Capítulo XXIII Os Brilhantes · Capítulo 23 de 48
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Capítulo XXIII

- Se fosse ôca! . . . exclamava o Brilhante, ao pôr do sol, em frentede uma enorme pedra. Casualmente havia chegado até ali, espreitando um bando de jacús e com a attenção presa assim, não se apercebeu dos precipicios por que passou e quasi não sentiuas urzes da deveza. A rocha tinha talvez cem metros de altura e occupava a superficiede alguns hectares. Estava encravada em uma matta viçosa, cerrada, onde o homem parecia nunca haver penetrado. Jesuino sentia-se bem n'aquella atmosphera virgem. As tristezas da Ave -Maria no seio da florestasoturna, em vez de lhe crear na mente idéas que o desalentassem, enchiam -lhe a alma de uma vaga esperança de conforto. O olhar em doce contemplação se fitavana face alcantiladada rocha e o seu espiritoinfeliz, um pouco livredo jugo das tribulações, gosava um instante de socêgo e paz. A approximação da mole de granitoinfluiano moral do Brilhante, desviando-lhe o pensamento das miserias da vida, como as grandes massas desviam a verticalque o instrumento procura traçar em sua visinhança.

Jesuino, todo absortona contemplação d'aquellanatureza vigorosa e sadia, deixava-se ficar, esquecido do tempo, que não pára, e da luz, que tinhade apagar -se de todo. Continuava em uma especie de torpor, difficilde definir, quando uma impressão accordouo, chamou -o á realidade da vida. A expressão amortecida do olhar em um quebramento melancholico foi ra pidamente mudada em agudas scintillações. Jesuino fitavaagora a pedra com um olhar firme e investigador. Enchia -lhe a cabeça outra idéa com o seu cortejo de desejos. O Brilhante não pestanejava. Pela expressão do rosto, dirse-ia aguardar a repetição de um facto para confirmar o que lhe parecera ter visto apenas uma vez. Pareciajogaro sisocom a rocha, quando de certa altura da pedra, começaram pela segunda vez a sahir morcegos. Jesuino viu e tornou a ver por muitas vezes o vôo rapido partirda rocha. Não havia duvida que a mole de granitoera ôca. E que excellenteesconderijo mettido em um sovaco de serra, ignorado do mundo!

A claridade não tardaria a se acabar de todoe era preciso examinar a rocha, sahir da deveza. Restava lhe apenas uma diminuta parcellado dia, que mal chegaria para guial-o á gruta ou levalo fóra da matta. Optou pelo 'reconhecimento e rompendo balceiros e urzaes, subindo de gatinhas empinados alcantis, descendo como cobra perigososprecipicios, venceu a escabrosa travessia e chegou a cinco metros da pedra. Quasi não havia mais luz crepuscular. Com a pouca claridade que ainda havia, poude Je suino perceber um fundo e enorme abysmo aberto entre si e a rocha. Nos confins do antro a luz se apagava de todo e a treva enchendo o fim do precipicio impedia o Brilhante de ava liar-lhe a fundura.

A noite em breve acabou de encher o vacuo, cobriu o homem, a rocha, e se derramou no espaço. Jesuino completamente cego, cercado de precipicios, conservava inteiroo seu valor. Com a maior precaução procurou ás apalpadellas o tronco de uma arvore para se trepar e passar a noite. Ainda bem não tinha movido os pés tres vezes, ouviu soar perto de sio cascavel de uma cobra. Nada mais foiprecisopara esmorecel -o. O perigo era imminente. A serpente tocava enraivecida o seu maraca, de bote armado, esperando que a victima chegasse ao alcance de seu dente. Jesuino quedou -se. Soaram outros cascaveis perto, longe, em diversas direcções. O Brilhante acreditou que estava no reino das cobras venenosas e desanimou, não pelo medo de morrer picado por ellas, mas pela repugnancia, pelo horror que seus nervos tinham a taes reptis. Ficou de pé e immovel.

Sabia que se conservando ali, estava livre das cobras, que se tinham assanhado com a sua presença, estasficariamde bote armado espe rando que elle passasse por ellas e não viriam atacal-o; mas se livraria das outras que por alipassassem, caçando? Quando se calavam os cascaveis, Jesuino movia -se com cautela e de novo soavam os maracás. A noite era de uma escuridão completa. Nem o clarão baço das estrellaspenetrava na matta e permittia ao Brilhante ver o que estava a uma pollegada do nariz. Tentou ainda algumas vezes caminhar, mas á menor bulha as cobras respondiam com os estalidosagudos dos seus cascaveis. Resolveu conservar se immovel e assim ficou.

Aquelle pedaço de floresta, tão soturno pouco tempo antes, logo que a noitese fechou, animou -se com a apparição dos animaes noctivagos. Que estranhas vibrações ondulavam no ar! Os urros das onças nas furnas, os uivos das raposas no cio e a risada monotona e plangente da mài da lua ouviam -se a todos os instantes. Era um concerto aquelle, de notas tristese aterradoras. O vento em lamentoso diapasão gemia, assobiava, coando-se na ramaria das arvores, ou lhes torcendo os galhos, que roçavam uns nos outros arrancando uma melopéa de funebre cadencia. As corujas e os sapos cantavam lugubremente os seus psalmos de ais e pios agoureiros. Jesuino passava pela maior provação da vida. De pé, em uma posição fatigante, cégo, privado de todos os meios de acção, entregava covardemente a vida á sorte. De nada lhe valia agora a sua coragem e agilidade. De braços crusadossobre a bocca do bacamarte, procurava augmentar o equilibrio, que a immobilidade diminuia, porque se lhe tinham adormecido as pernas e os pés.

O Brilhante sentia um desassocego que o exasperava. Não temia que a vida se acabasse naquella noite; isso era o menos, o que o flagellava, eram as lufadas friasdo vento, que lhe alcançando o rosto como que lhe cortavam as orelhas; era o formigar constante que sentia nas pernas e que produzia uma agastura que o traspassava todo. A noiteparecia-lhe intermina. Quando elle suppunha poder mudar de posição, descançar de tão afflictivapostura, ouvia soar os cascaveis das cobras e continuava immovel. Jesuino sentia que as pernas pesavam como se fossem de chumbo e parecia lhe que estavam dentro de um formigueiro. A estação era conservada pelos braços apoiados no bacamarte.

Jesuino custava supportar tanto soffrimento. Por vezes tivera impetos de cahir e se deixar picar pelas serpentes; mas a repugnancia que tinha áquellesreptis, muito maior do que o medo que The causava a morte, o conservava de pé e immovel a custa de um esforço supremo. A noite lhe parecia longa como um seculo. O dia ainda não havia partidodo céo e o Brilhantenão tinhamais forçaspara esperal-o. Assim desalentado estava quando sentiu roçar -lhe um corpo sobre o pé direito. A sensação foi obtusa; o membro tocado estava tão dormente, que se lhe afigurava com um volume dez vezes maior. A idéa de uma cobra assaltou-lhe o espirito. Se ellapodesse matal o de longe, sem contacto algum com elle, seria uma ventura, acabando aquelie transe deveras mortificante.

Jesuino esperou attentamente. O corpo que o havia tocado, subiude perna acima por baixo da calça. Jesuino sentiu, embora com o tacto quasi embotado, uma sensação mortal. Não havia duvida, era uma cobra. A pelle, mesmo dormente, dava-lhe scienciada evolução do reptil. Jesuino estiradon'um espasmo nervoso, com os cabellos hirtos, todo crispadon'um arrepiode nojo, sentia que a serpente, agradada do calor do corpo d'elle, se enrolava desde a junta do pé até o joelho. Aquella espiralde gêlo lhe transiaas carnes, e o contactodas escamas lisasda cobra o agoniava tanto que o fazia suar frio. Aos membros inferiores, n'um entorpecimento completo, não chegou o estremeção, que a frieza da serpente vibrou nos nervos do Brilhante. O corpo, da cinta para baixo, parecia morto.

A noite não tinha fim. A voz das feras repercutia n'aquella solidão de um modo atterrador. Jesuino sentia -se desfallecer moralmente. Com as faculdadesprofundamente abaladas, acreditavauma illusãotudo aquillo, um pesadelo. Entretanto elle percebia o mal. Ouvia a cobra assobiar, dormindo enrolada na perna d'elle e cada vez mais nojo sentia d'ella e mais vontade tinhaque chegasse o dia. A immobilidade e a estação forçada por tão longo tempo, cançaram tanto os musculos do Brilhante, que lhe custava supportar as nevralgiasque se irradiavam pelosmembros. Uma seriede alfinetadas, de picadas fulgurantes, espinhava-lhe os tendões, as carnes, e uma dôr fina, cançada, enterrava-se de coração a dentro;

Jesuinosuppoz que ia morrer. A noite chegava ao fim. Um terral fraco soprava e já se viam no nascenteuns tons longes de crepusculo. As onças e as raposas haviam se calado e só a mãi da lua dava a sua gargalhada, já com grandes intervallos. O dia vinha perto. Uma luz mais viva se derramava no espaço e penetrava na floresta. O Brilhante desalentado em tão afflictiva vigilia, com o corpo moido de fadiga, recebeu com grande satisfaçãoos primeiros alvores da aurora. A claridade resuscitava -lhe o animo e a esperança, e o confortoque sentia, enchiam-lhe a alma de um bem -estar que via-se claramente nas suas feições. A luz vinha livral-o de uma agonia de doze horas, de um transe mortal.

A ' proporção que o dia alteava, os rumores da vida augmentavam. O urro das feras e o canto das corujas haviam sido substituidospelo gorgeio dos sabiás, pelo gritonervoso das arapongas e pelos assobios dos macacos. A treva tinha desapparecidocom todos os seus horrores. Jesuino julgava-se livre e esquecia-se que tinha na perna o grilhão da morte. Era grande a necessidadede mover -se, mas a idéa da cobra o immobilisava. O dia cresceu e a serpente enrolada continuava a dormir. O Brilhante supportava com difficuldadeas dores lancinantes que se irradiavam pelos mus culos das pernas e custosamente se conservava accordado. Tinha somno, mas um somno difficil de afugentar, tal era a sua teimoza intensidade.

A mercê da cobra esteve até quasi ás nove da manhã, hora em que ella despertou e se desenrolando subiu pela côxa até a virilha de Jesuino. Não encontrando passagem desceu de perna abaixo, sahindo com todo o vagar pela bocca da calça. O Brilhante, todo arripiadode nojo pela cocega das escamas da serpente, viu-a seguire entrarem uma loca. Livre do reptil, pensou em sahir d'aquelle sitio e quiz mover as pernas. Embalde, pareciam de ferro, inteiriçase chumbadas ao solo. Fez um grande esforço e quando osbraços deixaram o apoio do bacamarte, o Brilhante cambaleou e estendeu -se no chão. A sua musculatura sentiu-se bem na nova posição que tomava o corpo. A sensibilidadee o movimento, pouco a pouco, se restabeleceram.

Jesuino uma vez deitado adormeceu. O ar sahia -lhe das narinas em finos asso bios. As pernas de quando em vez estremeciam em um espasmo muscular. O somno aniquilava aos poucos as impressões recebidas durante a vigilia. Jesuino dormiu até o sol pender. Accordou restaurado do corpo e d'alma. Ergueu -se; podia caminhar. A florestatinhaum ar alegre, que mais accentuava o trinarda passarada. Nos clarosde verdura apparecia o céo azul; a luz rutila do sol descia á terra e ia até o fundo da gruta, onde os lagartos e os lacraos preguiçosos se aqueciam. Bem differente da noite era o dia n'aquelle sitio. O Brilhante aprasia-se em contemplar o vigor de tão opulenta natureza. Abria a alma todaa imponente perspectivada paysagem e n'uma especie de adoração, de extasis, ficaria, se a rocha que o tinha attrahido na vespera, de novo não o impressionasse.

Mediu -a com a vista de alto a baixo e caminhou para ella. A pedra empinava -se nas bordas de um grande abysmo. Jesuino parou á beira do precipicioe olhou o com interesse. Era uma valla comprida, com cinco metros de bocca e alguns decametros de profundidade. No fundo um tremedal escuro, salpicado aqui e alide uma vegetação rasteira de lichens. O sol descia á prumo pela face da rocha até os confins do abysmo. O Brilhante, examinando a pedra com um olhar minucioso, notou que, no logar d'onde sahiam os morcegos, havia uma saliencia, uma especie de barriga, na alturade pouco mais de um metro. Era provavel haver na rocha uma abertura, mas era -lhe impossivel transpor o abysmo.

Lembrou -se de fazer uma ponte, porem como, se a pedra talhada a pique não offerecia apoio a um unico dormente? Desilludido de chegar á mole, decidiu-se a rodeal-a com o fim de vel-a por todas as faces. Caminhava á margem do abysmo, quando parou inesperadamente á frente de uma ponte natural que, partindo da terra firme, atravessava o precipicioe enterrava -se na rocha. O Brilhante ficou satisfeito com a descoberta, mas só emquanto não se convenceu da inutilidaded'ella. A ponte era um contraforte de pedra que nascia do fundo do abysmo em forma de prisma e morria á superficieda terra em face aguda. Era uma verdadeira titelade granitocujasazas, empinados alcantis, se abriam de precipicio a dentro.

Jesuino contemplava de pé aquella maravilha da natureza. A ponte media cinco metros de comprimento sobre um leito de vinte centimetros. Depois de olhal-a alguns minutos, baptisou-a por Titela do Perigo. Todas as aspiraçõesdo Brilhanteeram, n'aquellemomento, poder escalar a rocha e, uma vez dentro das entranhas d'ella, examinar de tidamente as bellezasque a natureza, sem duvida, lá teria escondido. Meditou por algum tempo e resoluto caminhou para a ponte. Ao chegar a entrada da titelaparou, fez do bacamarte maromba e, com os olhosfitosna pedra, foiandando a passo, de ponte a fóra. Era imponente a figura serena do Brilhante caminhando na cristade um precipicio, com uma coragem que mettiamedo. Transpoz o abysmo e chegou á rocha. Poz a arma a tiracólloe mediu com os braços a alturada barriga da pedra.

As mãos chegaram a apanhar a face saliente da mole. Para a força e agilidade de Jesuino era quanto bastava. Pendurou -se com as mãos na quina da pedra e em um instante os braços guindaram o corpo até os punhos se emparelharem com as côxas. Viu -se na bocca de uma caverna, á entrada de uma rampa, que pareceu-lhe irdar no meio da rocha. Passou para dentro; havia luz e espaço sufficientepara caminhar a vontade. Desceu pela rampa algumas dezenas de metros e deu em uma grande sala francamente illuminada pelo sol. Aquelle vasto compartimento cavado na pedra tinha a forma quasi espherica. No centro do tecto abria-se uma grande claraboia por onde a claridade entrava e fazia scintillaros crystaes encrustados nas paredes. Defronte da rampa via-se uma abertura circular, um perfeitooculo de um metro de diametro cavado na rocha em uma extensão de mais de dous metros. Jesuino entrou por ellee foiter a uma grande area, a um quadrilatero feitona pedra, mas sem tecto. Bem agradaveis foram as impressõesque recebeu o seu espirito.

Suppoz estar em um reino encantado, no dominio das fadas, taes foram as bellezas que seus olhos viram. Pelo centro da area deslisava um regato, cuja agua crystallinadeixava ver todas as sinuosidades do leito. Um tapete verde claro de musgos e algas cobria o pavimento onde viviam á custa da humidade d'aquelle sitio. Ao sul abria-se na parede uma gruta extensa, d'onde escorriaum tenue fiod'agua. As estalagmitese estalactites, em uma filade columnatas, faiscavam refrangindo os raiosde luz que alcançavam os seus crystaes. O Brilhante estava maravilhado de tanta bellezae ficariapor mais tempo ali, se não fosse tão longe o rancho. Temendo outra noite ter rivel, sahiu da gruta ainda com o sol. Desceu para a titela, que atravessou com passo firme, como se pisasselarga estrada, e voltou ao seu esconderijo.

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