Poder Herdado Liberdade do Vento · Capítulo 28 de 49
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Poder Herdado

Descemos até a faixa verde que separava as duas cidades e encontramos os primeiros grupos reunidos do lado de fora das construções. Algumas pessoas ainda apalpavam os próprios braços, verificavam a respiração ou procuravam parentes entre os recém-chegados. Outras recolhiam livros, ferramentas e objetos que Elaryan transportara junto com as casas. A segunda vida naquele planeta começava com a arrumação do que sobrevivera às duas mortes.

Toqueville pediu que todos se concentrassem perto do edifício do conselho. Arc abriu as portas, retirou mesas do salão e instalou folhas de registro nos degraus, enquanto Scélor organizou corredores para os feridos e para quem buscava familiares. A alcateia ocupou o gramado em grupos menores, mantendo espaço entre os lobos que ainda tinham dificuldade para sustentar a forma humana.

Henri dividiu comigo a primeira frase antes que eu falasse. Precisávamos contar a sequência inteira, inclusive aquilo que nos colocava numa posição ruim diante deles. Fenrir concordou e reforçou que a cidade dos lobos deveria ouvir de nós que ninguém recebera escolha.

— Elaryan matou todos nós duas vezes e trouxe as cidades para este planeta sem pedir autorização — comecei. — Ela nos deu o título de Reis do Vento e ameaçou colocar outras pessoas sobre vocês caso recusássemos. Aceitamos para continuar aqui, prestar contas e impedir que alguém escolhido apenas por ela assumisse o controle.

O silêncio durou pouco. Uma mulher de Finiti perguntou se poderíamos levá-los de volta. Um lobo quis saber por que atacáramos Elaryan depois de perceber que ela venceria. Duas famílias falaram ao mesmo tempo sobre parentes que ainda não tinham sido encontrados. Um rapaz, sentado no degrau mais baixo, perguntou se a nova força do corpo compensava morrer contra a própria vontade.

— Ainda não sabemos voltar e não consideramos essa força uma compensação — respondeu Henri. — Atacamos porque uma parte da alcateia havia escutado o aviso e porque permanecer imóveis teria entregue até a tentativa de resistência. Podemos explicar o que fizemos; não podemos dizer que fizemos tudo certo.

A resposta abriu uma discussão que atravessou a manhã. Houve apoio, mas ele veio acompanhado de condições. Moradores de Finiti queriam acesso aos registros do reino antes de aceitar qualquer nova lei. A alcateia exigiu poder decidir onde viveria e quem falaria por ela. Quem perdera familiares pediu buscas antes de cerimônias. Um grupo recusou chamar-nos de reis até conhecer a cidade que Elaryan colocara ao redor deles.

Quando um homem lembrou o governo de Falcão e disse que Henri aprendera com alguém capaz de escutar até durante uma guerra, a respiração dele falhou por um instante. Henri agradeceu, passou a mão no rosto e respondeu que usar o nome do pai para encerrar a conversa contrariaria tudo que recebera dele. A reunião continuou.

Toqueville já coordenava as equipes da cidade dos lobos, mas pedimos que a própria alcateia decidisse se desejava mantê-lo naquela função. Os grupos conversaram, chamaram representantes e aprovaram um mandato provisório até a primeira assembleia do novo planeta. Arc ficou responsável pelos registros de Finiti e pela comunicação entre os bairros. Scélor assumiu o abastecimento e a defesa civil com uma equipe escolhida no salão. Nenhum cargo se tornou permanente naquela manhã.

A ligação entre as duas cidades também deixou de depender de uma permissão nossa. Os moradores decidiram ampliar a faixa verde, construir passagens cobertas e instalar pontos de água no percurso. Nós garantiríamos material e proteção; desenho, uso e ritmo ficariam com quem atravessaria aquele caminho todos os dias.

Dash acompanhara a reunião encostado numa coluna, sem disputar palavra. Quando perguntamos quem conhecia o poder recebido naquele planeta o suficiente para explorar a cidade maior, ele levantou a mão e lembrou que copiara as habilidades de Arc durante nossa ausência. Arc confirmou que Dash aprendera a reconhecer alterações no ar e podia estabelecer uma rota de retorno caso fôssemos separados.

— Eu vou porque quero conhecer o lugar antes que alguma ordem chegue de cima — esclareceu Dash. — E porque ficar parado depois das duas mortes está me deixando pior.

Partimos depois que Toqueville nos entregou uma lista de desaparecidos e Arc guardou outra cópia. Do alto, a cidade principal ocupava o horizonte com edifícios suspensos e vias que se cruzavam entre nuvens, mas escolhemos caminhar desde a entrada mais próxima da floresta. Se começaríamos a governar alguma coisa, eu queria saber o que existia abaixo da parte que Elaryan mostrara durante o voo.

O primeiro arco de pedra tinha marcas de ferramentas e placas arrancadas. Logo depois dele, o chão se dividia em ruas estreitas, cobertas por uma poeira escura que conservava pegadas antigas junto às paredes. Portas largas tinham sido fechadas com blocos diferentes dos usados nas fachadas, e canos quebrados desciam dos níveis superiores sem chegar a reservatório algum. A água passava por cima; embaixo restavam manchas secas e ferrugem.

Fenrir encontrou cheiro de pessoas em corredores distantes, porém nenhum rastro recente cruzava a via principal. As escadas terminavam em tetos acrescentados muito depois da construção original. Janelas receberam alvenaria pela face externa, e antigas praças sustentavam colunas que agora serviam de base para prédios erguidos acima delas. A cidade crescera para o céu e deixara os primeiros andares enterrados dentro da própria estrutura.

Dash soltou uma corrente pequena por uma abertura e recebeu de volta ar quente, fuligem e o odor de comida. Havia vida sobre nós, suficientemente próxima para que restos caíssem pelos dutos, mas nenhum acesso direto permitia alcançá-la. Para sair daquele nível, uma pessoa sem voo precisaria refazer quase todo o caminho até a floresta.

Parei diante de uma parede coberta por pigmentos descascados. Ainda se distinguiam mãos azuis, pássaros vermelhos e uma fileira de rostos pintados ao redor de um círculo dourado. Passei os dedos perto da tinta sem tocá-la. Desde o caderno abandonado no hotel, eu atravessara mortes, planetas e guerras sem terminar um texto ou misturar uma cor.

— Quando isto acabar, eu preciso voltar a escrever e pintar — disse a Henri, dentro da consciência que dividíamos. — Nem que seja nesta parede e nem que o primeiro desenho fique horrível.

— Não espere Elaryan conceder tempo — respondeu ele. — Escolha uma parede, uma hora e comece. Se ela interromper, você volta depois.

O conselho combinava melhor com ele do que qualquer promessa de descanso. Seguimos por uma sequência de passagens que se estreitavam e voltavam ao mesmo pátio, até perdermos a direção da floresta. Dash marcou cada esquina com pequenos redemoinhos de poeira presos às paredes. Foi durante a terceira volta que perguntei sobre o período em que ele ficara em Finiti.

— Nem perguntei direito o que aconteceu com você enquanto estivemos fora — falei. — Arc contou a parte política, mas não contou o que isso fez com seu corpo.

Dash empurrou uma grade enferrujada, esperou a poeira baixar e nos conduziu por baixo dela antes de responder. A passagem desembocava noutra galeria sem luz.

— Foi cruel. Eu morri, acordei no meio de um combate e descobri que conseguia absorver o poder de um rei. Depois vocês desapareceram e muita gente passou a olhar para mim esperando uma solução. Aprendi rápido porque qualquer erro atingiria outra pessoa, mas ainda estou descobrindo o que ficou em mim e o que pertence ao poder copiado.

— Você sustentou uma cidade durante nossa ausência e ainda ajudou a impedir uma coroação improvisada — respondeu Henri. — A confiança que temos em você vem disso. Ela não cria obrigação de continuar.

Dash assentiu e renovou as marcas de vento antes de procurar uma abertura acima de nós. As construções já alcançavam uma altura que impedia qualquer leitura do conjunto pelo chão. Decidimos subir, levando conosco a posição das entradas bloqueadas, dos canos interrompidos e das praças soterradas.

Atravessamos um poço largo entre quatro torres. A claridade aumentou a cada andar, primeiro refletida por placas metálicas, depois direta, até que emergimos no meio de uma corrente aérea ocupada por centenas de pessoas. Elas voavam em faixas definidas, desviavam de plataformas móveis e atravessavam pontes feitas de ar comprimido. O ruído das conversas, das cargas e dos mecanismos substituiu de uma vez o vazio das ruas inferiores.

Entramos na corrente mais lenta e fomos notados aos poucos. Uma mulher diminuiu a velocidade para olhar Fenrir, ainda perceptível sob nossa pele. Um carregador apontou para Dash. Outros reconheceram as roupas estranhas e abriram espaço ao redor. O primeiro disparo veio de uma torre lateral, subiu acima das vias e explodiu numa fumaça vermelha. Mais três responderam de pontos diferentes.

O tráfego parou em círculos sucessivos. Pessoas ocuparam sacadas, plataformas e correntes superiores, formando uma arena vertical sem nos atacar. Dash se aproximou o suficiente para falar sem elevar a voz.

— Isso tem aparência de recepção ou de execução?

— Com a nossa sorte, devem ter combinado as duas coisas — respondi. — Fique perto de uma rota livre e não copie nenhum poder até sabermos o que esperam.

Os habitantes continuaram aguardando. Eu me desloquei para o centro do espaço aberto, mantive as mãos visíveis e deixei o vento sustentar nosso corpo sem qualquer demonstração de força.

— Vocês sabem por que fomos trazidos até esta cidade?

— Sabemos! — respondeu a multidão, espalhando a palavra entre os níveis.

A resposta informava menos do que eu precisava. Henri sugeriu que abandonássemos qualquer tentativa de soar majestosos e perguntássemos diretamente.

— O que esperam que aconteça agora? — continuei. — Elaryan nos chamou de Reis do Vento, mas chegamos hoje, não conhecemos suas leis e não pediremos obediência antes de conhecer vocês.

Algumas pessoas se entreolharam. Uma voz vinda das plataformas superiores gritou que o Rei Prometido deveria apresentar-se. Outras repetiram o título até que a expressão percorreu a cidade.

— Meu nome é Magno. Henri e Fenrir dividem comigo o corpo, as decisões e o poder que nos trouxe até aqui. Recebemos uma missão, mas ainda não sabemos quem fez essa promessa nem o que foi prometido em nosso nome.

As pessoas começaram a descer. O movimento esvaziou as correntes aéreas e abriu uma área maior ao nosso redor. O azul do céu perdeu cor, coberto por nuvens que surgiram entre as torres. A fumaça vermelha dos sinais misturou-se a elas, e descargas elétricas fecharam as saídas superiores.

Dash recuou até uma estrutura sólida. Fenrir reconheceu eletricidade no ar e preparou nossos músculos, enquanto Henri procurava o centro do fenômeno. Uma figura translúcida formou-se nas nuvens, grande o bastante para ocupar o espaço entre duas torres. Cabelos, braços e rosto tinham contornos de luz; os olhos mantinham uma direção precisa sobre nós.

— Então você é o Rei Prometido? — A voz atravessou o céu junto com o trovão.

— Disseram que fui trazido para essa função — respondi. — Ainda pretendo descobrir o conteúdo da promessa e quem a colocou neste povo.

— Shiva enviaria alguém desconfiado até da própria bênção — disse a imagem. — Eu sou Indra. Não entregarei meu povo ao enviado dela sem submetê-lo ao teste que esperei durante séculos.

O nome de Shiva aproximou-se de Elaryan dentro da minha cabeça, mas sem prova suficiente para unir as duas. Henri guardou a hipótese e Fenrir chamou nossa atenção para o ar que se fechava ao redor.

Uma rajada nos atingiu pelas costas e lançou o corpo contra uma corrente oposta. Recuperei a posição antes de alcançar a torre, porém raios desceram das nuvens e percorreram nossos braços, peito e pernas. A eletricidade encontrou saída pelo ar que controlávamos; a alteração das partículas ao redor, no entanto, abriu dor em cada poro. Gritei e concentrei a corrente num corredor estreito para afastar os habitantes que ainda ocupavam as sacadas.

— Ataque, Suzaku! Mostre se ele merece o título! — ordenou Indra.

A nuvem vermelha rompeu-se de dentro para fora. Uma ave gigantesca surgiu com penas acesas, cauda longa e garras capazes de envolver nosso tronco. Suzaku bateu as asas uma vez, e a chama lançada pelo bico ocupou toda a passagem entre as torres.

Fenrir pediu espaço e saiu de nossa pele num salto. O corpo lupino ganhou forma durante a queda, apoiou as patas numa pista de ar congelado e soprou contra o fogo. Gelo e chama se encontraram acima da cidade, espalhando vapor sem atingir as plataformas inferiores.

Suzaku atravessou o vapor e golpeou a lateral de Fenrir. As garras abriram três cortes no dorso do lobo; Fenrir girou sobre a pista, alcançou uma asa e rasgou penas em brasa. A ave perdeu altura por alguns metros, recuperou o movimento e derreteu a extremidade do caminho congelado. Fenrir construiu outro apoio enquanto caía.

Eu aumentei a densidade do ar diante de Suzaku. O voo perdeu velocidade, permitindo que Fenrir alcançasse o pescoço da ave e prendesse os dentes entre as penas. Suzaku rodou no ar, arrastou-o contra uma torre e lançou calor diretamente sobre o corpo preso.

A imagem de Indra continuava imóvel no centro da tempestade. Voei até ela enquanto Henri mantinha uma camada de ar sobre nossas queimaduras. Nenhum raio partiu da figura quando me aproximei. Estendi a mão e encostei os dedos no ombro translúcido; a superfície cedeu, fria, mas conservou o contorno.

— Por que escolheu tocar em vez de atacar? — perguntou Indra.

— Porque você deixou que eu chegasse até aqui e esta imagem não levantou a mão contra mim. Quero saber quem conduz o ataque antes de ferir o que encontro.

— Suzaku conduzirá sua morte se você continuar procurando respostas durante a luta.

— Isso ainda depende do que ela escolher fazer quando puder escolher.

Suzaku soltou uma descarga de fogo sobre Fenrir. O lobo perdeu a mordida e caiu com o pelo queimado. Eu o puxei por uma corrente de ar, recebi seu corpo contra o peito e abri a simbiose para que retornasse. A dor dele entrou conosco, acompanhada por uma certeza: a ave atacava sob a ordem de Indra, mas avaliava cada reação.

Outra chama veio em nossa direção. Retirei o oxigênio apenas do corredor ocupado pelo golpe, deixando bolsas laterais para preservar a respiração dos habitantes. O fogo apagou antes de alcançar nosso rosto. Suzaku abriu o bico novamente e lançou matéria incandescente, densa demais para depender da combustão.

A barreira de ar desviou a parte central da lava, porém gotas atravessaram a pressão e queimaram nosso rosto, ombro e peito. Henri segurou o movimento do braço para impedir que eu espalhasse a corrente sobre as pessoas abaixo. Fenrir acompanhou o ritmo das asas e avisou quando Suzaku iniciou outro mergulho.

A ave veio diretamente contra nós, mas reduziu a velocidade fora da região de ar denso. Os olhos se fixaram nos nossos, e o fogo das penas baixou até revelar o vermelho escuro sob a luz. Fenrir reconheceu a pausa como avaliação e recolheu as garras que já formava em nossas mãos. Henri abriu espaço na consciência compartilhada sem abandonar a própria posição.

Eu voltei ao ponto ocupado pela imagem de Indra e deixei os braços junto ao corpo. Suzaku poderia desviar, atravessar a projeção ou nos rasgar. Mantive a passagem aberta e ofereci aquilo que Fenrir recebera de nós: presença sem apagamento, saída quando desejasse e voz dentro da decisão comum.

Suzaku bateu as asas uma última vez. A imagem de Indra atravessou primeiro o peito da ave; em seguida, o bico e as penas passaram pelo nosso corpo sem ferir a pele. O calor ocupou músculos, sangue e pensamento. Caí de joelhos sobre uma camada de ar que Henri conseguiu sustentar, enquanto Fenrir cercava a nova consciência e impedia que o instinto de fogo se espalhasse.

A ave já não voava diante de nós. Dentro da simbiose, encontrei uma extensão adormecida, feita de calor, altura e lembranças fechadas. Suzaku não entregou sua história, mas permaneceu porque quis. Henri tocou a nova ligação com cautela, e Fenrir aceitou dividir o espaço sem se curvar a ela.

Indra observou a ausência da ave e baixou os braços. As nuvens perderam a cor vermelha, embora os raios ainda corressem longe entre as torres.

— Ela escolheu você — disse ele. — Suzaku encontrou um novo rei e um novo corpo onde poderá permanecer. Minha carne desapareceu há muito tempo, e minha alma ficou presa à existência dela. Agora posso dormir até o fim desta era e aguardar o momento em que a vida me alcance outra vez.

— Quem fez a promessa? Shiva sabia que você esperaria aqui?

— Você recebeu o poder e ainda terá tempo para descobrir o nome de quem preparou sua chegada. Eu já usei o meu.

O rosto de Indra perdeu definição. Antes que eu repetisse a pergunta, o vento levou a imagem em fragmentos luminosos e abriu novamente o céu. Os habitantes começaram a ocupar as plataformas, primeiro em silêncio, depois com vozes que cresciam dos níveis inferiores. O teste terminara; nossa ignorância continuava quase inteira.

Dash saiu detrás da estrutura e aproximou-se devagar, olhando para as queimaduras que já começavam a fechar e para o espaço vazio onde Suzaku estivera.

— Eu tinha autorização para intervir ou o protocolo real exigia que eu assistisse?

— Você cumpriu a parte mais importante: não absorveu um deus no primeiro dia — respondi. — Já temos consciências suficientes para organizar.

Henri riu dentro de mim, mas Suzaku reagiu com uma onda de calor que percorreu o peito. Fenrir respondeu mostrando os dentes através de nossa boca. A convivência entre os dois ainda exigiria regras, espaço e uma conversa que nenhum deles conseguia realizar em palavras.

Uma mulher desceu de uma das torres e pousou diante de nós. Tinha rosto humano, asas largas, penas nos braços, garras nas mãos e patas no lugar dos pés. As roupas acompanhavam o movimento das asas sem cobri-las. Ela inclinou o corpo até quase tocar o chão.

— Sou uma das kinnaras. Nossa missão é servir ao Rei Supremo do Vento, e o palácio voltou a pertencer a você. Permita que eu o conduza ao descanso preparado.

A palavra servir ficou entre nós e ela. Depois do que ouvíramos naquela manhã, aceitar aquela frase sem perguntas seria repetir a mesma facilidade que recusáramos diante das duas cidades. Eu quis saber seu nome, quem definira a missão e se ela podia escolher outra vida, mas as queimaduras fechavam devagar e o calor de Suzaku fazia cada parte do corpo exigir repouso.

— Iremos ao palácio, mas essa conversa sobre servir ainda não terminou — avisei. — E Dash vem conosco, caso ele aceite.

Dash olhou para a cidade abaixo, onde sinais vermelhos deram lugar a luzes, música e uma celebração que se espalhava pelas pontes aéreas. Depois verificou a rota que marcara até a floresta e assentiu.

— Eu aceito. Só gostaria de chegar ao quarto sem morrer uma terceira vez.

A kinnara ergueu-se e abriu as asas, satisfeita por poder cumprir ao menos aquela parte do que considerava sua função. Seguimos atrás dela em direção ao prédio suspenso mais alto. Henri manteve nosso voo estável, Fenrir observou Suzaku e eu guardei a pergunta sobre Shiva para quando o corpo deixasse de arder.

O palácio abriu portas douradas diante de nós. A música da cidade subiu até as janelas, Dash recebeu um aposento próximo e a kinnara nos conduziu a um quarto preparado havia tempo demais para alguém cuja chegada fora prometida. Deitamos ainda vestidos. Suzaku aqueceu o espaço sob nossas costelas, Fenrir conservou distância e Henri permaneceu comigo até o sono vencer as quatro consciências reunidas.

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