Capítulo XXII
O Brilhante caminhou com José até alcan çar as mattas da serra do Cajueiro. Tres dias e tresnoitesde viagem, com o estomago quasi vasio e o espirito em constante sobresalto. Jesuino conservava toda a sua grandeza de animo. Tinha necessidade de um esconderijo onde, ignorado dos inimigos, podesse traçar a linha de defesa e reflectir maduramente na situação e nas eventualidades do futuro. Escolheu uma gruta cavada em exquisitos e solitariospenhascos e se aboletou n'ella com o liberto. A caverna eraespaçosa, mas de difficilaccesso. Duas grandes rochas disfarçavam a entrada da gruta e tão bem, que era preciso grande attenção para não se varar a porta. A abundancia d'agua e caça tornava facil a vida. Os mocós sahiam aos centos das rachaduras da pedra e vinham se aquecer ao sol sobre as toscas lages de granito.
Os roedores aguçavam o appetitede José, que os via, mas sem lhesfazermal porque atirar seriauma imprudencia, uma denuncia. Jesuino não esquecia João Soares e Silvestre. Tinha como certa a prisãod'elles. Passaram -se oito dias e nem uma nova. Era preciso dar noticias suas e saber em que pé iam as perseguiçõesdos inimigos. José foi o mensageiro; partiu ao fechar da noite, affrontandoas féras e os precipicios. Só na gruta, na escura caverna, o Brilhante pensava na sorte que o esperava, alimentando as mais sanguinarias idéas. Era uma vida de féra. Dormia no chão e comia exclusivamente a carne dos animaes que matava, assada sem sal. Passava as noites dei tadode bruços sobre o bacamarte, tendo á mão a faca de ponta. Deitava-se mais para descançar do que para dormir.
O seu somno era leve, ligeirocomo o do tetéo; uma serie de coxillos e nada mais. Em uma dessas noitesmal dormidas, quasi de madrugada, ouviu Jesuino que alguem con versava nas proximidades da gruta. Levantouse e escutou. De facto, fallavam fóra. Era possivelque fosseJosé com alguns dos seus. Caminhou ás apalpadellas até a entrada da caverna e ficoutodo ouvidos porque espreitar não podia, cégo pela treva. A conversação con tinuava em distanciaa ser percebida por elle. O Brilhante ouviu isso: -Será mesmo esta a serra? -E ', como sem duvida. -E a gruta? -Só quando amanhecer o dia. Jesuino suppôz -se de novo cercado e levou o bacamarte ao rosto, quando ouviu o seguinte:
-E na gruta estaremos livres? -Não ha soldado que nos arranque de lá. -E a gente passando estas inclemencias pro mode os malfeitos dos outros. E Jesuino descançou a arma. -Ainda V. andou com o Pedro Jurema e eu, que nunca lhe vi a cara e nem o peso dos tilos! . . . -Agora que estamos longe e com o rabo fóra do mondé, conte -me como escapou V. da tribusana, -Por um milagre de S. Francisco. Eu vi nha do Retiro para a Serra Redonda, já fóra de horas, com tenção de pegar a Chica Tatú, com quem eu estavaemperrado, em suas poucas vergonhas. -E a Chica se divertia com outro? -Não sei, ouvi este zum -zum e queria pegal-a com a bocca na botijapara fazel-a conhecer homem.
-Ora voute, que gallinha! . . . -Eu vinha montado n'uma egua chotona, mas nem sentiao choto, tal era o empenho que eu tinhade chegar e topar a cabra no fragante. Marchava assim, quando senão quando ouço um tropeldos diabos atraz de mim e ferros tinindo. Arripiou-se-me o cabello do corpo que o chapéo cresceu, tivemêdo, não tenho vergonha de dizer, pensei que vinha atraz de mim uma burra sem cabeça. -Era o caso de desencantal -a se V. tivessecoragem e viesse armado de faca pequena. -Não é mesnio o filhode meu pai que se mettecom burra de padre. Quando, o barulho foise chegando, eu quebreiá esquerdade matta a dentro, com besta e tudo, e parei longe, mas deonde podesse ver a encantada. Resei o credo ásavessastresvezes, e no fim do ultimocredo começou a passar, não a burra, mas soldado por cima do tempo. A noite não estava lá muito limpa, mas havia claridadede sobra para fazer espelhar os botões e as granadeiras dos soldados.
-Metteu -se V. em bôas! -Esperei que passasse a soldadaria, mas nada de passar o ultimo; tanto soldado sónas guerras do Lopez. Para encurtar razões, quando o sete estrellaspendeu, a estrada ficou limpa. Para onde iria e fazer o que, tantodiabo fardado? Quiz sacudir-me no caminho do Retiro e nem mais novas da Tatú, mas o sangue fervia de raiva, sahi do matto e continuei a viagem. Pouco andei para chegar ao Alto do Curisco. A noite tinha-se aberto mais e eu pude ver as ruas, desertas dos naturaes da villa, apinhadas de soldados. Todas as casas da Serra Redonda estavam fechadas e os donos dormiam muito a fresca, sem lhes passar pelo miôlo o fôjo que lhes tinham armado.
-E eu que o diga. -Tinha a casa da Tatú debaixo dos olhos, mas lá eu não podia chegar sem ser vistopela escolta. Fiquei reinando por muito tempo e com vontade de fazer uma estralada. -E não era para menos. -Tive raiva que fiquei azul só em me lembrar que a perúa podia estar aquellahora com o cabra em casa e eu perder a occasião de arrancar -lhe as pennas do rabo. ----A tribusana não seria deste mundo! -Não ha gallo valente no terreiro alheio. Havia de brigar até largar os esporões. -E V. ficou de longe, a considerarnas poucas vergonhas da Chica, até estourar o barulho? -Como sem duvida. Os galloshavia muito que amiudavam, quando de repente estalaram as cornêtas, e ouviu-se um barulho medonho por toda a villa. O estrondo foitão forte que passando por mim quasime atirouda bestaembaixo.
---E V. estava longe. Pense nos que estavam dentro de casa. As cem moradas da villa tinham cada uma uma sentinella em frente á porta de entrada. Quando as cornêtas estalaram, cada sentinella deu com a coronha da arma uma pancada forte na porta. Aquellas pancadas dadas ao mesmo tempo se juntaram n'um só estrondo que accordou até os meninos de peito. -E que pensou V. accordando assim? -Que o mundo estava se acabando. -E como V. escapou? --Metti-me dentro da palhagem do milho, só deixando as ventas de fóra, até passar a broseguiada. Do meu buraco eu só ouvia o facão trabalhar em couro de christão. Cercadas todas as casas, arrancaram todos os homens, velhos e moços, e levaram presos.
--E por que crime? - Por nenhum deste mundo. Dizem que essa força veiu atraz de prender os Brilhantes e como não os encontrasse, para não perder a viagem, veiu atraz dos quebra-tilos da Serra Redonda e lá se foram os innocentes a pagar pelos peccadores. -E levaram mais de cen presos, eu os vi passarem amarrados que nem carangueijos. -Não houve pedido, nem lagrima de mulherque os valesse, vão baterna capitale d'ahi embarcam para a Côrte. E nem um d'elles foi quebra-tilos? Nem um d'elles, nós sabemos que os poucos que andaram n'isso, estão no brêdo. -Diabo leve a justiça do mundo. Calaram -se, e o Brilhante voltou ao interior da gruta. Ahi sentou -se esperando que clareasse o dia para ver a cara dos fugitivos. Chamal -os-ia ao seu serviço caso quizessem e lhe agradasse as figuras. Tinha necessidade de augmentar o grupo; agora mais do que nunca corria a sua vida o mais serio perigo; devia defendel -a, custasse o que custasse. Logo que amanheceu, o Brilhante sahiu fóra para ver as cataduras dos fugidios. Na entrada da gruta, estavam elles deitados na relva, de papo para o ar, e dormindo a somno solto.
Eram dous homens moços e de côr. A claridade que se coava atravez da folhagem espessa da matta, illuminava em cheio as caras adormecidas, que Jesuino mirava com attenção, de pé e a pouca distancia. Viajavam escoteiros e desarmados. O Brilhanteagradou-se dos typos, mormente do mais escuro. Era elleum cabra quasi negro, de bigodes retorcidos e nariz chato como tromba de porco. Mesmo dormindo, via-se que o dono de tal cara não podia ter boas entranhas. O cabra era musculoso, cheio do corpo e de mediana estatura. O outro era um mulato alvadio e franzino. O rosto pequeno e malfeito era quasi todo occupado pelo nariz, um nariz phenomenal, muito parecido com sobrecú de perú e que esparrava as entumecidas azas pelas faces a fóra. No queixo inferiore vis-a-vis á ponta da venta, cavava -se um buraco. O excesso do nariz fazia falta á depressãoda barba. As faces dividiam- se, das macās ao pescoço, em uma serie de papadas mal feitas, balofas, que pareciam cheiasd'agua.
O Brilhantegostou menos deste typo, tinha conhecido um sujeitomuito parecido com elle, que, além de bebedo por indole, tinha os sentimentos da vibora da Fabula. Depois de tel-os mirado bem, voltouá gruta a esperar que acordassem. As oitohoras do dia, levantaram-se e um d'ellesreconhecendo a entrada do esconderijo, disse ao outro: --E ' aqui. E entraram. Mal tinham dado dez passos, appareceulheso Brilhante. Assustaram-se. Suppunham desertaa caverna. Jesuino, para vencer a má impressãoque lhestinhacausado, disse-lhescom urbanidade: -Estão em sua casa. -Pensavamos que não tivessedono, disse o curibóca. -E ' grande, chega para todos; mais vinte quefossem, ficariamagasalhados, disse o Brilhante.
pague; perdoe -nos termos en--Deus lhe trado sem licença. -A casa é nossa. Com quem tenho o prazer de conversar? -Com Pajehú, da Serra Redonda, e Cobra Verde, do oco do mundo, disseo curibóca. -Andam perdidos, não é assim? -Bem achados. Conhecemos todas essas bibocas como a palma das nossas mãos. -Sentemo -nos, se não têm pressa de continuar a viagem, disse Jesuino acocorando -se em uma lage. -Nenhuma, disse Pajehú, sentando -se com Cobra Verde ao lado do Brilhante. -Que mal pergunto, o que trouxe Vmcs. por aqui? -Meu Senhor, não ignore antesde respostar, querer saber com quem trato, dissePajehú. -Com Jesuino Brilhante. Os mestiços se assustaram tanto que se poseram de pé. Olharam boquiabertospara o Bri lhante, que lhes disse sereno:
-E ' grande a minha má fama! . . . Sentemse que não lhes faço mal. Até hoje não derramei sangue sem ser em minha defeza. Sentaram -se e, mais calmos, continuaram a conversar, contando Pajehú a mesma historia da Serra Redonda, que Jesuino já sabia. -Querem ficarcommigo? perguntou o Brilhante. -Conforme as conveniencias, dissePajehú. -Dou tudo que precisarem para viver, bons cavallos e no fim uma molhadura. -Que achas, Cobra Verde? perguntou o curibóca. 1-E ' bom. -Queremos, disse Pajehúa -Ouçam o resto. O servigszédefenderemse e defenderem-me em casoideporigo. Os que me acompanham, não pegam no alheio e nem faltam com o respeitoásvifamiliasshonestas.
Estes dous crimes são os que eu mais abuso. Fujam de commettel-os porque para ellesnão ha perdão. Em quanto não chegam as provisõesde bocca, passaremos mal de barriga, mas, querendo Deus, muito breve todos viveremos fartos. Querem viver commigo? tiços. -Queremos, disseram a uma voz os mes 6XXO