Capítulo XXIX
A serra do Cajueiro já não era o oasisperdido n'aquelledeserto, queimado pelo sole de vastado pela secca. O vento quente do sertão começava a amarellecera folhagem dos arvoredos. Os fétose as sensitivasmorriam crestadospelo calor. Os mananciaes não tardariam a seccar. Os grandes tremedaes, marginados por esguiosmangues, já não tinham a superficietão molle, cobriam-se de uma crusta cinzenta, que se espessava com a sequidão do ar. Sobre esta camada de massapê, andavam pequeninos crustaceoscomendo as florese os fructosque cahiam das arvores proximas. A temperatura da Casa de Pedra já não era tão baixa; não se sentiamais aliaquellefrio humido de tranzir as carnes.
A população sertanejaque habitava o sopé da serra e a sua visinhança, instinctivamente galgou a montanha logo que no sertão escassearam os recursos. Em breve formigava gente por todas aquellas grotas. Os retirantes, em lucta aberta pelo pão, percorriam as ignotas devezas e trepavam nos inaccessiveis alcantis. Não havia precipicioque lhes estorvasse a marcha. Subiam a cristado mais ingreme penhasco e desciam com pé seguro o mais escarpado despenhadeiro. Aquelle estranho borborinho repercutia em todas as covoadas da montanha. As aves voavam espantadas, as féras receiosas se conservavam escondidas nos covis. A invasão era completa. Algumas centenas de familiasespalhavamse em todas as direcções e vinham de todos os lados. A caça assustadafugia, mas encontrava gente até no fundo das mais escalvadasgrutas A confusão era geral.
Os macacos e as guaribas, assombrados com a turba-multa que lhesinvadia o domicilio, alarmavam a quieta solidãoda serra soltandoagudose estridentesgritos. Os papagaios e as araras palravam diabolicamente, enchendo o ar de sons tão agudos, capazes de arrombar o tympano de qualquer ouvido. Uma bulha infernal atroava de montanha a fóra. Por toda a parte a lucta pela vida, uma lucta titanica, desesperada! Homens e bestas batiam -se em duello de morte. Venciam sempre os laços armados pela astucia e perfidia do homem. A malta de retirantes se avolumava cada vez mais com a corrente da emigração, que todos os dias engrossava do valle para a serra.
A caça, que havia em abundancia, desapparecia pouco a pouco. Já raros bandos se viam de aves e os macacos, quasitodos, tinham sidoapanhados e comidos pelos retirantes. Os animaes de carne mais estimada tinham sido mortos de preferencia. Os caçadores em numero de alguns milheiros revolviam toda a floresta e, se ainda existiabixo comestivel n'aquellessitios, não é porque lhes faltassemastucia e bôa pontaria, mas armas de fogo. Sem outros recursos que não fossem as armadilhas, tornaram -se em breve os mais matreiros caçadores, illudindoa sagacidade da mais arisca veação. A necessidade lhes desenvolveu qualidades atavicas, o faro do indio, e novos laços foram inventados, cujo ardil era de taldisfarce que illudia a mais astuta raposa.
Os quixós, os fojos, os mondés e um sem numero de armadilhas se escondiam nas devezas, tornando-se um perigo para a população sertanejana vida nomada que levava ali. Raro era o dia em que o traiçoeirolaço não matava uma creatura humana em logar de um bicho. Por mais que essasdesgraçasse repetissem, não arrefecia o prurido da caça. A morte era para essa infelizgente uma cousa apetecida. Tinham o acabamento da vida, destadesgraçada vida de faminto, como um bem supremo. Por isso não choravam a morte do mais proximo parente. E, como chorar a morte se a vida era uma tortura, uma angustia, dentro de cavernas, nas mais sombrias furnas! Como desejar viver se já haviam acabado a vida dos animaes de cuja vida viviam! . . .
Tendo sido consumidos todos os animaes de carne mais saborosa e, sem outro recurso, passaram a se alimentar de raposas, cassacos, cobras e lagartos. Comiam com appetite a carne do fedorento marsupial e a do reptil, branca e macia, com espinhascurvas e pontudas. A miseria não admitte repugnancias e por isso, ellesmastigavam o espinhaço de uma co bra chupando-lhe o tutano com a satisfaçãocom que comeriam o mais saboroso peixe. Aquella alimentação tão cara, obtida com muito suor e soffrendo torturas e consumições, não os indemnizava das forças que perdiam em procural-a. Os gastos excediam os lucros e d'ahi um notavel desequilibrio na saúde do corpo. A magreza, como consequencia da insufficiencia da comida, lhes escaveirava o rosto, tornando a figura repellente.
As difficuldades da vida cresciam a medida que escasseavam os recursos naturaes. A corrente da emigração não estancava. Não se passava um dia sem que subissem a serranovos retirantes. Era já custoso apanhar um rato ou um lagarto. Já não havia morcegos nas cavernas, nem sapos nos pantanos: tinham comido tudo. Consumida a bicharia, valeram -se dos vegetaes. A uberdade do solo, attestavam -na arvorescolossaes, que se erguiam de espaço a fóra. A floresta, embora adoentada, mostrava que havia tido uma vegetação luxuriante, riquissima, variada, e offerecia aos retirantes o pão de seus tecidos, alguns comestiveis e innocentes, venenosos outros.
O bando de esfomeados derramou -se pela matta e, sem as precauções dictadaspela prudencia, iam comendo tudo o que encontravam. Muitos ingeriam o alimento e o veneno, adoeciam e morriam finalmente. A mucună vegetava ali de uma maneira assombrosa. O sub -solo parecia formado somente pelas raizesd'aquellaleguminosa. A facilidade de extracção e a sua abundancia faziam com que os retirantesa preferis sem a toda e qualquer comida brava, e d'ella começaram exclusivamente a se alimentar. Pou co tempo foi preciso para se manifestarem os effeitosde tão selvagem alimentação. Começa ram elles a avolumar os membros inferiores, a barriga, o corpo inteiro. Pareciam gordos; mas estavam inchados. Alem da fome, a doença para angustial-os com o seu acompanhamento `de dores! A anazarca, antes de matal-os, como os fazia padecer! Obezos, arrastavam-se pe nosamente, como se as pernas fossem de chumbo e a barriga pesasse uma tonelada. Pelas feiçõessombrias, carregadas de profunda tristeza, podia-se avaliar o desalento que lhes ia n'alma. Os olhos, dentro de fundas covas, mais accentuavam a expressão triste e dolorosa da physionomia. A doença havia anniquilado de todo a energia e a actividadedessa infelizgente.
Não se trepavam mais nos penhascos e nem desciam os despenhadeiros. Os musculos se cançavam com o menor esforço. Mesmo se arrastando, gemiam de fadiga. Assim, nessa acédia profunda, doentes do corpo e d'alma, vegetavam sem o conforto de uma consolação, sem o direito de uma esperança. O Brilhante, do recinto de sua fortificação, havia assistido á invasão dos retirantes e testemunhado a lucta desesperada que tinham sustentado para não morrerem de fome, até que a mucună os invalidou, os inaniu, cortindo-lhes o estomago e os intestinos, com a sua feculataninosa. O coração do criminoso se compadeceu da sorted'aquellesmiseros párias. Não podia soccorrer a todos; mas de alguns matava a fome, levando -lhes ao rancho viveres e até roupa.
Jesuino se identificou tanto com os retirantes e sentiade tal modo as infelicidadesd'elles, que, logo que escassearam de todo os recursos naturaes da serra, se decidiua empregar toda sua energia, valor e actividade em prol d'aquella infelizgente. A Casa de Pedra era cercada noite e dia pelos famintos, que, confiados na piedade de Jesuino, não the sahiam da porta a pedir comida. O Brilhante não se enfadava, attendia-os com immensa bondade. O que mais lhe abriu o coração aos soffrimentos dos retirantes, foi ver o estado de miseria a que estavam reduzidas algumas familiasque conhecera, poucos mezes antes, felizese abastadas. Os seus recursos eram, entretanto, insufficientes para manter OS famintos que lhe pediam soccorго. Os viveres que tinha guardado, já estavam muito reduzidos e não durariam muitos dias. Possuia algum dinheiro, que, n'aquellasparagens de nada lhe servia, pois não havia o que comprar. O chiquechique, a macambira, a maniçobinha, o páo de mocó tinham desapparecido de todo; restava sómente a mucuna, cuja fecula, em vez de nutril-os, matava -os. .
Poucas refeições eram precisas para que as mucosas do tubo digestivoficassemreduzidas a couro cortido e, por tanto, imprestaveis ao desempenho das funcções da vida. A situaçãodos retirantes se tornava mais critica com o augmento da população e o decrescimento dos vegetaes de que se alimentavam. A noticia da generosidade de Jesuino em breve se espalhou entre os esfomeados e cresceu o cerco da Casa de l'edra. O Brilhante não ignoravaque seriaaquelleo resultadode seus actos de beneficencia. Tinha chamado a sium exercito de famintos, que havia de soccorrer ou teria então de testemunhar scenas horrorosas. Em seu baluarte estava livre d'elles e de lhes ver a miseria. Lá dentro não chegavam os gemidos dos que morriam de fome. O criminoso, entretanto, não podia se conservar alheio aos soffrimentos daquella desgraçada gente.
Hoje toda a sua energia se empregava em descobrir um meio de salvar aquelles infelizes, cujas dores tinham-lhe despertado n'alma a maior piedade. Gastava as noites em pensar na sorte dos retirantes, sem achar remedio aos seus males. Os viveres da sua despensa chegavam ao termo e Jesuino não encontrava armas para ba ter o inimigo, que agora se acercava de seu reducto e começava o bloqueio. Elle seria envolvido com o seu sequito no terrivel redemoinho que a secca levantava de todos os lados. A enfermidade de seu espirito tocava a uma phase nova O odio encarniçado aos militares estava agora adormecido pelas treguas ás perseguições e mais ainda pela concentração de todas as suas forças na realisação de um problema que o absorvia inteiro, a salvação dos famintos.
Jesuino, todo coração, palpava a grande chaga que a miseria abrira no seio d'aquella população infelize, identificadocom ella, jurou luctar para salvala até vencer ou ser vencido. Na despensa da Casa de Pedra pouco res tava das provisões. O Brilhante, scientedissoe do proximo perigo a que se expunha com os seus, tomou uma providencia energica, muito compativel com a sua audacia. Uma manhã, depois de uma noite de in. somnia, Jesuino pegou o trovão, seu bacamarte bocca de sino, e chegando a Titela do Perigo, disparou-o. Um estampido medonho ribombou nas covoadas da serra e o echo o repetiu de oiteiro em oiteiro. Aquelle signalde alarma foiem breve respondido por outro grande tiro, que partiu de uma gruta proxima. O Brilhanteentendido re colheu-se e, momentos depois, acompanhado de José, atravessava a Titéla, armado até os dentes. No extremo da ponte, já o esperavam os companheiros, montados e debaixo do cangaço.
O Exhalação arreado esperava o dono, guardado pelo Pajehú, seu estribeiro. Quando avistou o senhor, estirounobremente a cabeça e saudou -o com um relincho. Jesuino fitou-o agradecido e logo que se ap proximou d'elle, alisou-lhe com o maior carinho as crinas, o pescoço e a anca. O cavalloacceitou immovel todas aquellasprovas de estima, que parecia comprehender pelo olhar com que fitava o dono. O Brilhante montou -se sem pôr o pé no es tribo. A cavallo, deu bom dia a sua gente e passou revista. Todos estavam munidos de provisõesde guerra e bocca. Jesuinodeu um longo e agudo assobio e o sequitoformou em fila. Outro assobio estrugiu e a columna, tendo o Brilhante como chefe e José como cerra -fila, partiu. Nenhum dos companheiros ousou perguntar a Jesuino para onde iam. Uma vez que tomara o logar de chefe de filaé porque queria que o seguissem, ignorando embora o destino.
O sequitointernou-se pelasbrenhas da serra. Os cavallos affeitosaquelles precipiciosdes ciam e subiam com pé seguro as mais empinadas ladeiras. Os cascos se firmavam nas pedras dos rochedos talhadosa pique, como se fossem tentaculos de polvo. Os retirantesviam com grande pena a retirada dos Brilhantes. As grutas, as cavernas, as devezas, vomitavam famintos, que, attrahidos pelo tropel das cavalgaduras, sahiam dos escon derijosa bispar o desfilardo sequito. Os que conheciam o Brilhante lastimavam que elle os abandonasse. Jesuino ouvia -lhes as queixas e nada dizia para os consolar. Por vezes teve que parar o cavallo, estorvado pelos retirantes, que se atravessavam no caminho a pedir esmolas. O Exhalação quasi pisou os primeiros que lhe tomaram a frente, e, se não fosse a destreza do dono, teria esfarelado um imprudente, que pretendeu pegar -lhe nas cambas da brida. A agilidade de Jesuino impediu a morte do faminto, não a manobra do cavallo, que se voltando, com uma ligeireza de onça, deu no retirante dous formidaveis couces, que o atiraram estatelado no chão.
A travessiada serra, já por si perigosae incommoda por seusimperviosdesfiladeiros, tornava -se mais difficil com os famintos a emba raçarem a marcha das cavalgaduras, que os cavalleiros detinham, receiosos de vel-os debaixo das patas dos corséis. Jesuino viu -se tão abarbado com a teimosia dos retirantesque pensou em voltarao valhacoitoe sahir à noite, ás escondidas, mas lembrou -se que estava em meio do caminho, que a distancia para a planicie era a mesma que para a Casa de Pedra. Seguiu, atravessandoa turba de esfomeados, cada vez mais exigentee mais revolta. O Brilhante, apesar das repetidas importunações d'aquella gente e da sua exage. rada teimosia, não tinha um gesto máo, uma palavra aspera para exprobrar-lhes o procedimento. Era grande a piedade que por ellasentia.
Depois de algumas horas de caminho, com o corpo e a alma bastante afadigados, o Bri lhante, seguido de seu sequito, entrou na resequida planicie. Era já noite e as brisas nocturnas estavam quentes como se acabassem de atravessar um campo em que lavrasse um grande incendio. Jesuino, sentindo no rosto a impressão morna do ar, voltou-se instinctivamente para a serra. A montanha offerecia -lhe á vista um bonito espectaculo. Milhares de fogos scintillavam em todas as alturas. A serra parecia illuminada a giorno. Os infelizesque a habitavam procuravam o calor das fogueiras, e assim premunidos contra o frio, que mais sensivelse tornava pela inanidadedo estomago, adormeciam ao relento e despertavam ao alvorecerdo dia, mais desgraçados ainda.
Jesuino, logo que escureceu de todo, se arranchou com sua gente, sem dizer ainda ao que ia.