Capítulo VII
Pedro Jurema, convencido da impossibilidade de se oppor á força do governo, tratou de pôrse longe. Andou o restode todo aquelledia, rompendo os mais cerradosmattagaes; e, se o seu gibão resistiaás urzes e aos espinhos, o mesmo não aconteciaao seu negro corcél, cuja pelleestava coberta de uma rêde de arranhaduras. Ao escurecer estavam distantes muitas leguas do logar do conflicto. O facinoraapeiou-se, e tendo escolhidoum logar para pernoitar, desarreou a cavalgadura, que peou e deixou a pastar. Começavam para Jurema novos trabalhos. Quinze annos de prisão não bastaram para corrigil-o. Uma vez restituidosos seus meios de acção, mostrou-se o que era o mesmo malvado.
Fugira com a roupa do corpo, e n'aquelle descampado, sem o menor conforto, Jurema era mais infelizdo que o seu cavallo, que podia comer as hervas do campo. Recostado a um tronco de arvore, mastigava folhasverdes para illudir a fome. O silencio e o isolamento nada influiam no animo do criminoso; seus crimes e victimas não o incommodavam; remorso, elle nunca havia sentido. Precisava comer e cogitava nos meios de matar a fome. A noite era de um luar esplendido; pelos claros da matta, viam -se nesgas azues do céo onde a lua assomava, para ficar encoberta depois pela ramaria espessa das arvores. O silenciosó era interrompido pela bafagem da viração ou pela gargalhada hysterica da mãe da lua- uma sériede interjeiçõesagudas, que sacudidas n'aquelle meio, repercutiam de oi teiro em oiteiro, tristese plangentes.
Jurema estremecia involuntariamente todas as vezes que a serie de ah. . . ah. . . ah. . . ah. . . ah. . . ah. . . compassados e lugubres, soava tristemente no espaço. A pequena coruja, com a forçade sua possante larynge, atroava a solidão d'aquelle vasto sitio, soltandode espaço a espaço a sua nervosa gargalhada. As vibrações esmoreciam até o silencio dominar de novo; então farfalhava a brisa, notas mais melodiosas se ouviam e me Thor impressão deixavam ao criminoso. A temperatura baixava, frio intenso penetrava até a medula dos ossos do facinora. Os lagedos, expostos ao luar daquella noiteserena não tardaram a se cobrir de orvalho, que aljofrava as suas escabrosas superficies, Jurema; morto de fome, invejava a sorte do cavallo que, perto do rancho, mastigava com avidez a fresca e basta grama do solo.
O facinora, vencido pelo somno, foi-se es tirando vagarosamente na terra e adormeceu profundamente. Poucos minutos havia agora de silencio. As monotonas interjeiçõesda coruja nào eram mais lugubres do que as interjeiçõesdo scelerado, luctando com os mais extranhos phantasmas. Aquelles pesadelos se reflectiamno rosto do somnambulo que deixava ver nas feições a intensidade do transe que o mortificava. Em uma das luctas annunciadas por sua voz quasi sumida de cansaço, julga-se ferido no coração. Solta um gemido rouco, seu semblante decompõe-se e cobre-se de uma expressãode pungente angustia; o braço move -se e a mão direitavae collar-se sobre a supposta ferida. O pesadelo continúa, chega um momento em que o somnambulo parece de facto ter morrido. As feições tornaram -se cadavericas e não se lhe ouve mais a respiração.
De repente, aquelle corpo immovel se reanima, um gritode alarma sahe-lhe da garganta, senta-se, esbugalha os olhos, ergue os braços na posição de levar uma arma ao rosto para pontaria, conserva-os n'essa posição, até que um dos olhos se fecha procurando a mira d'arma e o supposto tirosae do bacamarte. -Cahiu! . . . gritao somnambulo, e os braços se abaixaram para descançar a arma. Jurema levou a noite inteira n'essas luctas phantasticas. Accordou já sol alto com o corpo moido e o espiritoainda mais apprehensivo. O seu despertarfoi tragico, como tragicos foram os acontecimentos que enfrentou adormecido. Sonhava elle que tinha sido atacado por uma onça pintada, e quando a féra se en cabritapara apanhal-o, elledá um saltodes communal para o lado opposto; tropeçou em uma raiz e cahiu redondamente no chão.
Aturdido despertou, e meio desorientado ainda, procurou nas immediaçoes do logar a onça que o perseguia. Tinha o cerebro cheio d'aquella idéa. Vol. tando á realidade, pensou em sua situação de criminoso foragido. Era preciso tomar uma resolução; mas antes de tudo, o estomago reclamavaalimento. Jurema pôz o bacamarte ás costas e não caminhou muito para encontrar um bando de jacús. Atirou n'elles, e duas das mais lindas aves cahiram varadas. O facinora apanhou -as e voltou ao rancho, depois de ter revistado a cavalgadura. Con. certados os jacus, Jurema assou -os e comeu -os, escoteiros. Reanimado com a refeição, lembrou -se da possibilidade de uma desforra com as forças do governo no que muito o poderia auxiliar o Brilhante, com o qual era necessarioconferenciar.
Para isso era preciso vencer um caminho quasi intransitavelde quarenta leguas. Resolvido a pedir o concurso d'aquelleoutro criminoso, partiu,