Capítulo XVII
Pedro Jurema não sentiu muito a falta do cavallo; sahiu com a sella ás costas e apossouseda primeira cavalgadura alheia, que encontrou. Era -lhe preciso conferenciar com o Briihante, cuja fama de valente corria de sertão a fóra. Auxiliado por elle, seria possível tomar uma desforra com a força do governo. O caudilho chegou á fazenda de Jesuino na manhã em que este recebeu o desafio dos Calangros, concebido n'estestermos: > Quando o Brilhante acabou de ler o des afio, cahiu fulminado de colera. Rangiu os dentes e exclamou furioso:
-Infames! . . . Pedro Jurema ainda encontrou Jesuino espumando de raiva. Apeou -se no pateo, e á porta de entrada pediu licença. O Brilhantecalmou -se e recebeu a visita com urbanidade. Não se conheciam. As primeiras palavras foram gastas em ligar os nomes ás individualidades. Pedro Jurema e Jesuino Brilhante, cada qual mais temido, achavam -se em frente um do outro. O caudilho, suppondo encontrar um homemzarrão, espadaúdo, musculoso, estava na presença de um homem commum. -O que me traz aqui é convidal -o para uma resistencia ao governo e levantarmos o bando dos Quebra-Kilos. Tenho pratica do serviço e algum dinheiro para começarmos. -Não estou disposto a me envolver n'essas luctas.
-Entendamo -nos. Sei que o senhor está sendo perseguido pelos Calangros, e regeitando o meu offerecimento, perde a occasiãode metter uma bala em cada um. Além desta vantagem ha outros proveitos de encher barriga. O tempo que estive na chefía do bando, rendeu -me boa pataca. O senhor será nosso chefe. -Nunca me entraram em casa patacas ganhas assim e espero em Deus que nunca me entrarão. Jurema ficou suspenso, porque suppunha que o Brilhante rezava por sua cartilha. Um malvado, como apregoava o mundo, com taes escrupulos de consciencia! Aquelles prejuisos de bom christão, o caudilho pensava dissipal-os com a sua rhetorica chata, e continuou:
-Tudo é modo de viver. Eu tambem tinha meus escrupulos, mas o mundo e as precisões acabaram com elles. O primeiro crime que commetti foi matar um homem para roubar -lhe o dinheiro que conduzia. -Basta, senhor, guarde comsigo as suas miserias, disse Jesuino deixando ver na physionomiao nojo que lhe causava aquelle homem. -Não tome o recado na porta de entrada e ouça-me, que não é máo o partido. Ver -se livre dosinimigos sem responsabilidade e ganhar com que passar o resto da vida! . . . E demais, vamos e venhamos: os bens do mundo, deixou-os Deus para todos e não para meia duzia de vadios que nunca souberam o que foi trabalhar. -E ' inutil insistir. Se foi somente com este fim que veiu a minha casa, póde retirar-se.
-O senhor maltrata -me sem lembrar -se de que posso tirar grande partido com os seus inimigos e que estes, com certesa, acceitarãoa minha proposta, e ai dos Soares! . . . -Por ali, cabra, gritou o Brilhante, que com a ligeireza do gato tinha saltado e se posto hombro a hombro com o caudilho, apontandolhe o caminho. Jurema, assombrado com a agilidade do Brilhantee com sua energiaferóz, não teve animo de dizer senão estas palavras: -Está em sua casa! E sahiu, jurando vingar -se do atrevimento de Jesuino. O Brilhante podia contar com aquelle inimigo mais, cuja perversidade seriaaproveitada pelosCalangros. Com issonão esmoreceu e mandou chamar os dous parentes, que ignoravam o desafio escripto a carvão, pela madrugada, em sua porta.
O irmão e o cunhado encontraram -no ainda estomagado com Jurema, mas não n'aquelleator doamento, n'aquella exaltação dos primeiros tempos de lucta. Expoz -lhes a situação, que julgava perigosa, e o seu plano de defeza. DoiaThe muito, diziaelle, ter envolvido no desforço seus dous parentes e de modo a não poderem mais deixar o campo senão com grande risco de serem assassinados a falsa fé. Urgia um accordo; Soares e Silvestre, es tupefactos com a ameaça dos Calangros, nada podiam decidir. De qualquer modo tinham a vida em perigo. Luctando, podiam terganho de causa, fugindo, seriam com certezamortos de embos cada. Assim entregaram -se de corpo e alma á vontade de Jesuino, que, com grande pesar seu, seria acompanhado por elles á entrevista dos Calangros.
Jesuino apresentava uma grandeza de animo fóra do commum. Estribado no direito e con vencido de que seus inimigos lhe tirariama vida se não procurassedefendel-a, empenhou se na defesa, certo de que lhe assistiao direito de matar para não ser morto. Além da coragem feroz com que se defenderia, a nevrose the influenciavao animo, alimentando o desejo do crime que a sua conscienciajustificava. Faltavam tres dias para o encontro na Varzea de Fóra, para se decidirda sorte dos luctadores. Jesuino, de posse do accordo dos inimigos, que em numero superior a doze iriam á entre vista, resolveu não brigar em campo raso, mas entrincheirado esperar a aggressão. Racioci nava com perfeita lucidez e, pelas objecções que levantava e argumentos que sustentava, ninguem duvidaria do equilibrio completo de seu estado mental.
Decidiu -se pelo entrincheiramento, menos por temer ser batido do que pelo desejo de ser atacado. Por si nada temia, tal era a confiança que tinha na agilidade de seus musculos e na pontaria de seu bacamarte. O mesmo não podia elle pensar dos parentes; não atiravam bem e podiam perder o animo. A prudencia pedia melhor orientação. Jesuino lembrou -se de Jurema e achou que fôra precipitado. O que estava feito, porem, estava feito e esqueceu-se do caudilho. Precisava de um homem valente a ponto de ser cortado em postas sem dar um gemido. Tendo a seu lado um homem d'esses, o Bri lhantetinhafé de brigarcom todos os Calangros e sahirvictorioso. Onde encontrar alguem com dotestão raros, que se batesse para satisfazer alheiosodios até deixar no campo todo o sangue das veias? Muito difficilera. Jesuino tinha muito perto de si uma creatura que podia servilo, o seu escravo José.
A figura robusta do mestiço já tinha-lhe passado pela imaginação. Era justamente quem The servia: um homem vigoroso e destemido. A vida do campo e as lidas de vaqueiro tinham dado a musculatura de José a força do touro e uma coragem que tocava á temeridade. Aos vinte annos, tal era sua idade, tinha conquistado a fama do melhor e mais ousado vaqueiro d'a quellascercanias. Ninguem como elle topava um novilho ou montava um poldro bravo. O Brilhante contava além d'isso com a dedicação do escravo, creado por elle, pode -se dizer, de pequenino e quasi como filho. Não devia consultal-o, nem ouvil-o, era propriedade sua, e como senhor, tinha direitoaté sobre a consciencia de José. Jesuino sabia de tudo isso, mas sua generosidadese oppunha a toda acção que fosse uma villania.
Nunca acceitaria serviços que não fossem voluntarios, e de mais, aquelles em que se arriscava a vida. Com o fim de consultar o escravo fêl-o vir a sua presença e lhe expoz com franqueza a situação. -Póde contar commigo, senhor, morrerei ao seu lado. As palavras de José calaram no espiritodo Brilhante como um juramento solemne. -Não posso acceitar os teus serviçossem primeiro dar -te a liberdade. Não te fizlivre antes de te dizer as condiçõesem que me achava, porque era fazer preço ao favor que te pedia e eu queria que tu me acompanhasses por tua livre vontade. E's livre, dize se me acompanhas nos trabalhos que me esperam, sem o menor constrangimento?
bem. -Conte commigo, senhor, e sempre. José estava commovido e o Brilhante tamJesuino entrou para a sua alcôva e voltou minutos depois com um papel que entregou ao mestiço, dizendo-lhe: -A tua carta de liberdade; vai á villa e o tabelliãoque a lance em notas. José recebeu o papel com mão firme. Nada disse e foi cumprir as ordens de Jesuino. Logo que se retirou o liberto, o Brilhante entroupara um quarto com Soares e Silvestre. Iam assentar no plano de defeza. Só ellefallava, osdous parentes atordoados ainda com a ameaça dos Calangros, ouviam -no em silencio. O Brilhante pensava por elles. Entendia sermelhor recolherem-se a fazenda Tиупуй е lá esperar a aggressão, isso debaixo do maior segredo, segredo que não seria confiado nem ás suas proprias mulheres.
Na madrugada do dia da briga se achariam em Tuупуй соm о liberto José. João Soares se encarregaria de mandar as provisões de bocca e elle, Jesuino, as munições de guerra. O vaqueiro se ausentaria da fazenda nesse dia a pretexto de uma vaquejada. O irmão e cunhado ouviam -no sem fazer a menor objecção. Estavam estatelados, sem a minima probabilidade de sahirem d'aquellarascada. Sem habitosde brigar, seriadifficilse ageitarem ao bacamarte. Não havia, entretanto, remedio senão acompanhar o Brilhante. Estariam pelo que elle quizesse. Jesuino tratava agora de resolveruma difficuldade, o meio de avisar aos Calangros do alvitrede se intrincheiraremem Tuyшуй. Um recado, devia ser, mas quem o levaria? Uma carta seria melhor, conduzida por José e entregue a elles na noite de quinta para sextafeira. Accordaram nisto e o Brilhante ficou encarregado de avisar aos inimigos.
Soares e Silvestre, cada qual mais macambusio, despediram-se de Jesuino até á madrugada do dia da lucta. A rascada em que estavam mettidos era de fazer suar o topete. Ambos lavradores e creadores, com mulher e filhos, de habitos pacificos e vida tranquilla, serem forçados de um momento para outro a trocar o socêgo d'aquella venturosa placidez pelos sobresaltosde espirito e toda a sorte de desfallecimentos em uma lucta ingloria e fratricida! . . . Assim quizeram os inimigos. Jesuino com animo firme dispunha as cousas de maneira a ser louvada a sua previdencia na hora do perigo. Tomadas as providenciasquanto á defeza e fortificaçãode Tuyuyú, tratou ellede pôr em ordem os seus negocios como se estivesse para morrer.
Deu um balanço nos papeis existentes em sua mala de pregaria, pol-os depois em ordem, contou o dinheiro que possuia, fez de tudo um arrolamento por escripto, ao qual accrescentou algumas explicações e disposições para o caso de morrer, e fechou tudo na mala, cuja chave guardou. Todas as ordens estavam dadas e tudo habilmente providenciado para o bom exito da defeza. Na manhã de quinta -feira Jesuino recebeu um recado de Soares, avisando que ia com Silvestre pernoitarno Tuyuуй. Respondeu -lhes- inteirado. Era necessario escrever a missiva para os Calangros e o Brilhantesentou-se sereno á mesa e tomando a penna, disse-lhes: « Aos Calangros, guerra. Não podemos acceitar o desafio; tres homens não podem brigar á descoberta com vinte. Não iremos á Varzea de Fóra, mas estaremos todo o dia de sexta-feira no Tuyuyú. Não tememos a lucta, mas receiamos a traiçãode covardes que, sem brio e ver gonha, desafiam, porque pensam ignorarmos nós que suas forças são quatro vezes maiores do que as nossas. Aos Calangros, guerra e guerra de morte, porque estamos convencidos de que esses assassinos tentam contra nossas vidas. Soares e Silvestres. » Jesuino concluiu a missiva e fechou -a. Passou -se o resto do dia sem incidente notavel.
disse -lhe: Ao escurecer, o Brilhante chamou José e -A meia noite bota a sella no Precipicioe armado de bacamarte e punhal, monta n'ellee vae entregar esta carta a Francisco Calangro. Entrega a carta sem trocaruma só palavra, dá de redea immediatamente, e na mais veloz carreiraseguirásdireitoao Tuyuyú. São estasas ordens, d'ellas não te afastes. -Senhor, sim, disseJosé guardando a carta no bolso da vestia. Jesuino recolheu -se ao quarto quasi á meia noite. Sua mulher e suas tres filhinhas, havia muito, dormiam. A calma do Brilhante não resistiu & impressãoque recebeu sua alma, quando os seus olhos viram os rostos das creanças adormecidas. Perturbou -se -lhe a serenidade do semblante e elle sentiu que lhe fazia mal o silencio da alcova e a vista d'aquellas innocentes creaturinhas. Custou reagir, suffocar o sentimento de piedade que despertavam -lhe n'alma as filhinhas, que, bem podia ser, ficariam sem pai, e que elle nunca mais tornaria a ver.
Luctou e venceu. Approximava -se a hora da separação, de uma separação talvez eterna. Era preciso co ragem para deixar a paz d'aquelleaposento. A mulher devia tudo ignorar, mas era preciso entregar -lhe a chave da mala. Accordou -a e deu -lhe a chave, dizendo que ia a uma viagem de tres dias. Ella ouviuo e acreditounas suas palavras. Adormeceu logo depois. Jesuinochegou-seá rêde das filhas, beijou-as uma a uma, deixando n'aquellamuda despedida cahir uma lagrima em cada rosto. Temendo ser vencido pela emoção, sahiu precipitadopara o quarto d'armas, preparou-se, e fazendo viro seu cavallo, montou-se e partiusó para o Тиучуй.