o logar do crime. Soares e Silvestre, presos de grande susto, ouviam augmentar a gritaria e as ameaças. O Brilhantepouco viae ouviade tudo aquillo. - Arrombe -se a porta! . . . Este grito repetido por mais de cem vozes, pôz no maior sobresalto os parentes de Jesuino.

A ameaça dos aggressores realisava-se; ouviu -se o primeiro golpe de machado na madeira rijada porta. Soares e Silvestre perceberam o som cavo da primeira machadada e no curto instante que mediu entre a impressão e a resolução de se evadirem pelo fundo da casa, imaginaram tanta cousa, crearam tantos perigos, soffreram os transesmais dolorosos. Não havia tempo a perder, a onda popular não tardaria a romper o obstaculo que os separava d'ella, e uma vez alcançados, quem previriaas consequenciasdo encontro, como dominar os animos, que mais se exaltariam a vista do cadaver do assassinado? Todas essas considerações tiveram curso na mente dos sertanejos, e resolvidaa fuga, disseram para o Brilhante:

-Fujamos! . . . E dirigiram-se ao interior da casa. Jesuino não os acompanhou. Soares e Silvestre só se aperceberam d'isso ao chegar á porta do quintal. Voltaram imme. diatamente á sala e lá estava ainda o Brilhante de pé na mesma posição, olhando para tudo e sem ver nada. O perigo era imminente; já o machado abria na porta uma frestapor onde a luz entrava em feixes e batia em cheio no rosto do cadaver. Soares toma o irmão pelo braço, e o leva como se fosse uma creança. Mal tiveram tempo de ganhar o quintale tomar os cavallos, a porta se desfez em estilhaçosaos golpes não de um, mas de alguns machados. A gente precipitou-se na sala, mas refluiu espantada tal era o medonho aspecto do morto.

O instante de indecisão do povo dera ganho aos fugitivos, que uma vez a cavallo, fugiram a bom correr. Serenou a má impressão, e dispostosa prender os delinquentesentraram de casa a dentro; elles iam longe, só encontraram mulheres e creanças assombradas e fechadas nas camarinhas. Os quatro policiaesda villa, que representavam a justiçano meio d'aquellaturba-multa, eram todos caboclos infiltradosde aguardente, rombos, mal fardados e sem a agilidaderecla mada de prompto pelo acontecimento. O subdelegado, matuto ignorante, trepado em seus tamancos, acompanhava a diligencia, e certo de que nada havia a temer do morto, atordoava o auditoriocom bravatas, jurando perseguiros assassinos até por baixo d'agua.

Feito o exame cadaverico pelo boticariodo logar, professorpublico, e um outroleigo, foio corpo do Calangro para o cemiterio, seguido de grande acompanhamento.

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