Capítulo VI
Organisou -se uma commissão executiva, composta do presidente da camara municipal, do delegado de policiae vigario da freguezia. Esta trindade de partidarios exaltados commettia toda a sorte de arbitrariedades, ordenando as mais injustas prisões. A villa despertou no dia seguinte ainda soturna e deserta. Foram chegando pouco a pouco ao mercado os proprietariosdos estabelecimentos saqueados. Por toda parte via-se estampado o cannibalismo dos malfeitores. Tinham destruido quasi tudo que não podiam conduzir. No meio da desordem praticadapela horda de malfasejos, viam -se nos tectos, ladrilhos e paredes manchas de sangue vivo e fragmentos de miolos, ainda não corrompidos.
Doía ouvir os clamores que levantava aquella gente, lastimando a morte dos parentes e o aniquilamento de seus haveres. Entretanto, parecia estar tudo consummado e restabelecidaa pazno seiodapopulaçãosertaneja. Assim teria acontecido, se a devassa, que proseguia com o maior açodamento, não iniciasse uma epocha de tropelias e vexações. A commissão executiva funccionava na camara municipal. Os direitospoliticos, a liberdade dos adversarios estavam suspensos. Forjavam -se todos os dias processos clandestinos, em que juravam falsas testemunhas nas sagradas mãos do vigario, e novas prisões eram ordenadas. A acção despotica da commissão estendia-se a uma area de mais de quarenta legoas.
Os habitantes da primeira villa que se le vantou contra o systema metrico decimal e que logo se recolheram á vida privada, foram presos em sua maioria. Abastados creadores, que nunca se tinham envolvido no movimento sedicioso, eram arrastados á cadeia, e ahi, cobertos de ferros e tratados como réos de grandes crimes. A commissão trabalhava em sessão permanente. As lagrimas das esposas, das filhas, das mães, derramadas aos pés da trindade de despotas, e a pungente consternação, que lhes abatia o animo, em nada modificava a furiadaquelles homens obstinados em proseguir na devassa. Não se passava um dia em que não fossem expedidas novas ordens de prisão.
O commandante da força do governo, consignada ao chefe da politicadominante, cevava a farta o seu genio máo, cravando as garras no coração d'aquella gente. A cadeia, uma verdadeira caverna sem ar nem luz, construidaem terreno humido e des igual, tinha o quadruplo dos presosque compor tavam as suas acommodações. As posiçõessociaes, as virtudescivicas, os bens da fortuna não davam direitoa um logar melhor n'aquella espelunca, onde o homem de bem era acorren. tado com o facinora. Alem dos soffrimentos moraes, impostos pela commissão, os padecimentos physicos de toda a casta. Mais de cem homens definhavam em um calabouço de poucos metros quadrados, onde o sol deixou de entrar desde o dia do levantamento, onde o ar entrava apenas pelo estreitoespaço de uma grade de ferro! . . .
E, além da usura com que davam aos re clusos os elementos essenciaesá vida, por cumulo de maldade, tornavam irrespiravelaquella atmosphera, já tão depauperada, derramando do tecto para dentro do carcere grandes porções de cal! De diasem dias, apresentava-se a commissão cadeia para inspeccionaros presos, que, segundo denuncia, se preparavam para fugir. na A denuncia era somente pretexto para infligiraos desgraçados mais um genero de tortura. As auctoridades encontravam os detentostristese cabisbaixos, mal do corpo e d'alma. Mas era preciso atormental os, e o supplicio da cal era ordenado. Era um espectaculo horrivel a exhibição de algumas dezenas de rostoshumanos, decompostos, com os olhos a saltarem das orbitas, as narinasdilatadas, a bocca aberta, quasiasphixiados dentro de uma nuvem de pó impalpavel e irritante! Alguns cahiam em syncope, e uma vez deitadosno solo, em uma atmosphera ainda mais pobre, difficilmentevoltavam á vida! O ambiente, já viciadopelosgazes dos pulmões, corrom pia-se ainda mais pelas emanações putridas dos excrementos, que fermentavam a um canto sobre o ladrilhodo carcere. E que podridão tresandava d'aquelle chiqueiro!
O fedentina do suor misturava -se ao cheiro desagradavelda exhalação pulmonar e ao halito fetidode boccas mal aceiadas e espalhava -se até as immediações da cadeia. A commissão executiva visitavaquasi que diariamente o carcere e voltava sempre satisfeitacom o tratamento despensado aos presos. Era mesmo assim que elladesejava que os tratassem. O vigario, a quem de preferenciaprocuravam os parentes das victimas, como irmão em Christo, respondiaás supplicasdos afflictos, com as palavras do Mestre: « quem com ferro fere com ferro será ferido». Istoqueria dizer que elleferiaa quem o havia ferido, perseguindo os descendentesdaquellesque haviam perseguido os seus ascendentes.
O padre, com os olhos a faiscarem de colera, lembrava os suppliciosinfligidosao seu bisavõ pelo trisavôdo prese, no tempo ainda de El -rei nosso Senhor de Portugal. E, quando algum dos impetrantes procurava provar a innocencia do paciente, o cura se enfurecia e cortava a discussão, dizendo: se não é por essa, é pelas outras que tem feito, ou que teria de fazer. Depois de presos e processados todos OS adversarios politicos, a commissão se lembrou do caudilho, e foi então decretada a prisão de Pedro Jurema. Os piquetes corriam séca e méca em busca do facinora, que trariam morto ou vivo, segundo as ordens da commissão. Dez dias andaram e viraram uma area de algumas leguas, sem o menor resultado. O valhacoutode Jurema era vigiado noite e dia, mas sempre abandonado, sem dono e sem fogo.
Tendo sido infructiferastodas as diligen. cias, e perdidas as esperanças de prender ou matar o caudilho, a commissão resolveu fechar a devassa e remetter os Quebra-Kilosao presidente da provincia. Foram dadas as ordens neste sentido e tratou -se de achar um meio de condusir em segurança a leva de criminosos, ou antesde encontrarnovos elementosde supplicio, como se não fossem bastantes os mãos tratos nos longos dias de carcere. Premuniram -se de grande vigilanciacontraas victimasinermes. Faziam-se os preparativos da expedição em des usado açodamento. Havia tresdiasque alguns carpinteirostrabalhavam, em frente ao carcere, em pesadas algemas. Preparavam um novo genero de soffrimento aos reclusos, que, da grade da cadeia, olhavam desalentadamente para os aprestos de - seu proximo martyrio. Aquelles instrumentos aviltantesos manietariam, como se ellespensassem ou podessem reagir.
Todos macilentos, alguns com as pernas e a barriga cheiasd'agua, nem sequer imaginavam as torturas que ainda thes reservava a perversidade da junta executiva. A algema era por si só bastante para lhes tolheros meios de acção e de resistencia, mas não satisfaziao appetitede perversidade, de que estavam devorados os promotores de tamanha perseguição. A commissão cogitava no que de mais dolorosose poderia fazer aos presos, com apparencia de legalidade. Um lembrou açoital-os publicamente na grade da cadeia, suppliciotão illegal, embora menos barbaro que o da cal, mas foiregeitadaa idéa. Era preciso disfarçaro odio, a vingança, illudindoo publico, que bestificado, mal podia com a vergonha de sua pusillanimidade. Só havia um meio de levantar os brios d'aquellagente, era a honra das mulheres, presada mais que os haveres e a liberdade.
Atacada esta, o povo, que de tudo tremia, como a mais mofina besta, allucinado, luctaria até exterminar os offensores ou cahir vencido. A esta provação, porém, não se arriscava a commissão executiva, que bem conhecia o caracter e a indole dos seus conterraneos. Queria ellaum genero de torturaque os amofinasse e nunca lhes levantasse os brios. Discutido por vezes o assumpto, foi apre sentado por um dos membros da juntaexecutiva a idéa de um supplicionovo, o colletede couro. Descripto o instrumento, foi unanimemente acceitoe encarregado o seu inventor de fazer preparar tantos quantos fossem os presos, recebendo dos cofresmunicipaes a quantianecessaria a todas as despesas.
Promptos os colletes, foi marcado o dia da partidapara uma das proximasmadrugadas. A noite, que precedeu a manhã da viagem, foidestinada a algemar os pulsos e encolletar o tronco de cento e vinte e quatro homens. Pelas algemas, feitasde páo d'arco, grossas e fortes, capazes de manietar touros, via-se que as auctoridades, tinham somente em vista torturar, quanto fosse possivel, aos presos. O colletede couro, novo supplicioterribilissimo, nada mais era do que uma peça de couro crú, abraçando o tronco desde o peito até a crista dos quadris. O preso, depois de algemado, vinha para ser encolletado. Ajustada a peça de couro, sobre a camisa, ajustamento que era perfeitopela flexura da pelle posta de molho n'agua muitas horas antes começava a costura. Os bordos da peça uniamse sobre o espinhaço do paciente, cosido com finas correias como a bocca de um surrão.
Aquelle espartilhocollava-se perfeitamente ao corpo deixando ver todas as linhas do busto. A tarefa terminou quasi ao romper d'alva, hora em que a cornêta da força deu o signalde partida. A villaparecia completamente adormecida; de portas fechadas, dir-se-ia que os seus habitantes dormiam, se do interior das casas não chegasse ás ruas o som de prantos que prorompiam lá por dentro. Pelas frestasdas janellas coava -se a luz pallidadas vellas, que ardiam nas alcovas, illuminando os oratoriosabertos, deante dos quaes ajoelhavam-se os parentesdas victimas, a implorar a misericordia de Deus. Pediam aos céos a justiça que lhes era negada na terra.
Nas ruas, além da commissão executiva, dos soldados e presos, ninguem mais se via para testemunhar aquelle espectaculo. Postos os réos fóra do carcere, mettidos entre duas alas de soldados, de armas embaladas, tendo ao lado o commandante da escolta a cavallo, partiu o piquete, ao som marcial da cornêta, que estrugiu ao longe nas cristas dos penhascos, nas covoadas das serras. O capitão chasqueava dos infelizesquando The chegava o som de algum gemido. Tombando no selim, quasi bebedo, contava tambem a historia do seu recrutamento. Havia caminhado mais de cem leguas a pé e eram tão pesadas as algemas que lhe comeram as carnes, deixando núas as canas dos braços.
O sol assomava no horisonte e a luz enchia o espaço, franjando de ouro as escamas dos brancos cirrhus immoveis no céo. Se a vista se expandia nos tons alegres, que por toda parte coloria o sol nascente; se as scintillaçõesdesprendidas das gottas de orvalho, suspensas das delicadas folhasdos fetos, traziam a alma num doce enlevo, o prestitode desgraçados, atravessando indifferente ás bellezas d'aquella natureza opulenta, abatia o animo, e o espiritose recolhiadesalentado. A luz augmentava de intensidade, o calor já ia amornando as folhas avelludadas das malvas. A folhagem do matapasto se endireitava nas hastes, avida de luz. A léva de presos caminhava com alguma difficuldade; a immobilidade dos braços diminuia o equilibrioe tornava penosa a marcha.
O collete, pouco ou nada influia, no andar. A's oito horas da manhã tinham caminhado apenas duas leguas e já estavam cançados. Uma noitede vigilia, depois de longos dias de tribulação, com escassa alimentação, a respirarnum ambiente infecto, eram os principaes factores de tão prompto esfalfamento. Deixaram -nos descançar alguns minutos e proseguiram o caminho. Deram algumas dezenas de passos e pararam, afadigados. O sol era agora para elleso mais poderoso elemento de tortura. Esse mesmo sol, que lhes faltarano carcere, agora seccava o collete, que se encarquilhando, constringiao tronco; a caixa do peito não podendo se dilatar, tomava -lheso folego, e dahi uma angustia de quem se afoga.
Tentaram fazel-os marchar a espaldeiradas, mas de balde, elles ficaram estacados em uma anxiedade mortal. A falta de ar manifestava -se francamente pela inchação do rosto, que se havia tingidode roxo, apagando a amarellidãode que o colorira a cadeia. Os olhos esbogalhados, como os de um enforcado, completavam a expressão angustiosa do semblante. A bocca escancarada, procurando engulir ar, deixava pender a lingua quasi negra, e mais horrenda tornava -se-lhes a figura. Alguns, depois de se erguerem muitas vezes na ponta dos pés, como se estivessem afogando -se, cahiam sem sentidos. Um rapaz, que marchava ao lado de um velho, depois de soltarum gemido fundo, cahiu redondamente no chão.
O seu companheiro de fila, embora bastante encanecido, era um homem ainda muito forte, de rija musculatura. Fazendeiro rico, fôra apanhado na rede da commissão executiva pelo simples facto de ser adversario politicoda junta. A vingança dos inimigos não se limitou a elle, foi até o filhounico, esse adolescente ao lado de quem caminhava, sentindo a alma amorosa de pai estalar de dôr todas as vezes que um gemido do moço the chegava aos ouvidos, que lhe via rolarem pelas faceslagrimasde sangue! . . . Contemplava repassadode piedadea funda angustiado mancebo, estampada no semblante desfigurado, na inchação dos labios, que vertiam uma salmoura rubra, quando elle cahiu.
Mal o corpo estira-se no chão, o pai chega -se ao filho, mas vê -se impossibilitado de soccorrel-o. Arca contra o collete; este o aperta, o subjuga; o couro não cede, mais o arrocha! . . . O rapaz arquejae, com um olharde suprema angustia, pede que o salvem. O velho fita-o e convencido de que não pode nem mesmo allivial-o, sente dentro de si uma revolta que o sacode todo, que lhe tece sobre o branco dos olhos uma rede de fios de sangue, e resoluto põe o pé no pescoço do rapaz para acabar aquelle transe, asphixiando -o, matando -o. Um soldado, que marchava ao lado, impede a morte do mancebo, empurrando o anciãopara longe. O velho, entregue ao desespero, ficou immovel, petrificado, a uivar lugubremente como um animal enraivecido.
O commandante da escoltaapproximou -se do desgraçado e disse mui tranquillamente a um dos soldados: -Afrouxa o collete deste corninho. Dous terços, talvez, da leva, resupinosno solo, mordidos por uma soalheira de fogo, acreditariam, se ainda lhes fossedado sentire pensar, muito proximo o fim de tão pungente drama. A soldadesca, que até então se mostrara in. differente a todas as phases da tortura dos presos, começava a impressionar-se com os symp. tomas assustadoresque ellesapresentavam. A morte dos infelizes viria prival-a do barbaro goso de vel-os offegar e, o que era peior, coagil-a a enterrar os cadaveres. Achou, pois, mais commodo afrouxar os colletesdos réos e assim o fez.
Pouco e pouco foram se reanimando os corpos que, estiradosno chão, tinham a vida quasi paralysada. Já os olhos se haviam recolhido ás orbitas e esmaecia o roxeado das faces. Os presos, alliviadosda torturado collete, acceitaram a pouca refeição que lhes foiservida em um logarabrigado do sol, onde pernoitaram, continuando a viagem na seguinte manhã.