Guardiões Liberdade do Vento · Capítulo 44 de 49
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Guardiões

A fome renovada subiu do vale em ondas mais densas, carregando cheiro de ferro, pele aberta e respirações que já não pertenciam a um exército. Eu mantinha o vento girando entre nós e a borda da carnificina, mas cada volta do ar trazia uma pergunta nova para dentro do peito.

Paole continuava ajoelhado, com as mãos apertadas uma contra a outra. Lúcifer permanecia ao lado dele, espada erguida, olhando para baixo com a expressão de alguém que já tinha visto mundos quebrados e ainda assim encontrava ali uma forma inédita de ruína. Henri dividia comigo o esforço de sustentar o corpo longe do chamado de Fenrir.

O vale comia a si mesmo. Lobos caíam quando o sangue escapava rápido demais. Vampiros se retorciam, secavam, mordiam de volta e voltavam a se mover com uma raiva que a perda de sangue apenas modificava. A diferença começou a aparecer antes que alguém a explicasse: uns terminavam no chão; outros permaneciam famintos.

— O que vai acontecer quando não houver mais sangue? — perguntei, e a pergunta saiu baixa porque eu já conhecia metade da resposta.

Paole abriu os olhos. Ele levou algum tempo para aceitar que a voz precisava sair de novo. O rosto dele tinha perdido cor, e o ferimento nas costas continuava pingando, pouco a pouco, atraindo movimentos do vale apesar da distância.

— Os lobos estão em desvantagem — ele respondeu. — Quando perdem todo o sangue, morrem. Os vampiros sofrem, enfraquecem, enlouquecem, mas continuam buscando outro corpo. Drácula sabia disso. Carmilla também saberia, se tivesse tempo de ver o efeito completo.

Lúcifer apertou o cabo da espada até as juntas clarearem. A chama que cercava a lâmina diminuiu, ficando mais estreita e mais branca, sinal de controle maior, ou de raiva mais concentrada. Ele não interrompeu Paole. Dessa vez precisava ouvir.

— Então os lobos acabam primeiro — Henri disse dentro de mim, e a frase atravessou minha boca com uma secura que doeu nos dentes. — Depois os vampiros continuam sem alvo suficiente.

— Sim — Paole respondeu. — Eles vão se consumir até restar pouca gente capaz de se mover. Depois a fome vai procurar o estoque que ainda tem sangue renovável.

O silêncio depois daquela palavra teve tamanho de sentença. Estoque. Ninguém usava aquele termo por descuido no meio de uma guerra construída em torno de bolsas, tubos, turnos e corpos mantidos vivos para alimentar um povo inteiro. Paole baixou a cabeça antes de completar.

— Os Guardiões — ele disse. — Nós somos a fonte. Dez no começo. Nove agora, contando comigo até este momento. Se os vampiros famintos nos alcançarem em sequência, beberão até ficarem fortes de novo. A batalha muda de forma, mas continua.

Olhei para o vale e procurei rostos que pudesse separar do movimento coletivo. Vi três figuras presas a uma fileira de corpos que se revezavam para sugar sangue delas. Vi outras duas mais adiante, meio cobertas por asas e lama vermelha. Podiam ser Guardiões. Também podiam ser vampiros comuns, feridos e usados pelo fluxo da própria fome.

— Por que você disse nove? — Lúcifer perguntou, sem mover os olhos de Paole.

Paole respirou pelo nariz. O ar saiu instável, quase um riso sem humor, e ele tocou o próprio peito com dois dedos manchados.

— Porque eu estou sangrando perto demais do vale e já fui mordido. Se eu cair lá, viro ponto de disputa. Se eu ficar aqui muito tempo, atraio o mesmo resultado para vocês. Se eu tentar voltar, levo a fome comigo.

Henri entendeu antes de mim, ou aceitou antes. Senti a compreensão dele recuar um passo dentro da nossa respiração, não por covardia, mas por horror. Paole não pedia socorro naquele momento. Ele entregava uma informação e indicava o lugar onde o corte precisava ser feito.

— Existe outro jeito? — perguntei, já sentindo Henri prender a respiração comigo.

Paole olhou para mim com uma calma que não combinava com o sangue correndo nas costas. Aquela calma vinha de fadiga, função antiga e costume de saber que o próprio corpo sempre fora parte de uma conta maior. Isso me deu vontade de odiar todo o sistema de Dracs.

— Se existisse, eu teria começado por ele — Paole respondeu. — Preciso voltar inteiro depois. Faça rápido, antes que eu mude de ideia ou que a fome fale por mim.

Lúcifer se virou para nós no mesmo instante. A espada dele subiu um pouco, não contra Paole, mas contra a decisão que acabara de entrar no ar. O fogo da Fênix abriu penas curtas nas costas dele, impaciente, pronto para impedir qualquer golpe que parecesse traição.

— Espera — Lúcifer disse. — Vocês vão matá-lo agora, aqui, sem mais nada?

— Ele vai renascer se a regra de Drácula estiver certa — respondi, e odiei a fraqueza dessa defesa antes do fim da frase. — E se estiver errada, cada segundo que passamos discutindo coloca mais lobos mortos e mais vampiros fortes no vale.

— Você ouviu o tamanho do que acabou de dizer? — Lúcifer perguntou. — Isso é o tipo de frase que alguém usa depois para explicar uma atrocidade.

— Eu ouvi — respondi. — Henri também ouviu. E nenhum de nós quer descobrir que hesitamos para preservar a nossa imagem enquanto ele era arrastado para baixo.

Paole levantou a cabeça. Os olhos dele encontraram os meus, depois deslizaram para Lúcifer, sem súplica. Ele compreendia a indignação do outro lado. Também compreendia o vale, os dentes, o cálculo e a velocidade que a cena exigia.

— Lúcifer — Paole disse. — Se quiser me defender, defenda Dracs depois. Agora defenda o tempo que ainda resta para impedir que os Guardiões virem alimento.

Lúcifer fechou a boca. A lâmina baixou um palmo, mas o rosto dele ficou duro, marcado por uma raiva que não escolhia alvo com facilidade. Eu puxei a adaga dupla. O metal respondeu ao movimento com uma vibração curta, e o vento parou por meio segundo em volta da minha mão.

Henri segurou a decisão comigo. Ele não me empurrou. Não me absolveu. Apenas permaneceu, inteiro, dentro do gesto. A mão que era nossa foi até Paole, e por um instante vi a oficina fechada, os Guardiões resgatados, as bolsas de sangue e o homem que atravessara uma muralha inimiga para procurar cinco desaparecidos.

— Me desculpe, Paole — eu disse. — Espero te encontrar de novo quando isto acabar.

A adaga atravessou o peito dele com precisão. Paole soltou o ar, mais surpreso com a rapidez que com a dor, e o corpo perdeu força antes que a fome do vale conseguisse puxar seu nome. Usei o vento para impedir que o sangue descesse. Lúcifer fez uma barreira de fogo sob nós, e Henri manteve nossos olhos abertos até o fim.

Paole desapareceu pouco depois, levado pela mesma lógica brutal que Drácula chamara de evolução. Não houve consolo nisso. A ausência dele deixou um espaço frio no ar, e o vale respondeu com movimentos novos, procurando o cheiro que tinha acabado de ser retirado.

— Minha nossa — Lúcifer disse, a voz baixa, sem teatralidade. — Vocês ainda vão me matar do coração com essas mortes sem aviso.

— Eu queria ter avisado melhor — respondi, guardando a adaga sem conseguir limpar a sensação do cabo na palma. — Mas aviso também demora. E essa guerra está nos deixando bons demais em economizar segundos.

Lúcifer me encarou. Por um momento achei que ele fosse atacar, não por Paole apenas, mas por tudo que aquela frase carregava. Depois ele olhou para o vale e viu um grupo de vampiros disputando um corpo que já não reagia. A raiva dele mudou de direção sem diminuir.

— Então digam o plano — ele disse. — Porque, se ele morreu para nos comprar tempo, eu quero saber o que vamos fazer com esse tempo.

— Precisamos matar os Guardiões antes que os vampiros cheguem até eles — respondi. — Se o sangue renovável acabar, os que sobrarem ficam fracos ou ocupados demais se mordendo. Se os Guardiões forem drenados, a fome ganha corpo de novo e nós perdemos a única janela.

Henri conduziu nosso olhar pelo vale, procurando sinais que Paole havia deixado sem tempo de organizar. Tubos rasgados. Roupas de tecido mais espesso. Corpos protegidos por outros corpos. Vampiros se revezando ao redor de vítimas que continuavam vivas por mais tempo que qualquer pessoa comum resistiria.

— Aqueles três ali? — Lúcifer perguntou, apontando com a espada para uma fileira próxima da encosta. — Tem uma ordem. Eles estão sendo sugados e mantidos de pé.

— Três, sim — respondi. — Mas eram dez. Nove depois de Paole. Eu não lembro a feição de todos, e alguns estavam feridos demais quando os resgatamos do subterrâneo.

Lúcifer soltou uma risada curta, amarga, quase engolida pelo vento. A espada dele ficou mais luminosa, e a Fênix se moveu nas costas dele sem abrir voo.

— Aí você me quebra, Magno — ele disse. — Plano cruel, relógio correndo e alvo que ninguém reconhece direito. Esse lugar tem um talento ofensivo para piorar uma ideia no último detalhe.

— Então começamos pelos que temos certeza — Henri respondeu por mim. — E erramos o mínimo possível.

Olhei para os três corpos presos na fila de vampiros. O vale se fechava em torno deles, faminto, barulhento, vivo de um jeito que insultava qualquer ideia simples de morte. A primeira parte do plano existia. A segunda dependia de atravessar aquilo sem transformar pessoas erradas em solução.

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