Do Céu à Caverna
Eu já inclinava o corpo para descer em direção aos três possíveis Guardiões quando Lúcifer agarrou meu braço com força suficiente para interromper o vento. Abaixo de nós, o vale continuava em movimento, e cada segundo gasto parado soava escolha feita contra alguém que ainda sangrava.
— Você sentiu isso? — Lúcifer perguntou, olhando para cima em vez de olhar para o vale.
— Senti o quê? — respondi, seguindo a direção do rosto dele e encontrando apenas céu, fumaça distante e uma claridade estranha abrindo manchas entre as nuvens.
Henri procurou comigo. O vento nos dava muitos sinais: calor subindo do combate, cheiro de sangue, deslocamento de asas, sopros quebrados de gente mordendo e sendo mordida. Aquilo que Lúcifer procurava não vinha pelo ar. Vinha de uma camada que eu ainda não sabia tocar.
— Essas energias — ele disse. — Duas. Muito maiores que qualquer coisa neste campo. Depois que renasci aqui, comecei a sentir isso de um jeito diferente. Antes eu percebia força, presença, ameaça. Agora sinto camadas. E essas duas não pertencem ao mesmo tamanho de mundo.
— Maiores que Drácula? — perguntei, porque aquele era o limite mais próximo que meu corpo ainda conseguia usar sem lembrar dos anjos.
— De longe — Lúcifer respondeu. — Drácula é violento, antigo, pesado. Essas duas estão em outro lugar. Uma delas acabou de sumir. A outra ficou.
O nome de Elaryan passou por mim antes que eu aceitasse chamá-lo de pensamento. Henri também o sentiu. Prova era uma palavra quase infantil no meio daquela guerra, mas poucas pessoas apareciam em torno de nós com poder suficiente para fazer Lúcifer esquecer, por alguns segundos, os Guardiões sendo drenados no vale.
— Você consegue dizer de onde vem? — perguntei.
Lúcifer fechou os olhos. A Fênix se moveu atrás dele, recolhendo fogo para dentro das asas. A espada mística continuava em sua mão, baixa, iluminando o rosto dele por baixo. Pela primeira vez desde que o encontráramos, Lúcifer ficou menos parecido com alguém reagindo e mais com alguém ouvindo.
— Uma está no mesmo lugar onde acordei depois de aceitar Carmilla — ele respondeu devagar. — Uma caverna. Ela usava o esconderijo para conversar com recém-chegados, oferecer a transformação, testar medo, desejo e desespero antes que cada um escolhesse beber.
— Teve isso também? — perguntei, olhando rapidamente para o vale e tentando não contar quantos corpos tinham se acumulado perto dos três que havíamos marcado.
— Teve — Lúcifer respondeu, com uma ironia curta que não conseguiu virar sorriso. — Eu aceitei. Considerando minhas opções no dia, continuo achando que fiz uma escolha coerente.
Henri não riu. Eu também não. O humor de Lúcifer bateu no ar e ficou ali, pequeno, tentando lembrar a todos que ainda havia gente dentro das armas, dos poderes e das mortes recentes.
— Se essa energia está na caverna de Carmilla, pode ser alguém preso, alguém deixado por ela ou uma armadilha — Henri disse por mim. — E se for Elaryan, pode ser pior que armadilha.
— Espere — Lúcifer pediu, levantando a mão livre. — O primeiro poder voltou. Trouxe uma terceira pessoa, ou duplicou alguma coisa. Estão no espaço agora. Não, sumiu de novo. Ficaram dois sinais: um na caverna e outro lá em cima. O do espaço está construindo energia.
Olhei para cima. Não enxerguei pessoa alguma, apenas um brilho difícil de separar das nuvens, mas o corpo reagiu mesmo assim. Se alguém estivesse criando algo sobre aquele planeta enquanto o vale se destruía, os Guardiões deixavam de ser o único incêndio diante de nós.
— Pode ser Elaryan? — perguntei, sem conseguir impedir que o nome saísse mais baixo.
— Pode — Lúcifer respondeu. — A maior energia tinha esse tamanho absurdo que vocês descrevem quando falam dela. Mas sentir uma coisa enorme não me dá nome, intenção nem permissão para entender.
A resposta me desagradou justamente por ser honesta. Eu queria que ele dissesse sim ou não, para que a culpa coubesse melhor em alguma direção. O vale não oferecia esse luxo. Os três possíveis Guardiões continuavam presos a vampiros que se revezavam em torno deles, e cada nova mordida reduzia nossa margem.
— Se descermos agora e essa energia abrir alguma coisa no planeta, perdemos a guerra de outro jeito — Henri disse, mantendo nossa visão presa ao vale. — Se formos à caverna e os Guardiões morrerem enquanto isso, também perdemos.
— Então vamos rápido — respondi. — Marcamos aqueles três, guardamos a posição pelo vento e voltamos assim que entendermos o que está lá.
Lúcifer abriu as asas da Fênix e apontou a espada para a encosta mais escura ao norte. O fogo dele desenhou uma rota curta sobre as copas antes de se apagar. Eu memorizei o caminho dos Guardiões possíveis no vale, a fileira, a pedra partida, o tronco tombado e a mancha de lama vermelha ao lado deles, depois deixei a adaga dupla conduzir a passagem.
A entrada da caverna não exigiu discrição porque a discrição já tinha morrido ali antes de nossa chegada. Rochas quebradas cercavam a abertura, uma parte do teto pendia rachada e marcas queimadas subiam pelas paredes. Lúcifer pousou primeiro, pesado demais para quem possuía asas, e espalhou pedras pelo corredor.
— Você chama isso de rápido ou de anúncio público? — perguntei, baixo o suficiente para provocar sem esquecer que estávamos entrando num esconderijo inimigo.
— Desculpe — ele respondeu, irritado. — Você não sabe como é ter um dragão misturado com dois animais dentro de você, uma Fênix disputando espaço e ainda precisar fingir que o chão não merece ser ofendido. Tem hora que eu vou explodir.
— A destruição da entrada foi essa explosão também? — perguntei, usando a graça para empurrar um pouco de ar para dentro do peito.
— Eu estava preso, Magno. A saída estava selada — Lúcifer respondeu, ofendido de um jeito tão vivo que por um instante o vale ficou mais longe. — Se Carmilla queria uma porta intacta, ela deveria ter escolhido outro prisioneiro.
Henri soltou um riso curto dentro de mim. Não chegou à boca inteira, mas ajudou. A caverna precisava desse pedaço ridículo de humanidade para não virar apenas mais um corredor entre massacres.
Seguimos para dentro com menos barulho depois disso. O ar era úmido, frio e carregado de pedra antiga. Havia marcas de unhas nas paredes, correntes partidas perto da entrada e manchas escuras demais para serem apenas sombra. A caverna de Carmilla não tinha sido esconderijo; tinha sido sala de escolha para gente trazida sem mundo.
— A energia vem do fundo — Lúcifer disse. — Está presa em alguma coisa, ou sendo puxada por alguma coisa. Não consigo separar.
O corredor desceu em curva. Quanto mais entrávamos, mais o som do vale desaparecia, substituído por gotas, respirações nossas e um pulso baixo que não vinha de coração nenhum. A adaga dupla vibrava contra minha mão, incomodada com a profundidade ou com a força acumulada adiante.
Encontramos o homem numa câmara estreita. Ele estava preso a um tronco vertical por correntes grossas, os braços abertos, a cabeça caída sobre o peito e os pés tocando o chão apenas pela ponta. As roupas tinham sido rasgadas em vários pontos, e a pele ao redor dos elos carregava marcas antigas e recentes.
Por um segundo pensei que estivesse morto, e a ideia quase me pareceu misericordiosa demais para aquela câmara. Depois ele abriu os olhos.
O susto quase me fez recuar sobre Lúcifer. Os olhos do homem não acordaram aos poucos. Abriram-se inteiros, febris, chamados de outro lugar para dentro da própria carne. A respiração dele acelerou, e as correntes responderam com um som seco.
— Quem são vocês? — ele perguntou, rápido demais, procurando nossos rostos e a saída ao mesmo tempo. — Carmilla mandou vocês? Elaryan voltou? Quem está lá fora?
— Meu nome é Magno — respondi, levantando a mão livre para que ele visse a adaga parada. — Este é Lúcifer. Nós viemos pelo sinal de energia. O que você está fazendo preso aqui?
Ele olhou para Lúcifer com uma mistura de medo, incredulidade e cansaço. O nome pareceu bater nele por outro caminho, de uma memória antiga demais para caber naquele planeta. Ainda assim, a corrente no pulso dele chamou mais atenção que qualquer ironia.
— Vou soltar você — eu disse, aproximando a lâmina do primeiro elo.
— Não! — ele gritou, fazendo a câmara inteira devolver a palavra em pedra.
Parei no mesmo instante. O vento que eu havia reunido para abrir a corrente se desfez contra o chão, levantando poeira úmida entre meus pés e o tronco. Lúcifer ergueu a espada por reflexo, mas o homem não atacou. Apenas respirou com dificuldade, preso ao próprio pânico.
Dei dois passos para trás e senti Henri recuar comigo. Do lado de fora, os Guardiões continuavam sem nós. No fundo da caverna, um homem acorrentado recusava a liberdade com o desespero de quem ainda segurava alguma coisa maior que o próprio corpo.