Capítulo XX
O odiodas familiasque se degladiavam, cada vez se azedava mais. Os Calangros, patrocinadospor um sertanejorico e figurasalientena politicada localidade, juravam exterminar aos Brilhantes. Apresentavam se como victimas e, de algum modo, assimparecia pelas cinco mortes feitas pelos Soares em pessoas de sua familia. No numero d'estas estavam as duas de Jurema, que tàobem as disfarçoua ponto de não despertar a minima suspeita. Jesuino Brilhante, com grande atilamento, preparava -se para entrar em uma lucta, que lhepoderia dar cabo dos dias. Não ignorava a sorteque o esperava com todo o seu cortejo de soffrimentose decepções. Com a maior presença de espiritopunha em ordem os seus negocios como se a morte o devesse surprehender de um momento para outro. Havia reduzido a dinheiro parte de seus rebanhos e se dispunha a levar a familiapara bem longe d'aquellelogar e depoisvoltar ao seu posto.
Assim teriaacontecidose os Calangros, scientes da venda dos gados de Jesuino, não vis sem n'isso um plano de evasão. Jurema era agora o maior factord'aquella monstruosa intriga, que crescia alimentada por suas instigações. O caudilhonão perdia oc casião de fomentar a discordia. Mal chegou -lhe aos ouvidos a noticiada proxima retirada do Brilhante, não descançou mais, pondo em actividade o seu malefico engenho e toda a maldade de seu coração. Cevar o genio malfasejo, quer nos que acompanhava, quer nos adversarios, era o que apetecia sua indole de carniceiro. FranciscoCalangro, completamente convencido do fechamentodo seu corpo, se acostouá opinião de Jurema e decidiu impedir a sahida do Brilhante. O odio que tinha aos inimigose a superstiçãodavam -lhe grande valor de animo, valor que chegava ás raias da temeridade. Nada o amedrontava, e tantoera assim que ia só todas as noites rondar pelas immediações da casa de Jesuino. Francisco Calangro desconfiava muito proxima a partida do Brilhantee, de accordo com o caudilho, resolveusahircom o seu grupo todos os dias em excursões de reconhecimento.
Jesuino já tinha sabido que os Calangros Therondavam a fazenda, mas suppoz ser issouma bravata. Comtudo tomou algumas precauções, sahindo de casa somente em casos de grande necessidade e evitando quanto possivel encon trar-se com os inimigos. A sua grande aspiração agora era afastar a mulher e as filhasd'a quellemeio, premunil-as de qualquermal, vol. tar depois á arena da lucta e lavar em sangue, em muito sangue, as affrontas que havia recebido. O producto da venda dos gados era sufficientepara o transporte da familia á capital da provincia, sua acommodação e um anno de estadia. Por um lado não havia estorvos á viagem. Era precisoprocurar quem gerisseos seus ne gocios. Sabia que sua vida iria ser attribulada e sem tempo para ganhar o pão e cuidar da conservação dos bens que possuia. Tinha necessidade de um procurador honesto e de sua inteiraconfiança, achou-o mesmo entre os seus, e foiá um tabelliãoamigo, de uma villaproxima, passar a procuração e fazer testamento.
Jesuinofoisó, deixando a casa guardada pelos companheiros. O seu itinerario na viagem á villa foi exquisito. Deixou a estrada pelas devezas, os atalhos pelos rodeios. Assim evitaria o encontro com os inimigos, com os quaes desejavadeveras enfrentar-se, mas só depois que pozesse com o tabellião em bôa ordem todos os seus negocios. Tres dias levou por lá e quando tevede voltar, tomou a estrada mais publica. Podia morrer. A dez kilometros pouco mais ou menos de sua fazenda, quando vencia um cotovellodo caminho, enfrentou-se inesperadamente com FranciscoCalangro e Jurema. Foi um instantecriticopara os trescriminosos. Os outrosperderam a côr; Jesuino não descorou. A situação era perigosissimapara o Brilhante. Comprehendeu -a e em um momento pôde elaborar uma idéa, reflectirsobre ellae pol-a em pratica. Os dous inimigos, por sua vez tambem na mesma parcellade tempo, tiveramum pensamento, que se transformou em realidade. Ambos parecia pensarem com um só cerebro, moverem a musculatura ao mando de uma só vontade. Assim, levaram ao mesmo tempo as armas ao rosto e fazendo alvo no peitode Jesuino, dispararam os bacamartes. As detonações fundiram -se n'um só estrondo, que repercutiu de monte em monte.
--Arre diá. . . exclamava FranciscoCalangro, quando ouviu-se um tiro, e uma bala alcançandolhe a espadua levou-lhe parte da claviculadireita, não deixando que ellepronunciasse a ultima syllaba da palavra começada. O Brilhante, vendo -se perdido, appelloupara sua agilidade. Fitou o Calangro, concentrando no olhar toda sua vigilancia, e quando os dedos dos inimigosapertaram o gatilhodas armas, elle se deixou cahir do cavallo, como se as balas o tivessem alcançado em logar mortal e não passassem zunindo no espaço occupado por seu tronco, havia um pedaço de segundo. Do chảo fez pontariapor baixo da barrigade sua cavalgadura e, quando os inimigos o suppunham morto, elle atirava sobre o Calangro; montando -se depois de um pulo, apresentava-se à frentedos inimigos, que aterrados o suppunham endemoninhado.
A apparição do Brilhante os espantou, como se testemunhassem uma resurreição. Francisco Calangro esmoreceu de todo, mais pela decepção que soffrera do que pela gravidade do fe rimento. Cahiu do cavallo como uma massa inerte, sem esperança, nem coragem. Jurema, vendo -se só em frente de Jesuino com arma descarregada e o animo bastante alquebrado, dobrou o cavallo e correu a se en contrar com o sequito que esperava ordens a meia legua d'ali. O Brilhante perseguiu -o, alcançando -o logo. Ambos corriam a toda brida. Quando Jesuino emparelhou -se com a anca do cavallo de Pedro, enrolou a cauda do animal na mão direita e solevantando os quartos do bruto, desequilibrou-o de modo a fazel-o cahir em cheio e tão desastradamente que se enrolou no chão. O Brilhante apeou -se de um salto e esperava sómente que cavallo e cavalleiro se desennovellassem para matar o caudilho. O animal procurou erguer -se, mas apenas levantou -se nas mãos, o espinhaço estava partido e os quartos se arrastavam no sólo.
Jurema aturdido com a queda estava prostrado, sem animo de mover -se, talhavia sido a commoção que soffrera. Jesuino olhou-o e sem piedade arrancou a faca e foi a elle. O mestiço arregalou os olhosquanto pôde e mal teve tempo de ver a figura ameaçadora do Brilhante; sentiu que um corpo friothe entrava de peitoa dentro, viu que escurecia, que a luz se apagava bruxoleando; sem conscienciada escuridãoem que já estava mergulhado, sentio um frio que o tranzia todo e depois uma confusão, uma sensação de vasio na cabeça. A vidase escapava deixando um vacuo, que era a morte. Morto Jurema, Jesuino montou -se e voltou para junto de Francisco Calangro. Mettia dó o ar consternado do mestiço.
Aquella molle covardia que tanto o amofi nava, não tinha meios de debellal-a. O espirito do cabra cahira em penoso deliquioquando se convenceu de que o fechamento de seu corpo era uma mentira e não uma verdade irrecusavel como acreditava. Succumbiu de todo. O ferimento era pequeno para produzir tão grand e abatimento. O que matava o mestico era a enorme decepção por que havia passado. Sem coragem, n'um entorpecimento do corpo e d'alma, deixou-se ficarno chão esperando a morte, podendo ter fugido na auzencia de Jesuino. Tinha presentes á imaginação as scenas da noite em casa de Manoel do Congo e as ultimas palavras do africano parecia ouvil-as agora. Nem The passava pela mente a idéa da morte! Seus esforços, todo o seu ser pensante, esbarravam -se de encontro á decepção, que o prostrava, e elle sentia-se desfallecer cada vez mais. Ouviu os passos do Brilhante, que se approximava, e os seus sentidos em profunda modorra quasi não se impressionaram.
Jesuino parou a dous passos do mestiço; elletinha as palpebras fechadas e as feições n'um desfallecimento que fazia dó. O rosto n'uma crispação de assombramento era o vivo reflector do transe em que se debatia o espirito. Jesuino seni piedade do inimigo, ardendo em vingança, chegou -se mais ao cabra e, n'um phrenesi de goso e n'um impeto de colera fundidos em um sentimento só, empunhou com firmeza a faca ensanguentada e feriu-lhe com profundo golpe a carotida esquerda. A feridamerejou um sangue negro e grosso e o corpo se esticando de chão a fóra, immobilisou se quando não tinha mais nada que estirar. A arteriadecepada, que parecia de um moribundo pela usura com que vertia, enchia-se aos poucos de um sangue mais fluido, que cahia em grosso fio dos beiços da ferida. O mestiço arregalou os olhos, que fitavam o espaço, mas olhavam sem consciencia e sem luz; o dia se apagava de todo na escuridão que lhe enchia a cabeça. A vida sahiaagora do corpo em borbotões pela ferida da arteria. O ar já não chegava ao pul.
mão, ficava na garganta a mover -se em um estertorcavo, em um gargarejo roufenho. O coração batia sem rithmo e sem força. Os batimentos cada vez mais compassados e morosos se faziam, até que pararam para sempre e pela abertura da arteriajorrou a ultima golphada de sangue. A pelle foi-se tornando fula e as feições cadaverosas. Jesuino olhava sem constrangimento para as faces do morto. Saboreava com satisfação os phenomenos que a morte estampava no rosto do cadaver. Nem o compungia e muito menos o amedrontava o olhar sem vida do defuncto cravado no céo, olhar cuja expressão e immobilidade eram de animal ruminando. O branco do olho começava a se cobrir de um véo glutinoso, que o faziaopaco, e as pu pillasapagava de todo. A musculatura que a morte havia amollecido, a rigidez cadaverica entesava.
O Brilhante não se fartava de olhar a victima. O abatimento, a decomposição das feições do morto davam -lhe ao espirito enfermo uma satisfaçãoque o prendia ali, como umespectaculoque muito o alegrava. Comprazia -se em observar aquellasmutaçõesquando teve a idéa de assignaro cabra, como se fôra um bóde. Em um vivo isto seria o requinte do aviltamento. Em um morto, o maior ultrage que se podia fazer á sua familia. Assim, em um abrir e fechar de olhos, Jesuino assignouo Calangro nas duas orelhas com o si gnal de mossa e canzil. Nesse entretimento estava quando ouviu grande tropel de cavallos de estrada a fóra. Olhou e viu que vinham no rumo em que se dera o conflicto. O sequitodos Calangros, pensou Jesuino, e montando -se escondeu -se no matto atraz de uns barrancos e de umas touceiras de macambira. Do esconderijopodia, sem ser visto, observar os inimigos. Carregou a arma e esperou. Não se demoraram muito. A algazarraque vinham fazendo, calou-se de subitoao esbarrarem com o cadaver de Pedro Jurema.
mo. Estava hedionda e mettia medo a figura do mulato. Os doze homens, que compunham o bando, pararam os cavallos e rodearam o cadaver espantados e boquiabertos. Nenhum ousava fallar. Seguiram e pouco caminharam para encontrar o corpo de Francisco Calangro. Maior foi a decepção, maior o desani Estavam deante do cadaver do chefe. Todos profundamente tristes, alguns choravam em silencio. Não se ouvia uma praga, uma maldição, uma palavra sequer. O silenciofaziamais imponente aquellescena, que foiabalar o Brilhante lá no fundo do seu esconderijo, a elleque havia pouco tempo tinha com a maior fleugma morto dous de seus inimigos. O grupo que lastimava a sorte de Francisco Calangro compunha -se de doze rapazes quasi todos imberbes.
Jesuino viu -os chorar e se doeu d'elles. Não tinha desavenças pessoaes com os que aliestavam e se as tivesse, já o seu bacamarte teria estourado. O coração do Brilhante nutria certos sentimentos de piedade, que faziam um contraste perfeito com a crueza que ostentava nos momentos de vingança. Quiz sahir do esconderijoe propor a paz aos inimigos, tal foi a pena que lhe produziu o pesar dos moços. Receiou aterral-os com a sua inesperada apparição e ficou occulto até que elles se retiraram com os cadaveres dos companheiros. O Brilhante continuou o seu caminho bem dispostoa depôr as armas, uma vez que tinha vingadoa morte de seus parentes e lavado em sangue as affrontasque havia recebido.