Capítulo XXVII
A noticia dos crimes do Brilhante corria o sertão todo. Jesuino havia conquistado pelo seu valor e cruezauma celebridade, que cada vez maior se tornava entre os seus conterraneos. Todos temiam o seu odio e louvavam as suas acções generosas. Não era um assassino commum, um homem torpe, abusando da força e do terror, que se havia incutidono animo de seus patricios paracommetter toda sortede crimes, toda a casta de miserias. Havia mais de cinco annos que vivia foragido, sem lare sem familia, perseguidopelosinimigos, sem um dia só de paz e socêgo! Nessa vida de tribulações, esperando a todo o instante a bala que o derribaria para sempre, Jesuinonão deixava de tiraruma parcellad'esse tempoe empregal-a em beneficiaros desgraçados, soccorreros opprimidos. Constituiu-se juiz e juizabsoluto n'aquellascercanias. A justiça que administrava, era tão recta que em bre vefoigrande a sua fama. Só tomava conhecimento dos crimes praticados contra a honra e a propriedade. E ai d'aquelle que os tendo commettido, não os reparasse com o casamento ou a restituição. Para os que se negavam só havia uma pena- amorte. Assim, castigandocom a maior severidade e justiçaos delinquentes, conseguiu quasi acabar com aquelles crimes dentro da area de sua jurisdicção. Os defloramentos e os estelionatos, diminuiram muito, porque o Brilhante era inexoravelquando os punia. Uma das qualidades que mais recommendavam Jesuino á confiança e respeito de seus conterraneos, era a rectidãode suajustiça. Para elletodoseram iguaes, e provou issoinnumeras vezes decidindo questões entre pobres e ricos. O filhode um fazendeiro de grandes haveres deflorou uma menor, filhade um vaqueiro, suppondo por sua posição e fortuna escapar á justiçado Brilhante.
Jesuino, inteiradodo factopelo pai da offen. dida, mandou um emissarioao delinquente, marcando -lhe um praso de tres dias para effectuar o casamento. O moço recebeu mal a ameaça e maltratou o enviado. Reflectiudepois n'esseseu acto impensado e no perigo que corria a sua vida, e tra tou de fugir. Jesuino, que sabia tudo, deixou-o caminhar e, no praso marcado, poz se no encalço do fu gitivo, indo alcançalo cincoenta leguas de sertão a dentro. O moço e os guarda -costas, quando se viram cercadospelosBrilhantes, esmoreceram. Não ti veram coragem de disparar as armas. Jesuinodirigiu-se ao delinquentee disse-lhe que escolhesse, casar ou morrer. O fazendeiro cedeu á ameaça e acompanhou o Brilhante, que, com admiração de todos, diasdepois obrigavao vigario da freguezia mais proxima a casar, sem os processos preliminares, o moço com a offendida.
Este e outros factos deram a Jesuino grande popularidade. Todos o respeitavam e acatavam como uma garantia solida de seus direitos. A intrigado Brilhante com o governo e os soldados em nada os prejudicava. A população d'aquellasparagens era affeiçoada a Jesuino, affeição esta que crescia pelos seusactos de nobreza e abnegação. Ainda bem não se aquartelava nas villasa força do governo que vinha prender os Brilhantes, já o chefe sabia, pois não faltavam amigos que fossem avisal -o. O velho Soares confiava pouco na duração d'essasprovas de estima que o povo dava ao filho. O povo, dizia, é sempre o povo, voluvel e incomprehensivel. Estimaria mais poder tel-o feitosahirda provincia; seriaassim possivelsua regeneração. Por mais esforços que empregasse, nadaconseguira. O Brilhante, fielá suapromessa, apresentou-se no dia marcado com sua gente, em Mossoró, prompto para embarcar.
Seu pai o esperava com alguns parentese amigos. Fretada a embarcação que os conduziriaao Ceará, onde tomariam passagem para o norte, todosembarcaram excepto Jesuino, que ficou para ser o ultimo. O Brilhante aterrado olhava as aguas do porto e as oscillações da embarcação. Que alguma cousa o apavorava, não era precisoque dissesse, bastava ver a decomposição assus tadora de suas feições. Em seu rosto não havia uma linha que não estivessecrispada, um traçoque fosse natural. O velho Soares, apressou as despedidase depoisde todos terem abraçado Jesuino, que tre mia como um maleitento, esperavam que elletomasse a embarcação, mas qual! Não se movia do logar! Soares chegou-se a ellee ordenou-lhe que embarcasse; Jesuino respondeu -lhe que era de todo impossivel.
Dispozeram -se a leval-o a força até a embarcação, mas o Brilhanteresistiusacandoa faca da bainha e ameaçando de ferirquem lhepozesse a mão. Recuaram e deram a viagem por adiada.