Capítulo XIX Os Brilhantes · Capítulo 19 de 48
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Capítulo XIX

Já os clarões matutinos entravam na sala de Tuyuyú e deixavam ver debuxados vultosde homens, uns adormecidos e outros acordados. A treva, que cobria todas aquellasfiguras, foi pouco a pouco se rarefazendo, e a noite, que parecia intermina áquelles espiritos pouco affeitosás insomnias, se diluia na claridade do sol, que não tardava a nascer. João Soares, Silvestree Caboclo recebiam, com viva satisfação, as primeirasondulações do dia, porque ellasvinham levantar-lhes o animo abatidopelosphantasmas que a escuridãocreava e o espiritodeixava tomar vulto. Medrosos, como a creança que acordou no escuro, os sertanejos davam corpo ás idéas mais extravagantese sinistras, e depois deixavam -se esmagar ao peso d'ellas. A luz vinha libertal-os d'aquelleterriveljugo, levantal-os da prostração em que covardemente ficaram, em quanto os cobriuum pedaço de noite.

O Brilhantee o liberto, logo que foram rendidosda sentinella, se estiraramnas redes e ferraramno somno. As emoções da vigilianada influiam sobre os nervos d'elles e adormeceram como no fim de um dia venturoso e calmo. A claridade entrava na sala pelo telhado e vigias e bem distinctamente deixava ver o contorno das vigas da coberta e as sinuosidades do rebôco. Pelas raras frestas abertas entre as telhas, maior somma de feixes luminosos entrava, diluindo mais e mais as sombras que escureciam o ar da sala. O solestava quasi fóra quando bateram á porta da rua. Jesuino despertou com a bulha e poz-se de pé, de um pulo, José o acompanhou. Foi á vigia de bacamarte em punho; na varzea soturna e deserta estava somente o vaqueiro de Tuyuyú, a cavallo, mas com ares de certa inquietação.

-Que ha? perguntou o Brilhante. -Uma desgraça! Jesuino correu o ferrolho da porta e o sertanejo se apeando entrou. O homem tinha as feições decompostas. Grande devia ser o sen timento que tanto o abalava. Todas as linhas do rosto, n'uma crispaçãoespasmodica, e o olhar n'uma expressão de espanto davam ao recemchegado o justotitulode mensageiro de luctuosa nova. Todos olharam-no surpresos, menos Jesuino, cuja sensibilidadeparecia anesthesiada desde o dia do seu primeiro assassinato. O silenciodo vaqueiro durou um instante, e n'esse curtissimoespaço de tempo, os que estavam desejososde ouvilo, pensaram em tantas e diversas cousas! A inquietação da espectativa foi substituidapela magua da realidade. O matuto, com voz cavernosa e falseada, disse lhes que ao entrar na varzea estava o cadaver do velho José Caboclo, assassinado. A nova arrancou um estremeção violento dos que estavam presentes, menos do Brilhante, que ficousereno. De todos que ouviram o vaqueiro, a um mais do que aos outrosferiaa ingrata noticia. Era o filhodo assassinado, rapaz ainda imberbe, mergulhado n'uma tristezaque doía ver. Chorava desconsoladamente.

Jesuino consolou o primo, protestandouma vingança terrivelna alturada affronta. O Brilhante via no assassinato do inoffensivovelho, acto de grande perversidade de seus inimigos, mais um acinte a sua pessoa do que uma vindicta. Urgia uma providencia e elle, com uma sobranceriafóra do commum, tomou -a fazendo preparar uma rêde para o transporte do cadaver. Concluidosos aprestos, seguiram todos para o logaronde estava o defuncto. Já os urubús crocitavam em roda do cadaver. Todos mais ou menos commovidos acercaram -se do morto. Assassinado havia quasi vinte e quatro horas, começava a putrefacção a preparar a comezaina dos vermes. O ventre balofo distendia -se abaúlado, estilhando a camisa em diversos pontos. Sobre o peito uma grande poça negra de sangue coalhado, assignalava o crime. O rosto tumefactoe cyanotico, mais hediondo tornavam os olhos esbugalhados em uma estagnação que faziaarripiar. A bocca fechava-se em uma ex pressãoviva de angustia, que completava a branca aureola da barba côr de prata.

Todos os olhos se cravaram na figura do morto, e assim ficaram, em dolentecontemplação, até que Jesuino deu começo á repugnante tarefa de collocar o defuncto na rêde. Tudo prompto, seguiram em rumo do cemiterio da villa mais proxima. Soares e Silvestre formaram a primeira parelha de carregadores, com as extremidades do comprido páo em que ia armada a rêde aos hombros, seguiram com passo certo, firme e apressado. A segunda parelha era formada por Jesuino e José, e a terceira pelo vaqueiro e Caboclo. Caminharam uma boa meia leguae, já bastantecançados, pediram muda; substituiu-os a segunda, depoisa terceira e assim se revesando chegaram ao cemiterio já o dia alto, fatigados do corpo e com o animo aquebrantado por tão fatal acontecimento.

O Brilhante, de todos, era o que não dava mostra de abatimento. Tinha a feição serena, embora o coração ardesse no mais vehemente desejo de vingança. Inhumado o cadaver, voltaram ao Tuyиуй, onde estiveram o tempo necessario a uma refeiçãoela encilharas cavalgaduras. Partiram quasi ao lusco fusco para a fazenda do velho Soares a quem o Brilhante ia informar do occorrido e dizer o que pretendia fazer. De pressa venceram cinco leguas e, antes das nove da noite, batiam á porta do velho que recolhido desde as sete, dormia sem presentimentos. Aboletaram se. Ao clarear do dia Jesuinofoitercom o pai, que no curralassistiaao desleitardas vaccas. O velho ignorava que os filhose o genro tivessem pernoitado ali. Saudaram se.

Grande numero de cavalleiros assomava de differentes pontos em direcção á casa. O Brilhantenão os perdia de vista, e por algum tempo suppoz mesmo um novo ataque dos Calangros. Quando alguns dos que vinham, chegaram mais perto, foram então reconhecidos por Jesuino: eram membros de sua familia. O pateo da fazenda em breve ficou coalhado de cavalga. duras, o que de algum modo admirava o velho Soares, que de todo ignorava o motivo de ta manho ajuntamento. O que mais o surprehendia era o trajepreto de que todos vinham vestidos. Não se conteve e sahiu do curral. Os recemchegados acercaram-se d'ellee indignadosrela taram o assassinato de Caboclo e os nomes dos assassinos. Ouviu -os e fitou o Brilhante como pedindo que completasse as informações.

Jesuino comprehendeu a vontade do pai e com grande presença de animo contou-lhe com a maior verdade o que se tinha passado desde o dia em que pela manhã lêra o desafioescriptopelos Calangros em sua porta. Inteiradode tudo, mais cresceu-lhe a indignação. Um desabafo na altura da affronta, reclamaram todos. Tres familiasdesfeitadaspor alguns cabras desordeiros! Não podia passar isso sem um ensino que ficassepara exemplo. E, recolhidosá sala, discutiramcom azedume oacontecimento, cada qualmais estomagado, mais convencido da necessidade de uma vindicta. O velhoSoares, o manso, o prudente da familia, haviaperdido a calma e faziacôro com os mais exaltados. O que o havia indignado sobre tudo na morte do Caboclo fôra a affronta tragada pelovelho, a maior affrontaque pode soffrer um sertanejo.

Se o tivessem morto sem primeiro aviltal-o, era sómente um homem que perdia a vida, porem não, antes de assassinalo, Francisco Ca langro obrigou -o a passar tres vezes por baixo da barriga de seu cavallo e propalava isto, para maior vergonha da familia do morto. O velho Soares não se podia conformar com semelhante aviltamento. Todos estavam admirados de sua attitude energica e do seu pedimento formal de vingança. O Brilhante, no meio da assembléa de exaltados, com a physionomia calma e o coração dentro de uma labareda de odios, pediu a pa lavra para externar os seus sentimentos. Quem o visse duvidaria que ellejá fosse um criminoso. Seu ar sereno destoava entre aquelles semblantes carregados de colera e indignação. Com voz firme começou, voltando-se para o pai, que perto delle, desejava ouvil-o:

-As perseguições que contra nós têm movido os Calangros, desde o insulto até o assas sinatodo nosso parente Caboclo, morto depois de soffrera mais vilaffronta, sabem todos que estão aqui e não é preciso repetil-as. Provocado muitas vezespela suciade malfasejosque, mais por conta de terceiro do que por conta propria, procuraram minha perdição, fugiae continuaria a fugirdo precipicioque me abriam á frente, se um acaso infeliz, uma fatalidademesmo, não me tivesse feito testemunha ocular do assassinato de nosso parenteBotelho. Vi quando o scelerado Francisco Calangro disparou o bacamarte e a victima cahiu estribuchando, esgottadaem sangue. ouvintes.

-Perverso! que féra! exclamou um dos -Não me pude dominar e desde aquelle momento não tive mais forças sobre mim. A pa cienciacom que eu soffriaos insultos, havia desapparecidode todo e o seu logar foi occupado por um desejo ardente de matar, mas de matar somente os nossos perseguidores. Quiz retirarme d'aqui, por obediencia a meu pai, mas ainda um acaso infelizamarrou -me neste lugar e fi quei. Desafiado, matei e continuareia matar, porque a sêde de vingança continúa e o odio e as perseguições de nossos inimigos não arre fecem. -Apoiado! gritaram a uma voz quasitodos os circumstantes. -Não ha meio de recuar. Sei que são grandes os trabalhos que me esperam e por saber d'isso é que desde já declaro que não acceito ninguem mais no meu grupo.

-Nem a mim, Jesuino? perguntou um rapaz moreno e forte de pouco mais de vinte annos. -Não; não preciso de V. para vingar a morte de seu pai. Era o seu dever offerecer os seusserviços, mas cumpre me dispensal-os. -Insisto em acompanhal -o, e se recusa acceitar-me issoserá fatala mim, porque ireibater-me com os assassinos de meu pai, disse Lucio Caboclo, firme e resoluto. -Não irás só, Lucio, eu te acompanharei. Seria uma covardia deixarmos a outros a tarefa de saldar tão grande conta com os matadores de nosso pai. Acompanharemos Jesuino, e se elleteimar em não nos acceitarem suacompanhia, faremos o nosso dever, meu irmão, procurando vingar a morte de nosso pai, disse José Caboclo.

-De tão nobres corações não podiam ser outrosos sentimentos. Pensei em dispensal os para não os expôr a tão espinhosa via gem. São mais dous homens na flor da idade que se perdem e já era de sobra os quatro que os nossos inimigos escolheram para victimas. Acceito-os constrangido, mas fiquem todoscertos de que, sejam quaes forem as consequenciasda lucta, não consentireimais que um só de meus parentes tome parte em meus trabalhos. Ficou issoassentadoe, desde esse dia, estava formado o grupo dos Brilhantes, tendoJesuinocomo chefe. XXXO

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