Capítulo XLVIII Os Brilhantes · Capítulo 48 de 48
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Capítulo XLVIII

Cobra-Verde guiava o piqueteás cercanias da Casa de Pedra. A physionomia do cabra estava n'uma mizeravel decomposição. Não era o crime execrando da traição que o apavorava, maso receio de Jesuino escapar á cilada e ter depois conhecimento de que elleo havia trahido. O mestiço não suppunha que, entregando a trincheira aos inimigos, estes o obrigassem a acompanhal -os e a cumprir a promessa que havia feitode atirar no chefe. Se pensasse que não o deixariam ir embora, talvez Cobra -Verde não tivesse capitulado e então difficilseria che. gar á Casa de Pedra. O capitão, que tanto alardeava os seus co nhecimentos da arte da guerra, a proporção que se approximava da fortaleza do Brilhante, fazia-se macambuzio.

As bellezas naturaes da serra, vestida de uma vegetação luxuriante, não as via e nem sentiao official, cujos pensamentos só convergiam para um ponto: a Casa de Pedra com o seu chefe. Quando, a quinhentos metros, Cobra -Verde indicou ao capitão a enorme massa de granito, que partia do solo e se elevava acima da linha da floresta, não pôde o commandante deixar de sentir um formigamento lhe encrespar a pelle do corpo. Fitou a fortaleza e todo o seu valor, por elle apregoado aos inimigos de Je suino, desappareceu, e sabe Deus com que constrangimento continuava a diligencia! A pedra, com sua massa enorme, em vez de attrahiro militar, o impelliapara longe, para muito longe.

O capitão estava pasmo diante d'aquella montanha de pedra núa! Nunca suppoz que o baluarte do Brilhante fossetão inexpugnavel. Com toda a sua arte de guerra não conseguiria arrancar de lá Jesuino. Cobra -Verde, entretanto, podia adiantar alguma cousa e interrogou-o: -Então, é ali a furna do Brilhante? -Saberá V. S. que é ali mesmo. -E como se entra n'ella? -Por um caminho estreito que mal cabe os pés de uma pessoa e por cima de uma gruta, cujo fundo não se vê. -E dentro, como é? - Saberá V. S. que eu nunca lá pisei. -Estás mentindo, cabra! . . . Dize tudo o que souberes por bem, senão dirása força de castigo. -A fé de christão, eu juro a V. S. que na Títélado Perigo, como chama o Snr. Jesuino, o caminho que vai ter na Casa de Pedra, nunca passou outro vivente a não ser elle, o cavallo d'elle e o defuncto José, seu escravo que foi d'elle.

-E os outros companheiros? -Saberá V. S. que mais nenhum de nós tinha coragem para andar pendurado n'aquelle precipicio. -Então o cavallo podia andar e tú é que não podias? Estás mentindo, cabra! . . . -Por Deus Nosso Senhor, meu capitão, que estou dizendo a verdade; falteme a vela na hora da morte se na Casa de Pedra pisou pés de christão, a não ser o Snr Jesuino e o defuncto. -E o cavallo? - Este passeava para lá e para cá em cima da Titéla, mas não podia entrarporque era preciso fazer de lagartixapara chegar á bocca da gruta. -Era o diabo então este teu amo! . . . -Deus o livre, a V. S. , de o ver na sua frente com dois dedos de raiva. A gente treme só em olhar para elleUma feita, no rancho, em casa de um vaqueiro, elle ouviu -me dizer baixinho a um camarada que a dona da casa tinhase esquecido de botar sal na comida, que fez para nós, e só por issoelleobrigou-me a comer meia terça de sal!

--Mas, agora, ellenão é mais o mesmo, não é assim? -Saberá V. S. que depois da tribuzana da Pedra furada elle ficou mais manso. -E os outros companheiros são valentes tambem? --Brigando junto d'elle, todos nós eramos umas onças; mas, de entranhas de cascavel mesmo, só tinha o cunhado d'elle, Silvestre, e o cabra Pajehú. -Bom, vamos todos agora nos esconder por aqui; procura tu um logar onde o Brilhante costume apparecer e não percas o tiro, na cert teza de que, se me enganares, como enganaste a elle, teu corpo será picado em postas e Jançado aos urubús. Vê bem o que fazes. -Senhor sim, meu capitão. O commandante espalhou a escoltapor diversos pontos e, por cautella, procurou um esconderijodentro de uma gruta, onde metteu-se, despresando a arte da guerra e confiando sómente na traição do mestiço.

Cobra Verde, conhecedor do terreno, escolheu urn alto piroá, onde trepou -se e escondeu -se na ramaria tendo a Casa de Pedra ao alcance do seu bacamarte. A espera era magnifica. A folhagem verde escuro da arvore occultava perfeitamente o corpo do mulato. Quem passasse a um metro de distancia não o descobriria. Cobra -Verde, entretanto, não estava tranquillo. Não era a consciencia da faltainfamante que o sobresaltava, mas o receio de errar o alvo e ser apanhado pelos companheiros commettendo delicto tão aviltante. Odiava o Brilhante e já o teria assassinado, se contasse com a impunidade. Agora era possivel satisfazer aquelleseu desejo vehemente de vingança, desejo que lhe esteve incubado n'alma emquanto Jesuino conservava inteiro o seu valor; era possiveluma vindicta, pagar-se com juros das crueldades que havia soffrido do chefe.

O sal, que o Brilhantelhe fizeracomer, salgava -lhe agora as entranhas mais do que quando o ingerira. A imbecilidadedo chefe, entretanto, o animou a entregar a posição aos inimigos e dava -lhe forças para matal -o de emboscada. Se Jesuino estivessebom, nem por todo o ouro do mundo elle se atreveria a atraiçoal-o. Cobra -Verde tinha certeza da incapacidade do chefe e, ainda assim, estava sobresaltado. De quando em vez, tornava -se mais enxofrado e o papo batia-lhe fóra do compasso: era o olhar faiscante do Brilhante, cuja força elle tanto temia, que o cerebro rsproduzia como imagem viva, com nitida reminiscencia. Só a lembrança d'aquelle olhar terrivel o aterrava.

O mulato esteve por vezes para abandonar a espera e fugir por aquellas brenhas a fóra, mas a certeza da imbecilidade de Jesuino e a gana da molhadura o prendiam ali. Nem um instante cogitou na enormidade do crime que ia commetter, só se fazendo sentir as necessidades da besta, qual mais exigente, mais execranda. Se Cobra Verde visse agora apparecer -lhe o Brilhante com seu olhar de fogo, se embru. lharia de medo e cahiria do cimo do piroá em cheio no chão. O Boeiro e a Garganta estavam occupados por soldados e Calangros. Os Brilhantes, scientesdo perigo que corriam, e depois de ouvirem as francas palavras de João Soares, dispersaram-se. Cada qual pro curou occultar-se o melhor que pôde.

O Brilhante, sem grande pressa, se dirigiu para a Casa de Pedra. Chegando á Titélado Perigo, poz por tres vezes o pé na ponte e recuou. Pelo rostonão se sabia qual a impressão que o dominava; se temia ou hesitava. Finalmente, depois de algum tempo de espectativa, resolveu-se a atravessara Titélae, com passo firme, mas muito lento, foi caminhando pela crista do precipicio. Cobra -Verde, que era todo olhos para a Titélado Perigo, viu assomar a figurado chefe na extremidade da ponte. Um violento estremeção sacudiu todos os nervos do mulato; tal foi a descarga nervosa que quasi se atirou de espera abaixo. Tremia e offegava como se ti vesse corrido muito. Não podia ver as feições do chefe, mas a indecisão d'elle, a sua hesitação, avançando e recuando, reanimaram o mulato;

o Brilhantecontinuavaenfermo, senão, em poucos segundos teria vencido aquelle perigoso passo. Cobra -Verde levou tres vezes o bacamarte ao rosto, mas não teve animo de atirar. Jesuino estava quasi para vencer a ponte e entrar na inexpugnavel Casa de Pedra e o mulato não encontrava o gatilho da arma e não lhe enxergava a mira. O Brilhante chegou ao batente da bocca da caverna e, antes de pôr as mãos na barrigada pedra, ouviu a detonação de um tiro que, sa hido afinal do bacamarte do Cobra -Verde, estrugia pelas quebradas da serra e o feria de morte. Uma bala havia alcançado Jesuino, atravessando -lhe o flanco direito e cravando -se-lhe nos ossos do espinhaço. Em um instante as pernas perderam o equilibrio e se abriram, uma para um lado, a outra para o outro, como dois mulambos, o tronco cahiu verticalmente e bateram em cheio as nadegas sobre a Titéla. O choque aboliu em uma fracção de segundo a maioria dos sentidosdo Brilhanteque, no goso ainda da intelligenciae da razão, viu apagarse-lhe a luz dos olhos, extinguir-se o som dos ouvidos.

O Brilhante, escanchado na Titéla, agonisava. O sangue jorravaem borbotões, e uma onda maior do que as outras sahiu-lhe a bocca. O ferido sentiu que se afogava; já nas ancias da asphixia quiz erguer-se, mas embalde, tinhaos musculos inanimados. O corpo de Jesuino se embrulhou com o proprio peso e rolou, de abysmo abaixo, até as profundezas do antro onde jaziam os esqueletos do liberto e de Maria. FIM.

Botanica de collaboração com o Dr. Gareia Redondo. Seccasdo Ceará(ultimametade do seculoXIX ). Variola e Vaccinação. Violencia- Lyceu do Ceará. A ' PUBLICAR: Aventuras de um engrossador. Curso elementarde Historianatural, botanica, zoologia, mineralogiae geologia, escriptode accordo com programma do Gymnasio Nacional. HS

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