A Fuga
O calor aumentava a cada lance da escada. Henri conduziu nossas pernas até a plataforma superior, enquanto eu acompanhava as correntes que entravam pelas aberturas da torre. Quando alcançamos a linha de defesa, dezenas de bolas de fogo já desciam sobre a fortaleza.
Um rapaz coberto por uma pele branca estava no centro da plataforma. Ele levantou os braços, fechou os dedos e rompeu a formação acima de nós. Os projéteis se partiram antes de atingir as torres, espalhando fragmentos sobre as primeiras fileiras do exército inimigo. Nenhum soldado do Vento usava aquela roupa, e eu nunca o vira entre os homens de César.
Outra chama surgiu na árvore mais alta da floresta e correu pelas copas em direção às muralhas. O desconhecido puxou o ar para conter o incêndio, mas a corrente espalhou brasas pelo chão. Assumi nosso braço direito, retirei o oxigênio em torno do fogo e estalei os dedos. A mata inteira apagou, deixando fumaça e galhos vermelhos sob a cinza.
O rapaz fechou as mãos e veio até nós antes que pudéssemos perguntar quem era. Tocou nosso ombro. A plataforma desapareceu, minha visão escureceu e perdi a posição do corpo. Durante um intervalo que poderia ter ocupado segundos ou uma noite, só encontrei a respiração de Henri dentro de mim. Quando a torre voltou, o desconhecido ainda mantinha a mão estendida.
Ele olhava para os próprios dedos. O vento ao redor dele já respondia com a mesma precisão que havíamos adquirido depois da união, e o calor das chamas mudava quando ele abria a palma. Alguma parte de nossa essência atravessara o contato.
— Quem é você, e de onde caiu no meio desta batalha? — perguntei.
— Eu me chamo Dash. Ou estou sonhando, ou acabei de morrer e cair dentro de outra guerra.
— Você não está sonhando — respondeu Henri pela nossa voz compartilhada. — O restante exigirá uma conversa depois que sobrevivermos.
Uma nova sequência de ataques interrompeu as perguntas. Dash empurrou duas bolas de fogo para cima; nós abrimos uma passagem entre outras três e as conduzimos para fora das torres. A cada movimento nosso, ele repetia a posição dos braços e produzia uma corrente de intensidade semelhante. A pele branca sobre seu corpo se contraía nos ombros durante o esforço, reagindo antes dos músculos dele.
Os inimigos mantinham a mesma distância, o mesmo intervalo e quase a mesma quantidade de fogo. Depois da destruição do primeiro ataque, poderiam ter aumentado a força ou mudado o alvo. Em vez disso, sustentavam nossa atenção no alto. Procurei pelo ar que circulava dentro da fortaleza e encontrei uma corrente saindo da parte inferior, onde nenhuma abertura existia antes.
Mergulhamos pela lateral da torre. Henri conteve a queda, e eu nos conduzi até uma fenda aberta junto ao solo. A parede externa tinha sido escavada por baixo da plataforma e dava acesso ao corredor das celas. As linhas da porta de diametita ainda brilhavam, fechadas pela nossa assinatura. Os invasores não a haviam tocado. Retiraram blocos inteiros da parede posterior e abriram espaço suficiente para tirar César.
Quatro guerreiros carregavam o general desacordado por uma estrutura rígida presa às costas. Outros dois conduziam Nazer, com os braços imobilizados atrás da cabeça pelo mesmo tipo de dispositivo usado contra Nazerith. O ar terminava a poucos centímetros do corpo dele. Nazer movimentava os dedos, mas nenhuma corrente alcançava suas mãos.
Lancei uma rajada contra o grupo. Os guerreiros da frente giraram o corpo e envolveram o vento com uma coluna de fogo. Minha força passou a empurrá-los para longe da fortaleza. Interrompi o ataque, porém eles já tinham ganhado distância.
Henri queria persegui-los. A torre atrás de nós recebeu outra descarga, e pedras caíram perto da abertura por onde César saíra. Dash continuava sozinho na plataforma, defendendo soldados que mal conseguiam conter as chamas. Voltamos para o alto antes que a estrutura cedesse.
Dash apontou para o grupo em fuga e depois para a linha de atacantes. Levantou voo com pouca estabilidade, corrigindo a direção por movimentos largos dos braços. Nós subimos ao lado dele. Avançamos contra as fileiras enquanto os soldados da fortaleza retomavam as posições inferiores.
As bolas de fogo passaram a cruzar por cima de nós, obrigando parte da defesa a recuar. Dash rompeu duas formações; nós desviamos a terceira e mantivemos o caminho aberto. A cada linha derrubada, César e Nazer ficavam mais distantes, carregados pelos guerreiros que utilizavam qualquer corrente lançada em sua direção.
— Vou criar um furacão e entrar no centro dele — gritou Dash. — Quando a rotação diminuir, lance todo o vento contra mim.
O plano poderia quebrar seu corpo antes de alcançar o inimigo. Tentei chamá-lo, mas Dash já girava os braços. O ar se fechou ao redor dele, desviou as chamas e puxou os guerreiros próximos para fora de posição. Quando a rotação perdeu força, reuni a maior pressão que nosso corpo conseguia sustentar.
Henri firmou as pernas no vazio. Lancei a rajada. Dash atravessou o restante do furacão e foi arremessado em direção ao grupo que transportava César e Nazer. Os inimigos tentaram atingi-lo, mas o vento ao redor da pele branca desviou os primeiros ataques.
Uma luz subiu entre as árvores e abriu um círculo acima do exército. A borda se expandiu depressa, dobrando a imagem do céu. Os guerreiros de fogo abandonaram as formações e foram puxados para dentro. César e Nazer desapareceram junto deles.
Dash tentou reduzir a velocidade, mas ainda carregava a força de nossa rajada. Cruzou a abertura no instante em que ela começou a fechar. Estendi o braço e lancei uma corrente lateral; alcancei apenas a pele branca dos pés dele. O círculo se contraiu e levou Dash antes que pudéssemos segurá-lo.
O céu ficou vazio. Restaram fragmentos queimando na floresta, torres abertas e soldados procurando inimigos que já tinham partido. César escapara. Nazer estava agora nas mãos do mesmo grupo que mantinha Nazerith. Dash desaparecera por tentar impedir os dois.
Desci até a plataforma e gritei até a garganta doer. Henri recebeu minha fúria dentro do mesmo corpo, misturada à dele, e obrigou nossos joelhos a dobrarem antes que eu descarregasse vento sobre o que ainda permanecia em pé.
Arc organizou a retirada dos feridos e distribuiu equipes pelas torres. Verne desceu para examinar a cela. Voltou coberto de pó, carregando um pedaço da parede arrancada, e confirmou que a porta continuava fechada. Canion permaneceu vigiado na sala de reuniões; sua tentativa de ajudar Nazerith ainda precisava ser investigada quando conseguíssemos respirar sem outro ataque.
Passamos o restante do dia retirando pedras, apagando focos de incêndio e procurando qualquer sinal do portal. A população chegou ao quartel antes de receber uma convocação. As pessoas queriam ver Henri, confirmar a morte de Falcão e saber por que o céu queimara sobre a floresta.
Henri desejou estar diante delas com o próprio rosto. O pensamento alcançou o meu ao mesmo tempo em que eu desejei devolver-lhe aquele corpo e recuperar o meu. Pela primeira vez desde os casulos, nenhum de nós precisou convencer o outro.
O formigamento começou no centro do peito e correu pelos braços. Nossa visão se dividiu em duas perspectivas; a plataforma apareceu à direita e à esquerda, com uma faixa escura entre as imagens. O corpo perdeu equilíbrio, o ar se acumulou ao redor da pele e uma segunda respiração surgiu fora de mim.
Caí de joelhos. Henri caiu ao meu lado. Voltei a enxergar somente pelos meus olhos e encontrei minhas mãos, meu peito e a roupa com que despertara em Finiti. Quando levantei a cabeça, ele tinha recuperado o próprio corpo, mais velho do que o menino guardado nas lembranças do palácio. As memórias dele continuavam dentro de mim. Pelo rosto que fez ao me olhar, as minhas permaneciam nele.
Os soldados se ajoelharam diante de Henri. Parte da população fez o mesmo; outra parte se ajoelhou diante de nós dois. Contamos que César fugira e que os Mestres Nazer e Nazerith estavam capturados. A derrota saiu de nossa boca sem disfarce, mas, antes do anoitecer, já circulava a história de que dois Reis haviam expulsado um exército inteiro e se dividido diante do povo. A palavra deuses apareceu no pátio e chegou às casas antes da versão que contamos.
Uma abertura iluminou o céu pouco antes do amanhecer. Dash caiu sobre as árvores próximas ao quartel e conseguiu diminuir a velocidade antes do impacto. Encontramos o rapaz com queimaduras novas na pele branca e poucas lembranças do outro lado. Ele atravessara o portal, recebera um golpe no peito e acordara durante uma segunda queda. Não vira para onde levaram César ou os irmãos.
Nos dias seguintes, Arc reconstruiu as defesas e Verne reorganizou a guarda das passagens subterrâneas. Henri apareceu diante da população, confirmou as leis de Falcão e adiou a coroação até que o reino pudesse sepultar os mortos. Eu permaneci perto dele durante reuniões, inspeções e refeições, mesmo quando nenhum dever exigia minha presença.
Separados, ainda carregávamos as lembranças um do outro. Henri sabia quais palavras eu cortava de um texto antes que eu pegasse a pena; eu reconhecia os corredores do palácio por uma infância que vivera dentro dele. Certas imagens perdiam intensidade com os dias, mas gostos, sonhos e medos continuavam completos demais para pertencer a uma lembrança emprestada.
Numa noite, ficamos sozinhos numa sala do quartel depois que Arc levou o último relatório. Henri encontrou entre meus papéis uma frase iniciada e completou as duas palavras que faltavam. Eu ri, tomei a folha de sua mão e percebi que ele esperava minha reação antes de se afastar.
— Na Terra, eu teria encontrado muitas razões para não admitir o que está acontecendo entre nós.
— Eu conheço todas elas — respondeu Henri. — Estavam na sua memória, brigando umas com as outras.
— Eu só me apaixonei por mulheres. Isso fazia parte da ideia que eu tinha de mim.
— Fez parte da sua vida na Terra. Aqui você ainda pode escolher o que deseja fazer com isso.
Henri encostou a mão em meu rosto. Eu conhecia aquele gesto nas lembranças dele, dirigido a outras pessoas; ele conhecia o mesmo gesto nas minhas. Beijei-o. Sem o corpo unido, precisei acompanhar a pressão dos dedos e a respiração dele, sinais que antes chegavam diretamente à minha cabeça.
Henri recebeu sem surpresa o fato de eu ter amado mulheres. Sua dúvida era saber se eu ainda o escolheria depois que a influência física da união diminuísse. Naquela noite, ele voltou ao próprio quarto. Na manhã seguinte, sentou-se ao meu lado no desjejum e manteve a mão sobre a minha enquanto Arc lia o primeiro relatório.
A tranquilidade durou poucos dias. Um mensageiro entrou na sala de reuniões enquanto discutíamos a distribuição de materiais para as casas atingidas. Trazia na roupa o símbolo do Centro de Ciência e segurava duas folhas cobertas por cálculos.
— Majestade, os observatórios confirmaram uma alteração no movimento do planeta em relação ao segundo Sol. Os polos magnéticos iniciaram uma inversão, e nossa velocidade orbital aumentou depois de uma força externa deslocar o eixo calculado.
Henri recebeu as folhas. Os números não pertenciam às minhas lembranças, mas o conhecimento dele organizou as medidas e encontrou a mesma conclusão indicada pelos cientistas.
— Quanto tempo temos antes que a mudança alcance a atmosfera e os oceanos?
— Poucos dias. Depois disso, perderemos as condições que mantêm vida na superfície.
Fomos ao Centro de Ciência. Os corredores estavam ocupados por equipes que repetiam medições, corrigiam mapas e comparavam registros dos dois sóis. Ninguém trabalhava em silêncio, porém todas as conversas terminavam quando atravessávamos uma sala.
— Existe alguma intervenção capaz de corrigir o deslocamento? — perguntei.
— Se alguém conseguir sair da atmosfera e aplicar uma força compensatória fora da órbita, podemos tentar reduzir a alteração — respondeu uma das cientistas. — Precisamos calcular pontos móveis e intensidade. Até agora, nunca tivemos quem pudesse executar o plano.
Henri colocou as folhas sobre a mesa central e pediu acesso às medições completas. Os cientistas esperavam que ele recusasse a proposta; alguns já guardavam os instrumentos, convencidos de que a pergunta servira apenas para confirmar o impossível.
— Vocês conseguem calcular os pontos e a força necessária enquanto preparamos uma nova união? — perguntou Henri.
— Conseguimos estimar os dois, Majestade. A margem de erro continuará grande.
— Então façam os cálculos. Os Reis sairão da atmosfera e tentarão salvar este mundo.