Capítulo XXXVI Os Brilhantes · Capítulo 36 de 48
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Capítulo XXXVI

Findara -se o praso que Jesuino dera á retirante para sahir da caverna. Já a claridade entrava pelos salões da Casa de Pedra e Maria de Góes, no fundo da rede, sentia-se cada vez mais acovardada ante a idéa de transpôr a Titélado Perigo. Vira anoitecere amanhecer e a travessia do perigoso passo foi seu pensa mento unico durante aquella noite de insomnia. Chorou e chorou muito. Não achando possibilidade de protecçãona terra, implorou a piedade do céo. Com grande confiançae fé ardente orou por muito tempo e embalde esperou que descesse o soccorro celeste. Mais desgraçada se considerou ainda depois que se convenceu de que a graça de Deus não cahia sobre ella. Com uma ingenuidade toda infantilevocou em seu auxilio o espirito dos paes, pediu -lhes prote.

cção, mas este nada fez em prol de sua causa, não lhe diminuiu as tribulações. Desilludidade todo, pedia que a noitenão tivesse fim; mas a treva se rarefazia e uns leves tons de alvorada entravam pela bocca das claraboias. Maria viu com profunda tristezaos pri meiros alvores do dia. Muito proximo estavao momento fatal de sua queda. O Brilhante dormira toda a noite. Accordou ao quebrar das barras e observava Maria, que, immovel na rede, fingiadormir. O soljá estava altoe a retirante, que logo ao amanhecer se levantava para cuidar do café, continuava deitada. Jesuino, que tinha pressa de decidir da sorte dos seus, deixou o leitoe foipreparar a sua bebida predilecta.

Prompta que foi, serviu-a em duas chicaras; tomou uma e se encaminhou com a outra para a rede da retirante. Parou respeitosoá distancia e chamou -a. Maria não respondeu; fingia dormir. O Brilhante, sem esperança de accordal-a de longe, se approximou. Ella tinha os olhos fechados e as mãos cruzadas sobre o peito. O criminoso estranhou -lhe a postura e o ar das feições. Tinha o rosto pallido, rugado, e os olhos dentro de fundas olheiras. A tribulação da noite a havia desfigurado tanto que Jesuino pensou estar ella mortalmente enferma. Para despertal-a, repetiu-lhe o nome algumas vezes com voz suave e terna; mas ella continuou fingindo-se adormecida. Chegou -se mais a ella e tocou-lhe o hombro, chamando -a. Maria espreguiçou-se, abriu os olhos, como se des pertasse n'aquelle instante. Fitou o criminoso com um olhar supplice, mas não dissepalavra.

O Brilhantecomprehendeu tudo. A supplica muda da retirantequasi o avassallou. No entanto era seu dever reagir, dominar os senti mentos de piedade, que lhe inspiravam os padecimentos d'aquellamulher, uma vez que elles o prendiam á caverna e estava em perigo a vida de seu pai e de seus irmãos. O criminoso ficou alguns minutos desorientado e irresoluto. A perplexidade, entretanto, não era um estado com que se accommodasse o seu espirito e o Brilhante se dirigiu á retirante: -Que tem, Maria? -Estou doente, disse, sentando-se na rede, com grande esforço. -O ar da caverna talvez lhe esteja fazendo mal; a frieza destas lages estão lhe amarellecendo a pellee tornando-a doente. Mas, que sente, filha?

-Um quebramento de todo o corpo; tudo me doe. -Tome um pouco de café que espertará, disse o criminoso, offerecendo-lhe a chicara. -Não me sinto disposta a tomar cousa alguma. A garganta me parece fechada e a bocca me amarga mais do que fel. -Para tudo isso o café é remedio; tome que se sentirá bem. -Não posso engulir nada. -Quero que beba, Maria, e não quero ser desobedecido. -E ' impossivel! Meu Deus, porque não me matas? disse a retirante, chorando amargamente. O Brilhante não continuou a insistir; pareceu -lhe a reluctancia de Maria devida mais a um incommodo physico do que a um capricho ou a um ardilde seu espiritoamedrontado. Sem dizerpalavra, deixou-a e voltoupara o fogão, onde acocorou -se e ficou parafusando nas difficulda des da vida. Depois de pensar muito, deixou ao tempo a resolução da crise e foi tratar dos afazeres domesticos. Esperaria mais tres dias, no fim dos quaes resolveria, fosse de que modo fosse, o problema que tanto o estava inquietando.

Passou -se o dia ea retirante recusou tomar os alimentos que Jesuino the offereceu ás horas do almoço e jantar. Tambem não sahiu da rede. Nem agua pediu. A noite chegou e o Brilhante agasalhou -se sem ir ter com Maria. O fogo no meio do salão devorava dous grossos toros de páo d'arco, espalhando uma claridade vermelha de incendio pelas paredes da caverna. Maria sentia um desassocego que a afadiga va bastante. Ardia -lhe a pelle, e o estomago completamente oco, n'uma sensação penosa de vacuo, produzia-lhe um frenesique deveras a im pacientava. Dormiu mal. Uma serie de modorras, interrompidas a cada momento por sonhos máos, por pesadelos, tal foi a noite que passou. Chegou o sol e a luz não lhe animou o corpo e muito menos levantou -lhe o espirito.

Jesuinopreparou o café, como na vespera, e foi leval -o a Maria. Encontrou -a adormecida. Despertou-a, mas ellarecusoubeber, protestando completa inappetencia. O criminoso instou, pe diu, supplicou, porem a retirante, de olhos cerrados, respondia-lhe negativamente com a ca beça. Resolvera não comer até a fome prostral-a de todo e uma vez fóra de si, Jesuino tiral-a da caverna. Estava n'esse firme proposito, porque se convencera de que só assim poderia salvar-se e dar ao protector a liberdade de ir em soc corro dos seus parentes. A lucta que sustentava, era tremenda. Nas primeiras horas de fome, foipouca a resistenciaprecisa para oppor-se aos desejos do estomago; mas, com o jejum crescia o aba timento do espirito, depauperavam -se as forças que a animavam a levar o plano a effeito. Já The custava bastante regeitara comida, quando sentia -lhe o cheiro. Eram instantes de lucta tremenda. Ainda podia resistir, a besta não se apossara de todo da mulher e esta recusava comer. Passaram -se assim tres dias, durante os quaes Maria de Goes sentiu momentos de verdadeira angustia. . Durante essas crises, teve impetos de quebrar o juramento que fizera comsigo mesma, de atirar-se ao alimento e comer até a saciedade. Aos botes da animalidade, oppunha -se o seu espirito ainda forte e o jejum continuava. A resistencia foi entretanto diminuindo com o quebramento das forças, produzido pela inanição.

O organismo começava a cahir em estado de apathia; passava -se n'elle o mesmo que em uma machina cujos orgãos são movidos pelo vapor de uma caldeira; faltando o combustivel vae a pressão pouco a pouco diminuindo. Na noite do terceiro dia de jejum, a retirante sentia-se profundamente abatida do corpo e d'alma. O enfraquecimento das faculdades intellectuaes e o torpor das forças physicas, em funesta alliança, geravam flaccidoquebranto, que, como mysterioso fluido, se espalhava de OS BRILHANTES 24. cellula em cellula e augmentava o desfallecimento de Maria. A ' tarde, quando o Brilhante levou -lhe o jantar, quasi acceita, não teve animo de re geital-o com palavras, muito a custo, moveu negativamente com a cabeça. Foi o derradeiro esforço da vontade, a ultima parcella da energia do espirito, que cahia em languido deliquio.

Jesuino meditava seriamente no estado de Maria. O abatimento que lhe via pintado no semblante, em cuja pallidezjá transpareciam traços cadavericos, enchia -lhe a alma de muita piedade. Era tarde da noite e o Brilhante não conciliavao somno. A caverna, cada vez mais soturna e fria, phantasticamente illuminada pelos clarõesintermittentesda fogueira, fazia tomar corpo no espirito d'elle idéas tenebrosas. Mais de duas vezes se erguera do leito para atiçar o fogo. A labareda se emmaranhava entre as achas de lenha, escurecia um pouco, depois um rolo de azulado fumo sahia espiralando no ar, faiscasscintillantese fugazes succediam, e por fim, uma lingua de fogo sahia fóra, clareando tudo.

Penduradas nas toscas abobadas da gruta, faiscavam as estalactites, como accesos candelabros de finas gemmas. Em diversos pontos da caverna, a luz era refrangida, não só pelas concreções que desciam do tecto, como tambem pelas que se er guiam do solo. A luz resvalava nas polidas superficies, nos grandes cones calcareos; scin tillavamchispas vermelhas, que, pouco a pouco, se tornavam cambiantes. Jesuino pensava em Maria, porem, não lhe passava pela imaginação que ella, para salvarse e libertal-o, se deixassecahirde fome. Seria meia noite, quando o criminoso percebeu rumores para o lado da rede da retirante. Ficou quieto, e, todo ouvidos, todo olhos, esperou.

Maria levantou-se da rede; esteve alguns momentos immovel, depois esgueirou-se para um dos lados da gruta. O Brilhantecomprehen. deu -lhe a intenção. Seguiu a com a vista. Não se havia illudido. Maria, em um automatismo de machina, foi direito ao deposito de viveres. Tinha os olhos esbogalhados e as ventas accesas a resfolegar amiudadamente o ar, como cão que fareja. Encontrou-se logo com uma sacca de farinha. Estava aberta. Com precipitação encheu as mãos e levou -as á bocca, que encheu até se lhe estirarem as bochechas. A retiranteenguliu o primeiro boccado com tamanha pressa que um accesso violento de tosse quasi a suffocae o bolo foiregeitado, sahindo pela bocca e pelas ventas.

Maria não desacoroçoou com o incidente; novamente encheu as mãos de farinha e comeu com mais avidez ainda. A pressa, com que desejava matar a fome, impedia o alimento de chegar ao estomago. Ainda d'estavez, a comida não passou da garganta. O Brilhante, que não tirava os olhos da retirante, e á claridade da fogueira podia verlhe bem as feições, ficou bastante commovido com a esfomeação da rapariga e a agonia que se lhe pintava no rosto, quando o alimento, desviado do caminho, asphixiava-a. Causou -lhe tanta pena a tribulaçãode Maria, que chorou. Vendo -a engasgada repetidas vezes não se conteve mais e approximou -se d'ellalevando um vaso d'agua. A retirantefitouno criminoso os grandes olhos esbugalhados e recebeu a agua, que bebeu com avidez. Mais calma, mais humana, voltou a farinhae continuou a comer, sem grande gula.

O Brilhante, de pé, testemunhava em silencio aquella scena. A retirantecomeu até a saciedade. Depois foi esmorecendo aos poucos, recostou -se ao sacco, pendeu a cabeça, e, como sob a acção de um narcotico, que lhe invadisse o sangue, foi adormecendo até cahir em profundo somno, Jesuino, quando a viu dormindo, teve uma idéa que o encheu de contentamento: era pos sivelconduzirMaria para fórada Casa de Pedra. Para augmentar as probabilidades de bom exito em tão arriscado commettimento, deixou que a retirante estivesse bem ferrada no somno para conduzil -a. Quando julgou opportuno, chegou -se a ella para tomal-a nos braços. Mal tocaram -lhe o cor po as mãos de Jesuino, Maria estremeceu toda como tocada por uma descarga electrica.

O Brilhante afastou-se e esperou. Deu tempo a serenar o espasmo, e quando voltou ao semblante da moça o ar de tranquillaabstra eção, o criminosotentou de novo pôr em pratica o seu plano. Ainda d'essavez não conseguiu: um violento estremeção abalou o corpo da retirante, que abriu os olhos, fitou-os sem consciencia em Jesuino, articuloualgumas palavras, que não se perceberam, gemeu, cerrou as palpebras e continuou a dormir. O criminoso, logo que Maria fazia o menor movimento, retiravaas mãos e afastava-se. Diversas vezes tentou conduzil-a, mas não o conseguiu. De leve que a tocasse, ella estremecia. Receiandoprecipitar-sede Titélaabaixo, abandonou o plano e recolheu-se ao leito, onde aguardou o sol para orientar-se e traçar então um plano decisivo.

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