A Nova Cidade dos Lobos
A passagem de Athos nos deixou numa planície de Vésper perto da cidade dos Ventos. A alcateia atravessou em grupos, primeiro os feridos e quem precisava de ajuda para conservar a forma humana, depois famílias, equipes de patrulha e os lobos que carregavam objetos trazidos de Inc. Perséfone chegou com Athena, ainda testando cada passo longe do submundo.
Athos verificou a respiração de Silency e pediu que Sussurro o acompanhasse até a casa onde poderiam cuidar do ferimento. Dafa seguiu durante os primeiros minutos para estabilizá-la. O restante do grupo permaneceu diante de centenas de recém-chegados sem abrigo, água armazenada ou conhecimento do terreno.
Krakor percorreu a planície com os olhos, mediu a distância até a cidade dos Ventos e bateu uma mão no ombro de Trovar.
— Podemos reproduzir Asgard antes que alguém precise dormir ao relento — propôs. — Temos manipuladores de matéria, portais para transportar material e moradores capazes de corrigir o projeto enquanto construímos.
Toqueville pediu que a alcateia não recebesse uma cópia pronta da cidade abandonada. As casas de Asgard haviam sido feitas para formas humanas, embora muitos lobos dormissem, se alimentassem ou convivessem melhor em corpos maiores. Outros queriam distância do castelo que recordava a autoridade de Freya e Hades.
Henri pediu que cada equipe escolhesse representantes por rua, família ou grupo de convivência. Fenrir ajudou a traduzir necessidades que alguns expressavam por cheiro, postura e memória territorial. Em poucos minutos, tínhamos um traçado provisório: vias largas para corpos lupinos, canais rasos, áreas de gelo, pátios sem portas e casas capazes de ampliar as entradas.
— Construam primeiro água, abrigo comum, depósito e enfermaria — pedi. — As moradias recebem apenas a estrutura externa até que cada grupo confirme divisão, acesso e tamanho. Ninguém perde a escolha porque nossos aliados trabalham depressa.
Krakor aceitou a ordem das prioridades sem esconder a vontade de começar pelas torres. Trovar abriu passagens curtas para trazer pedra de uma região desabitada que Athos já havia autorizado. Bel ergueu fundações, Hagar e Dafa separaram materiais, e os manipuladores de ar da alcateia retiraram poeira das áreas ocupadas.
A cidade cresceu diante de nós numa velocidade difícil de acompanhar. As paredes subiam, recebiam aberturas maiores ou recuavam quando os futuros moradores apontavam falhas. Um grupo pediu telhados baixos para acumular frio; outro preferiu pátios expostos. As primeiras ruas conservaram elementos de Asgard, mas a repetição terminou assim que as escolhas dos moradores alcançaram as construções.
Krakor deixou uma avenida aberta em direção à cidade dos Ventos. Entre as duas comunidades, preservamos uma faixa verde com água, espaço de reunião e nenhuma muralha. A proximidade permitiria comércio e ajuda, mas as ruas não se fundiam a ponto de apagar quem administrava cada lado.
No centro, ergueram uma construção com torre, salão e quartos suficientes para receber conselhos. Sua semelhança com um castelo atraiu olhares para mim.
— Esse lugar será seu, Alfa — disse um dos representantes. — As reuniões precisam de uma casa, e todos esperam encontrá-lo aqui.
— As reuniões podem usar o salão, mas a construção não será minha — respondi. — Reservem quartos para vigias, visitantes e pessoas deslocadas. Eu ocuparei um deles quando estiver trabalhando com a alcateia.
Toqueville esperou até que os representantes começassem a distribuir as primeiras moradias. Da janela da torre, a cidade dos Ventos aparecia do outro lado da faixa verde.
— Ainda assim, você foi recebido como rei em uma comunidade e Alfa na outra — observou ele. — Como pretende estar presente nos dois lugares sem transformar toda decisão numa espera por você?
— Isso me preocupa mais do que o tamanho da casa — admiti. — Na cidade dos Ventos deixamos Major Arc, Dash e Scélor. Também existem pessoas capazes de governar aqui, começando por você e pelos representantes que acabaram de escolher o traçado.
Contei que ainda precisávamos encontrar os Mestres do Ar, desaparecidos durante a guerra de Finiti. A autoridade provisória de Arc não resolvia o risco que Nazer e os outros corriam, e a mudança para Vésper não anulava essa busca.
Toqueville apoiou as mãos no parapeito e observou as duas cidades enquanto moradores atravessavam a faixa verde levando água e ferramentas.
— Durante muito tempo, ensinei que o sofrimento acabaria produzindo alguma evolução — disse ele. — Depois do domínio de Hades, tenho dificuldade de repetir isso. Algumas pessoas encontram força depois de uma prisão, mas outras carregam feridas que ninguém deveria exigir delas.
— Aquilo que alguém constrói depois da violência pertence a essa pessoa — respondi. — Não transforma o agressor em mestre nem torna a violência necessária. Vi gente receber poder sem pagar com séculos de dor e vi prisioneiros perderem eras sem encontrar compensação.
Fenrir concordou por meio de uma lembrança corporal: hospedeiros que aprenderam a sobreviver e outros que apenas se tornaram mais isolados. A memória não oferecia uma regra, apenas vidas diferentes submetidas ao mesmo discurso.
Toqueville olhou para nosso corpo compartilhado e perguntou quando Magno e Henri pretendiam separar-se. Permanecíamos unidos desde Inc, apesar de a necessidade imediata de combate ter terminado.
Henri e eu examinamos juntos a possibilidade. A união já não doía, mas isso não significava que cada um tivesse deixado de precisar do próprio corpo. Escolhemos o mesmo momento e soltamos o vínculo sem disputa.
O mundo afastou-se de um dos meus olhos e voltou a ocupar apenas a extensão do meu corpo. Henri surgiu ao meu lado, respirou profundamente e movimentou os braços. Fenrir permaneceu dentro de mim, atento à divisão.
— Fenrir, você não precisa ficar com nenhum de nós por obrigação — disse Henri. — Se a separação exigir uma escolha, ela pode valer apenas até nos unirmos outra vez.
— Permanecerei com Magno durante a primeira transição da alcateia — respondeu Fenrir pela minha voz. — Os lobos reconhecem meu cheiro nele, e precisamos observar o que Vésper fará com nossos corpos. Meu vínculo com você continua.
Henri aceitou sem esconder a falta produzida pela separação. Ainda conseguíamos perceber emoções um do outro, porém elas chegavam sem pensamentos completos. Eu sentia o alívio dele ao olhar a cidade dos Ventos e também uma vontade quieta de permanecer naquele planeta.
— Quero ficar em Vésper por algum tempo — confessou Henri. — Não desejo partir outra vez antes de conhecer a casa que ajudamos a prometer aos dois povos.
Eu compartilhava a vontade, mas Fenrir desviou nossa atenção para o céu. A luz vinha de estrelas enormes e distantes; nenhum corpo próximo reproduzia a lua de Inc ou o ciclo que desencadeava as transformações da alcateia.
— Athos mencionou que Vésper não possui luas próximas — falei. — Sabemos o que acontece quando a luz de Inc deixa de alcançar vocês?
Toqueville chamou dois lobos mais velhos antes de responder. As três memórias coincidiam em pontos importantes: integrantes mantidos no submundo por longos períodos perdiam controle, atacavam companheiros e, em casos extremos, matavam uns aos outros. A forma selvagem surgia sob a lua de Inc em intervalos que variavam, mas ninguém havia isolado a causa.
— Chamamos de composto porque alguma coisa na luz altera o corpo — explicou Toqueville. — Nunca coletamos a substância nem provamos que seja química. O limite de um ou dois meses vem das histórias da alcateia, não de uma medição segura.
Henri recusou esperar pelo primeiro descontrole. Propôs registrar sono, temperatura, agressividade involuntária, alteração de cheiro e capacidade de transformação desde aquele dia. Dafa poderia comparar amostras sem expor ninguém, e Athos precisaria manter uma rota de retorno disponível.
— Se os sinais crescerem, passamos uma noite em Inc ou numa região que reproduza a luz — disse Henri. — Enquanto isso, investigamos se o estímulo pode ser recriado sem obrigar toda a comunidade a voltar ao planeta de onde acabou de sair.
Os representantes escolheram voluntários para o acompanhamento e exigiram que os registros pertencessem à alcateia, não apenas aos estudiosos do Éden. Toqueville assumiu a primeira coordenação e incluiu pessoas que haviam decidido permanecer em Inc como fonte de comparação.
Fenrir testou o ar de Vésper. A atmosfera menos densa respondia com rapidez, e uma corrente formada por mim alcançou a praça quase sem esforço. Alguns lobos fizeram o mesmo; outros reuniram água nos canais recém-criados e a cobriram de gelo. A cidade começava a revelar capacidades que Asgard nunca exigira deles.
— Podemos aprender com o povo do Vento e oferecer em troca o domínio da água e do gelo — sugeriu Toqueville. — A faixa entre as cidades já possui espaço para esse encontro.
Henri quis visitar a outra comunidade antes que o trabalho daquele dia terminasse. Seguimos pela avenida aberta durante a construção, atravessando casas ainda em ajuste e moradores que marcavam portas, escolhiam quartos ou transformavam pátios em áreas frias.
A cidade dos Ventos repetia partes de Finiti, mas Krakor e Scélor haviam adaptado edifícios às condições de Vésper. Henri tocou uma parede trabalhada com o desenho da antiga praça e sentiu falta de pessoas que ainda procurávamos. O sentimento chegou até mim sem trazer as palavras exatas.
— Consigo sentir sua saudade, mas não sei o que está lembrando — contei. — Separados, ainda compartilhamos a direção da emoção, não toda a memória.
— Estou pensando em Falcão e nos Mestres do Ar — respondeu Henri. — É bom poder escolher o que entrego a você e saber que não preciso esconder o restante.
O castelo da cidade dos Ventos mantinha um salão de reuniões e nenhum luxo além do necessário para receber muita gente. Major Arc nos aguardava com Dash e Scélor. Mapas, listas de suprimentos e registros de turnos ocupavam a mesa.
Arc cumprimentou Henri primeiro e depois a mim. O alívio dele veio acompanhado por preocupação e pela urgência de apresentar os registros acumulados.
— Majestade, o tempo continuou correndo enquanto vocês estavam fora — informou. — Recebemos a orientação de que a passagem por outros mundos não produziria este intervalo aqui. Não enfrentamos ataque, mas a ausência dos reis depois da retirada de Finiti deixou decisões sem prazo.
Henri pediu os registros antes de responder. As folhas mostravam refeições distribuídas, turnos de guarda, excursões e dias riscados desde nossa partida. O intervalo superava o que havíamos vivido em Inc, mesmo sem uma medida comum entre os planetas.
Dash apontou para uma coluna de decisões emergenciais assinadas por Arc, Scélor e representantes dos bairros durante todo o período de nossa ausência.
— Arc propôs concentrar o comando até vocês voltarem — explicou. — Eu e Scélor concordamos com medidas temporárias, mas recusamos transformar urgência em coroação. O conselho passou a exigir três assinaturas.
— Dash também usou a força que copiou de vocês para impedir uma ruptura no depósito durante uma discussão — acrescentou Scélor. — Depois devolveu a decisão ao grupo em vez de usar o poder como argumento.
Dash abriu a mão e produziu uma corrente breve. O toque recebido durante a batalha ainda lhe permitia reproduzir parte de nossa manipulação do ar.
— Foi a pequena ajuda que roubei de vocês sem pedir — reconheceu. — Desta vez ela serviu para evitar que duas paredes caíssem, não para escolher um rei.
Henri agradeceu aos três. Disse a Arc que a disciplina militar podia preservar vidas durante uma emergência, mas precisava de prazo, fiscalização e pessoas capazes de discordar. Recordou Falcão sem transformar a lembrança numa sentença para todos.
— Meu pai evitava a guerra e ainda mantinha o reino preparado para enfrentá-la — disse Henri. — A traição que o matou não prova que a paz era fraqueza. Prova que força concentrada sem controle pode voltar-se contra quem deveria proteger.
Arc recebeu a crítica sem abandonar o posto. Entregou os registros e pediu que o conselho provisório continuasse até uma assembleia definir a forma de governo. Henri concordou.
— Antes de discutirmos meu título, preciso saber o que o povo pediu durante nossa ausência — afirmou Henri. — Quais decisões ficaram paradas por falta de acesso, recurso ou informação?
Arc mostrou uma lista de excursões organizadas por moradores interessados em outras comunidades de Vésper. Algumas haviam ocorrido sem guia ou rota de retorno. A única Zona Livre trazida de Finiti não comportava todos os interessados, e faltavam livros sobre os mundos que agora podiam visitar.
— Um grupo iniciou greve de fome diante da Zona Livre — explicou Arc. — Eles exigem acesso ao conhecimento e recusam alimento enquanto não houver compromisso verificável. Alguns já precisam de atendimento.
Henri saiu do castelo antes de convocar qualquer assembleia. Fomos até a Zona Livre, onde vinte e três pessoas ocupavam a entrada. Cobertores, recipientes de água e cartazes escritos à mão cercavam corpos enfraquecidos. Curadores locais acompanhavam pressão, consciência e hidratação, mas não podiam obrigar ninguém a comer.
Henri sentou-se no chão diante dos manifestantes. Pediu que uma comissão apresentasse as reivindicações e permitiu que Dash registrasse cada item. Eles queriam horários públicos, cópias dos relatos trazidos pelos viajantes, acesso a bibliotecas de outras comunidades e participação na escolha do material importado.
— Posso abrir hoje os registros da nossa viagem e pedir livros a outras cidades — respondeu Henri. — Não vou exigir que encerrem a greve em troca de promessa. Definam quais medidas precisam ver antes de reconsiderar.
A comissão pediu atendimento imediato sem punição, publicação dos documentos até o fim do dia, calendário de portais acompanhado por guias e seis representantes no conselho da Zona Livre. Henri aceitou os pontos que dependiam de nós e encaminhou ao conselho a escolha dos representantes, que pertencia à comunidade.
Dash tocou o alarme da praça apenas depois que os manifestantes concordaram com uma assembleia. Arc organizou água e atendimento; Scélor abriu o primeiro corredor de ar para transportar livros e pessoas sem comprimir a multidão.
Na praça, Henri relatou os acontecimentos desde nossa partida e distinguiu observação de hipótese. Não apresentou Hades, Loki ou Elaryan como explicações completas. Anunciou a abertura dos registros, o intercâmbio com a nova cidade dos lobos e um calendário inicial de visitas acompanhado por moradores que conhecessem as rotas.
Os manifestantes conferiram as listas afixadas na Zona Livre e escolheram suspender a greve durante a implementação. Os primeiros aceitaram alimento em pequenas porções sob orientação dos curadores. A fome física não desapareceu com a informação, e a disputa política também não terminou naquela tarde.
Representantes das duas cidades reuniram-se na faixa verde. Lobos demonstraram controle de gelo e água; manipuladores do Vento ofereceram treinamento com a atmosfera leve de Vésper. A celebração nasceu do encontro, mas os conselhos conservaram tarefas, prazos e divergências registradas.
Quando voltamos em direção ao grupo de Athos, Henri comparou novamente a duração indicada nos registros com o tempo vivido por nós fora de Vésper. A diferença não cabia na margem dos portais nem nas explicações que havíamos recebido.
Fenrir percebeu uma alteração no ar antes de alcançarmos a planície. Nenhum cheiro identificava ameaça, mas a pressão mudava em intervalos regulares, acompanhando uma força que abria e fechava espaço mais adiante.
Olhei para Henri. A união aconteceu por decisão simultânea, e Fenrir voltou a ocupar o corpo compartilhado sem resistência. Seguimos os três em direção aos portais, sabendo apenas que o tempo de Vésper deixara de obedecer à proteção em que todos confiavam.