Capítulo XLV Os Brilhantes · Capítulo 45 de 48
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Capítulo XLV

Duas horas, mais ou menos, durou o ator doamento do Brilhante. Estateladono chão, quasi fórade si, esteve, ao ladodo Exhalação, atéque serenou a profunda atonia que lhe abatia o espirito. A physionomia do criminoso estava cavada de profundos sulcos. Viam -se-lhe no rosto os traços da angustia cruciante, que lhe dilacerava a alma. Até os olhos faiscantes de Jesuino tinham cahido em morna estagnação. Foi o transe maior por que passara na vida, acreditava elle. Envelhecera vinte annos! Quando o ferro rangiu no peito do cavallo, e a onda quente de sangue lhe banhou as mãos, o Brilhante sentiu uma agonia tão grande que se prostrou. O mundo the pareceu haver desabado todo sobre si, e elle, pequeno atomo entre tão grandessa ruinas, julgou-se per dido para sempre entre ellas. O abatimento moral, que o esmorecia, o deixaria enterrado ali, se o instinctoda conservação, pouco a pouco, não lhe resurgisseno espiritoa idéa da vida e, com ella, um desejo vago de vingança;

não o tivesse levantado e feitomarchar. De pé, cercado de precipicios, e bastantedepauperado, quasi esmoreceu, em frente dos empinados alcantis, que se erguiam talhados a pique. Era preciso, alem de grande somma de animo, ter unhas e pernas de lagarto para transpôr certos passos da gruta. O Brilhante não conservava a inteireza de suas qualidades physicas e intellectuaes. O cerebro, pouco alimentado, funccionava mal. Uma ischemia intermittenteproduzia uma vertigem ligeira, que, por vezes, quasi precipitouJesuino no precipicio. Passava a tontura, ás trevas succedia a claridade, e, de novo allumiado o mundo, o criminoso proseguia o seu caminho, um caminho penoso de Calvario.

As contracções musculares das faces em horrida crispação eram vehemente testemunho das dores que o torturavam. Os espinhos dos silvedos haviam -lhe rasgado a roupa, retalhando as carnes. O que mais lhe dois, não eram os rasgões da pelle, que ardiam como se tivessem sido molhados com forte molho de pimenta, mas as carapuças dos dedos, núas, em carne viva. Quantas vezes, rojando como cobra, pelos desfiladeiros, era-lhe necessario, para não se precipitar, agarrar-se aos cipós, ás pedras, e a superficie aspera d'aquellescorpos, que se enterrava nos tecidos nús, produzia uma dor tão lancinante que lhe ia ao coração. Jesuino se inteiriçava todo, cerrava os queixos, oppondo assim resistencia á sensação que sentia. Os abysmos não tinham fim. Quanto mais caminhava, mais se abriam.

Quando o Brilhantevencia um precipicio, estava á beira de outro. Comtudo, não perdia a coragem, ia de perigo em perigo, procurando salvar-se. Depois de uma hora de lucta atroz, em que, se tivessecem vidas, poderia tel-as perdido todas, chegou, com grande espanto, ao ponto de onde havia partido. Um violento espasmo de colera lhe abalou o corpo e o criminoso, dando um rugido de fera, teve uma idéa sinistra, lembrou-se de matar -se, precipitando-se dentro de um d'aquelles antros. A idéa de acabar com a vida não medrou e o Brilhante, estimulado com a grande contrariedade que acabava de soffrer, tomou a firme resoluçãode sahir da gruta, embora deixando todo o couro do corpo pendurado nas pedras e cipós da caverna.

Resolvido a isso, procurou com a vista um caminho que o levasse para fóra d'ali; mas, dentro de tal labyrintho era impossivel qualquer orientação. Sem probabilidade de acertar, aventurou -se por uma ladeira, que lhe pareceu não ser a que o trouxera do ponto de partir. Eram as mesmas difficuldades do caminho e os gastos das forças não diminuiam. O unico lucro da segunda investida, até a hora em que o sol se poz e o Brilhantese arranchou, foi encontrar uma fonte, em que matou a sede, e toceiras de gravatás carregadas de fructos. As louras e avelludadas bagas da bromeliacea foram colhidas pelo criminoso, que as comeu com avidez. O succo acido do fructo dava a Jesuino um certo tom, uma certa animação, embora a bocca ficasseretalhada e os dedos sem epiderme grudados dos pellos das bagas A queda e o excesso do trabalho muscular trouxeram ao criminoso grande irritabilidadee febre. Rapido foi, entretanto, o effeitosedativo e anti-thermico, que produziu o succo do gravatá, logo que foi absorvido. A temperatura desceu á normal, e os nervos, como sob a influenciade um calmante, deixaram repousar o espirito, bastante atribulado com as contrariedades, que se levantavam de todos os lados, a todos os instantes.

Jesuino sentiuque aquellebem estar, que, como fluidosubtile bemfasejo, corria-lhe o corpo todo, vinha do estomago, e eram os fructos que o tinham produzido. Tão reanimado ficou, que teria continuado a caminhar, se a escuridão da noite o permittisse. Deitado em uma rocha, contemplava o céo ponteado de estrellas, que scintillavam em differentes alturas. Não tirava os olhos da amplidão, enlevado nas perfeições da natureza e no poder de Deus. Cada astro era um mundo, lhe haviam dito, ás vezes, um mundo maior do que o nosso. Quanto mais olhava as constellações, mais admirava a grandeza do universo e menor se julgava em presença d'elle: um verme e nada mais! . . .

Das maravilhas das alturas desceu ás miserias da terra e achou -se mergulhado na escuridão da caverna, no silencio tumular do abysmo. Os sentidosabandonaram logo aquella estanciae transportaram-no de novo ás regiões da luz. Nas azas ligeiras do pensamento percorria todos aquellesmundos e ás vezes ficava tão absortoque se julgava só, em espirito, a vaguear pelo infinito. O involucrode argillanão consentiaque durasse muito o embevecimento, 382 RODOLPHO THEOPHILO. e, cançada da posição, a besta chamava o homem á realidade, lembrando -lhe a miseria da materia. Em uma d'essas importunações do barro, Jesuino se revoltou e teve um desejo ardentissimo de ver -se livre da podridão da carne.

O seu espirito, acreditava, tinhajus á eter nidade, ao goso de todos aquellesmundos, e pensou chegar a elles, porem, uma idéa o en tristeceue desalentou: aquellesastros, que brilhavam tanto, só eram accessiveisaos espiritos do bem. Elle teria a eternidade, mas uma eternidade de penas. Conformou -se. Era de justiça habitar um mundo mais trevoso e de lá admirar a claridade dos eleitos de Deus, dos que haviam sido mansos e humildes de coração. Jesuino, menos pelo temor do castigo, do que desejoso de gozar as deliciasde todos aquel les céos, por um instante, o primeiro na vida, arrependeu -se de ter morto e de não se ter deixado matar. A sua contricção era verdadeira, e se os inimigos tivessem -no surprehendido n'aquelle mo mento, era muito possivel que se entregasse á prisão. Em doce enleio via-se alar a Deus e, remido pelo arrependimento, deixar o reino das trevas pelos paramos da luz. Entre sonhos o Brilhante adormeceu. O somno foi uma continuação dos arroubos da vigilia. A fraqueza do cerebro era o maior factor da contricção do criminoso, o agente principalde seus enlevos.

Já o sol tinha entrado na caverna, arrancando das rochas chispas de fogo e fazendo scintillaros crystaescalcariosdas lages, quando o Brilhante accordou. Foi outra a impressão dos sentidos. Havia desapparecido a treva, e o céo, allumiado pelo pallido clarão das estrellas, encandeava agora, repletode luz. Os mundos faiscantes tinham se sumido na poeira luminosa, que o dia levantou, e com elles o arrependimento do criminoso. Jesuino adormecera contricto e despertára peccador confesso. O somno havia -lhe equilibrado mais as qualidades intellectuaese fortalecidoos meios physicos de acção. Estava melhor do corpo e d'alma. Os dedos já não lhe doiam tanto; o pellodo gravatá protegia do ar o delicado tegumento, que começava a cobril-os. Levantou -se do aspero leito e depois de ter feitouma boa provisão de fructos, partiu.

O caminho continuava o mesmo, ingreme e escabroso. O Brilhante marchava com mais alento. Já não lhe zuniam tanto os ouvidos, nem lhe ton teava muito a cabeça. Se não fossem as feridas, passaria por aquelles precipicios, equilibrado como um cabrito. Ainda experimentou os musculos, mas ar rependeu-se da ousadia; esfolaram-se as carapuças dos dedos, que arderam como se estivessem cobertasde brasas. Resignou-se a continuar o caminho, arrastando-se como cobra ou, quando muito, andando como lagarto. O sol allumiava a gruta quasi até o fundo. Destacavam -se os perfis dos cabeços coroados das cores dos irispor um diadema, cujasgemmas tinham creado a luz e a agua.

As socavas faiscavam com as scintillações das micas. Jesuino achava tudo aquillo muito bonito. Dependurado nas bordas dos despenhadeiros, pasmava diante das maravilhas naturaes, que se mostravam dignas de admiração, até nas profundezas dos antros. Havia galgado uma eminencia e seus olhos muito naturalmente se fitaram n'uma serie de covoadas, que se abriam em frente. Jesuino logo reconheceu o sitio em que tinha morto o Exhalação. Procurou ver o cadaver, mas embalde; havia no logar onde suppunha o corpo, uma nuvem negra de urubús. O repasto mal começara a apodrecer, prin. cipiou o banquete. Havia já algumas dezenas de aves e chegavam outras. Um bando pousava nos rochedos proximos, receiosoda lucta, que se travava encarniçada sobre o cadaver.

Aos ouvidos do Brilhante chegava o sombrio crocitar das aves e o som cavo do embate das suas azas e peitos na briga. De quando em vez fugia um da lucta e se alava pelo espaço, levando pendurado ao bico um pedaço de tripa ou um trapo de carne podre. Jesuino desviou os olhos arrasados de la grimas. Sentia uma tristezamortal. As bellezas, que havia pouco the deleitavam os sentidos, não as via agora. Queria poder correr e sahir d'aquelleslogares, pôr-se longe d'aquellesitio, que lhe traziarecordações, que doiam mais do que doeria morrer. Foi-se arrastandopelospenhascos todoaquelle dia, até que á noite chegou á beira da gruta. Jesuino, logo que sahiu, reconheceu que se tinha precipitado na Furna do Diabo na Serra Preta.

Bastante estranheza causou -lhe a certeza d'isso; porque suppunha ter tomado direcção opposta quando partirada Pedra furada. Tinha combinado com os companheiros reunirem -se na serra do Cajueiroe para lá deveria ir. Era preciso fazer dez leguas a pé, desarmado e doente. A'quella hora não era possivelcaminhar; deitou se ali mesmo e adormeceu.

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