Capítulo VIII Os Brilhantes · Capítulo 8 de 48
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Capítulo VIII

Era em Junho, o mez alegre do sertão. Os campos em plena primavera perfumavam o ar com o aroma suave das flores. As mattas, opulentamente enfolhadas, offereciam uma gradação de tons verdes, desde o gaio dos tenros renovos até o escuro das folhas mais antigas. As oiticicas, ostentavam o viço da vegetação tropical. Seus ramos bracejavam no espaço luxuosamente vestidos, e embalando -se, purificavam o ambiente com suas exhalações sadias. A ' sombra da floresta vivia um mundo de seres de todas as castas. N'aquella sombria area não penetrava o sol. Uma luz baça, attenuada pelo verde da folhagem, agradava a vista, que se expandia, sem molesta-la. A vida se manifestava aliem todo o seu vigor. As vaccas deitadas ruminavam, emquanto nedios touros enciumados urravam em desafio, cavando a terra com as pontas.

Ouvia -se um concerto onde vibravam notas de uma variedade immensa em timbre e intensidade. Centenas de vozes differentes, desde o zumbido fraco e monotono do pequeno insecto até o urro possante da onça mettida na furna. O solo era habitado por animaes de differentes especies, formando uma grande colonia, que não excedia em população à que vivia so bre as arvores. Bandos de macácos animavam com os seus incessantes movimentos a parte superior da floresta, onde as aves voavam, cantando e condusindo os materiaes para a construcção dos ninhos. A vida seria alisem provações, se possivel fosse eden sem serpente. Era a lucta pela existenciatravada sempre por toda parte: a arvore estiolandoo arbusto com a sua sombra, o arbusto, por sua vez, asphixiandoa herva que vivia sob a sua ramagem.

A astuciada raposa, a força e ferocidade do jaguar, a peçonha das cobras, a gula das aves de rapina, postas em actividaden'aquelle meio, eram o terror dos que não podiam reagir. Os fortesnão aniquilavam os fracos, por que estes eram em maior numero e a natureza deu -lhes um instincto de conservação, apurado e ardiloso, para poderem escapar á gana dos seus perseguidores. Naquelle pedaço da floresta, a alma se embevecia na contemplação da harmonia da creação. Emquanto a aranha tecia a rede para apanhar o insecto, este sugava o mel das flores e thes tirava o polen, que levava nas pelludas patas para fecundar outras flores da mesma planta. A existenciaera alitão placida, mormente ao amanhecer, quando as férasse recolhem aos covis com a escuridão, e cedem o campo á passarada e á luz.

O arrulho saudoso da jurity, pousada nos massiços de verdura, era a nota do concerto que mais fallava ao coração. As arapongas, do cimo das oiticicas, soltavam o seu canto metal. lico, como ferreirosa malhar em bigorna de aço, em quanto os saguins, em estridentesasso bios, chamavam as companheiras, que pulavam de galho em galho com o filho ás costas. Pedro Jurema passava indifferente a todas aquellas bellezas. O seu espirito chato não se podia impressionar deante daquella téla grandemente bella. Só uma idéa o absorvia- um desforço com a gente do governo. Na ultima noite de viagem, a dez leguas da fazenda do Brilhante, Jurema pernoitou na matta como costumava, Adormecido que foi, teve horriveispesadêlos. Um delles o amedrontou devéras; so nhava que era atacadopor um estranhomonstro negro e obedecendo, como se estivesseaccordado, á vontade de se livrardo inimigo, tomou o bacamarte e atirou sobre elle. A detonação da arma fez despertar o facinora, que vio o seu cavallo estribuchando nas vascas da morte, dentro de um lago de sangue. Contrariado com o incidente, mais pela faltaque lhe fazia a ca valgadura do que pelo pezar que lhe causara tel-a morto assim, deixou o rancho em busca da casa do Brilhante.

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