O Despertar da Morte
A última coisa que vi no bar foram rostos desconhecidos inclinados sobre mim. Depois, o teto desapareceu. O sangue, a falta de ar e a pressão das mãos sobre o meu peito sumiram juntos, substituídos por uma corrente que me arrancou dali. Eu voava. Não era uma impressão provocada pela morte: meu corpo avançava numa vastidão branca, cercado por formas que passavam depressa demais para que eu soubesse se eram nuvens, fumaça ou outra coisa. O vento batia no meu rosto e mantinha meus braços colados ao corpo.
Tentei mudar de direção. Inclinei os ombros, forcei as pernas, estendi as mãos, mas nenhum movimento alterou o percurso. Eu não controlava nem a velocidade nem o lugar para onde seguia. A única certeza vinha do ar entrando pelos pulmões. Respirei fundo duas vezes, passei a mão pelo peito e procurei o furo da bala. A camisa estava inteira. A pele também. Não havia sangue, ferimento ou dor.
Pensei no tiro, no copo caído, na mulher que morrera na praia e na frase que encerrara minha vida. A pergunta surgiu antes que eu pudesse evitá-la: eu tinha morrido? Meu corpo dizia que não. A lembrança do coração perfurado dizia o contrário. Procurei um chão abaixo de mim e não encontrei nada além daquela brancura em movimento.
Então meu estômago subiu. A velocidade aumentou e a vastidão deixou de passar ao meu lado para correr de baixo para cima. Eu estava caindo. Abri os braços numa tentativa inútil de frear e senti o ar aquecer contra a pele. A queda apertava meu rosto, puxava minha boca e me impedia de respirar direito. Imaginei um corpo celeste entrando na atmosfera e tive certeza de que acabaria do mesmo modo, queimado ou partido no impacto.
O chão apareceu de uma vez. Era uma superfície cinzenta, lisa e extensa demais para que eu calculasse a distância. Levantei os braços sobre a cabeça por puro reflexo. O choque atravessou meus ossos, arrancou o ar dos pulmões e abriu rachaduras ao meu redor. Gritei. O som se espalhou pelo vazio e voltou várias vezes, cada eco um pouco mais baixo, enquanto eu permanecia encolhido à espera de uma dor que deveria ter me impedido de pensar.
Ela diminuiu em segundos. Mexi os dedos, dobrei os joelhos e apoiei as mãos no chão. Nada parecia quebrado. Fiquei de pé com cuidado, apalpei o rosto, as costelas e outra vez o peito. Eu acabara de sobreviver a uma bala no coração e a uma queda capaz de rachar o solo. A segunda parte me pareceu ainda mais difícil de aceitar.
Ao redor, havia um deserto sem areia, pedra ou planta. A superfície lembrava cimento polido e seguia plana até onde meus olhos alcançavam. Girei devagar, procurando uma elevação, uma construção ou qualquer linha que pudesse chamar de horizonte. Não encontrei. Minha própria respiração era o único ruído até uma ventania atravessar o terreno.
Fechei os olhos e protegi o rosto. Quando a rajada cessou, abri-os e caí sentado. Um homem estava parado a poucos passos de mim. Eu não o ouvira chegar. O vento ainda movimentava seus cabelos e a barba grisalha, mas ele parecia confortável naquele lugar, como alguém que acabara de descer um degrau. Sua aterrissagem não produzira rachadura alguma. Ele me observou com uma expressão amigável.
— Seja bem-vindo. Como se chama? — Minha primeira resposta ficou presa. Eu sabia que deveria ter um nome, porém precisei procurar por ele entre as imagens do bar, da praia e da vida que começava a parecer distante.
— Não sei muito mais de nada — respondi. — Se a minha memória não estiver me enganando, meu nome é Magno. — O homem esperou enquanto eu me levantava e limpava as mãos, embora não houvesse poeira nelas. Chamava-se Nazerith. Falava com a calma de quem já tinha recebido muitas pessoas naquele deserto e reconhecia a confusão antes que elas tentassem explicá-la.
— Sua aceitação da partida parece boa — disse. — Você percebeu que ia morrer alguns segundos antes. Sentiu a morte, não sentiu? — Ouvir aquilo de outra pessoa tornou a pergunta real.
— Então eu morri mesmo? — Levei a mão ao peito mais uma vez. — Eu senti, mas ainda não tinha entendido. Onde estamos? Isto é algum tipo de julgamento? Porque não se parece com céu nem com inferno. — Nazerith demorou os olhos em mim e fez um som baixo, interessado. Perguntou se eu vinha da Terra. Quando confirmei, sorriu ao dizer que os terráqueos tinham teorias curiosas sobre o que acontecia depois da morte. Olhei novamente para o vazio.
— Estamos em outro planeta? Isto foi um teletransporte? Ou eu não morri? — As perguntas saíram juntas. Nazerith respondeu que eu aprenderia aos poucos e que, para começar, podia pensar na morte como uma espécie de transporte. A vida que eu conhecia terminara. Naquele mundo, eu carregava as memórias e o amadurecimento espiritual da passagem anterior, enquanto meu corpo assumia uma aparência que já tivera em alguma idade da antiga vida.
A explicação parecia organizada demais para o que eu acabara de viver. Apertei os braços, senti a pele, procurei diferenças no peso e na altura. Tudo era familiar, mas eu não saberia dizer de qual momento da minha vida aquele corpo tinha vindo. Nazerith não tentou completar a resposta. Apenas pediu que eu o acompanhasse.
— Acompanhar para onde? — Apontei para a planície em todas as direções. — Não existe nem horizonte aqui. — Ele se virou para mim e disse que aquela era a primeira lição. Eu precisava parar de enxergar a nova vida com os limites da anterior e mudar a maneira de olhar quando alguma coisa parecesse impossível. Segundo ele, eu já deveria ter aprendido isso. Antes que eu perguntasse onde e quando, o vento me atingiu pelas costas.
Fui arrancado do chão. Dessa vez não houve vastidão branca nem tempo para testar movimentos. Atravessei o ar por alguns segundos, bati na superfície e rolei até parar. A dor foi espetacular. Enquanto eu ainda sentia o impacto, ouvi a voz de Nazerith.
— Quando o vento levar você, não lute. Deixe que ele atravesse seu corpo. Só assim conseguirá controlá-lo. — O velho sorria enquanto eu me levantava, e comecei a suspeitar que receber recém-mortos fosse uma das diversões dele.
Foi então que percebi a cidade. Não estava ali antes do voo, ou meus olhos ainda não sabiam encontrá-la. Prédios brancos e cinzentos se erguiam em formas que pareciam contrariar o próprio peso. Algumas estruturas se inclinavam sem apoio; outras mantinham partes inteiras suspensas. O verde aparecia em poucos detalhes claros, distribuído entre passagens e fachadas. Depois do deserto liso, a cidade parecia grande demais para caber no mesmo lugar.
Seguimos até uma praça. No centro, um chafariz feito de vento mudava a decoração ao redor: as correntes levantavam formas, desfaziam-nas e começavam outra composição antes que eu entendesse a primeira. Atrás dele havia um prédio sem qualquer ligação com o chão. Uma área demarcada indicava o ponto de acesso, de onde o vento recolhia as pessoas e as conduzia a uma abertura no meio da construção.
Caminhar sob aquele edifício me obrigou a olhar para cima várias vezes. Esperei ouvir uma estrutura cedendo ou ver uma sombra despencar sobre nós. Nazerith acompanhava meu desconforto sem esconder o riso. Entramos na área marcada e uma corrente nos ergueu. Tentei obedecer à lição, relaxei os ombros e deixei o ar passar ao redor do corpo. Não controlei o percurso, mas cheguei à entrada sem outro tombo.
Do lado de dentro, parei sem saber onde fixar os olhos. Havia grupos de pessoas organizados em círculos, cada um atento a alguém que explicava ou demonstrava alguma coisa. Alguns treinavam movimentos que lançavam correntes de ar uns contra os outros. Outros permaneciam imóveis, mesmo quando as rajadas dos grupos vizinhos passavam perto deles. Não vi salas, paredes ou teto. O espaço continuava em todas as direções e dava a impressão de estarmos novamente a céu aberto.
— Isto é uma escola? — Nazerith explicou que estávamos numa Zona Livre. O lugar parecia infinito, mas se repetia: quem ultrapassasse alguns metros além da pessoa mais distante retornaria pelo lado oposto. As Zonas Livres serviam ao aprendizado e à prática de exercícios. Tinham sido construídas durante guerras muito antigas e permaneciam protegidas pelos Reis do Vento, quase impossíveis de destruir.
Cocei a cabeça. Eu tentava acompanhar palavras como nova vida, guerras antigas e Reis do Vento, mas meu corpo encontrou um problema mais imediato. A fome apertou meu estômago com tanta força que precisei curvar a cintura. Perguntei onde poderíamos comer, o que serviam naquele planeta e se, por alguma sorte, existia fast-food por ali.
Nazerith riu alto. O som atravessou a Zona Livre, ganhou eco e fez várias pessoas interromperem o que estavam fazendo. Todas olharam para nós. Ele ainda ria quando elas voltaram aos exercícios.
— Vou matar sua fome continuando a explicação — disse. A resposta me irritou. Avisei que seria capaz de devorar um urso e que não prestaria atenção em aula alguma enquanto meu estômago tentasse sair pela boca. O rosto dele ficou sério.
— É você quem ainda não entendeu. Quanto mais discutir e recusar o que precisa aprender, maior será a fome. — Nazerith explicou que os renascidos no Planeta dos Ventos se alimentavam de conhecimento. Durante o aprendizado, o cérebro produzia a energia usada pelo corpo. O meu ainda estava descobrindo o processo: transformaria as moléculas do ar respirado em água e alimento dentro de mim. Evitar informação significava impedir essa transformação.
Eu preparava outra reclamação quando notei que a contração no estômago havia diminuído. Respirei fundo. A fraqueza cedia e, no lugar dela, surgia uma sensação de alívio parecida com a primeira mordida depois de muitas horas sem comer. Ao mesmo tempo, eu queria que ele continuasse. A necessidade não desaparecera; apenas mudara de direção.
Olhei para os círculos espalhados pelo espaço e entendi por que tanta gente estudava, treinava e aperfeiçoava movimentos num planeta que, segundo Nazerith, não enfrentava uma guerra havia muito tempo. Ele confirmou. O conhecimento sustentava aqueles corpos, mas também preparava cada pessoa para usar melhor o vento.
Entre os planetas do segundo nível, os nascidos do vento eram temidos e raramente desafiados porque se alimentavam de conhecimento e técnica. Havia quem dissesse que o próprio Criador tinha maior inclinação pelo elemento ar, embora Nazerith tratasse isso como boato. Os Reis do Vento ensinavam outra coisa: mesmo naquele mundo, ainda éramos limitados e conhecíamos muito pouco dos elementos existentes no universo.