Capítulo XLII Os Brilhantes · Capítulo 42 de 48
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Capítulo XLII

Era meia noite. A cidade de Pombal, como toda povoação sertaneja, havia-se agasalhado pouco depois do anoitecere, completamente ás escuras, dormia profundamente. Desertas e so turnas eram as ruas. Alguns cães gozos deitados nas calçadas, uivavam de quando em vez, e ao seu ladrarmonotono respondiam as corujascom pios agoureiros. N'esse lugubre concerto se fazia representar de espaço em espaço a mãi da lua com a sua gargalhada. As casas perfiladas em ruas tortuosas tinham a mudez dos cemiterios. Algumas, pelo limiar das portas, projectavam uma fitade luz vermelha e amortecida. O ladrar dos cães, até então intermittente, tornou -se continuo. Começou por uma das extremidades da rua príncipal e veiu entrando de cidade a dentro. O ruido dos latidos foi to mando corpo, engrossando, e uma bulha infernal em breve atroava de rua a fóra.

As velhas, que aquellahora ainda estavam accordadas, rezando o rosario, mudaram de oração, entoaram o credo. Não havia duvida que lobis-homem ou burra sem cabeça passeava pela cidade, e eram taes bichos perseguidos pela cachorrada. De quando em vez, destoava do ruido uma serie de ganidos dolentes, que mais robusteciam nos supersticiososa crença n'aquellas creações do demonio. Os que ouviam os cães ganir, criam que estavam sendo surrados pela burra de padre ou pelo lobis-homem. Era sextafeira, noite destinadapela crendice popular ás taes apparições. As portas permaneciam fechadas e nenhum dos moradores se atrevia a sahir para indagar a causa de tamanha bulha ou pôr côbro aos cães.

Os mais animosos iam, tremulos, espiar pelas fechaduras e viam tudo que tinham na imaginação: lobis-homens, burras de padre, arrastando correntes, е о mais que a superstição lhes ditava. Vinham depois os juisos temerarios. Os ho mens amarellos do logar e as mulheres que mais frequentavam o vigario, vinham & baila. No dia seguintetodos os olhares se voltariampara elles, e o que amanhecesse pallido, e das mulheres, a que mais negras olheiras tivesse, eram estes os que andaram cumprindo o fado á noite. O bando de cães ladrando e ganindo atravessou a cidade em rumo do norte. Já muito longe se ouvia o seu ladrar. A bulha foienfraquecendo até se extinguirde todo.

O silencio continuou a dominar e só era interrompido agora pelo tropel dos càes, que voltavam offegando á calçada dos donos. O lobis-homem e a burra de padre tinham ficado em frente á cadeia, que estava as escuras. Apenas a luz fraca de uma candeia bru xoleava no corpo da guarda, allumiando a sentinellaque, deitada na tarimba, dormia profundamente. O unico soldado que ficara guardando o carcere, tão ferrado estava no somno, que não ac cordou com o barulho dos cães perseguindo seis cavalleiros, que aquella hora atravessavam a cidade. Os vultos dos homens e dos cavallos se confundiam na escuridão. Logo que chegaram perto da cadeia, pararam e se estenderam em linha, fóra do sitioallumiado. A penumbra não era densa como queriam. Quando menos pensavam, uma scintillaçãomais viva, mais intensa alcançava maior distancia e descobria -os; via-se então que não eram as figuras phantasticas da crendice popular, mas homens armados, a cavallo. O clarão repentino que os tirava da sombra, fazia faiscar o metal das armas e dos arreiosdas cavalgaduras: eram os Brilhantes, que acampavam ali.

Jesuino havia deixado o cancro e os andrajos, e, vestidocom decencia, vinha no garboso Exhalação. Espreitou; a cadeia continuava em silencio e ás escuras. A claridade que vinha do corpo da guarda, enfraquecia. Uma tenue chamma azulada envolvia o morrão do pavio carbonisado, quasi não deixando passar azeite para alimentar a luz. Jesuino mandou que os companheiros rondassem nas immediações do carcere, salvo Pajehú, que o acompanhou até a guarda. Apearam -se. As redeas dos cavallos entesaram um pouco passando por baixo do grampo do rabixo. Os animaes ficaram immoveis. O Bri lhante chegou se á sentinella; dormia. Era o soldado que durante os dias em que elle per noitou no alpendre da cadeia, lhe dava café pela manhã. Essa fineza lhe valeu a vida. Podia poupal -o, amarrando -o.

Jesuino disse ao ouvido do companheiro: -Senta -te nos peitosdo soldado, que eu o amarro. Mal Pajehú recebeu ordem, escanchou-se sobre o thorax da sentinella O soldado não se agitou. Nos primeirosmomentos pareceu -lhe um pesadelo a pressão que o esmagava; depois, quasisem folego, accordou e, abrindo os olhos, viu a figuramedonha do cabra sentado sobre si. Quiz gritar, pedindo soccorro, mas tão imprensado estava, que não podia fallar. Jesuino com a maior destreza e pericia havia atado os pulsos e os pés da sentinella, Convencido da inacção do preso mas temendo que se lhe afundassem as costellase espirrassem-lhe os bofespela bocca, mandou Pajehú levantar-se.

O soldado esteve alguns segundos desorientado; dissipou-se o atordoamento e voltando á realidade, sentiu-se amarrado, tendo um mestiço ao seu lado de faca nua na mão, a dizer: -Fallou, morreu! . . . A ' vistada ameaça a sentinellanão tugiu nem mugiu. Estava espantado de tal acontecimento. Amarrado de pés e mãos e privado até da palavra! A principio the pareceu tudo aquillo um sonho máo, porem, logo se convenceu da realidade; as scintillaçõesda faca de Pajehú não deixavam duvida sobre a verdade do facto. O que mais admirava o preso, era o açodamento com que Jesuino desensarilhava as armas e as enfeixava. Cartuxeiras, cinturões e sabres foram despendurados e entrouxados.

Em pouco tempo, a sala d'armas estava pellada e o Brilhante levava ás costas, por partes, aquelle arsenal, e entrava com elle de matto a dentro. Estava mudando o quartel, pensava comsigo o soldado. Conduzidos que foram para longe os petrechos bellicos, voltou o Brilhantecom um grande braçado de lenha e se dirigiupara a porta da cadeia. Minutos depois uma intensaclaridade se derramava de praça a fóra. Uma valente fogueira crepitava embaixo da porta do carcere. A madeira estalava roida pela labareda e Jesuino, de pé, espiava aquelle espectaculo. Das prisões, em completo silencioaté então, começou a sahir uma bulha, que vinha até fóra: eram os presos que accordavam com o clarão do incendio.

Os detentos sobresaltados correram até a grade a pedir soccorro; a idéa de morrerem queimados os aterrava e um fervedouro diabolico trazia revolta a onda dos sentenciados. Os primeiros que descobriram a praça, esbarraram com a vista em Jesuino. Causou -lhes grande estranhesa a figura do criminoso, em uma immobilidade de estatua. Era elle o incendiario, não padecia duvida, mas, qual seria o seu intento? Fallaram-lhe amedrontados, rogando que lhes valesse. O Brilhante se approximou das grades e respondeu: -Venho soltal-os. Façam acabar com o barulho lá por dentro, para dar tempo ao fogo de comer a porta. Digam ao velho Soares que seu filho Jesuino em breve lhe dará a liberdade.

- Brilhante! . . . foi a exclamação unisona que se ouviu. A nova correu depressa. Os que ouviam -na, davam -lhe pouco credito e vinham certificar-se. Voltavam crentes e iam confirmando a noticia. A balburdia crescia. Um zum -zum surdo roncava lá por dentro e se derramava de praça a fóra. Todos se preparavam para a fuga. Mais de cincoenta criminosos, a maioria assassinos, cumpriam sentença ali. Os condem nados a galésperpetuas, que julgavam fechadas sobre si para sempre as portas da prisão, viam, quasi allucinadosde contentamento, o incendio quebrar-lhes a grilheta. Alguns innocentes, que a ignorancia ou mal dade dos homens retinha no carcere, acredita vam chegada a hora da justiça de Deus restituir -lhes a liberdade.

Entre os crentes e os desilludidos, os bons e os máos, os indifferentes assistiam, sem que o coração pulsasse mais depressa, ao quebramento da cadeia que lhes prendia os pulsos. O incendio lavrava com intensidade, alimentado pelo terral, que soprava, como tocado por um folle. A porta, do meio para baixo, estava reduzida a um brazido só, segura ainda pelos pesados gonzos que se estiravam, como uma faxa azulada sobre a ignea superficie. Já a lingua de fogo lambia em cima a verga do portal e se esbarrava na arcada de alvenaria, que não podia destruir. A cidade permanecia soturna e deserta. A sentinella continuava a jogar o sisocom Pajehú, emquanto os companheiros debochavam nos arrabaldes. Os presos já estavam todos de macas arrumadas e redes a tiracóllo. O velho Soares, quando soube que o filho incendiára a porta da prisão para salval-o, abençoou a sua dedicação, condemnando, porem, a sua ousadia.

Foi preciso matar muita gente para se apoderar da guarda, pensava elle. Convidaram -no para ir á grade ver o filho, recusou -se. Eram duas horas da manhã quando a porta da cadeia, toda reduzida a carvão incendiado, acaçapou -se e sobre o limiar ficou uma tulha de brazas. Os presos reunidos esperavam com impaciencia que o brazido se apagasse, e Jesuino, que tinha pressa, fez da coronha d'arma foga. leira e com ella arredou do caminho os carvões, que ardiam ainda com bastante calor. O logar do fogaréo ficou limpo, porem, a pedra do limiar escaldava como recente borralho. Logo que desappareceu o empecilho, os de tentos se arrojaram para a porta e teriam queimado os pés se Jesuino não lhes mandasse fazer alto. Um d'elles, o mais soffrego, pouco caso fez da admoestação do Brilhantee sahiu.

Estava acostumado a sapatear nos brazidos das fogueiras de S. João, não havia de ficar esbarrado diante de um borralho apagado. Passou sem se queimar. Chegado que foiem frentea Jesuino, saudou o com respeito e manifestou lhe o desejo que tinha de se acostar a elle. O Brilhante negou -se, porem, o negro taespedidos fez, que o criminoso por fim accedeu. Jesuino chamou a postos os companheiros fazendo sibilartres agudos assobios. Em um instante, elles appareceram e o chefe ordenou -lhes que se estendessem em linha, mandassem fazer alto a todo aquelle que se aproximasse da cadeia e atirassem, caso desobedecesse á intimação. Os presos não esperaram que a pedra esfriasse de todo e transposeram o limiar da porta incendiada. Estavam curiosos de ver Je suino.

O incendiario viu -se dentro de uma mó de gente de todas as castas, matadores quasi todos. O velho Soares custou romper o ajuntamento e encontrar -se com o filho. Jesuino, logo que o avistou, foi a elle e, descobrindo -se, beijou-lhe a mão com o maior respeito. O velho abençoou -o. A Lucas apertou a mão, mas a nenhum dos dois disse palavra. O ajuntamento já não era tão denso; dissolvia-se aos poucos e pequenos grupos se for mavam nas immediações do carcere. De um d'esses grupos, chegou a conversa aos finos ouvidos de Jesuino. Complicava -se a situação. O commettimento, até então sem in cidente, ameaçava transtornar-se. Alguns malfeitoresconcertavam o plano de saquear a ci dade.

Esta idéa teve logo grande numero de adeptos. Os malvados atacariam as casas, roubando o que encontrassem, uma vez certos de nào serem repellidos. Começariam pelo mercado e sua gana iriaaté a igreja, que seriaprofanada com o arrombamento do Sacrario, o roubo de todas as alfaias. Eram quinze os evadidos que estavam resolvidos a saquear Pombal; todos réos de grandes crimes. O Brilhantenão os perdeu mais de vistae não lhe escapava um palavra do que converUrgia uma providencia energica. savam. Jesuino soltou uma especie de trinado guttural, e Pajehú deixou a sentinella, rompeu o ajuntamento e veiu perfilar-se diante do chefe. Nada disse ao cabra e fez ouvir outro chamamento, um ganido exquisito, muito agudo, que arripiavaa gente, das unhas dos pés aos pêllos da cabeça. Mal o exdruxulo som vibrou, um cavalleiro rompeu a mó que envolvia o Brilhante; era o Cobra -Verde. Chegado que foiá presença do chefe, apeou-se e descobriu-se.

-Teu cavallo, Pajehú, parameu paiaqui, o Snr. ; e o teu, Cobra Verde, aqui a meu irmão, o Snr. Lucas. As ordens foram cumpridas immediatamente. Depois, dirigindose aosparentes, Jesuinodisse: -Partam já. Não posso acompanhalos por que correm serioperigo a vida e propriedade dos habitantes da cidade e sou eu o responsavel pelo que acontecer, porque solteiesta quadrilha de bandidos. Soares e o filhomontaram e partiram. O Brilhante vendo -os sahir fez soar o signal de reunir, tres assobios especiaes, longos, de uma estranha cadencia. Nào se demoraram os companheiros. Um minuto depois, cercavamno todos. Jesuino montou se no Exhalação e disse a Pajehú:

-As armas e munições que escondi no matto, conduz com Cobra -Verde e aquellepreto que aliestá, para as Barrocas. O transporteha de ser feito antes de amanhecer o dia. Sahiram para cumprir as ordens e o Brilhante, seguido dos companheiros, postou-se á frentedo grupo que planejava saquear a cidade. Os criminosos combinavam entre si o ataque, fallando em voz baixa. Logo que os Brilhantes se approximaram d'elles, calaram -se. Jesuino dirigiu-lhes a palavra: -Que fazem ainda aqui? Porque não se retiram emquanto não chega a forçada cadeia? -Qual retirada, amigo, estamos com fome e, com barriga vazia, não se viaja, respondeu um cabra de bigodesretorcidos, fazendo tregeitos de macaco.

O Brilhante, ouvindo o mestico, por um triz não lhe fez voar os miolos; dominou -se e disse para os criminosos: -Corja de bandidos, para levar a effeito o sinistroplano que estavam combinando, é preciso matar primeiro a Jesuino Brilhantee a todos os seus companheiros. Para que não se chamem ao engano, ouçam a intimação: Vou estender a minha gente em linha de combate, feito isto, darei tres assobios e depois de ter soado o ultimo, uma descarga de nossas armas varrerá todos vocês. Dito isto, os Brilhantes se estiraram em linha, mas, antes de Jesuino ter dado o primeiro signal, o cabra que havia replicado, de faca na mão, aggride-o, tentando agarrar no freiodo Exhalação.

O cavallo deu uma guinada ligeiroe o mes tiço, quando suppunha prendel-o pelas redease esfaquear o cavalleiro, recebe no peito dous couces que o estiram por terra sem sentidos. Os companheiros do aggressor, vendo as proezas do animal e a presença d'animo do Brilhante, fugiram de rua a fóra, a bom correr. Jesuino não os perseguiu, deixou-os ir, e quando osjulgou longe, deu uma voltapela cidade; soturna, dormia ainda.

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