Capítulo XL
O dia vinha muito longe ainda quando os Brilhantes se poseram a caminho. Os cavallos tinham passado bem a noite e alimentados pela forragem fresca e succulenta, caminhavam com grande animo. Jesuino já nem se lembrava mais do Grangeiro - uma onça tirada do pasto. O dia se annunciava por um movimento de nuvens no levante e maior claridade no horisonte. Não tardariam os fulgoresd'aurora. Já os estratos estendidos em linha no oriente se coloriam de rosa. Precisamente ás seishoras, assomou o sol acompanhado de immenso cortejo de nuvens côr de fogo. O levante parecia incendiado. Perto do zenith, alguns cirrhus, tendo a forma de leves escamas, reflectiam o incendio do ori ente com tons vermelhos, franjados de ouro.
Os Brilhantes caminharam o dia inteiro, parando só para o descanço de meio dia. A's seis horas da tarde, tomaram rancho a borda de um riacho, em pleno matto. A florestaahi parecia virgem. A custo, a luz atravessava a folhagem e vinha diminuir a intensidadeda sombra, que em baixo tudo es curecia. Era admiravel o luxo que a vegetação ostentava. O solo estava completamente verde. Os musgos e os lichens atapetavam as rochas, vestiam o tronco das arvores, cresciam por toda a parte. A terra descançada e farta de humus offereciaás plantas um manancial inexgottavel de seiva. Os vegetaes se desenvolviam com tanto viço e rapidez, que, se os fitando, parecia vel-os crescer. Os gommos appareciam na epiderme das hastes, inchavam e, depois de um periodo muito curtode incubação, sedesfaziam em folhas.
Das extremidades dos ramos já brotavam os avermelhados brotos, prenunciando o apparecimento das flores. O murmurio das aguas correntese o zumbir dos insectos, que a seccahavia calado por tanto tempo, se ouviam por toda a parte. Já o monotono canto da cigarra respondia á gargalhada nervosa da mãi da lua. Os sapos, que o inverno tinha desenterrado, cantavam em côro a cheia dos rios e o varamento das lagoas. Os Brilhantes, acostumados ás intemperies, armaram as redes nas arvores e accenderam perto uma valente fogueira para afugentar as onças, que urravam nas furnas dos rochedos visinhos. O calor pouco diminuia a friezado ambiente. Um ar humido e frio cortava -lhes a pelle.
O sereno cahindo se embebia nas roupas e nas redes e lhes esfriavao corpo até o tutano dos ossos. Habituados a vida nomada, pouco os incom modavam essas pequenas provações. Dormiram a bom dormir até de madrugada. A ' hora da viagen, Jesuino foi o primeiro que se levantou. Pajehú e Cobra -Verde o seguiram, e tomando os cabrestos, foram procurar os animaes, que pastavam perto. Promptas as cavalgaduras e arrumadas as bagagens, ia partir o sequitoquando o vultode um homem a cavallose approximou do rancho e pediu licençapara chegar á falla. O Brilhante disse lhe que sim. -E ' aqui que está arranchado o Snr. Je suino Brilhante? perguntou o desconhecido.
-Está fallando com elle, respondeu Jesuino. O recem -chegado descobriu -se e apeou -se. Era um homem de grande estatura e todo vestido de couro, Perfilado em presença do Brilhante, tirou do bolço da vestiauma carta, que lhe entregou. Em quanto o chefe abria e liaa missiva, o vaqueiro não cessava de olhal-o. A curiosidade do matuto não se satisfazia. Lamentava a pouca claridadedo fogo, desejaria muita luz para claramente ver a feição, os traços todos de Jesuino; não queria perder a menor linha do rosto de um homem, que occupava em seu espiritologar tão elevado. A carta dizia assim:
Bem sei que este era o meu dever, mas privou-me de cumpril-o o perigo de vida em que encontrei minha mulher, devido ao desastre de que ia sendo victima. Grande é o desejo que tenho de conhecel-o, de dizer-lhe de viva voz quanto lhe sou agradecido. Na impossibilidade de ir ter comsigo, tomo a liberdade de The offerecer a pequena quantia de quinhentos mil réis para suas despezas de viagem e o meu cavallo de sella. Julgar -me -hei muito feliz se acceitar o meu offerecimento. Para mais provar -lhe a sinceridade de minha gratidão, ficam desde já ao seu dispor os meus serviços, de meus aggregados e escravos, na defesa de sua vida e honra Não escolherei hora e nem medirei sacrificios para servil -o.
Seu amigo do peito Francisco Brazão. » Jesuinoacabou de lera carta, e o vaqueiro, tirando do bolso o dinheiro, ia entregal-o, quando o Brilhante disse -lhe: -Guarda isso. A teu amo, saúde e mil agradecimentos pela sua offerta e palavras amistosas. Não lhe escrevo por ser impossivel n'estas paragens; mas dize-lhe de minha parte, que agradeço a quantia que me offerece como se d'ella me tivesse utilisado; que acceito o cavallo como lembrança da felicidade que tive de chegar a tempo de impedir a execução de um execrando crime; que não despreso os seus offerecimentos e pode contar com a minha amisade. A ' senhora de teu amo, apresenta de minha parte, os meus respeitos.
A todos, saúde e muitas felicidades. Podes vol tar. Adeus. E o vaqueiro montando -se entregou a Pa jehú o cavallo, que traziapelo cabresto, e descobrindo-se em respeitosavenia, partiu. Os Brilhantes continuaram a viagem logo que o sertanejo se encobriu no caminho. Andaram algumas horas a trotelargo, até que chegaram á casa de um parente dos Soares. Um casarão de tacaniça, cercado de alpendres e perto da margem de um rio. Era pouso obrigado de Jesuino e fonte de informações. Apearam -se. Sahiu a recebel-os um velho, o dono da casa, com muita urbanidade, mas com uns longes tons de desapontamento. Aos hospedes pas sou despercebida a contrariedade que trahia, muito de leve, a bonhomia do fazendeiro.
Arrumadas as cavalgaduras e agasalhado o sequito, entraram o velho e Jesuino para o interiore foram se aposentar em um quarto bem distante dos que eram occupados pelos companheiros. Duas redes estavam armadas, que ocсираram. Accenderam os cachimbos, e sentados a turca nos leitossuspensos, começou a palestra: -De onde vens, menino? - Do Cajueiro, meu tio. --Se adivinhasses o que se tem passado por aqui e do perigo que corre toda a nossa familia, por certo não virias expor -te a furia de nossos inimigos. ----Se tivessepodido, já estariaaqui ha muito tempo. -Não sabes ainda o que vai por cá. Foi arrasado Tuyuyú pela força do governo e pelos Calangros, para que, dentro de talfortaleza, mais nunca possas escapar das garras da justiçae dos teus inimigos. Ardeu tres dias o madeiramento, que havia mais de um seculo tinham Jevantado os nossos avós! Os curraes e cercados foram queimados tambem, e presos e espancados os vaqueiros e aggregados!
-E esses malvados não estavam apaziguados? O odio d'elles crescia e se não fazia explosão, se gosavas de treguas, era devido á secca, que havia aberto entre ti e elles um deserto sem pastagem e sem agua, cuja travessiaera impossivel. O inverno veiu, trouxe a paz para todos, menos para os teus, cujas vexações augmentaram. - E não se tinham acabado os cabras da serra das Cabeças? - E essa raça se acaba? ! Ella augmenta como formiga de roça; aquelle pedaço de serra está minado de panellas, rebentam olhos por toda parte e d'ellessahem aos centos para fazer mal ao proximo. A secca os havia enterrado, e a chuva os resuscitou; trouxe á flor da terra o formigueiro e sahiu a correição, dizimando os nossos gados e depois procurando dizimar a nós mesmos.
---Eu os enterrarei, juro! . . . -Será custoso. Elles não se afoitavam a tanto se não tivessem as costas quentes, se não fossem apadrinhados por algum tuntunqué d'aquí. Para vencel-os é preciso primeiro cortar a ar vore que lhes dá sombra; sem isso, meu filho, é dar murro em faca de ponta. -E quem será que lhesdá azas para tanto? O inimigo de teu pai de todos os tempos. -Morrerá dentro de vinte e quatro horas. ---Cumpre a tiprimeiro livrarda prisãoos teus. Ainda ignoras tudo, deixa te pôr a par dos acontecimentos e depois farás o que fôr melhor. A morte d'esse homem é necessaria, de justiça mesmo, mas ella levantará não só os Calangros, como um exercito de famulos, escravos, amigos, aggregados, e será horrivel a matança. Não resistiráscom tua gente até exterminal-os todos; o numero é grande, cem vezes maior do que o teu. Terás necessidade de tocar retirada para refazer o sequito e ellesse aproveitarão d'issopara se vingarem nos teus parentes, até nas mulheres e creanças.
-Morramos todos, embora, meu tio, mas o perverso, que move esses scelerados contra nós, deve ser punido. -Sim, mas em occasiãoapropriada. Sabes que teu pai e teusdous irmãos mais moços estão presos em Pombal? -Soube no Cajueiro. -Mas ignoras que os bens d'elle quasi foram confiscados. -Confiscados como? -Por uma simples irregularidade de matricula, foram considerados livres todos os seus escravos. Reclamou, propoz acção e para fazel-o calar, ellesusaram de um processosummario - recrutar teus dois irmãos e prender teu pai como tendo resistidoá prisão dos rapazes. Assim fizeram. Uma noite, recolhido ao quarto do oratorio, o velho com a familia resavam o costumado terço, quando a força publica cerca-lhe a casa. O grande barulho que faziafóra a soldadesca, suspendeu a devoção. A familiacorreu, sem saber de que se tratava, á salade entrada. Teu pai, com grande presença de animo, perguntou quem estava. Responderam -lhe que abrissea porta O velho pediu-lhes que dissessem quem eram, e a resposta foi uma formidavel algazarra acompanhada de coronhadas nas portas e janellas.
Jesuino não pôde mais ouvir sentado a historia e, meio desorientado, poz -se de pé em frente ao tio. -Soares conheceu que eram proezas da soldadesca, de propositoembriagada pelosseus inimigos. Acreditando-se protegidopela lei, como se todos aquelles desatinos não estivessem fóra d'ella, disse para a força que, como cidadão brasileiroque era, tinha sua casa inviolavel durante a noite, como garantia a Constituição do Imperio. Zombaram de suas palavras e uma salva de coronhadas de novo estrondou nas portas. -Que fraqueza de meu pai! exclamou com vehemencia Jesuino. -Pensou bem, avaliava as consequencias da resistencia e o mal que resultaria d'ella.
Esperou a aggressão, que não se demorou. A porta de entrada voou em pedaços a golpes de machado e a força precipitou-se de sala a dentro. O velho, de pé e immovel com os filhos, um a direitae outro a esquerda, esperou. Os soldados precipitaram -se sobre os rapazes que, sacando as facas das bainhas, teriam se defendido. se o velho não os obrigasse a guardar as ar mas e entregar os pulsos ás algemas. -Que covardia a de meu pai! . . . exclamou o Brilhante com azedume. -Procedendo assim, Soares suppunha respeitara lei, embora fóra de horas lhe arrombassem a casa e lhe prendessem os filhos. Tres Calangros acompanhavam a diligenciae, para provocar o velho, mandaram espaldeiraros presos. Soares, vendo castigados os rapazes, não se conteve e protestou contra todas aquellas violencias; nada mais foi preciso para ser preso e tambem algemado. Nem tua mãi, aquella santa mulher, foi respeitada, um soldado esmurrou -a! . . .
O Brilhante rangiu os dentes e soltou um ganido, uma especie de gemido epileptico de uma horribilidadetal que arripiouas carnes do narrador. Ao mesmo tempo appareceu -lhe espuma nos cantos da bocca e os olhos dançaram dentro das orbitas. A crise passou e o tio, vendo -o mais calmo, proseguiu a narrativa. -Assim presos e algemados, a pé e descalços, foram conduzidos á cadeia de Pombal. Dos tormentos que soffreramem caminho, podes avaliar pela perversidade dos malfeitores, que os escoltavam. Por mofa, perguntavam os esbirros onde estavas com a tua valentia, que não vinhas soccorrel -os. ---Eu adivinhei tudo isso e Deus sabe quanto me costou ficarno Cajueiro.
-Não é issoque de lá mandavam dizer á tua mulher. Nada deves ignorar. A tua mancebia com uma retirante na Casa de Pedra foi notoria aqui. E o teu silencio quasi a confirmava. . . Tantos mezes sem uma nova tua, era para desconfiar. -Quem foi o portador de tal calumnia? -Supponho que foi José quem mandou -a para cá. --Miseravel! . . . está punido. Então é falso? --Por minha honra o juro. -E José, que é feitodelle? -Trahiu - me e matei -o. -O teu fiel? ! . . . a tua cria predilecta? ! -Sim, apaixonou -se por uma moça que encontrei cahida de fome na estrada e levei para casa; medindo -me por elle, julgou-me capaz de seduzil-a. Enciumado, tentou matar-me a falsa fé; luctamos - matei -o.
-Esta mulher, que é feito d'ella? - Desappareceu. -Parece -me istouma novella, meu filho. -Se é uma novella, é uma novellaverdadeira, meu tio. Sabe que costumo dizer a verdade, seja contra mim proprio. Se tivesse seduzido essa moça e vivido amancebado com ella, teria feitoo que muitos fazem. E ' calumnia o que mandaram dizer para aqui. -E ' tarde, Jesuino, já os galloscantaram a primeira vez e o velho precisa dormir um pouco. -Boa noite. -Boa noite, meu tio. E Jesuino procurou a rede e deitou-se.