Capítulo XXVI Os Brilhantes · Capítulo 26 de 48
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Capítulo XXVI

Crescia cada vez mais o temor que o Bri lhante infundiano espiritodos habitantes d'a quellas cercanias. Os assassinatos dos soldados e a audacia com que os mandara provocar no quartel, mais robusteciama crençade que Jesuino tinha secreto pacto com o diabo. O protectordos Calangros e as auctoridades viram -se em serios apuros e contavam ser as sassinados a qualquer instante. A escolta estava reduzida a menos de um terço e completamente acovardada. Assim, em vez de ser ella uma garantia da segurança pu blica, era pelo contrariouma isca preparada e pela qual os Brilhantesviriam hoje ou amanhă. Certo disso o delegado fez voltara força, officiandoao governo da provincia sobre osultimos acontecimentos. Em sua missiva contou horrores dos Brilhantese pediu as mais ener gicas e promptas providencias.

Jesuino, fortificadona Casa de Pedra, igno rava o que no resto do mundo se tramava contrasua pessoa. Tinha viveres para passarum anno dentro de sua fortaleza e munições para matar um exercito. Só grossa artilheria podia arrazar a sua fortificação. A infanteria que viesse, ficariatoda sepultadana Titélado Perigo. O que, dia e noite, o incommodava era a affronta feitapelos soldados aos seus mais proximos parentes. Tinha derramado muito sangue e ainda não se julgava desaffrontado. No seu tenebrosoplano de vingança, de horrenda destruição, as victimasjá não eram os Calangros, mas os homens de farda, quaesquer que fossem, embora estranhos inteiramente aos seus odios e luctas. Era exquisita essa nova manifestação da nevrose do Brilhante. Os seus inimigos eram agora sómente os soldados e o governo que os mantinha. Em suas crises, eram os militaresos agentes que determinavam as mais teimosas exacerbações. O deliriode matar soldado dominava inteiramenteaquelleespiritodesequilibrado. Não tinha hora e nem media as consequenciasda lucta quando se dispunha a tirara vida aos inimigos.

Havia em uma villadistante dez leguas da Casa de Pedra uma força de seis praças, que guardava a cadeia publica. Jesuino acabou com ella. De tres em tres dias, ia fóra de horas até a guarda e, quando a sentinellamenos pensava, ellese lançava sobre ellae a apunhalava. As sim fez até que matou a ultima praça. Depois de actos de tão grande crueza, voltava o Brilhante a casa e nem o mais leve signal de remorso mostrava. Toda a sua energia e actividade empregavam -se em achar o meio de destruir o maior numero de soldados que pudesse. O velho Soares, amargurado com os ultimos assassinatosperpretados pelo filho, pediu a Jesuino que viesse vel-o e marcou o dia da visita.

A entrevistateriapor fim conseguirque o Brilhante sahisse da provincia e fosse curar o espirito entre gentes estranhas. Para ajudar a persuadir o filhoda neces sidade de sua retirada, Soares convidou seu ve lho amigo o vigariode Páo dos Ferros, a quem Jesuino muito estimava. No dia marcado, depois de oitohoras da noite, apeava -se o Brilhanteá porta de seu pai. Vinha só, com bacamarte e punhal, montado no Exhalação. Entrou. Na sala de visita achavam -se, tristes, em monotona espectativa, Soares, sua mulher e o vigario. Parecia que guardavam um morto em uma camara ardente, tal era o silencioque ali reinava. O Brilhante caminhou sereno para a trindade que o esperava. Saudou primeirosua măi, beijando-lhe a mão com grande respeito. Depois voltou-se para o pai e repetiu o cumprimento.

Ao vigario apertou a mão com veneração e amisade. Nem uma palavra foi articulada. Todos sentados, o silencio se prolongou ainda por alguns minutos. Procuravam debalde por onde começar o discurso. Era um estado incommodo para os pais, filhoe hospede. O cura, além do embaraço, tinhamedo, sentiacorrerem formigas pelo corpo todo. Confiava no Brilhante, querialhe bem, mas issonão impedia que seus nervos se crispassem com as scintil lações estranhas e penetrantes dos olhos de Jesuino. O vigario via-se em uma situação embaraçosa. Estava encarregado da exhortaçãoe não encontrava termos e ainda menos coragem para começal -a. A bocca lhe havia seccado como lingua de papagaio. Um resto de saliva, que Thehumedecia os labios, engrossou a ponto de collaros beiços como espesso grude. Por vezes havia temperado a guéla, estimulandoas cordas da larynge, mas ficava nisso.

As palavras não sahiam. O velho Soares, comprehendendo as difficuldades do amigo, quebrou o silencio: -Reunimo -nos aqui, meu filho, para procurar um meio de salvar -te. pai? -Haverá para mim salvação possivel, meu -Deus tudo póde, gaguejou o cura, que a custopoude desgrudar os beiços. ---Aos seus escolhidos e não a quem se tornou indigno de suas graças, respondeu o Brilhante com frieza. -O arrependimento póde chegar em qualquer tempo e Deus não despresa os que se ar rependem, replicou o cura. -Os que se arrependem, não eu, que atéhoje só tenho feitodefender a vida a custa dos soffrimentos mais atrozes. Deus sabe as injustiçasde que tenho sido victima e o procedimento dos homens para commigo. Eu era bom e me fizeram máo. Ninguem melhor do que V. Rvm. a sabe a minha vida e como, de um dia para outro, os inimigosde minha familia perderam -me.

-Não se deve considerarperdido, Jesuino. Sahindodo meio de seus perseguidores, ainda V. poderá ser feliz em outra terra e se rehabilitarperante Deus e os homens, insistiuo vigario. -Qual, meu padre, a felicidadepara mim morreu para sempre. Eu não sou mais um homem, sou um phantasma de odios e vinganças, que se atiraá lucta, como um desesperado, e vence sempre, porque quer morrer e os inimigos tomam por valor o seu desespero. ---Eras bom, meu filho, Deus o sabe, disse a mãi do Brilhante, com grande amargura, der ramando lagrimas abundantes. -E será ainda, tenhamos fé na misericordia divina, accrescentou o cura. -E acredita o padre que eu possa voltar de onde estou?

-Em todaoccasiãoé tempo da gentear repender -se de seus peccados. -Sim, quando a conscienciaaponta os cri mes ao criminoso, o remorso chega e depois o arrependimento. A minha conscienciaaté hoje ainda não se levantou para accusar -me. Eu tenho morto homens do mesmo modo que mataria cães damnados ou cobras venenosas. Nunca tive piedade d'elles, porque estou convencido de que ellesnão me mataram ainda porque de todo não poderam. -Até certo ponto tiveste razão, meu filho, porem basta de vingança. O sangue que tens derramado, já lavou de sobra a affronta que te fizeram. Eu tambem fuidesfeiteado, mais ferido do que tu, disse o velho Soares. -Como assim? perguntou o Brilhante, -E teu irmão não foi assassinado? . . . disse o velho.

-Morreu, mas não foi aviltado pelos golpes de sabre da soldadesca, como minha mulher e minhas filhinhas, disse o Brilhante carregando o rosto de tanta ferocidade que a todos assustou. - -E ' verdade, porem mataste quasi todos quedesrespeitarama tua casa, ponderou Soares. Para tal sucia de malfeitores não ha perdão possivel, meu pai. Ein quanto me bater o coração, a vingança estará n'elle, viva como no dia da affronta. Eu não sei perdoar. -E ' da religião, Jesuino, é da religião, perdoaras affrontasdo proximo pelo amor de Deus, disse o vigario. -Ha muito que estou fóra da igreja, meu padre, e irei para o inferno, por muito meu gosto, se là não houver soldado.

-Credo, meu filho, para que dizes tamanhas herezias? Para que procuras perder tua alma? Perdoa, Jesuino, vai para longe dos teus inimigos, quem te pede é tua mài. -Se a viagem podesse apagar o odio que sinton'alma, seria por certo uma felicidade a minha retirada e eu bemdiria sempre minha mãi pelo conselho; mas, é tudo embalde, eu estou perdido e perdido para sempre. Para deixarde matar, era precisoviverem uma terra em que não houvesse soldado, mesmo assim o odio não se arrefeceria, o desejo de vingança não se acabaria. Deixem me cumprir a minha sina. De tudo que era bom n'este coração, resta somente hoje respeitoá honra e á propriedade do proximo, tudo mais a maldade de meus inimigos destruiu. Ireid'abysmo em abysmo até encontrar a morte e tudo se acabará.

Os paisdo Brilhantechoravam commovidos e o vigario entalado não sabia o que dizer. O Brilhante abria o coração ali á vista de todos, fazendo a confissãopublicados seuserros. Depoisque passou mais a impressão que as ul timaspalavras de Jesuino deixaram no espirito dos que o ouviam, o velho, na esperança de salvar o filho, voltou ao assumpto. -Satisfaz o pedido de tua mãi, e o meo. A experiencia é a mestra da vida, meu filho, e eu tenho vivido muito. Sahe, procura um meio estranho aos teus odios, uns ares differentes, que teu espiritoficarábom da doença que o atacou. Concorrerei com tudo que poder para a realização de tua viagem. -Mas, para onde, meu pai?

-Para o sul ou para o norte. -Não duvido que o conselho de Vmc. seja a minha salvação, mas é impossivel tomal-o. Ainda mesmo que quizesse seguil-o, que eu fosse tão infame a ponto de abandonar os meus companheirosde luctas, como embarcaria, eu, que tenho tanto horror ao mar? -Irias para o Amazonas e comtigo os que te acompanham, disse Soares. -As mattas d'aquelle solo fertilme seduzem, e já pensei em procurar o socêgo ali. Por obediencia, cumpriria as ordens de Vmc. , mas era preciso que se podesse ir ao Amazonas a pé enxuto e sem encontrar na travessia homens de farda. -Exageras, meu filho, o teu odio e o medo que tens ao mar, disse o velho.

-Que hei de fazer, se até meu pai duvi da da sinceridadede minhas palavras! O horror que tenho ao mar, é uma doença, como é uma doença o medo que tenho das cobras. Tenteiem. barcar diversas vezes em canôas, em jangadas, mas nunca tive coragem, tremia acovardado na praia como a mais mofina creaturana im minencia de um perigo. Não sei explicar o que se passa em mim em certas occasiões e a influencia de certas cousas sobre os meus nervos. Recuo apavorado deante de uma inoffensivacobra verde ao passo que, encontrando uma onça, boto-me para ellasem o menor medo. O odio a meus inimigos e a sêde de sangue que tenho, pódem muito bem seruma enfermidade, mas cujos symptomas não exagero. Quizera poder descrever a Vmc. , meu pai, a impressão que me causa hoje um homem fardado. Pensarão que quero justificaros meos erros, illudem-se; quem no mundo só deseja ardentemente morrer, não precisanem da justiça, nem da piedade dos homens.

-Fallas, Jesuino, como se não tivessesmulher e filhos, disse o vigario. --Ella e ellesnão precisam de mim. Nem de companhia thes poderei servir, porque, sem que ellesqueiram, terão um certo temor, a repu gnancia que instinctivamente o justo tem do criminoso. -E todos estão ahi, meu filho, disse a mài do Brilhante. -Que continuem recolhidos; não desejo vel-os; para que avivar recordações? Não pertençomais a ellese sim á justiça. Serei livre somenteemquanto poder escapar ás ciladas de meus perseguidores. -Acautele se, Jesuino, acautele-se. Não tarda chegar uma grande escoltae ordem de prendelo, disse o cura. -E's obstinado, meu filho, deixa essavida de tribulações, e segue, ainda uma vez te peço, os conselhos de teu velho pai. Embarca, sahe d'estaterra de inimigos e terás socêgo.

-Para que Vmc. se convença da verdade, ficodesde já á sua disposição. Avise-me o diae logardo embarque, compre passagens para mim e a minha gente. Assentado isso, o Brilhantese retiroupara a Casa de Pedra já muito tarde da noite. Sahiu da casa paterna com a alma tão vasiade esperanças como havia entrado. 6XX

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