Histórias Que se Reencontram Liberdade do Vento · Capítulo 30 de 49
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Histórias Que se Reencontram

A discussão das kinnaras ainda ocupava o salão quando uma linha violeta atravessou o piso e parou junto aos nossos pés. A luz desenhou uma porta, três círculos e uma seta voltada para o corredor leste. K1 reconheceu o sinal e informou que Elaryan nos aguardava na sala de observação do palácio.

Ilana quis acompanhar, mas a linha se apagou diante dela quando tentou entrar no corredor. A barreira não a feriu; apenas endureceu o ar até tornar o passo impossível. Eu estendi a mão e atravessei sem resistência. Henri sentiu a diferença junto comigo, enquanto Fenrir e Suzaku reagiam à matéria organizada por uma vontade que já conheciam.

— Vá — disse Ilana. — Depois você me conta o que puder contar.

Seguimos unidos. Kaconforma abriu duas portas e recusou avançar além da segunda, explicando que nenhuma kinnara recebia acesso àquela parte do palácio. O corredor terminava numa sala circular, sem janelas, onde três estruturas de vidro ocupavam o centro. Imagens em movimento preenchiam cada superfície.

Elaryan estava diante delas com as mãos apoiadas numa mesa metálica. A primeira imagem mostrava uma cidade de torres baixas e pistas iluminadas; a segunda, dois homens trabalhando ao redor de uma máquina aberta para o céu; a terceira, uma floresta cortada por um lago.

Henri reconheceu o homem do primeiro painel antes que eu encontrasse o rosto entre os grupos em movimento. A respiração dele alterou nosso peito e produziu uma corrente de ar que bateu contra o vidro.

— Meu pai. É ele, Magno. Meu pai continua vivo.

Elaryan virou-se apenas depois de ajustar um conjunto de anéis sobre a mesa e ampliar a imagem de Falcão no centro do primeiro painel.

— Prometi que o traria de volta quando a trajetória dele alcançasse este ponto. Nazer, Nazerith e Alice também chegaram aos lugares de onde posso retirá-los sem interromper escolhas necessárias.

— Você sabia tudo que aconteceria com eles? — perguntei.

— Conheço os caminhos completos de outros ciclos — respondeu ela. — Reconheço cidades, mortes, encontros e decisões que costumam se repetir. Neste ciclo, uma fala muda de lugar, alguém permanece quando partia ou ama uma pessoa diferente. Por isso observo.

Os painéis mostravam corpos e lugares, mas nenhum pensamento apareceu neles. Elaryan ampliava imagens, seguia deslocamentos e comparava marcas de energia. A máquina oferecia alcance suficiente para vigiar mundos; não demonstrava acesso irrestrito ao que cada pessoa sentia.

No primeiro painel, Falcão conduzia dezenas de libertados por uma avenida que saía do complexo de produção. Alguns ainda traziam queimaduras das hastes de castigo. Outros caminhavam com as pernas instáveis depois de anos correndo para alimentar a cidade. Atrás deles, as pistas tinham parado e as linhas azuis permaneciam apagadas.

Quanto mais o grupo se afastava, mais o ar respondia aos movimentos de Falcão. Primeiro, a poeira abriu caminho ao redor de seus pés; depois, uma rajada retirou armas das mãos de dois cultivadores. Quando chegaram às primeiras torres administrativas, ele já conseguia sustentar o próprio corpo acima do chão.

O homem de Zen, que marchava ao lado dele, ergueu água dos reservatórios presos às paredes. Uma mulher aqueceu as grades de uma passagem até o metal ceder. Outros recuperaram força sobre pedra, eletricidade e correntes de ar. A prisão suprimira capacidades individuais; a cidade começava a recebê-las de volta.

Os administradores fecharam as entradas da torre central e acionaram máquinas voadoras sobre a avenida. Uma voz projetada nas fachadas ordenou que os mantenedores retornassem às pistas e informou que qualquer resistência eliminaria o direito à recuperação.

Falcão subiu até a altura das máquinas, sem arma nas mãos, mantendo os outros revoltosos fora da primeira linha de disparos.

— As pistas estão vazias e continuarão assim — declarou. — Abram a torre, desliguem o sistema de castigo e respondam pelo que fizeram. Ninguém voltará a produzir energia com o próprio corpo.

O primeiro disparo atingiu a corrente diante do peito dele. Falcão desviou o projétil para cima e abriu espaço para que os outros avançassem. Água entrou nos mecanismos das máquinas, pedras romperam a base da porta e o calor cortou os cabos que alimentavam os sensores da avenida.

Três líderes surgiram numa plataforma protegida por placas transparentes. Atiraram contra os revoltosos e recusaram a rendição quando Falcão voltou a oferecê-la. Ele comprimiu o ar ao redor das armas; duas explodiram nas mãos de quem as segurava. A terceira foi arrancada e devolvida contra a plataforma depois que outro disparo alcançou uma mulher caída.

A luta terminou dentro da torre. Os dirigentes que continuaram atacando morreram entre os equipamentos destruídos, e os cultivadores que soltaram as armas foram mantidos sob guarda pelos próprios ex-prisioneiros. Falcão desligou o sistema central, abriu os compartimentos de recuperação e chamou representantes de cada pista.

— O trabalho forçado terminou — anunciou. — A cidade pertence a quem a sustenta. Decidam juntos o que continuará funcionando, o que será desmontado e quem responderá pelos crimes cometidos aqui.

Henri manteve os olhos no painel. Ele conhecia a forma de o pai distribuir decisão, mas nunca o vira voar nem assumir um combate depois de uma vida inteira dedicada à paz. A alegria de encontrá-lo vivo veio misturada ao choque de acompanhar corpos caídos aos pés da torre.

Elaryan tocou o vidro e atravessou a imagem. O painel continuou mostrando a avenida depois que ela surgiu diante de Falcão. Ele se virou, ainda coberto por poeira e sangue, enquanto os libertados levantavam armas ao redor dela.

— Um rei capaz de organizar uma revolta sem trono — disse Elaryan. — Seu filho conservou mais de você do que imagina.

— Henri está vivo? Diga onde está meu filho.

— Está esperando por você, embora ainda não saiba que esta conversa já começou.

Falcão levou a mão à boca e abaixou a cabeça. Quando tornou a olhar, as lágrimas tinham aberto dois caminhos na poeira do rosto.

— Você é uma deusa? Foi você quem me trouxe até este momento?

— Esse título explica pouco sobre mim. Posso atravessar mundos, alterar matéria e cumprir a promessa de levá-lo até seu filho. Nada disso obriga você a me adorar.

Falcão dobrou um joelho por impulso religioso, e parte dos libertados repetiu o gesto por hábito. Elaryan pediu que todos se levantassem antes que a reverência se espalhasse.

— Vocês acabaram de romper um sistema que exigia submissão física — acrescentou ela. — Não entreguem o corpo a uma desconhecida apenas porque chegou por um caminho que não compreendem.

Falcão se levantou, limpou o sangue seco da boca com o punho e recusou a mão que Elaryan ofereceu para partir.

— Primeiro preciso deixar este povo em condições de não voltar às pistas amanhã. Saber que meu filho vive não me autoriza a abandonar o que começamos.

Os representantes reuniram-se na avenida. Escolheram equipes para controlar os reservatórios, atender feridos, vigiar os antigos administradores e abrir os alojamentos mantidos sob tranca. Um grupo assumiu provisoriamente a torre até uma assembleia maior, com registros públicos das decisões. Falcão entregou os acessos que retirara dos dirigentes e só voltou a Elaryan depois que o primeiro comboio de comida saiu dos depósitos.

— Agora posso conhecer o caminho até Henri.

Elaryan segurou o braço dele, e os dois desapareceram do painel. A segunda imagem ganhou o centro da sala circular.

Nazer e Nazerith trabalhavam num planeta de vegetação baixa, cercados por peças metálicas, placas gravadas e cabos que subiam por uma torre estreita. Tinham construído anéis capazes de girar em direções independentes ao redor de uma lente. Cada ajuste projetava no chão um mapa de pontos luminosos.

Henri reconheceu Nazer pela postura curvada sobre os cálculos. Eu reconheci Nazerith pelo riso que atravessou o painel quando o irmão encaixou uma peça ao contrário. Os dois carregavam corpos novos, mas conservavam gestos, vozes e a maneira de corrigir um ao outro.

— Eles morreram juntos na prisão de Cronos e despertaram juntos ali — explicou Elaryan pela voz transmitida ao instrumento. — A recorrência existe, mas vocês não devem tratá-la como garantia para toda morte compartilhada.

Nazer controlou uma corrente fina dentro da máquina e fez os anéis atingirem velocidade maior sem tocar os suportes. Nazerith comparou o mapa produzido com registros riscados numa placa. Eles haviam localizado galáxias, calculado a posição aproximada de Finiti e iniciado um emissor capaz de atravessar distâncias que o planeta isolado não permitia percorrer.

Uma abertura surgiu ao lado da torre. Falcão saiu primeiro, seguido por Elaryan. Nazer abandonou a ferramenta; Nazerith deixou cair a placa. Os dois reconheceram o antigo rei e começaram a ajoelhar.

— Não façam isso — pediu Falcão. — Acabei de aprender que morrer e renascer não cura certos costumes.

Os irmãos tornaram a ficar de pé, ainda sem decidir se tocavam Falcão ou esperavam uma ordem. Ele resolveu a dúvida abraçando os dois. Nazer perguntou por Henri antes mesmo de soltar o rei.

— Está vivo — respondeu Falcão. — Esta mulher disse que nos levará até ele.

— Quem é ela, e por que consegue atravessar mundos dessa maneira? — perguntou Nazerith.

— Eu a chamei de deusa, e ela rejeitou o título. Sei apenas que entrou em Spender depois da revolta, conhece meu filho e consegue abrir passagens entre mundos.

Elaryan percorreu a máquina, girou um dos anéis com a ponta do dedo e observou o mapa luminoso que surgiu sobre o chão.

— Vocês reconstruíram um instrumento de localização com restos de um planeta quase vazio. Se continuassem, alcançariam comunicação estável e encontrariam uma rota para sair.

— Então por que nos retirar agora? — perguntou Nazer. — Poderíamos terminar e usar o que aprendemos para ajudar outras pessoas.

— Porque Henri precisa de vocês antes disso. A máquina permanecerá aqui, e vocês poderão decidir se voltam quando conhecerem o que o espera.

Nazer e Nazerith olharam para o equipamento, conferiram os registros que deixariam e desligaram apenas a fonte de energia principal. Escolheram acompanhar o grupo depois que Elaryan confirmou que a passagem não destruiria o trabalho.

O terceiro painel se ampliou. Uma mulher estava ajoelhada junto a um lago, com as mãos molhadas e o corpo curvado sobre a margem. Duas silhuetas desapareciam poucos metros adiante, dissolvidas em partículas que a água refletia. A imagem não mostrava rostos, e Elaryan fechou o som antes que ouvíssemos qualquer nome.

Henri reconheceu Alice por uma lembrança de segundos: o rosto da mãe inclinado sobre ele logo depois do nascimento. A memória atravessou nosso corpo com tamanha força que meus joelhos cederam. Apoiei as mãos na mesa e recuei dentro da consciência, deixando visão e voz sob o controle dele.

Elaryan abriu uma passagem diante de Falcão e dos irmãos. Os quatro surgiram perto do lago. Falcão deu dois passos e parou quando Alice levantou a cabeça.

— Alice! É você? Posso chegar mais perto e olhar seu rosto?

Ela ficou em pé com dificuldade. O reconhecimento trouxe um movimento em direção a ele, interrompido quando olhou para as duas formas que ainda sumiam junto à água.

— Falcão? Eu morri antes de ver Henri crescer. Como você chegou até aqui?

— Sou eu. Henri está vivo. Posso chegar mais perto?

Alice assentiu. Falcão a abraçou, mas sustentou apenas a força que ela devolveu. Quando o corpo dela perdeu firmeza, ele a ajudou a sentar na margem sem tentar transformar o abraço em resposta para o que vivera.

Elaryan aproximou-se e perguntou se Alice desejava um lugar reservado antes de decidir qualquer partida. Ela apontou para uma cabana entre as árvores e pediu alguns minutos. O painel escureceu assim que as duas atravessaram a porta. Nem Magno nem Henri receberam acesso à conversa.

Enquanto esperavam, Nazer contou a Falcão que Henri sobrevivera ao golpe, assumira responsabilidades em Finiti e se unira a Magno. Limitou-se aos acontecimentos que testemunhara antes do sequestro. Nazerith falou da chegada de Magno e do brilho que revelara o vínculo de sangue, sem fingir conhecer tudo que ocorrera depois.

Henri ouviu os relatos com a mão apoiada no vidro. Eu sentia a vontade dele de responder, corrigir lacunas e dizer ao pai que Finiti sobrevivera. A máquina conservava a comunicação num único sentido, e Elaryan mantinha o encontro sob o tempo escolhido por ela.

Alice saiu da cabana ao lado de Elaryan. Lavara o rosto, mas continuava segurando o tecido da roupa perto do peito. Caminhou até Falcão por decisão própria, tocou o rosto dele e o beijou. O beijo terminou num abraço em que os dois choraram.

— Isso não resolve tudo que aconteceu depois de você — disse Alice. — Também não diminui o que sinto ao descobrir que está vivo.

— Não vou pedir que escolha uma vida inteira nesta margem — respondeu Falcão. — Quero encontrar Henri com você e ouvir o restante quando puder contar.

Elaryan subiu acima do lago e lançou duas linhas violetas em direções opostas. Elas se multiplicaram até formar uma rede sobre o céu. A luz alcançou o horizonte e se fixou ao redor do planeta.

— A força que provocou o ataque atual não atravessará esta proteção — informou ao descer. — Ela preserva este mundo enquanto vocês estiverem fora. Não estou prometendo ausência eterna de conflito.

Alice observou a margem, a cabana e os caminhos que saíam da floresta. Elaryan mostrou regiões onde sobreviventes começavam a deixar abrigos depois do fim da ameaça. Alice perguntou quanto tempo a passagem ficaria aberta e recebeu a garantia de que poderia retornar quando Henri estivesse seguro.

— Então quero ver meu filho. Leve-me até Henri agora.

Elaryan reuniu Falcão, Alice, Nazer e Nazerith no mesmo círculo. O terceiro painel ficou branco; no instante seguinte, as quatro pessoas surgiram dentro da sala de observação.

Alice e Falcão olharam para nosso corpo. Henri assumiu os olhos, a boca e os braços. Eu reduzi minha presença sem desfazer a união, Fenrir recolheu os sentidos e Suzaku fechou o calor atrás do esterno.

— Filho! — disseram Alice e Falcão ao mesmo tempo.

— Pai, mãe! Eu esperei por vocês durante vidas que nem sabia contar.

Os dois o abraçaram. O corpo compartilhado recebeu pressões diferentes: a mão de Falcão atrás da cabeça, os braços de Alice envolvendo o peito e a respiração de Henri falhando dentro de mim. Eu sentia tudo, mas mantive minhas lembranças afastadas para que aquele instante pertencesse primeiro a ele.

Nazer aproximou-se depois, ainda com marcas do trabalho nas mãos. Nazerith permaneceu ao lado até Henri estender um braço para cada um. Os quatro se reuniram num abraço desajeitado, grande demais para caber entre a mesa e os painéis.

Elaryan observou o abraço em silêncio até que a respiração de Henri recuperasse algum ritmo e nossos braços deixassem de tremer.

— Cumpri o que prometi. Em breve precisarei de você e de Magno para uma tarefa que não pode esperar muito.

Henri soltou os pais devagar, conservou uma das mãos de Alice entre as nossas e se virou para Elaryan sem esconder as lágrimas.

— Obrigado por trazê-los. Isso não me permite responder a uma tarefa que ainda desconheço. Quando pedir, diga o objetivo, o risco e quem será afetado. Então decidiremos.

Elaryan sustentou o olhar por alguns segundos. Os dedos dela pararam sobre a mesa, e nenhum dos painéis voltou a acender.

— Terão tempo para conversar antes que eu volte — disse ela.

A porta violeta abriu-se atrás de nós e Elaryan desapareceu. Os painéis apagaram, deixando na sala apenas a família, os Mestres do Ar e perguntas acumuladas durante séculos. Henri continuou no controle do nosso corpo enquanto Falcão tocava seu rosto e Alice repetia o nome do filho, confirmando pela voz aquilo que os olhos ainda tentavam acreditar.

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