Capítulo XLI
Os Brilhantes, depois de alguns dias de viagem, chegaram ás portas da cidade de Pombal. Vinha amanhecendo. O sol, que havia quasi uma semana estava occultopor escuros nimbus, apparecia sem nuvens no levante e com uma claridadetão viva, que não sepodiafital-o. Aquella manhã de verão, opulenta de calor e luz, depois de tantosdias de inverno, ennevoados e frios, era agradabilissima. As plantas mesmo, jubilosas parecia saudarem -na. Desde os rasteirosfétosaté as agigantadas oiticicas, via se a superficiedas folhasfaiscarem, refrangindo as gottas d'agua que lhes aljofravam a pelle. Jesuino sorvia a longos haustos aquelle ar sadio. A energia da natureza despertando num banho de luz, se communicava a elle. Nunca precisara mais de valor e audacia.
Occultou-se com o sequitodentro de uma galeria de barrancos, a tres kilometros de Pombal, para concertar o seu plano de ataque. Conhecia a cidade, a posição da cadeia, mas ignorava se a guardava grande ou pequena força. Era urgente um reconhecimento. Pensou em confiar essa missão a João Soares ou Silvestre, porem temeu que lhes faltasse astucia para tão fino commettimento. Assim, se decidiu a sero espião. Era empresa arriscada, apparecer entreinimigos armado apenas de ardil, de manha, na incerteza de illudil-os o disfarce. Urgia fazer com brevidade tal diligencia. Compene trado d'isso, o Brilhante mandou comprar um carneiro, que matou e tirou-lhe o figado. Resolvera disfarçar-se em mendigo e doente. Escolheu a roupa mais velha que tinha, a mais encardida, rasgou-a em varios logares e vestiu-a. Calçou os pés em grosseiras alpercatas.
O traje, camisa e ceroula, velhas e rotas, era humilde, mas destoava do ar altivo do improvisado mendigo. A casca estava bem arranjada, era preciso ter o rosto de accordo com ella e Jesuino metteu mãos á obra. Começou pela loura barba que, em falta de thesoura, cahiu aos golpes de sua amollada faca, ficando sómente os troncos. A cabeça, coberta por uma cabelleiraruiva e crespa, foi devastada pela mão de Silvestre, á faca tambem; ficou pellada á escovinha. Jesuino não parecia o mesmo. Estava prompto o mendigo, faltava afivelar a mascara do doente. Um pedaço de figado em estado de apodrecimento, collocadoem uma das faces do Brilhante e preso por uma atadura, simularia asquerosa enfermidade. A fronte, até a linha das sobrancelhas, foicobertapor folhas de pinhão e atada com um lenço vermelho, cujas pontas se amarravam na nuca. Da falsaulcera estufavam, pelas bordas da atadura, uns beiços revirados e podres. As varejeiras attrahidas pela fedentinapousavam na podridão do fingido cancro e deixavam uma linha de larvas, que mais tarde, transformadas em nojentos bichos, fervilhariam n'aquellerepasto de carne apodrecida.
Jesuino estava perfeitamente disfarçado. Deu ordem aos companheiros de se conservarem escondidos, e tomando um bordão e um alforge, partiu em rumo da cidade. Emquanto caminhou pelo matto, andou teso e depressa; logo que avistou as primeiras casas, outra foi a sua marcha. Dobrado para diante, andava a custo, sacudindo uma das pernas como um hemiplégico. Assim entrou na cidade, já dia alto. O logarque primeiro visitou, foi o mercado. Estava quasi sem gente. Um enxame de moscas, n'um agudo zumzum, cobria os grandes cepos, devorando os fragmentos de carne que apodreciam nas superficies dos talhos. Cães magros e de cauda pendida, roiam os ossos, que encontravam no pateo.
Os carniceirosmatavam o tempo jogando dinheiro, em grupos pelos açougues. O Brilhante entrou na feira e sentou -se no cordão da calçada de um dos alpendres. Olhou para os typos dos jogadores que mais proximo lhe ficavam, e não reconheceu nenhum. A's tres horas da tarde, largaram o jogo; era a hora de jantar. Cada qual seguiu para casa e todos que passavam perto de Jesuino davam -lhe moedas de cobre, mostrando por elle muita compaixão e tambem muita repugnancia. O Brilhante recebia os vintens com grande constrangimento. Pensou logo em distribuil-os com os mendigos, terminada a farça. A cadeia ficava um pouco distante do mercado. Era preciso que Jesuino sahisse cedo para alcançal -a antes de anoitecer.
Quando começaram a chegar á feira os bois esquartejadospara o consumo do dia seguinte, sahiu elle, arrastando a perna e representando admiravelmente o seu papel. Quasi ao lusco fusco, chegou á prisão e sentou -se na calçada. Havia grande numero de soldados. Os que o viram chegar, cercaram -no e compadecidos deram -lhe alguns vintens. Grande foia lucta que o Brilhante sustentou comsigo, quando viu-se rodeado de homens fardados. Em uma das occasiões que estirava a mào para receber uma esmola, foital a descarga nervosa, o estremeção, que a moeda saltou fóra. Um dos soldados apanhou -a e deu -lh'a de novo, suppondo ser aquelle espasmo devido á molestiado pobre velho e dissecommovido:
-Coitado! . . . tem o ar do vento, Ave -Maria. Jesuino soffria um penoso transe. Grande era o sacrificioque fazia em respirar o fedor da carniçaque apodreciana visinhançadas ventas; mas issonada era comparado á tortura moral que o abatia. Aquellas fardas o molestavam muito. Ter os inimigos ao alcance da mão e não esganal -os! O Brilhante sentia de quando em vez sahirem dos olhos candeinhas de fogo. Eram os raios da borrasca que lhe ia por dentro d'alma. Mais de dez vezes esteve para arremessar o cancro ao chão e lançar -se como uma féra sobre os inimigos, mas a lembrança do pai o continha. Quando escureceu de todo, os soldados se poseram á fresca, de camisa e ceroulas. Jesuino sentiu-se melhor; estava em meio de paisanos, já não via botões dourados.
A noite se fechou de todo. De dentro da cadeia, sahia pelas grades a luz amortecida de uma candeia, que ardia pendurada a um canto do salão. Do corpo da guarda, vinha tambem a fraca claridadede uma vela, que mal allumiava metade do alpendre. O Brilhante levantou -se e sahiu, arrastando a perna, para onde estava a sentinella. O sol dado, o unico que ficaraguardando os presos, sentado na tarimba, fazia horas para dormir. Jesuino chegou -se a elle e pediu -lhe com humildade licençapara pernoitar ali. -Pode -se arranchar por estes alpendres, meu velho, não lhe dou melhor agasalho porque sua doença fede muito. O Brilhante agradeceu e ficou de pé, por algum tempo, fingindo descançar, mas na rea lidade observando o corpo da guarda.
Pelo numero de armas ensarilhadas, soube que a força constava de vinte praças. Sabres e munições á vista e á mão. Sciente de tudo foi-se arrastando e deitou -se mesmo no limiar da porta do carcere. Planejava a liberdade dos presos. Não era possivelsosinhoabrira cadeia e soltal-os, matando mesmo a sentinella. Como arrombar as paredes, grossas, soli damente construidas de pedra e cal, sem ferros apropriados? A chave da prisão estava sem duvida em poder do carcereiro. Era conveniente espaçar a realisaçãodo plano. Quem sabe se seu pai e irmãos estavam ali? Arriscar a vida por estranhos e criminososnão era cousa digna de nota. Jesuino adormeceu já muito tarde e despertou pela madrugada, ao som de um confuso borborinho, que sahiada cadeia. Todo ouvidos, escutou. O arruido foi substituido por palavras articuladas e o som grave e cadencioso de uma voz de homem vibrou no ar.
O Brilhante sem querer sentou -se. Não the era estranha aquella entoação, conhecia aquella voz. O que o arripiavae o fizerasentar, era a lugubre oração que entoavam, oração á cabeceira de moribundos, para ajudal-os a bem morrer. A voz cheia e grave do sertanejo, soando no silencioda noite, a chamar por Jesus, a pedir o perdão das culpas do agonisante, era de um effeito aterrador. O Brilhante levantou -se e foiespiar por uma das grades. O espectaculo era mortuario. O velho Soares havia-se calado e, de joelhos, perto de uma rede, resava em voz baixa, acompanhado de seu filhoLucio e de mais alguns presos. Jesuino, não vendo seu irmão Joaquim, tudo comprehendeu.
Os gallos amiudavam, a aurora vinha perto, e resavam ainda em torno do defuncto. O Brilhante não se arredava da grade; queria certificar-se da morte do parente. Os soldados que haviam abandonado a guarda no começo da noite, vinham chegando, fartos de aguardente, molles de crapula, e iam se estirando nas tarimbas, ferrando no somno A sentinella se levantou ao quebrar das barras, perfeitamente restaurada por um dormir de oito horas! De pé, foi o seu primeiro cuidado espiar os presos. -Que novena é esta? perguntou o soldado, olhando para o interior da prisão. -O doente que morreu esta noite, respondeu um preso que resava perto da grade.
-Si havia de ser uma onça, como Jesuino, foi melhor Deus leval -o. O Brilhante sentiu-se tão magoado com a morte do irmão, quanto estomagado com a apreciação da sentinella. Voltou ao limiar da porta e sentou se. O soldado regressou ao corpo da guarda e accordando o sargento, disse-lhe: -Temos defuncto fresco. Que estás dizendo, homem? -Morreu o irmão do Brilhante. --D'aquella febrinha? -Febrinha o que, foram as feridasdas algemas que arruinaram. -Qual o que, ferida velha não mata homem. -Ellas nunca fecharam, viam -se as cannas dos braços. -A malvadeza corre lá por conta da tropa que o prendeu. -E foi obra do Pintado. - Aquelle diabo tem entranhas de cobra.
-Até o velho não pouparam. --Achei mal feito aperrearem tanto o pai e os irmãos do Brilhante pro mode elle. O Je suino, este sim, até eu, se o pegasse, fazia-lhe das costas bife. -Deixa de basofia, homem, é porque nunca te viste com semelhante onça pela frente. E que onça, das que têm o corpo fechado! -São inventivasdo povo. -Fia -te n'issoe não pede a Deus para te livrar de um encontro com tal malvado. Tem parte com o diabo, de certo. -Agora é que estou cahindo no caso: é mesmo. -Basta dizer que elletem brigado mais de cem vezescom soldadose com paisanos, e nunca houve quem lhe desse uma cutilada, quem lhe acertasse um tiro! --E o cavallod'elle, dizem que faz proezas de quem tem o diabo nos couros.
-E ' um gato, ligeiro que nem bala. -Accorda os outros, que o dia já estáfóra e o capitão pode apparecer. A sentinelladespertouos companheiros, que se levantavam de cara enfarruscada. Um d'elles tomando a arma poz -se de guarda. O cabo foi communicar ao official e ao carcereiro a morte do preso O Brilhante tinha ouvido toda a conversa dos soldados. Havia pensado em matar todos, em não deixar nenhum para semente, caso tivessem sido elles os algozes de seu pai e irmãos. O que ouviu d'elles, aplacou -lhe um pouco a colera. O rancho começou pelo café, que foiservido á toda a guarda. Um dos soldadosnão esqueceu Jesuino e trouxe -lhe uma tijellacom a bebida.
O Brilhante acceitou o vaso com certo constrangimento e bebeu. Agradeceu o obsequio e ficou pensando na morte de Joaquim. O semblante do velho Soares, coberto de funda tristeza, não lhe sahia da mente. Aos seus ouvidos parecia soarem ainda as orações resadas á cabeceira do moribundo. Cada phrase da lugubre prece, ajudando a bem morrer, partiaao velho pai um elo da vida, e o Brilhantepa recia ouvir o estalido do quebramento. A dor moral que o torturava, associava-se aos soffrimentos physicos e o desalentava. Flagellavam -no bastante o fedor da carniça, que lhe entupia as ventas, e a cocega que os bichos faziam fervilhando na podridão. O carcereiro não se demorou.
Jesuino arredou -se da porta e o chaveiro, tirando do bolso uma cambada de chaves, es. colheu uma d'ellas, que metteu na fechadura e abriu -a. O pesado portão girou nos enferrujados gonzos. O Brilhantepediu licença e acompanhou o carcereiro. A entrada da cadeia ficou guardada por quatro praças. O velho Soares e Lucio resavam ainda, de joelhos, junto a rede do morto. Jesuino completou a trindade prostrando -se tambem e orando. O carcereiro dirigiu-se ao pai do morto e indagou da morte de Joaquim. Soares levantou -se e com o semblante triste, mas sereno, prestou as informações que lhe eram pedidas. Fóra estrugiu a corneta da força: era o capitão que se approximava do corpo da guarda.
Aquellas mostras marciaes exasperaram o Brilhante em vez de amedrontal -o. O som agudo do clarim exercia uma influencia particular sobre o animo d'elle. Desde que começou a ouvir o toque, não pôde mais rezar, não acertava com o padre -nosso e muito menos com a salve -rainha. A corneta calou -se e toda a força a postos, o officialpassou a revista diaria. Em. quanto durava o dia, a disciplinanão podia ser melhor. O capitão sahiu do corpo da guarda para o interior da cadeia. Soares conversava ainda com o carcereiro. -Quem morreu por aqui? perguntou ao entrar o official. -Um filhoaqui d'estevelho, respondeu o carcereiro. -Um irmão do celebre Brilhante, uma féra, talvez, para o futuro.
-Talvez, não, senhor. Jesuino era bom e os homens o fizeram máo. -Isso é o que V. diz, mas as duzias de mortes que elletem feito, provam o contrario. -Tem morto, é verdade, mas para defender a vida. -Eu darei caça a elle, quero ver -lhe a valentiae se tem o corpo fechado. O que tanto fede aqui, já é o defuncto? -Não, senhor, é a enfermidade d'aquelle pobre homem, respondeu o carcereiro indicando o Brilhante. -E porque está preso este pobre diabo? -Quando entrei, estava deitado na porta e pediu-me para resar junto do morto. -Vão ver quantas mortes tem elle na cacunda! disse o capitão. Jesuino conservava toda a sua presença de espirito, a custa de um esforço quasi sobrenatural. Não luctava com o temor de ser trahido por uma emoção, de lhe cahir a mascara e ficar detido no carcere, mas com os impetos de indignaçãoque, de quando em vez, 0 assaltavam e elle custosamente reprimia.
A presença do capitão e o desrespeito com que fallava ao lado do cadaver, exasperaram -no tanto, que decidiu-se a sahir, para não tirara mascara. O official, vendo -o passar, teve dó d'ellee disse, dando -lhe uma esmola: -Alem do cancro, ainda mais o ar do vento, Ave -Maria. Mal as moedas cahiram nas mãos de Jesuino, foram sacudidas por um violentoestremeção. -Forte ar do vento que elletem, Ave Maria, disse o carcereiro, apanhando os vintense pon do -os no bolso do falso doente. O Brilhante sahiu e foi sentar -se no cordão da calçada. Estava livido, de pena e colera. Tinha secca a garganta como lingua de papagaio, e parecia -lhe apertada n'um cylindro de ferro.
Era precisoanimo forte para assistirdesencadear -se n'alma a tempestade, forte, tremenda, soterrando tudo que o coração mais estremecia na vida! Antes de meio dia, fez -se o enterramento de Joaquim. O Brilhante ajoelhou-se ao passar o cadaver do irmão; não cahiu-lhe dos olhos uma lagrima. O velho Soares, da grade do carcere, acompanhou com a vista o cadaver do filho até se encobrir de todo no caminho. Depois, desviando a vista, reparou em Jesuino, lembrou -se que elle se havia ajoelhado na passagem do enterro, e entrando para o interiordo carcere, voltoumo mentos depois com uma moeda de prata e chamou o mendigo. O Brilhante veiu se arrastando até enfrentar com o pai. Pôde vel-o a vontade, á luz do dia. Quando recebeu a esmola, que lhe deu o velho, Jesuinoquasi cahe de dor, porque viu The nos pulsos as recentes cicatrizes das algemas. Não se conteve de todo e um gemido abafado trahiu o pezar, que sua alma sentia n'aquelle instante.
A Soares passou despercebida aquella manifestação. Notou somente que o doente guardou a es mola e não lh'a agradeceu. Admirou -se do si lencio delle. Suppondo que a hemiplegia lhe tivesseparalisado a lingua, dirigiu-lhe a palavra: Então, meu velho, ha muito que soffre esta enfermidade? -Ha cinco annos, senhor, respondeu Jesuino, porem, com metal de voz tão differente do seu, que era impossivel ao pai reconhecel -o. O velho retirou-se da grade e foi pensar pa sua vida tão cheia de tribulações.