Capítulo XXXVII Os Brilhantes · Capítulo 37 de 48
Obra Menu

Capítulo XXXVII

O flagello, que assolava uma grande area do norte do imperio brasileiro, e, pela sua duração parecia intermino aos infelizesque torturava, chegava ao fim. A secca, que havia reduzido a uma pretidão sombria os verdes campos, que tinhajun cado o solo de ossadas de homens e de brutos, e esgotara os mananciaes das serras e sertão, desapparecera em uma noite. Os ultimos raiosdo sol, que haviam torrado as campinas e as florestas, sumiram -se, não na fimbria descorada de um horisonte raso e sem nuvens, mas, por traz de pesados cumulus côr de cobre. E, quando de novo voltouo astro ao levante, o espaço estava cobertode espessos nimbus, que lhe empanavam o brilho e moderavam o calor dos raios. Os vapores, que subiam e que as correntes de sudeste moviam para longe, condensavam -se e cahiam sobre a terra em pesada chuva. Ao adoudado remoinho do vento, havia succedido plena calmaria. As arvores denegridas, immoveis, sem uma folha nem um gomo vivo, quasi morreram de todo porque a agua havia -se sumido da terra onde viviam as suas raizes. As primeiras bategas d'agua cahiram no solo e tão quente estava este, que as primeirasgottasse vaporisaram como se cahissem sobreenorme borralho. Espessasnuvens de vapor se elevaram da terra. O chão, coberto de detritosorganicos, embebia toda a agua que cahia como se fosse uma esponja. Os tremedaes re sequidos e gretados tinham as superficiesem relevo pela imbebição das particulasvegetaes que os cobriam.

A chuva durava ha quinze horas e nem uma arteriad'agua corriapelo solo. Das pro prias rochas não descia o mais tenue fio; parecia serem tambem de esponja. Os retirantes, pela maior parte desabrigados, quasi amaldiçoaram a nova era que se annunciava com tão bons prodromos. O murmurio da chuva, batendo em cheio nas arvores e rochedos, fundia -se com o som da vozeria dos infelizes e confusos echos se espalhavam de serra a fóra, repercutindo pelos picos e quebradas da montanha. Os esfomeados, semelhantes a um enxame de abelhas desalojado da colmêa, em crescente fervedouro, recolhiam-se ás cavernas, ás grutas, ás furnas, procurando abrigar a pelle, que a fome tinha esfriado e tornado escamenta.

Não havia alojamento para tão grande multidão. Em breve, pilhas de gente encheram os es conderijos até a bocca. E, dentro d'estes buracos, a pouca vida que lhes restava, perigou de todo. O ar viciou-se, e as emanações deleterias da sujidade dos corpos e dos trapos, gerou miasmas, que os matariam a todos, se os prodromos da asphixianão os avisassem do perigo; sahiram para respirar ao ar livre. Ninguem se entendia em semelhante balburdia. A chuva alliviou já dia alto e um céo de chumbo, recamado, de nascente a poente, de ar rendados cirrhus côr de neve, prenunciava a continuação do inverno. No levante se acas tellavam grandes cumulus.

Os retirantes, logo que deixou de chuver, sahiram dos covis. Estavam mais amarellos ainda e engilhados. Alguns tinham morrido emprensados e alificariam sem sepultura. Jesuino viu com grande satisfação a chuva regar a terra. Em breve a paz reinaria nas familias e, reunidos todos em suas habitações, gosariam, como outr'ora, do fructo do trabalho, O Brilhante cria chegado o tempo da remissão d'aquelles infelizes. Só ellenunca seria remido, nunca teriapaz. O seu egoismo, entretanto, não o impedia de se alegrar com o acabamento do flagello, muito embora continuasse a sua infelicidade, a sua tortura Logo que clareou de todo, chegou á bocca da caverna e olhou o céo. O ar era de inverno, pesado e sombrio. A atmosphera estava mais leve, por issomesmo afogadiça.

Jesuino entrou e disse á retirante: ---Chegou afinal o dia da redempção, Maria. Em breve a terra produzirá e, reunidos, os nossos irmãos comerão á mesa da abastança. A paz reinará entre elles e verei cumprido o desejo ardente que eu tinha de vel-os feli zes e fartos. Terei ao menos essa consolação, já que a paz e o socego se acabaram de uma vez para mim. Elles voltarão ás suas casas e em breve esquecerão o flagelloque os iamatando; e a mim, quando será dado regressarao meu torrão, viver com a familia, tranquilloe feliz? nunca! -E porque nunca, Snr. Jesuino? -Porque nunca mais terá paz o meu espirito. -De uma hora para outra, Deus muda -nos a sorte.

-E ' se eu acreditasse que Deus influe em nosso destino. O que soffro hoje, é a consequencia fatal dos meus actos passados. Os actos bons dão, ás vezes, fructos máos. Neste caso está, por exemplo, a sua vinda para aqui. Pensava somente em lhe salvar a vida e não esperava que esta acção tão humana nos trouxesse, a ambos, momentos de tribulação. - Custa-me muito, Snr. Jesuino, ouvirtodas essas verdades e ainda mais ter a certeza de que a sorte me fez o algoz de meu bemfeitor. Offereci-lhe a vida, dava -lh'a, e para provarlhe que foi sincera a minha offerta, devo declarar -lhe que tinha jurado morrer a fome; neste firme proposito estive por tres dias; porem não pude resistirmais. . . Não lhe peço que me abandone dentro deste buraco, porque doeria muito menos morrer. Pela sua liberdade, pela salvação dos seus, offereçoa vida, procure uma morte que me surprehenda, que nem um instante eu tenha consciencia d'ella, pois a idéa de morrer ainda tão nova me aterra. Se fosse possivel fazer -me dormir com a dormideira de que usavam as fadas dos contos que eu li, seriauma felicidade para ambos nós.

--Sim, Maria, tudo é possivel. Suas palavras me fazem soffrer com grande resignação o madeiro que me pesa sobre os hombros. E ' preciso entretanto cuidar de si, porque não é só sua vida que está em perigo dentro d'estasmuralhas, é a sua honra tambem. -Senhor Jesuino! dissea retirante, corando e baixando os olhos. -A situaçãoperiga todos os dias, porque cresce cada vez mais o amor de José. Surprehendi -o já duas vezes nas cercanias da Casa de Pedra, espreitandonão sei com que intento. E ' preciso que você saia d'aqui. -Como, senhor? perguntou Maria, chorando. -Depende de sisomente. Se fossepossivel arrombar estas paredes ou entulhar o fosso da Titéla, ha muito você estarialivre, embora eu ficasse a descoberto e exposto á sanha de meus inimigos. Vou mandar o libertoá casa e quando elleregressar, tomaremos qualquer resolução.

E o Brilhante sahiu da caverna e atravessou a ponte. Minutos depois José chegava á falla; perfilou-se em frente ao amo, mudo e descoberto. O mestiço tinha os olhos baixos, a carranca fechada. Jesuino lia o odio no coração do cabra, e adivinhava -lhe os máos pensamentos. Dando pouca importancia ao humor de José, ordenou -lhe: --Prepara-te para ira casa. Sahirásdentro de duas horas e voltarás quando tiveres cumprido o que eu te ordenar. Quero noticias dos meus, mormente de meu pai e irmãos. Logo que as tiveresvai ter com o feiticeiroCongo, e diz-lhe de minha parte, que me mande um pouco de dormideira, que produza um somno pesado, embora curto. Paga -lhe o que pedir. São estas as ordens, d'ellasnão te affastesuma linha.

O libertosahiu para o rancho e Jesuino vol tou á caverna.

1/1
Menu

Fazer anotação