Capítulo XII
Os Calangrosformavam uma grande familia de mestiços, vulgarmente chamados cabras, no norte do Brazil, producto do crusamento do indio e do africano, e inferior aos elementos de que é formada. O cabra é peiordo que o caboclo e do que o negro. E ' geralmente um individuo forte, de máos instinctos, petulante, sanguinario, muito differente do mulato por lhe faltarem as maneiras e a intelligenciadeste. E, tão conhecida é a indole perversa do cabra que o povo diz: não ha doce ruim, nem cabra bom. FranciscoCalangro, estomagado com as perseguições que lhe moviam os parentes de Jesuino, pretendia envolver no seu desabafo os filhos do velho Soares. A avaliar pelo assom bro de que ficou possuido o Brilhante na occasião do assassinatode Botelho e seus precedentes de fraqueza, a victoria caberia aos Calangros, amestrados nas luctas e quasi todos assassinos. Assim acreditavam elles, e confirmam esse juisoas provocações de toda casta, até o insultoescriptona porta de Jesuino.
Francisco Calangro tinha razões para des confiar do valor do Brilhante; nunca ouvira contar d'elle uma bravata e suppunha que elle era ainda o empalemado, que outr'oratinhao papo sempre a bater. Os outrosSoares, casadose solteiros, viviam em suas occupações e, até então, não tinham provado valentia. Na vespera do Natal os Calangros insultaram effectivamente aos dous mais novos dos Soares, ameaçando de leval-os a chicote. Elles fugiram, evitando assim o desacato. Jesuino, na mesma manhã do desafio, armado até os dentes, sahiu a cavallo resolvido a vingar a morte de Botelho. Antes, porém, de procurar o assassino de seu primo, foi conferenciar com seu irmão João e seu cunhado Silvestre.
Expoz -lhes a sua resolução, e como elles procurassem dissuadil-o, o Brilhantemal satisfeitotaxou -os de covardes, e ia retirar-se quando João Soares e Silvestre prometteram acompanhal-o, não n'aquellaoccasião, poispara issonão estavam preparados, mas d'ahi a tres dias. Jesuino regeitou a proposta, porém o irmão mostrou -lhe a conveniencia de irem juntos, visto serem elles em maior numero; que os cabras eram mortos e vivos no Patú, aos domingos e dias santificados, e dia de Anno -Bom não faltariam á missa: lá ajustariam suas contas. Ficou isso assentado, e o Brilhantevoltoupara a casa. João Soares e o cunhado supposeram que Jesuino melhorasse d'aquellaexaltação, e findo o praso, nem mais se lembrasse de atacar os Calangros.
Assim não aconteceu. O desejode vingança enchia totalmente o cerebro do Brilhanteque, sem medir as consequenciasdo ataque, esperava ardentemente a hora de se enfrentar com os Calangros. A nevrose, que o espectaculode um assassinatohavia desenvolvido, minava -lhe a surdina o organismo. Jesuino passou em casa os dias do praso em completa exaltação. A idéa da vingança o dominava inteiramente. Dormindo ou acordado só pensava em matar os inimigos. A imaginação doentia creava quadros extravagantes, sempre manchados de sangue. O espiritose recreava com essas manifestaçõese todo absorto na contemplação de scenas criminosas, Jesuino ficava tão embebido n'aquelle pensar e tào longe da realidade como se estivesse em profundo somno; comia pouco e seu dormir era curtoe attribulado. Impaciente, espe rava a aurora do anno novo, como se ella viesse realisar as suas mais louvaveis e ardentes aspirações. Raiou o almejado dia, cujo primeiro alvor o Brilhante saudou a cavallo, debaixo do cangaço.
Ia desfigurado; a pallidez do rosto contrastava com o negrume das olheirasimpressas pelas insomnias de todas aquellas noites. Os musculos das faces dansavam, tornando -lhe cada vez mais hedionda a catadura. O alegre rebuliçoque se ouvia pelo mundo a fóra, a saudar o Anno -Bom, não o percebia o desequilibrado, entregue somente aos seus máos pensamentos. Havia um anno que, acompanhando a familia, todos em trajes domingueiros, encorporara-se a procissãoque seguia a ouvir missa na matriz da freguezia. Era um dia sereno como aquelle, sem nimbus que embaciassem a transparencia do céo, cuja belleza Jesuino contemplava com todos os seus sentidosainda sadios, ainda equilibrados. Agora seu espiritonão recebia do meio que atravessava a mais ligeira impressão. Os perfisdas montanhas esbatidos ao longe no horisonte, que o Brilhantegostava tantode ver, passam -lhe despercebidos, perdemse de vista sem que elleos contemple e admire.
Assim seguia o enfermo. Chegando á casa de seu irmão, encontrou -a vasia, como a de seu cunhado Silvestre. -Covardes! . . . faltaram á palavra, murmurou com ira e partiu a galope para o Patú. Não foiprecisocaminhar muito para se encontrar com os parentes. Passou por elles, sem saudal -os. João Soares e Silvestre, surprehendidos com a falta de cortezia do Brilhante e com o ar de ferocidade que lhe decompunha as feições, disseram a uma vOZ: lope. -Devemos acompanhal -o. E partiram a gaJesuino, depois de caminhar algunskilome tros sem dar a menor demonstração de que era seguido pelos parentes, parou repentinamente e voltando-se, exclamou com arrogancia:
--Para que me enganaram? Présam mais a vida do que a honra! . . . Covardes! . . . -Não, Jesuino, nós iamos juntarmo -nos com você no Patú, disse João. -Desarmados! . . . Soares e Silvestreao mesmo tempo desabotoaram os paletots e mostraram na cava dos collêtes os cabos dos punhaes. O Brilhante acreditou na veracidade d'aquella scena improvisada para lheacalmara colera, e disse amistosamente: - Vocês não podiam proceder de outro modo; perdoem -me o juiso temerario. E dando de redeas ao cavallo, seguiu sem dizermais palavra, tendo de um lado o cunhado e do outro o irmão, que o acompanhavam, mortificadosde desgosto e bastante apprehensivos. A villado Patú ficava ainda a quatro leguas de distancia e o sol estava muito baixo no horisonte.