A Floresta
A tampa bateu acima de mim e eliminou a última faixa de luz da praça. O vento apertou meu peito, virou meu corpo e me lançou para um lado que, poucos segundos depois, passou a ser para baixo. Nenhuma parede oferecia apoio; correntes alternadas atingiam minha cabeça, meus pés e minhas costas, conduzindo-me por curvas invisíveis. Eu pulara para escapar dos soldados sem verificar se o buraco tinha fundo; durante a primeira volta completa, concluí que a decisão continuava ruim mesmo depois de salvar minha vida.
Tentei abrir os braços. A corrente dobrou um deles contra meu rosto, puxou o outro para trás e aumentou a velocidade da queda. Quanto mais eu endurecia o corpo, mais pontos o ar encontrava para me golpear. Perdi a noção de onde estava a abertura, a praça e a torre. Restaram o ruído junto aos ouvidos, a pressão no estômago e a certeza de que aquele caminho podia continuar para sempre.
A voz de Nazerith voltou no meio do barulho, ligada à primeira rajada que ele lançara contra mim na Zona Livre.
— Quando o vento levar você, não lute. Deixe que ele atravesse seu corpo. Só assim conseguirá controlá-lo.
Fechei os olhos, uma providência inútil na escuridão, e soltei os ombros. O ar continuou me virando, porém pude separar os movimentos: uma corrente entrava por baixo dos pés, outra alcançava meu lado esquerdo e uma terceira descia sobre a cabeça. Respirei no intervalo entre duas pancadas e mantive os braços perto do tronco. Aos poucos, deixei de receber todas ao mesmo tempo.
Inclinei uma das mãos quando a corrente subiu pelos meus pés. O ar desviou, abriu espaço sob as pernas e minha queda acelerou. O estômago subiu até a garganta; quase voltei a me debater, mas segurei os pulsos junto ao peito e esperei a rajada seguinte. Quando ela me alcançou por baixo, girei os antebraços numa direção menor, acompanhando o movimento em vez de tentar bloqueá-lo.
Meu corpo parou de rodar. A pressão que me empurrava para baixo encontrou outra corrente, e as duas sustentaram minha queda durante alguns segundos. Abri os dedos, sentindo o ar passar entre eles, e alterei a posição das mãos até conseguir diminuir a velocidade. Eu ainda era carregado pelo túnel, sem escolher o destino, mas já não batia dentro dele feito uma roupa solta numa máquina.
A escuridão começou a perder densidade. Primeiro vi as próprias mãos, depois as pernas estendidas e, por fim, uma faixa de terra aproximando-se depressa. Inclinei os braços outra vez. O vento se acumulou sob meus pés e reduziu a queda, mas desapareceu antes que eu calculasse o pouso. Toquei o chão com as duas pernas, dei três passos desajeitados e caí de joelhos. Permaneci ali até o corpo aceitar que estava parado.
Quando me levantei, árvores altas cercavam uma passagem estreita. As copas se fechavam acima e deixavam entrar uma luz fraca, vinda de algum astro que eu não conseguia localizar. A trilha seguia para a frente e desaparecia numa curva. Atrás de mim havia outra curva idêntica, sem buraco, tampa ou qualquer sinal do caminho que me trouxera.
Tentei repetir o movimento das mãos e subir acima das árvores. Uma corrente levantou meus pés, empurrou-me por alguns metros e me devolveu ao mesmo trecho da passagem. Fiz nova tentativa com os braços mais abertos, escolhi outra direção e retornei diante das mesmas raízes salientes. O lugar aceitava que eu me movesse, mas decidia sozinho onde me entregaria.
Segui a pé. Nas primeiras curvas, esperei encontrar alguma criatura encarregada de proteger a floresta. Minha memória terrestre, ainda disposta a participar de tudo, ofereceu aranhas mecânicas entre os galhos, bruxos em vassouras armados com varinhas em chamas e monstros que saltariam quando eu baixasse a guarda. Nenhum deles apareceu. Depois de muito andar, meu medo começou a perder a disputa para o tédio.
A passagem dobrava para a direita, voltava para a esquerda e contornava árvores largas, mas nunca me obrigava a escolher. Não encontrei bifurcação, atalho ou clareira. Um labirinto ao menos me permitiria errar por conta própria; ali, a única decisão disponível era continuar ou sentar no chão. Continuei, atento ao som dos meus passos e ao modo insistente com que a paisagem repetia troncos, sombras e raízes.
Uma pessoa surgiu na curva seguinte. Parei. Ela parou também, ainda distante demais para que eu visse o rosto. Pensei nos soldados da praça, porém nenhum deles teria motivo para interromper a perseguição e me observar. Dei um passo, e o desconhecido avançou na mesma medida. Quando reduzi a velocidade, ele reduziu. Nossos pés tocavam o chão juntos.
A luz alcançou seu rosto e revelou o meu. O homem diante de mim possuía meus cabelos, minha roupa e até a marca avermelhada que a corrente deixara sobre minha testa. Levantei a mão direita; ele ergueu a esquerda, corrigindo a imagem para manter a correspondência de um espelho. Recuei, e ele abriu a mesma distância.
Aproximei-me devagar. Quando restava um passo entre nós, estendi a mão para seu ombro. Os dedos dele tocaram o meu no mesmo instante. Havia tecido, calor e resistência dos dois lados. Nós nos afastamos com o mesmo susto e levamos as mãos ao peito.
— Quem é você? — perguntamos juntos. Minha voz voltou até mim sem atraso, vinda da boca do homem à minha frente, e ouvir a pergunta em duplicidade tornou a resposta ainda mais difícil.
Tentei passar pela direita. O outro Magno escolheu o lado correspondente e bloqueou o caminho. Fui para a esquerda, abaixei o corpo, avancei depressa; ele repetiu cada gesto e manteve a mesma distância. Eu poderia atacá-lo, mas qualquer soco encontraria um soco igual, com a vantagem adicional de me obrigar a descobrir qual de nós sentiria dor primeiro.
Parei e apoiei as duas mãos em seus ombros. Ele fez o mesmo. Em vez de empurrá-lo, dei um passo lateral e comecei a girar. Nossos corpos rodaram juntos no espaço estreito até trocarmos de posição. Quando soltei seus ombros, estávamos de costas um para o outro. Dei um passo, depois outro, e não encontrei resistência.
Virei a cabeça. Meu duplo permanecia no centro da passagem, com os braços soltos ao lado do corpo. Pela primeira vez, não repetiu meu movimento. Seu rosto ainda era o meu, mas a voz que saiu dele já não carregava a minha entonação.
— Você atravessou sem tentar ferir o próprio rosto, o que elimina muita gente mais depressa do que imagina. Sou o espírito desta floresta. Resolveu o impasse com calma e inteligência; por isso, tem o direito de seguir por estas matas.
Eu precisava perguntar quais matas, para onde a passagem levava e quem Nazerith esperava que eu encontrasse. O espírito desapareceu antes da primeira pergunta. Seu corpo perdeu contorno, misturou-se à sombra das árvores e deixou o caminho vazio. Dei mais um passo, e a terra se abriu sob meus pés.
Caí outra vez, agora cercado de luz. À minha direita, uma faixa de grama, árvores e plantas estendia-se na vertical. À esquerda, nuvens atravessavam um céu ocupado por animais alados e estruturas que lembravam ilhas suspensas. A força me puxava entre os dois lados, paralela ao terreno, e mantinha minhas costas voltadas para um horizonte distante.
A paisagem trocou de posição. As árvores passaram para baixo, depois para a esquerda, enquanto as nuvens ocuparam o alto. Meu corpo não completara nenhuma volta; eram o terreno e o céu que se reorganizavam ao redor da corrente. Quando tentei abrir os braços, o vento os prendeu junto ao tronco e me empurrou com mais força. A lição do primeiro túnel ainda valia, embora aquele lugar tivesse decidido aplicá-la em todas as direções.
Relaxe as mãos, pensei. Movi apenas os dedos. O ar junto à palma direita formou uma ondulação pequena e girou meu ombro. Repeti o gesto com a esquerda, ajustando a inclinação até conseguir colocar o peito na direção do movimento. Um desvio amplo exigia força que eu não possuía; a menor mudança de posição alterava o ponto em que a corrente alcançava meu corpo.
Passei entre copas de árvores e subi em direção às nuvens, depois fui puxado para um campo de plantas douradas. O terreno curvava-se ao longe e voltava a subir do outro lado, formando um circuito fechado ao redor de um espaço sem Sol. A luz vinha de toda parte e não projetava sombras definidas. Durante alguns segundos, tive a impressão de percorrer por dentro um mundo esférico, feito um cenário de jogo que continuava depois da borda da tela.
Uma árvore cruzou meu caminho. Estendi o braço e agarrei o tronco com a ponta dos dedos. O corpo continuou sendo levado, esticando meu ombro até a dor, e balancei a mão livre para buscar equilíbrio. O gesto liberou uma rajada sobre o campo. As plantas se deitaram em sequência, abriram uma clareira larga e deixaram no ar folhas e sementes.
A corrente ao redor de minhas pernas diminuiu. Soltei o tronco, corrigi a posição dos pés e permaneci suspenso por um momento, capaz de escolher entre subir ou me aproximar do terreno. Escolhi o chão. A sustentação cedeu antes que eu terminasse o movimento e caí sobre a grama, rolando até bater as costas numa faixa de terra limpa.
Levantei-me com cuidado. As árvores cresciam espaçadas, separadas por extensões de vegetação baixa, e nada bloqueava a vista. Em qualquer direção, o mesmo terreno curvo alcançava um horizonte completo, trezentos e sessenta graus de floresta deserta. Eu conseguira recuperar os pés e a liberdade de andar, mas não sabia onde estava, quanto daquele mundo existia ao meu redor ou qual direção poderia me levar a alguém.