Reis do Vento Liberdade do Vento · Capítulo 27 de 49
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Reis do Vento

A alteração de pressão nos conduziu até Athos. Ele estava com parte do grupo perto de uma passagem ainda fechada, acompanhado por uma mulher que eu nunca vira. A postura dela mantinha os outros afastados, e nem Fenrir conseguiu separar seu cheiro dos resíduos de diferentes planetas presos às roupas.

Athos percebeu nossa aproximação, mas não veio ao encontro. A mulher disse alguma coisa que o vento não trouxe até nós. Ele abriu um portal largo, conduziu o grupo para o outro lado e atravessou depois deles. A passagem fechou antes que eu perguntasse por que o tempo correra em Vésper.

Henri tentou registrar quantas pessoas haviam partido e qual direção a abertura assumira. Fenrir procurou o cheiro de Athos no ar, mas uma segunda ruptura eliminou os rastros. Outra mulher atravessou sozinha e fechou o espaço atrás de si.

Ela nos examinou sem procurar apresentação ou permissão para aproximar-se, mantendo as mãos relaxadas enquanto os olhos percorriam cada reação do corpo.

— Magno e Henri, finalmente encontro vocês conscientes daquilo que dividem — disse. — Fenrir também continua aí, ocupando uma terceira direção dentro do mesmo corpo.

O nome que ouvimos em profecias, ameaças e decisões alheias chegou à minha boca antes que eu desejasse pronunciá-lo.

— Você é Elaryan, a pessoa que todos temem enfrentar diretamente.

— Esse é o nome que vocês aprenderam — respondeu ela. — Serve para esta conversa.

Fenrir tentou identificar idade, espécie ou ritmo cardíaco. Cada sentido entregava uma informação diferente. Henri concentrou-se no chão, na posição das sombras e na distância até a cidade dos lobos. Esses sinais continuavam estáveis, embora a presença dela tivesse interrompido as alterações de pressão.

Elaryan circulou ao nosso redor e observou os braços, a respiração e os pequenos ajustes de postura produzidos pelas três consciências.

— Uniões completas entre duas pessoas já foram tratadas como castigo em tempos antigos — explicou. — Poucas conservaram duas vontades ativas por tanto tempo. A entrada de Fenrir torna o caso ainda mais raro, pois ele atravessou vários hospedeiros sem estabelecer uma estrutura semelhante.

— Se veio apenas estudar nosso corpo, escolheu um momento ruim — respondeu Henri por nossa voz. — O fluxo do tempo em Vésper mudou, e Athos acabou de partir sem explicar a causa.

Elaryan deixou o interesse pela simbiose e olhou para o ponto onde o portal se fechara, ainda marcado por uma distorção fina no ar.

— A proteção de Athos isolava Vésper do avanço temporal dos outros mundos. Eu abri uma falha e mantive este lado em movimento. Ele possui algum tempo para concluir o que considera importante, mas continua do outro lado enquanto conversamos.

— Você rompeu uma estrutura que ele criou ou já sabia onde ela falharia? — perguntei.

— Recordo ciclos completos deste Universo — respondeu Elaryan. — Conheço caminhos que já chegaram ao fim e sei quais escolhas costumam conduzi-los. Este ciclo ainda produz variações de gesto, afeto e oportunidade. Vocês três constituem uma delas.

A afirmação não nos obrigava a aceitar que ela conhecia o futuro inteiro. A falha temporal diante de nós, no entanto, demonstrava que possuía conhecimento ou poder suficiente para alcançar uma proteção de Athos.

Henri procurou o limite mais imediato daquela explicação e dirigiu a atenção dela para as pessoas mantidas fora de Vésper.

— O que acontece com quem permanece fora de Vésper enquanto você mantém esta falha?

— Para vocês, podem passar dias, anos ou eras — informou Elaryan. — No lado onde deixaram Ilana, o tempo permanece retido pela diferença que acabei de produzir.

Meu corpo reagiu ao nome antes que Henri formulasse uma pergunta. Ilana continuava no planeta de Médera, ligada a uma vida que eu recuperara havia pouco. A possibilidade de séculos se acumularem entre nós enquanto nenhum instante a alcançava transformou distância em outra forma de cárcere.

— Não use Ilana para me conduzir — exigi. — Diga o que pretende fazer com Vésper e com nossos povos.

Elaryan aceitou a mudança sem se defender da acusação e voltou o corpo na direção das duas cidades erguidas sobre a planície.

— Athos criou um planeta numa extremidade do Universo. Eu preparei outros três nas regiões opostas. Cada um receberá povos ligados a uma força dominante, e o mundo do ar precisa de uma liderança capaz de sobreviver ao que virá.

Ela apontou para mim, embora Henri e Fenrir ocupassem o mesmo corpo e tivessem participado das decisões que acabara de descrever.

— Magno será o rei desse planeta. Ele avança quando os outros ainda medem o risco e consegue transformar impulso em movimento coletivo.

Henri assumiu nossa voz antes que eu reagisse e obrigou Elaryan a reconhecer em palavras a liderança que tentava dividir.

— Você escolheu uma descrição conveniente e ignorou metade das decisões que nos trouxeram até aqui. Magno e eu governamos juntos quando governamos, e Fenrir participa de qualquer escolha que envolva a alcateia.

— Eu distingo quem conduz cada gesto — declarou Elaryan. — Posso dirigir-me à consciência que me interessa.

— Distinguir não lhe dá o direito de separar — respondi. — Nenhum de nós aceitará um reino construído pela retirada dos outros dois.

Fenrir projetou a própria presença para a voz e deixou os dentes alongarem-se dentro de nossa boca, tornando visível sua participação.

— A cidade dos lobos também não seguirá um título que me apague.

Elaryan observou a alteração física sem demonstrar surpresa. Depois indicou as duas cidades, onde a faixa verde ainda recebia moradores, livros e suprimentos.

— O povo de Finiti e os habitantes da cidade que alguns chamam de Nova Asgard acompanharão vocês. As estruturas também serão levadas, para reduzir a desorientação na chegada.

— Eles não concordaram em abandonar Vésper novamente — disse Henri. — Você terá de apresentar a proposta aos conselhos.

— Não estou propondo uma viagem — respondeu Elaryan. — Todos morrerão aqui, renascerão dentro desta galáxia, morrerão uma segunda vez e serão enviados ao planeta do ar. A participação de vocês altera apenas quem estará perto deles quando isso acontecer.

Fenrir lançou nosso corpo para a frente, mas Henri conteve as pernas antes do primeiro passo. Atacar naquele instante deixaria as cidades sem aviso e entregaria a Elaryan a reação que ela esperava.

— Por que duas mortes? — perguntei, ganhando tempo enquanto procurávamos Toqueville, Arc ou qualquer corrente de ar capaz de levar um chamado.

— Vésper limita o renascimento à própria galáxia — explicou. — Uma morte coletiva tende a reunir destinos próximos. A segunda passagem eleva os corpos ao nível necessário para o novo planeta. Depois transportarei pessoas e construções para o lugar preparado.

Henri tratou a explicação como hipótese até encontrar prova. Eu empurrei uma corrente estreita em direção às cidades, levando uma ordem curta para Toqueville e Arc retirarem todos das áreas fechadas e manterem os grupos juntos. A corrente avançou poucos metros e desapareceu entre os dedos de Elaryan.

— Não haverá abrigo capaz de impedir o processo — avisou ela. — Posso executá-lo sem dor suficiente para que percebam.

— A ausência de dor não transforma assassinato em transporte — respondeu Henri. — Você está usando a morte porque ninguém aceitaria o destino que escolheu.

Elaryan não contestou. A tranquilidade dela, mesmo diante de milhares de vidas ameaçadas, confirmou que consentimento nunca integrara o plano apresentado.

Tentamos uma segunda comunicação pelo uivo de Fenrir. O som atravessou a planície e recebeu respostas da cidade dos lobos antes que Elaryan comprimisse o ar ao redor de nossa garganta. Algumas equipes haviam escutado; ainda existia uma chance de se reunirem.

Henri marcou a posição dela em relação ao vento. Fenrir procurou pulsação e mudança de peso. Eu preparei uma corrente capaz de separar o ar junto às mãos de Elaryan e afastar qualquer matéria que ela lançasse. Decidimos atacar apenas depois que as respostas da alcateia se aproximaram das áreas abertas.

Avançamos juntos. Henri controlou pernas e equilíbrio, eu conduzi uma lâmina de ar contra o braço direito dela e Fenrir transformou nossas mãos para alcançar o corpo caso a corrente falhasse.

Elaryan permaneceu imóvel. Um ponto branco surgiu diante de seu dedo e atravessou nossa defesa, o peito e as três consciências no mesmo instante. A dor interrompeu o ar antes que o corpo tocasse o chão.

Despertei flutuando num espaço sem superfície próxima. Henri voltou comigo e Fenrir surgiu depois, desorientado pela ausência de cheiro e gravidade. O ferimento sumira, mas o corpo respondia com força diferente. Nossos movimentos empurravam o vazio sem produzir direção.

As primeiras pessoas apareceram ao redor: moradores de Finiti, lobos em formas diversas, integrantes dos conselhos e famílias que ainda carregavam objetos quando morreram. Cada chegada ampliava a distância do grupo e o pânico de quem despertava sem chão.

— Procurem a voz e mantenham os corpos próximos! — gritei, embora o som encontrasse pouca matéria para viajar. — Manipuladores do ar, tentem formar bolsões entre as pessoas!

Henri reuniu quem conseguia ouvir e pediu que mãos fossem dadas antes que a dispersão aumentasse. Fenrir identificou membros da alcateia por lembrança, já que nenhum cheiro sobrevivia no vazio. Eu produzi ar em pequenas regiões, suficiente para carregar vozes e empurrar grupos na mesma direção.

Toqueville alcançou uma dessas regiões com três moradores desorientados e perguntou quantas pessoas ainda faltavam. Não consegui responder. A população continuava surgindo em centenas, depois milhares, espalhada além do que nossos olhos alcançavam.

Linhas luminosas apareceram ao longe. Henri reconheceu a repetição geométrica antes que a primeira cortasse um grupo fora do bolsão de ar.

— Fechem as regiões e mudem a direção agora! — ordenou ele. — As linhas cruzam o espaço em intervalos regulares!

Tentei deslocar o ar que reuníramos. A luz atravessou cada corrente sem perder velocidade. Fenrir assumiu nossos braços para puxar Toqueville e os outros, mas novas linhas vieram de cima, dos lados e de pontos que não possuíam orientação reconhecível.

Uma delas alcançou nosso corpo enquanto tentávamos mudar a direção de Toqueville. O vazio, as vozes e a pressão de Henri desapareceram juntos.

O segundo despertar aconteceu longe dos outros. Nossos sentidos voltaram com alcance maior, e o corpo respondeu ao primeiro impulso lançando-nos por uma distância que antes exigiria uma tempestade. A força aumentara; o direito de recusá-la continuava ausente.

Pessoas renasceram em pontos mais dispersos. Antes que tentássemos reconstruir os grupos, uma pressão invisível envolveu cada corpo e começou a conduzir todos para a mesma direção. Eu resisti com o ar, Henri procurou uma borda e Fenrir atacou a força com as mãos transformadas. Nenhum gesto alterou o percurso.

Um portal ocupou o espaço à frente. A pressão nos levou através dele, seguida por milhares de pessoas. A luz mudou, a gravidade retornou e caímos numa planície diante de construções conhecidas.

A cidade dos Ventos e a cidade dos lobos estavam ali, separadas pela faixa verde construída em Vésper. As paredes conservavam marcas recentes, livros continuavam sobre mesas e canais mantinham a água acumulada durante a primeira instalação. Elaryan transportara as estruturas junto com os habitantes.

O céu, porém, pertencia a outro mundo. Além das duas cidades, torres, bairros e vias aéreas cobriam o horizonte. Povos inteiros ocupavam regiões sucessivas, muito além do território que conseguíamos distinguir do chão.

Elaryan nos aguardava perto da construção do conselho, sem poeira nas roupas ou qualquer sinal do deslocamento que impusera a todos.

— Já decidiram se continuarão reis ou se devo colocar outras pessoas sobre os dois povos que conhecem? — perguntou.

Henri e eu avaliamos a escolha dentro do corpo compartilhado. Recusar o título não devolveria ninguém a Vésper e permitiria que Elaryan instalasse governantes sem ligação com Finiti ou com a alcateia. Aceitar nos mantinha perto das comunidades, criava acesso ao reino e preservava alguma possibilidade de oposição.

Fenrir concordou com a estratégia, mas exigiu que nenhuma resposta prometesse lealdade, submissão da alcateia ou gratidão pelas novas capacidades.

— Nós somos e continuaremos Reis do Vento — declaramos.

— Então acompanhem-me e conheçam aquilo que receberam — ordenou Elaryan, elevando-se do chão.

Seguimos porque precisávamos medir o novo planeta, não porque a ordem transformara coerção em escolha. Voar exigiu menos esforço depois do segundo renascimento. A gravidade cedeu ao primeiro comando, e a velocidade respondeu a ajustes pequenos da corrente ao redor do corpo.

Elaryan subiu até que as cidades trazidas de Vésper ocupassem apenas uma fração da paisagem. Em todas as direções, outras construções se estendiam: cidades suspensas, torres ligadas por pontes de ar, bairros presos a montanhas e regiões inteiras escondidas sob nuvens organizadas.

— Os povos que enxergam daqui compõem apenas parte do reino — disse Elaryan. — Vocês administrarão conflitos, recursos e defesa, mas responderão às minhas ordens quando eu as emitir.

— E quando recusarmos uma ordem contra essas pessoas? — perguntou Henri.

— Colocarei outros reis no lugar e prenderei vocês no núcleo deste planeta — respondeu ela. — A prisão foi construída para impedir fuga, inclusive depois da evolução que receberam. Poseidon e Hades conhecem estruturas semelhantes.

Elaryan aproximou-se o suficiente para falar sem elevar a voz, mantendo o novo reino inteiro abaixo de nós durante a ameaça.

— Ainda posso conduzi-los até Ilana, reunir os Mestres do Ar e devolver a Henri os pais que perdeu. Também posso manter cada uma dessas pendências fora do alcance de vocês enquanto o ciclo exigir.

As ofertas repetiam a forma da ameaça: pessoas que amávamos transformadas em instrumentos para garantir obediência. Nenhuma promessa recebeu confiança apenas porque ela demonstrara poder para cumpri-la.

Elaryan desceu e nos deixou acima do reino por alguns instantes. Precisávamos voltar às duas cidades, descobrir quem sobrevivera com as próprias memórias, explicar por que aceitáramos o título e entrar num território que já possuía povos, leis e possíveis governantes.

Henri começou a organizar perguntas. Fenrir procurou no novo corpo os limites do poder recebido. Eu olhei para as cidades no horizonte e compreendi que anunciar nossa condição de reis seria a parte mais simples da imposição que ainda teríamos de enfrentar.

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