A Sede dos Lobos
O canal de emergência falhava a cada duas palavras, e ainda assim a voz de Tocqueville atravessava a interferência com força suficiente para interromper todos os outros planos. Os anjos tinham acabado de recuar, Dash ainda examinava as próprias mãos depois de copiar Uriel, Nazerith distribuía equipes para abrigos e rotas subterrâneas, mas Henri ouviu o nome da cidade dos lobos e tomou o controle da nossa respiração antes que eu pudesse pedir a alguém que repetisse o chamado.
— Henri! — Tocqueville gritou, e por trás da voz dele havia gente correndo, metal sendo arrastado e uma sequência irregular de pancadas contra alguma barreira. — Temos um problema muito sério. Seguimos o conselho do senhor Paole, monitoramos as gatas mordidas, isolamos quem quis ser acompanhado e confirmamos que nenhuma delas se tornou vampira. Os Guardiões do Sangue estavam certos nesse ponto. Elas continuaram lobas, com consciência, memória e vontade.
— Toc, respire e diga o que saiu errado — pedi, porque a parte que ele ainda não contara já estava mastigando a garganta dele.
— Os lobos que tiveram relação com elas depois das mordidas adoeceram. Primeiro febre, tremor, dor nos ossos, fome sem direção. Ficaram acamados por horas, alguns por quase um dia, e nós achamos que o pior seria conter a doença até entender o contato com o sangue dos Guardiões. Depois despertaram sem reconhecer ninguém. Atacaram os quartos, os postos de saúde, as portas das casas, e todos que foram mordidos começaram a mudar do mesmo jeito.
Henri transmitiu um sinal curto a Nazer para abrir canal com Finiti, cidade dos lobos e Vermilion ao mesmo tempo. Eu sentia a vontade dele de entrar pela adaga no mesmo instante, mas também sentia a lembrança dos três seres acima do horizonte, a eletricidade de Uriel atravessando nosso coração e a certeza ruim de que o céu vazio ainda era parte da ameaça.
— Quantos estão fora de controle? — Henri perguntou.
— Não temos número fechado. Os primeiros já se espalharam pelo setor leste antes de conseguirmos isolar ruas inteiras. São lobisomens, majestade, mas não lutam como os nossos e não respondem ao conselho, ao Alfa ou a parentes. Eles querem sangue, só isso. Mordem, rasgam, seguem adiante, e quem sobrevive começa a adoecer. Evacuei o que consegui para Finiti, coloquei crianças, idosos e feridos atrás da barreira móvel, mas ela está recebendo impacto de dentro e de fora.
Nazer abriu a projeção da cidade dos lobos sobre a placa de registro. A imagem vinha tremida, alternando telhados, ruas vazias, corpos sendo carregados e uma linha de vento endurecido que segurava uma massa escura de animais contra um corredor estreito. Nem todos estavam transformados por completo. Alguns ainda tinham roupa, mão humana, rosto reconhecível demais para virar categoria de relatório.
— Vamos para lá — disse Henri, e a decisão saiu antes que a distância entre nós e a cidade pudesse virar desculpa.
— E os anjos? — Nazerith perguntou, sem levantar a voz, porque a pergunta entrava como registro, não afronta. Era o tipo de pedra que precisava ficar no chão antes que alguém corresse.
— Se resolverem ajudar, receberão instruções nos pontos médicos — respondi, e a ironia saiu mais seca do que eu pretendia. — Se resolverem atacar, Dash segura a primeira frente, Nazer conduz retirada pelas rotas já testadas e Nazerith registra cada ordem. Ninguém daqui fica sem comando porque a cidade dos lobos também é nossa.
Dash olhou para o céu, depois para as barreiras e para as próprias mãos. A cópia de Uriel ainda deixava pequenas faíscas nos dedos dele, e aquela nova capacidade, que minutos antes servira apenas como defesa, tinha acabado de se transformar em motivo para deixá-lo sozinho diante de uma ameaça que nem conhecíamos direito.
— Eu fico — ele disse. — Consigo atrasá-los se voltarem antes de vocês. Não prometo vitória, prometo tempo.
— Tempo é o que estamos comprando desde que Elaryan nos largou nesse planeta — Henri respondeu. — Não gaste tudo numa cena de coragem. Se eles vierem com força de conselho, você recua para os civis e avisa.
Abrimos a adaga para a entrada da cidade dos lobos. O corte no ar mostrou primeiro a praça externa, depois a muralha interna e, quando atravessamos, o cheiro nos alcançou antes da visão inteira. Sangue, fumaça, remédio derramado, pelo molhado, suor ácido e o odor metálico dos vampiros misturado ao das pessoas que tinham tentado conter a crise com as mãos disponíveis.
Tocqueville estava diante da barreira, com a roupa rasgada no ombro e três cortes no rosto. Ele nos viu chegar, mas não se ajoelhou nem tentou parecer composto. Apenas apontou para dentro, onde a rua principal terminava em portas quebradas e manchas que os trabalhadores ainda não tinham coragem de limpar enquanto os impactos continuavam mais adiante.
— Eles estavam ali há poucos minutos. Os primeiros, pelo menos. Quando a barreira quase cedeu, os vampiros chegaram.
— Que vampiros? — Henri perguntou, mesmo já sabendo a resposta provável.
Paole saiu de uma rua lateral acompanhado dos Guardiões do Sangue que ainda conseguiam andar. As presas dele estavam aparentes, os braços cobertos por sangue que não devia ser todo dele, e a mochila de extração pendia vazia, cortada em duas alças. Nenhum dos cinco sustentava no rosto satisfação pelo que havia feito.
— Resolvemos a situação imediata, majestade — Paole disse. — Matamos todos os infectados que alcançamos antes que a mordida continuasse a se espalhar. Assim que soubemos, viemos o mais rápido possível.
Por alguns segundos eu não consegui responder. A palavra "matamos" ficou presa entre a rua destruída, Tocqueville segurando o próprio ombro e a expressão de Paole, que não trazia orgulho nem arrependimento suficiente para tornar aquilo simples. Henri moveu nossa mão até a placa de Nazerith e pediu registro nominal de cada corpo encontrado, cada testemunha e cada pessoa transferida para Finiti.
— Quantos? — perguntei, olhando para a rua lateral por onde os Guardiões ainda retiravam feridos.
— Muitos — Paole respondeu. — O suficiente para eu não querer dizer sem conferir. Eles não paravam. Mesmo feridos, mesmo partidos, tentavam alcançar sangue. Se eu tivesse esperado autorização formal, a barreira teria caído.
— E fazendo isso vocês enviaram todos esses lobos para outro planeta — disse Elaryan, surgindo sobre a mureta quebrada, sentada com uma perna dobrada e a outra balançando no vazio. — Um planeta vizinho de vocês agora. Eles já foram capturados por vampiros de lá, o que foi eficiente dos dois lados, admito. Ninguém chegou a ser arranhado.
O silêncio que veio depois não pertenceu a surpresa. Pertenceu a conta. Matar alguém naquele universo raramente encerrava o problema, e ainda assim continuávamos usando a morte como gesto de contenção quando o pânico nos encontrava sem uma ferramenta melhor.
— Você sabia que isso aconteceria — Henri disse.
— Eu sabia que existia essa possibilidade. Também sabia que Paole e os outros seriam rápidos demais se a cidade chamasse por ajuda tarde demais.
— Então por que não avisou antes? — perguntei, e senti Henri sustentar a mesma raiva sem precisar disputar espaço comigo.
— Porque a cadeia inteira precisava revelar a reação entre sangue de Guardião, corpo de loba e mordida posterior. Se eu impedisse o primeiro elo, vocês continuariam cercados por uma ignorância mais perigosa. Se eu impedisse o segundo, Paole continuaria acreditando que matar infectados era solução suficiente. Agora vocês sabem que não é.
Paole fechou os olhos, e pela primeira vez desde que o conheci a postura dele cedeu um pouco. Aqueles vampiros tinham caminhado meses atrás dos próprios nobres, tinham aceitado busca vigiada, tinham abastecido o povo com o próprio sangue e, quando encontraram uma crise nascida da mistura entre eles e a cidade dos lobos, responderam com a técnica que possuíam.
— Havia outra forma? — ele perguntou a Elaryan.
— Se os lobos tivessem mordido vocês e retirado uma quantidade suficiente de sangue, a sanidade voltaria. Eles se tornariam vampiros, sim, mas deixariam de atacar sem consciência. Uma transformação reversa, rara o bastante para seu povo tratar quase como impossibilidade.
— Você queria que deixássemos criaturas descontroladas arrancarem nosso sangue até descobrirmos se voltariam a pensar? — Paole perguntou.
— Eu queria que vocês tivessem informação antes de escolher. Agora têm informação depois de escolher, que é o modo mais comum de vocês aprenderem.
Tocqueville soltou um som curto, metade riso e metade enjoo. Eu poderia ter brigado com Elaryan, com Paole, com ele, com todos os meus últimos dias. A comunidade clandestina das gatas tinha sido tratada com prazo, escuta, representação, saúde e registros, e ainda assim uma parte do que não sabíamos caminhara para fora dos relatórios e entrara no corpo de outros.
— O que podemos fazer agora? — Henri perguntou, porque alguém precisava arrancar a conversa daquele lugar antes que minha vontade de responder por orgulho nos custasse mais tempo.
Elaryan apontou para a adaga presa à nossa cintura, e o gesto bastou para que todos ao redor entendessem que a resposta envolveria deslocamento, risco e uma nova dívida.
— O planeta para onde eles foram está próximo o bastante para essa lâmina alcançar. Vocês podem se transportar até lá, explicar a situação e recuperar seus lobos, se quiserem. Claro, isso deixa Vermilion com anjos no horizonte, vampiros exaustos aqui e uma cidade perguntando por que o rei saiu quando a barreira ainda está quente.
— Obrigado por embrulhar a ajuda com ameaça — respondi.
— Eu só tiro o laço quando vocês já estão segurando o pacote.
Henri ignorou a provocação e começou a distribuir ordens. Tocqueville ficaria com a cidade dos lobos, mas sem comandar sozinho a apuração sobre a demora no chamado. Brinshen, Salia e duas representantes da comunidade das gatas participariam do registro. Paole deixaria dois Guardiões com sangue medido e equipe médica, sem entrar em áreas de atendimento onde sua presença piorasse a fome ou o medo. Nazer coordenaria Finiti e Vermilion pela placa. Nazerith manteria registro de mortes, mordidas, retornos e decisões.
Dash recebeu a defesa externa. Ilana, Alice e Falcão organizariam a retirada de civis, mantendo rotas abertas sem concentrar gente em túneis que pudessem virar prisão. Suzaku e Fenrir permaneceriam conosco, porque a crise começara nos lobos e qualquer tentativa de cura exigiria presença de quem pudesse conter sem matar.
— Você não vai sozinho — Paole disse.
— Não mesmo — respondi. — Mas você vai escolher quem consegue atravessar sem colapsar de fome, culpa ou arrogância no primeiro minuto.
Ele aceitou sem discutir. Escolheu dois Guardiões, quatro lobos estabilizados, Brinshen, Salia, Nazerith e uma equipe pequena de contenção. Henri acrescentou dois curandeiros e uma pessoa da comunidade das gatas que se ofereceu para reconhecer os primeiros doentes pelo nome, porque ninguém ali deveria entrar no outro planeta tratando os infectados como massa.
Elaryan já não estava na mureta quando ergui a adaga. A lâmina dupla abriu uma fenda estreita no ar, e do outro lado não apareceu uma sala limpa de negociação, mas uma noite azulada, cheia de movimentos violentos e gritos que vinham de gargantas diferentes das nossas.
Henri respirou dentro de mim, firme e cansado, enquanto a noite azulada do outro lado da fenda trazia o som de uma batalha que já acontecia sem esperar nossa versão dos fatos.
— Vamos buscar os nossos — ele disse, e atravessei o portal antes que a pergunta sobre os anjos encontrasse tempo de voltar.