Capítulo XLVII Os Brilhantes · Capítulo 47 de 48
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Capítulo XLVII

A estrellapropiciaque havia guiado o Brilhante durante longos nove annos de luctas, começava a eclipsar-se. Jesuino encontrou no rancho tratamento conveniente, e no fim de poucos dias, estava forte, o ferimento cicatrizado. Sentia-se perfeitamente bom do corpo, mas o espirito conservava uma apathia, que os companheiros estranhavain. Os olhos faiscantes do chefe tinham perdido as scintillações e cahido em um quebramento doentio. Elle, a actividade personificada, poucas vezes sahia da rede para ir fóra da caverna. Dos companheiros era João Soares o que mais se inquietava com o estado do Brilhante. A situaçãoera perigosissima. Os inimigos, em crescido numero, alliadosá força do go verno, mais cedo ou mais tarde, viriam sobre elles, e o chefe, quasi reduzido á imbecilidade, seria a victoria dos contrarios. No sequito havia homens valentes porque estavam ao lado de Jesuino, cuja coragem não tinhalimites. Tinham perdido um dos melhores camaradas, o Silves tre, que, no caso de um desastre, assumiriaa chefia do grupo. Estava em poder dos inimigos e sua falta, tão sensivela todos, passou despercebida ao chefe, que nem perguntou pelo cunhado. João Soares notou com grande pena que o irmão não se tinhalembrado de perguntar por Silvestre! Aquella indifferença, pensava, era uma doença, cuja causa attribuiaa queda e á perda de sangue. Ao tinhorão nem lembrou -se de dar um pouco de cumplicidade. Para mais se certificarde que o cerebro de Jesuino estava doente, perguntou -lhe:

--Já soubeste que Silvestrecahiu em poder de nossos inimigos? -Que Silvestre? ! -O nosso cunhado! . . . -Elle não estava aqui com os outros, quando cheguei? -Foi ferido, preso e talvez morto na noite em que fugimos da Pedra furada. O Brilhante nada disse ao ouvir a historia da prisão do companheiro. João Soares, que não perdia um gesto do irmão, vendo que a desagradavel nova não lhe tinha decomposto uma só das linhasdo rosto, que a expressão do semblante era a mesma, de bondade e demencia, esmoreceu. Era chegado o tempo de se cumprir a lei fatal das compensações. Não tardaria a echoar nas covoadas da serra o som da cornêta inimiga, e que meios de resistenciaoppôr á invasão da tropa?

Não havia quasi munições de guerra e provisões de bocca e poucos eram os companheiros que sacrificariama vida na defeza da vida do chefe. Mais pelo temor que tinham delle, do que por lealdade, pelejariam até á morte e não aban donariam o campo, mas hoje o olhar do chefe que tanto os aterrava, é um olhar de ovelha quando rumina, não tem mais a ferocidadedos felinos. João Soares pensava em tudo isso. Assumir a chefia do grupo em circumstancias tão cri ticas, para se deixar prender e ser levado pelos inimigos, exposto a ultrages infamantes, atéa cadeia de Pombal, era tarefa muito ingloria. Pajehú e Cobra -Verde, que eram exemplos de disciplina, se tornavam cada dia mais exi gentes. Notavam mal do rancho e das refeições e falavam em receber salarios adiantadamente.

Procediam deste modo pensando que o chefe ficariacada vez mais doente; mas não foias sim, o Brilhanterecobrou um pouco as qualidades perdidas ou embotadas. O ar da montanha o equilibrou mais, sem lhe restituirtoda a fortalezado espiritoe Jesuino não ficou sendo o mesmo homem de lucta. A indifferença que tinha por tudo e para todos, havia diminuido muito; fez alguns reconhecimentos e a instancias de João Soares planejou a construcção de duas trincheirasnos dous caminhos que davam accesso á Casa de Pedra. Pajehú e Cobra-Verde, logo que Jesuinose mostrou mais activo, abstiveram-se de todoe qualquer commentario sobre o rancho, embora os olhos do chefe não faiscassem mais. Jesuino já andava armado e por vezes tinha atravessado a Titélado Perigo e visitadoa Casa de Pedra.

O Brilhante, com bastantedifficuldadee expondo dous dos companheiros e parentes, havia se abastecidode viveres para um mez. A construcção das trincheiras foi cousa de pouca monta. Jesuino aproveitou a garganta estreita de um desfiladeiro, por onde passava um dos caminhos e fez uma barricada de pedra; no outro, que cortava o flanco de uma immensa rocha de granito, deixando dos lados talhadas a pique altasparedes, entupiu a passagem e fez no cume de um dos muros uma especie de guaritade pedra. Estava defendida a Casa de Pedra. Um homem bem municiado, em cada uma d'aquellasposições, obstariaa passagem de um exercito. O Brilhante não havia posto sentinellasnas fortificações, que ficaram conhecidas por Boeiro e Garganta, porque não tinha noticiada approximação dos inimigos.

João Soares sahia todos os dias a observar a serra e voltava dizendo que estava tudo em paz. Uma tarde, chegou mais cedo ao rancho e avisou ao irmão que tinha encontrado na matta um borralho fresco, e muitos rastos de homens e de cavallos. Jesuino ouviu a nova sem aquella costumada irritabilidade. Os olhos conservaram a mesma expressão doentia. Ficou alguns minutos em silencioe depois fez vir á sua presença Cobra Verde e Pajehú, e mandou que este seguisse para o Boeïro e aquellepara a Garganta, com abundantesprovisões. As sentinellasreceberam ordem de matar a todo aquelle que pretendesse transpôr aquellas posições. Recebidas as instrucções, partiram para seus destinos. Foram juntos até certa altura, depois se separaram.

Cobra -Verde nada disse ao companheiro sobre o compromisso que tomara de matar o chefe a falsa fé. Esteve para lhe dizer tudo o que se tinha passado, mas não teve coragem de revelar tão grave segredo. O estado doentio do chefe o havia animado muito, mas agora elle já não estava tão apatetado. Cada qual tomou conta de sua trincheira. Pajehú, dispostoa fazerfogo em quem passasse ao alcance do seu bacamarte e Cobra -Verde, no firme proposito de capitularcom os inimigos sem dar um tiro, mas com a condição de deixarem -no ir embora d'ali mesmo. João Soares não se tinha illudido quando affirmou ao irmão que havia gente de fóra no Cajueiro. A escolta de Pombal reunida aos Calangros formava uma força de mais de quarenta ho mens e bem municiada.

Só muitos dias depois do acontecimento da Pedra-furada, foi que se pôz em marcha. Chegando á raizda serra, acampou. O capitão, quanto mais se approximava do quartel general do Brilhante, mais receioso e precavido se tornava. Os Calangros, estes, logo que chegaram á montanha, se mostraram encolhidos e murchos e acompanhavam a diligenciafazendo das tripas coração. A Casa de Pedra era o pesadelo d'elles, e se era um baluarte inexpugnavel, maiores proporções e invencibilidadelhesdava a imaginação amedrontada. Um reducto inaccessivel, trepado no cocoruto de um penhasco e vomitando balas por todos os lados, eis como se apresentava á mente dos inimigosa fortalezado Brilhante.

Toda a esperança estava no Cobra -Verde. Só uma traição faria pôr a mão em Jesuino. Entre os Calangros havia um que conhecia os dois caminhos que iam ter á Casa de Pedra. O capitão sabendo dissodecidiu-se a fazer alguns reconhecimentos. Era muito provavel que os Brilhantes se tivessem recolhido á caverna. Em numero muito menor, não ousariam bater-se em campo descoberto. Jesuino usaria de algum estratagema para attrahira escolta ao seu valhacoito. O commandante, prevenido como estava com as artimanhas d'elle, sempre fataes, não cahiria facilmente em qualquer esparréla. Dividiu a força em dois piquetes, tomou o commando de um d'elles e deu o outro a um inferior. A diligenciacomeçaria ao romper do dia. O guia era um só e dois os caminhos. A ladeira do Boeiro não tinha erradas, ia ter á Casa de Pedra, quer quizessem, quer não. Já não era assim a da Garganta.

O commandante ordenou que o guia pozesse um dos piquetes no caminho do Boeiroe que voltassepara guial-o com o outro á Gar ganta. Partiram. Ambos os caminhos eram quasi intransitaveis. Em alguns sitios, apenas, uma trilhaestreita, serpeada pelas cristasde ingremes penhascos ou descendo pelo bojo de fundos precipicios. A vereda do Boeiroera uma só, mas já não era assim a da Garganta. De quando em vez, o guia se esbarrava com um labyrinthode caminhos e muito tino era -lhe preciso para não perder o rumo. Outras vezes fechava a trilha inesperadamente uma rocha, sem signalde passagem, e assim entupida a ladeira, teriam de retroceder, se o guia ignorasseque, voltandopor um dos flancosda pedra, encontrariauma fenda, que mal dava passagem a um homem, mas que era a continuação da vereda.

A distancia a vencer da raiz da serra á trincheirado Pajehú, era cinco vezes mais do que a distancia ao reducto de Cobra Verde. A trilhado Boeiro, embora pessima, aproveitava os camalhões formados pelas ondulações do terreno e se estirava no dorso d'elles, encompridando o caminho. A da Garganta subia em linha recta, cortando oiteiros e socavas. A's cinco horas da tarde, o guia avistoua guarita, cuja presença lhe causou grande estranheza. A escolta fez alto immediatamente e o capitão, embora muito longe do alcance das balas, teve receio de acampar. Na incerteza de pouso melhor, arrancharam -se, esperando a escuridãoda noite para illudira vigilançada sentinellae atravessara Garganta. Das bandas da trincheira, não vinha o menor ruido e tambem nada viram até o sol se esconder. O capitão pensou que estivesseabandonada; e quando foi tudo treva e se preparava para seguirum clarão vermelho de incendio brilhouno patamar da guaritae illuminoutodo aquellesitiona distancia de mais de um kilometro.

A valente fogueira, que accendia o CobraVerde, mais com medo das onças do que das cobras, com as quaes brincava, desfez o plano do capitão. No granitodas paredes da Garganta a luz se refrangia, e as sombras, que escondiam a trilha, desappareceram. Ficaram ali a noite inteira em uma espectativa mortal. Esperavam a cada instante uma investida de Jesuino ou pelo menos a morte de um da escolta. Assim estiveram, até nascer o sol. Ainda havia no céo uns longes tons de crepusculo, quando no espaço retumbou o estampido de um tiro para as bandas do Boeiro. Estremeceram, officiaese inferiores. Cobra-Verde, que dormira a noite inteira, accordou com a detonação e não pôde atinar de onde partira ella. Chegou a uma das vigias da guarita e viu com surpresa uma mó de gente á entrada da Garganta. Reconheceu que eram soldados e decidiu-se logo a entregar -lhes a trincheira com a condição de deixarem -no escapulir.

O capitão tinha-se approximado um pouco mais da fortificaçãoe reconhecido ser de todo impossivel forçal-a. A trilha, alem de estreita, estava em parte entulhada de pedras e de páos, que muito difficultavam e morosa faziam a marcha dos que se aventurassem por ella. Cobra -Verde, vendo que a escoltanão se approximava, decidiu-se a ir ter com ella, para se ver livre do seu compromisso. Desceu e se encaminhou para lá. O capitão foiquem primeiroo avistou. Em bora fosse um homem só, e parecendo desarmado, mandou preparar as armas. Cobra -Verde foi recebido com os bacamartes engatilhados. O commandante se afastou com elle dos companheiros para ouvil-o. O mestiço estava côr de enxofre e affrontado.

-Que novas tem para nós? perguntou o capitão. -Bôas, meu amo. O Brilhante está meio maluco, tantoque só vive dizendo besteiraspela bocca; e entregando eu a V. S. aquella trincheira, está elleno papo. - Estavas ali só? -Sósinho. --E que força tem elle? -Um homem no Boeiro e mais tres com elle na Casa de Pedra. ---Então has de nos levar até lá, não é assim? -Dispenso a molhadura, entrego a trincheira e ensino o caminho, mas tudo isso para me deixarem ir embora. -Não foi esse o trato; has de cumprir o que prometteste. -A força. . . -Seja como for, e, se tambem nos venderes, te arrependerás, juro-te. Pensa bem n'isso: duzentos mil réis e a liberdade ou ser esquartejado vivo.

-Atirarei no homem, seja. E o capitão voltou com o Cobra -Verde para o acampamento. Um outro tiro retumbou para o lado do Boeiro e veiu apressar a partida da força. Cobra -Verde pediu licença ao capitão para subir á guarita e se armar; o que foi concedido, sendo elleacompanhado por quatro praças. O mestiço podia arrepender -se e de lá atirar sobre a tropa. Logo que voltaram, seguiram. O piquete que subiu pelo caminho do Bo eiro, logo que se approximou da trincheirafoi recebidoá bala, por Pajehú. Cahiu morto um dos Calangros, e a escoltaretrocedeu para se orientar. O passo era estreito e perigosissimo; tinham que subir uma cristaquasi em pé e embaixo da trincheira.

Acamparam fóra do alcance das balas para pensar no caso; mas, um dos soldados, imprudente e aguardentado, sahiu da linha alguns metros e uma bala matou -o. As detonações do bacamarte de Pajehú chegaram, com poucos segundos de demora, á Casa de Pedra. Os Brilhantesestavam de pé no rancho proximo e ouviram -nas com certo constrangimento. Jesuino, percebendo os tiros, perguntou com certa estranheza ao irmão: -O que é aquillo? João Soares fitou-o e viu contra sua espectativa que o signal de lucta nada havia influido no animo do chefe. Entretanto, procurou levantar-lhe o espirito, pondo -o ao facto dos perigos que os ameaçavam e respondeu -lhe:

-Não sabes que os nossos inimigosinvadiram a serra e querem forçar o Boeiro? Pajehú resisteagora, mas não resistirásempre e a escolta, guiada pelos cabras das Cabeças, em numero dez vezes maior, nos cercarão e a victoria será d'elles. João Soares fallou pausadamente, accentuando as palavras e observando com o maior interesse o effeitoque ellasproduziam no animo do irmão. Apenas, no rosto de Jesuino, um ligeiro espasmo moveu os musculos das faces, mas os olhos continuaram amortecidos. As scintillaçõespenetrantes do olhar do criminoso, quando crisesde odio e desejosde vingança lhe invadiam o espirito, se apagaram para sempre. Aquelle olhar faiscante, cujo fluido tanto temiam os inimigos e respeitavam os companheiros, estava morto.

João Soares comprehendeu, com grande magua, que havia-se esgotado a energiade Je suino. Quasi certo estava d'isso, desde o momento em que ellechegou ao rancho, mas nutria a esperança de ver voltar-lhe o valor perdido, no primeiro encontro que tivessem com os inimigos. Este anhelo não parecia se realisar. O Brilhante ouviu o irmão sem dizer palavra; depoisde minutos de silencio, ordenou: -Manda os outros ver o que ha e fica commigo. Sahiram os companheiros e foram, escondidos nas grotas e devezas, espreitaro movimento das trincheiras. O grupo que se dirigiu para a Garganta, achou -a abandonada com signal fresco da passagem da escolta. Voltou immediatamente ao rancho a informar do occorrido.

Jesuino ouviu os informantes, com um certo interesse. A atonia que lhe avassallava o animo, havia feito uma remissão. Comtudo, a expressão dos olhos continuava n'uma languidezmelancolicade olharde ovelha. João Soares nutria os mais fundados receios sobre um proximo desastre. A perda de uma trincheirainexpugnavel como a Garganta, só se podia attribuira uma traição. Fosse como fosse, a tropa tinha transpostoo passo e não tardaria a atacal os. O grupo que foi vistoriaro Boeiro, voltou trazendo outras novas. O Pajehú estava no seu posto e por lá não passariaviva alma; porem havia passado a Garganta um piquete de mais de vinte homens commandados por um official, que viram acampados não muito longe da Casa de Pedra.

Jesuino ouviu com alguma attenção os companheiros e pediu as armas. Trouxeram -nas, elle tomou as, mas ficou n'isso. João Soares vendo -o inactivo e sabendo do perigo em que estavam, perguntou-lhe o que deviam fazer. -Esperar aqui o inimigo. Esta resposta do Brilhante veiu confirmar o juizo que fazia Soares da grande alteração que soffriao espiritode Jesuino. Era preciso uma resolução prompta e ener gica e o chefe estava incapaz de tomal-a. João Soares assumiu a chefia do sequito e se dirigiuaos companheiros: ---E ' difficil, muito difficila nossa situação. O dever me impõe a direcção do nosso grupo, uma vez que está doente o nosso chefe. O perigo é grande. Cobra -Verde, por traição, deixou passarem os inimigos, que em breve virão sobre nós. A força do Boeiro não tardará a se reunir á que atravessou a Garganta, e tanto peor para nós. Só vejo um geito, uma probabilidade de victoria, é já e já occuparmos a trincheira abandonada e reforçarmos a de Pajehú. Assim, encantuados os inimigosn'este sovaco de serra, com as sahidas fechadas, terão de morrer á fome dentro de pouco tempo. O que nos póde valer, é terem ellesesquecido de occupar a Garganta. Jesuino não irá comnosco, se recolherá á Casa de Pedra, de onde não sahirá emquanto para issonão for avisado.

Concluido o seu manifesto, ia João Soares pôr em pratica as idéas que tinha aventado, quando chega o Pajehú, esbaforidode cançaço, dizendo ter sido rendido por Cobra -Verde, que disse -lhe ir tomar conta do Boeiro de ordem do chefe. Jesuino ouviu a noticia e apenas ligeiras contracções lhe enrugaram as faces. O plano de João Soares havia abortado. As trincheirasestavam occupadas pelos inimigos. Não tardariaa ser proferidaa sentença fatal -salve -se quem poder.

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