Capítulo XLIV
Ao amanhecer, a tropa sahiu pelo campo a verificar se algum de seus tiros havia acertado. Não caminhou muito para achar Silvestre, estiradono chão, vivo ainda, mas gravemente ferido. Os soldados cercaram o baleado. Suppunham ser o Brilhante e zombavam das dores, que lhe desfiguravam as feições. Todos chasqueavam do feridoe houve quem, por cumulo de escarneo, lhe empurrou o corpo com os pés. A noticia de que Jesuino estava seguro, correu logo o campo inteiro e não tardou a reunir -se em roda d'elle toda a força. Com a chegada dos Calangros, foi reconhecida a identidadedo preso, com grande pezar da escolta e ainda mais dos inimigos. Comtudo era um de menos no sequito, e um dos mais temiveis.
Silvestre, torturado pelas dores horriveis do ferimento, quasi não via nem ouvia os gestos e as palavras de mofa que lhedirigiam. O proprio capitão disse-lhe uma chufa. Um dos Calangros, vendo os cadaveres dos dous cavallos, exclamou para os companheiros: -Temos mais outro preá no mondé! . . . Manco ou troncho, é bom procural-o. E sahiram a bater o matto das cercanias da pedra furada. Entraram de bamburral a dentro, não sem desassombro. Temiam as proezasde Jesuino, porque criam firmemente que eram feitas em companhia do diabo. Era possivelsahir uma bala inesperadamente, de qualquer páo, e matar um d'elles. Mais ou menos receiosos, cada qual visto.
riava o mattagal, pedindo a Deus tudo, menos encontrar Jesuino em estado de brigar. Desilludidos de achar o Brilhante ou o dono do cavallo morto, voltavam ac acampamento, quando um soldado enxergou uns olhos agateados dentro de uma espessa moita de mufumbo. -Um maracajá! . . . gritou um da escolta. E ia-lhe apontando o bacamarte, quando o supposto gato, pondo as mãos, que mostrou, exclamou: -Pelo amor de Deus, não me mate! ----Está aqui o sujeito! . . . gritou o soldado. Em poucos instantes foi a moita cercada pela tropa e arrancado de dentro o Cobra -Verde. O mulato estava ainda mais enxofrado e embora armado, tremia como se estivesse ata cado de maleitas.
do: Um dos Calangrosdeu-lheum bofetão, dizen- -Não trema, cabra ruim! . . . Para o negocio não ir adiante, tornou-se precisa a intervenção do commandante, que mandou conduzir o preso sem violencias. O capitão acompanhava a escolta, a uma certa distancia, conversando com um homem de meia idade, um dos ricos creadores d'aquelles sertões. O matuto dizia ao militar: ---Ainda d'estavez, escapuliu o scelerado. -Havemos de agarral-o; para perseguir e punir os criminosos, é que o governo tem sol dados. --Mas fazem dez annos, Snr. capitão, que as tropas andam no encalço d'elle e nada de pegal -o. -E ' porque os officiaesque as commandavam, eram pouco praticos.
--E ' que o homem tem pauta com o diabo e issoV. S. viu no incendio da cadeia; deixou os seus soldados sem armas e amarrados! Não será sem dolo que se prenderá ou matará tão grande malvado. O geito é lhe armarmos uma armadilha. -Seria fraqueza nossa. -E a não ser assim, elle continuará solto e as nossas pessoasbem no riscode, n'uma volta ou n'outra, serem atravessadas por uma bala. Não tem sidoum, nem dous officiaes, que elle tem morto. E' preciso, senhor capitão, garan tirmos as nossas vidas. -Está me parecendo que a razão estádo seu lado. E, como se armará o laço? -De um modo facil e seguro. O cabra que acabamos de prender, será o nosso instrumento.
-E se prestará elle a isso? -Aquella casta de gente é madeira para toda obra. Cabra alvarinto e de olhos de gato, na safadeza, não se perde um. -E se elle não quizer? --Deixe o negocio por minha conta. Hoje mesmo, á noite, no rancho, eu me arranjareicom elle. -O arranjo fica lá por conta do senhor, eu cá estou acostumado á guerra. Não é o primeiro criminoso que tenho prendido. Desejava mesmo encontrar-me só com o Brilhante para ter um arregaço com elle, queria ver se tem o corpo fechado. -Póde V. S. ser muito guerreiro, não duvido, mas é que o homem não é homem, é o diabo. Ainda o anno atrazado, por esse tempo mesmo, um collegade V. S. veiu aqui prender o malvado e ellemandou -o para o outro mundo, depois de ter ceiado com elle, disfarçado em vaqueiro.
-Mas eu não sou nenhuma creança a quem se dê papas. Estivena guerra do Paraguay e por signalde minha valentia, fuiferidocinco vezes. -Acredito que V. S. seja muito valente, mas não se tratade prender um homem, sim uma onça com o espirito de Satanaz. -Não me opponho ao arranjo que o se nhor quer fazer com o cabra, acho só que é um pouco desairoso para todos nós. -Mais desairoso, senhor capitão, é a gente aqui, ha dez annos, ser perseguida por esse bando de malvados, que, não satisfeitoscom furtaros nossos gados, tiram todas as vezes que podem as nossas vidas. As tropas vêem e ficam quasi todas enterradas, porque o Brilhante, com meia duzia de guarda -costas, faz frente a ellas e canta victoria.
-E ' porque ainda não veiu um officialque fosse como eu, examinado na arte da guerra. Mas não me opponho, como disse, ao seu arranjo; não quero é que se diga que o commandante da escoltaprendeu o Brilhanteá traição. dois. -Não, isso fica aqui somente entre nós A escoltaque acompanhava o preso, parou junto ao ferido esperando as ordens do commandante. Era lastimoso o estado de Silvestre. Estava mais para a morte do que para a vida. Ardia em febre; uma horrivelseccura gretava-lhe a bocca e, por cumulo de martyrio, um enxame de formigas fervilhavam-lhe pelo corpo, picando -o todo. As varejeiras começavam tambem a chegar e zumbiam monotonamente, esvoaçando em roda da cabeça; algumas mais afoitasjá ti nham entrado de bocca e ventas a dentro e posto algumas centenas de ovos. Os urubús se peneiravam no ar, festejando os cadaveres dos cavallos e o corpo do baleado.
O capitão olhou com grande indifferença para o feridoe esteve para mandar arrastal-o por uma perna e atiral-o dentro de algum brocotó. Lembrou -se, porem, que os Brilhantestinham sete folegos, como gato, que estavam muito proximos da fazenda do velho Soares e o criminoso poderia ser encontrado pela familia e escapar. Assim, mandou improvisar uma rêde e conduzil -o. A deshumanidade dos inimigoscomeçou pelos aprestos do transporte. Aos empuchões, foi posto o ferido na rede e, quando as dores faziam -no gemer, tinha como resposta uma salva de chufas, que partiam de todos os lados. O commandante fingianão ver o canibalismo da escolta. Dous Calangros se offereceram para a primeira parelha de carregadores e tomaram conta da carga. Queriam por em pratica uma barbaridade que tinham em mente, e iniciadaella, ver se os outros a continuavam.
A parelha de cabras, era igual e possante. Marchava com passo certo, sem um tombo, um tropeção. A rede quasi não se mexia. Atordoado de dor, Silvestre não podia apreciar a pericia dos que o carregavam. Os cabras caprichavam em conduzir o ferido de modo que a viagem não lhe produzisse o menor incommodo. O capitão observava a pratica dos carregadores e louvava-lhes a caridade, quando um d'ellessimula uma caimbra n'uma perna e cahe ajoelhado no chão. O espinhaço bateu em cheio no solo e como se a pancada fosse no coração, o feridoestrebuchou de dôr, soltando uma serie de gemidos, cada qual mais fundo, mais doído. O cabra, com a mesma pressacom que cahira, levantou -se e continuou a marcha n'um compasso certo.
Ainda o doente padecia em consequencia da queda, quando o mesmo carregador fingeoutro espasmo muscular e cahe pela segunda vez. O corpo bateu de novo na terra e o ferido quasi morre de dôr. O mestiço levantou -se e seguiu. O capitão acompanhava a escolta, viu as quedas do Calangro e ouviu os gemidos ma goados de Silvestre; mandou parar a rede e substituiro carregador, que cahia, por julgal-o doente. A providencia de nada serviu, o companheiro do que havia sido mudado, depois de caminhar cem passos, fingiuuma caimbra e ajoelhou-se. O commandante nào crendo mais na casualidade das quedas mandou fazer alta e substituiros Calangros por soldados.
Silvestre estava mais morto do que vivo. Quasi sem sentidos, arquejava. Já pouco soffrera as dores da ultima queda; apenas sahiram -lhe faiscas dos olhos e lhe zuniram os ouvidos. Os soldados, de muito má vontade, carregavam o ferido, mas, temendo o capitão, não se atreviam a derribal -o. Não cahiam, porem, não procuravam acertar o passo. Os tombos dos corpos d'elles se transmittiam ao baleado e um estremeção só sacudia -o todo. A trancos e barrancos, chegou a escolta, quasi ao meio dia, ao rancho, tres leguas distante da pedra furada. Acamparam. A rede de Silvestrefoisuspensa á sombra, e o Cobra. Verde, que vinha bem algemado, preso a uma arvore.
A força estacionaria ali, até o capitão tomar uma orientação qualquer. O receio de um ataque de Jesuino não os deixava em paz. O commandante apresentava grandeza de animo, mas sabe Deus o medo que elle tinha. Distribuiu guardas avançadas pelos arredores do acampamento e, mesmo assim, não ficou tranquillo. O matuto, a cujas instanciase expensas se fazia a diligencia, embora temesse o Brilhante mais do que todas as cascaveisdo sertão, acon selhava ao capitão que continuassea perseguir os criminosos. O Cobra Verde já estavaá disposiçãod'elle, podendo pôl-o em liberdade ou matal -o. Silvestre é que estava embaraçando um pouco a diligencia. No estadoem que ellese achava, com mais um empurrão, cahiria na cova.
O commandante mostrou -se mais humano do que esperavam os inimigos dos Soares para com o ferido. Fel -o alimentar, atou-lhe o ferimento e ordenou o transporte d'elle para Pombal na seguintemanhã. Os Calangros foram encarregados de conduzil-o, com expressa recommendação do protector d'elles, de entregarem com vida o baleado ás auctoridadesd'aquellacidade, regressando immediatamente afim de proseguirem na diligencia. A 'noite, o matuto chegou-se ao Cobra-Verde e, para lhe sondar o animo, disse-lhe: ---Então cahiu sempre no mondé, camarada? -Por desgraça minha, meu capitão, me acostei áquelle homem. -Mas o homem era bom para vocês? . . . -Como carne da pá.
-E porque não o deixava? -Com medo que elle me matasse, como fez com o seu fiel, o cabra José. -Tanto trabalho teve V. para ganhar a cadeia por toda a vida. -Mas eu nunca matei gente e não sou culpado dos mal feitos do seu Jesuino. -Culpado ou não, você nunca mais se livra. Só ha um meio. . . -Se o meu capitão me valesse. . . -Conforme a sua bizarria. Quem não é por mim, é contra mim, sabe disso. Jesuino cahe dos quartos com a prisão de Silvestree será preso, mais dias menos dias. E você será solto, terá dinheiro para começar a vida, se quizer ser nosso. -Todo, meu capitão. -Não é só assim. Vamos ao que importa. Logo que V. se soltar, volta para a companhia de seu amo e se apresentando a elle, conta a prisão de Silvestree que, por felicidadesua, pôde se escapulir.
- Está ruim essa volta. . . - --Mas não pode deixar de voltar. Uma vez com elle, o servirá bem, esperando uma monção de lucta. Se antes d'issopoder matal -o, será bom, e ganhará a molhadura de duzentos mil réis. -E se não poder matar o homem? --Continúa com elleaté o dia em que a es coltao alcance e então, aproveitando -se da briga, atirará n'ellepelas costas e immediatamente se passará para o nosso lado. -E ' duro! . . . -Mais duro é, sem ter morto ninguem, como V. diz, entrar para uma cadeia e ficar n'ella toda a vida. Veja bem o que faz e dê -me a resposta. Ou a liberdadecom dinheiro, ou a miseria na prisão. -Tenho tanto medo do homem, meu capitão! . . .
-Então vá para a cadeia. Estou entre dois couros de bode. - Você é quem sabe. Digo -lhe uma cousa, é que, se não cumprir a promessa, vá você para o inferno, nós o pegaremos e então nos pagará o desafôro. -Juro, meu capitão, atirar no homem, na primeira briga, dando -me V. S. a molhadura de duzentos mil réis -Está feito. Então juracumprir o que diz? -Juro, meu capitão. -Ia me esquecendo de perguntar onde tiveram ordem de se reunir. -Na serra do Cajueiro. -Cumpra o seu juramento e seja feliz. E o matuto restituiu a liberdade ao CobraVerde, a quem mandou acompanhar por alguns soldados até fóra do acampamento.