O Vento Voltará
Aparecemos juntos, eu, Henri e todos os outros que tinham morrido no vale. O ar voltou primeiro aos pulmões, depois à cabeça, e por alguns segundos fiquei de joelhos sem saber se a claridade ao redor vinha do renascimento ou de alguma sobra da Vajra ainda presa nos meus nervos. Havia gente caída por todos os lados, lobos tentando reconhecer as próprias mãos, vampiros cuspindo terra, Guardiões tocando o peito com espanto silencioso. Drácula abriu os olhos perto de uma pedra escura. Lavigne respirou com dificuldade, viu a própria mão limpa de sangue e não disse nada.
— Deu certo! — Lúcifer gritou, mas a alegria dele morreu antes de completar o rosto.
O chão tremeu. A vibração veio de trás, forte o bastante para derrubar quem ainda tentava se levantar, e uma sombra enorme atravessou o campo recém-formado. Pensei em outro ataque, outro preço escondido, outra peça que Elaryan deixara sem nome. Quando virei, encontrei um lobo maior que qualquer lobo deveria ser, apoiado em patas de criatura antiga, com a altura de um muro baixo e olhos conhecidos demais para pertencerem a um monstro.
— Um lobisomem gigante? — Lúcifer perguntou, erguendo a espada antes de reconhecer que a criatura não vinha contra nós.
— Meio-gigante, na verdade — respondeu Mantelar, a voz saindo grave por entre dentes ainda enormes.
— Mantelar — eu disse, deixando a Vajra baixar. — Pensei que você continuaria escondido enquanto o mundo acabava.
Ele mudou aos poucos, reduzindo o corpo até recuperar uma forma que pudesse conversar sem fazer todos darem passos para trás. Ainda assim, continuava grande, largo, carregando no rosto uma pressa que não combinava com reencontro.
— Existem mais comunidades de gigantes agora, muito mais do que vocês imaginam. Alguns pediram para receber a condição dos lobos, outros só queriam deixar de fugir. Ninguém fez nada na ausência de vocês, porque eu pedi tempo, mas esse tempo terminou. Seres conhecidos por anjos atacaram cidades próximas e estão tentando impor domínio sobre todos que chamam de impuros. Sei que vocês acabaram de morrer, renascer e levantar, mas a próxima guerra já começou.
Elaryan surgiu diante dele antes que qualquer um conseguisse organizar uma resposta. A presença dela cortou o tumulto sem precisar de gesto. Não trazia pressa no corpo, mas o olhar carregava aquela irritação de quem encontra uma peça fora do lugar e decide que ainda cabe no desenho.
— É exatamente o que Mantelar está contando — ela disse. — A última batalha desta fase começa em breve. Pensem em preparo, alianças e compatibilidade, porque força isolada não vai sustentar ninguém agora. Na hora certa, eu volto para ajudar. Estejam prontos. E, Mantelar, Adwig acabou de chegar ao planeta. Está na cidade ao lado. Sugiro que corra atrás dela antes que Lúcifer resolva transformar você em vampiro também.
Mantelar olhou para mim. Havia pergunta ali, uma velha licença de amigo para abandonar a estratégia por alguns minutos e correr atrás da própria vida. Assenti. Ele sorriu com o canto da boca, virou lobo de novo e partiu com tanta velocidade que a grama inclinou atrás dele. Elaryan desapareceu no mesmo instante, satisfeita por ter empurrado mais uma pessoa para o lugar exato que desejava.
— Ela disse que eu transformaria todos em vampiros porque eu já estava pensando nisso — Lúcifer falou, sem orgulho. — As mutações de morcegos, dragões, lobos, gatas, pássaros e outras formas não se comportam apenas como contágio. São adaptações. Se a simbiose estiver exteriorizada no momento da mordida, acredito que ela pode ser preservada, somada e orientada pelo corpo em vez de engolida. O acúmulo pode multiplicar defesa, cura, deslocamento e resistência.
— Você quer testar isso depois de uma morte coletiva? — Lavigne perguntou.
— Quero perguntar antes de testar — Lúcifer respondeu. — Depois do que aconteceu no vale, ninguém aqui tem direito de transformar outra pessoa em argumento.
Athena saiu de um portal com a comunidade de Fóster atrás dela, ainda carregando poeira de estrada e cheiro de madeira queimada. Não vinha para assistir. O povo dela atravessou em silêncio, avaliando lobos, vampiros, Guardiões e os restos do campo, e eu entendi que a notícia da guerra já tinha passado por lugares demais.
— Se isso for verdade, eu trouxe gente que vai querer experimentar — Athena disse. — Com termo claro, direito de recusa e alguém anotando efeito por efeito.
As kinnaras chegaram em seguida com os Mestres do Ar, os pais de Henri e Ilana. Ver Ilana ali, viva, inteira, atravessou minha defesa com uma violência que nenhuma espada alcançaria. Voei até ela antes de pensar em protocolo, antes de perguntar se o mundo permitia descanso. Ela segurou meu rosto com as duas mãos, encontrou meus olhos e me beijou com uma raiva amorosa, daquelas que cobram presença porque ainda há presença para cobrar.
— Você voltou — ela disse, e a frase trouxe todos os mortos do vale para dentro do meu peito.
— Voltei — respondi. — Mas ainda preciso aprender o que isso custa.
O preparo começou sem cerimônia. Lúcifer montou linhas de transformação com observadores, curandeiros e pessoas encarregadas de interromper qualquer combinação ruim. Carmilla e Drácula trabalharam lado a lado depois de tudo que os separara no vale, não reconciliados por discurso, mas por necessidade concreta. Lavigne e os Guardiões cuidaram da disseminação controlada do fator sanguíneo deles, recusando qualquer coleta sem nome, consentimento e registro. Athena encontrou entre vampiros e gatas alguns que já tinham usado varinhas, e logo transformou curiosidade em oficina. A palavra bruxaria correu pelo acampamento com riso nervoso.
Mais seres chegaram buscando não só poder, mas forma. Criaturas místicas que antes viviam escondidas começaram a se reunir, atraídas pela promessa de identidade num planeta com pouco tempo para acomodar tanta descoberta. Os pequenos gnomos apareceram quase no fim da tarde, desconfiados e barulhentos, e Lúcifer se apaixonou por eles com uma facilidade perigosa. Eles o trataram como divindade por três minutos, depois discutiram com ele por causa de uma fogueira mal montada, e isso pareceu lhe fazer mais bem do que qualquer reverência.
Moisés apareceu quando eu já tinha parado de procurar por ele no rosto dos recém-chegados. Veio acompanhado de Eva e de André. O reconhecimento de André correu pelo grupo em camadas: antigo rei dos vampiros dragões, portador de quatro armas místicas, origem de parte da contaminação que mudara povos inteiros antes que qualquer um entendesse o alcance. Ele não chegou triunfante. Chegou cansado, com uma delicadeza estranha para alguém que carregava tanta ameaça acumulada.
— Ele estava com quatro armas místicas? — Lúcifer perguntou a Carmilla, baixo o bastante para fingir que perguntava só a ela.
— Estava — ela respondeu. — E foi o dragão inicial. O ataque dos vampiros contra ele abriu uma linhagem que ninguém conseguiu fechar depois.
André reencontrou o próprio amor entre os que tinham acabado de aceitar uma transformação. A cena não pediu nossa permissão. Ele apenas parou, perdeu a pose de sobrevivente antigo e caminhou até ela com medo de tocar. A mulher riu chorando, tocou primeiro a mão dele e depois o rosto, e a guerra esperou alguns segundos por respeito ou cansaço.
Nosso problema maior estava nos lobos e nas gatas. Muitos ainda recusavam dragões, morcegos e qualquer mistura que lembrasse Kimmer. Eu não podia culpá-los. O corpo guarda política nas cicatrizes. Por isso, começamos pelas compatibilidades menos rejeitadas: pássaros ligados às kinnaras, reforços respiratórios dos Mestres do Ar, pequenas transmissões de fênix para quem já aceitava calor interno e regeneração limitada. Lúcifer conseguiu replicar parte da mutação da Fênix, sem entregá-la inteira, e esse limite evitou que a esperança virasse delírio.
Drácula chegou ao centro do acampamento quando a noite ainda não tinha caído. Não vinha com notícia boa. A expressão dele bastou para calar as oficinas, as filas e as primeiras risadas que tinham surgido depois da morte.
— Chegou a hora — ele disse. — Os anjos atacaram a cidade onde Adwig está. Precisam de nossa ajuda agora.
— Para onde? — Lúcifer perguntou, já sacando a espada.
— Para ela — Drácula respondeu. — Adwig está segurando a primeira linha sozinha há tempo demais.
O portal de Lúcifer abriu largo no céu, vermelho nas bordas, e a massa de gente atravessou sem formação perfeita. Do outro lado havia batalha. Adwig lutava no meio da cidade com o cetro em mãos, Mantelar defendia uma rua inteira, e seres alados avançavam em grupos, ferindo mais do que matando, empurrando civis para áreas abertas, marcando corpos com luz e humilhação. Aquilo passava de ataque. Vinha como demonstração.
— Dragões, fogo! — Lúcifer ordenou, abrindo as asas antes que a primeira linha nos alcançasse.
As simbioses se abriram em várias direções, e as chamas bateram contra a primeira linha dos anjos. Pela primeira vez, eles recuaram. O recuo durou pouco. Um deles levantou as duas mãos e lançou água misturada a gelo com força suficiente para apagar as labaredas e ferir os dragões, que retornaram aos corpos em contração dolorida. Eu respondi com lobos e pássaros, coordenando avanço baixo e ataque alto, mas o efeito também morreu depressa. Os anjos mudavam de técnica com disciplina assustadora.
— O problema é que eles renascem quando morrem — André constatou, surgindo ao meu lado com energia acesa nos braços. — Podemos vencê-los dez vezes e enfrentar a décima primeira.
O combate cresceu até perder centro. Aliados chegavam por portais, ruas laterais e quedas do céu. Os anjos formaram uma parede e reuniram ataques diferentes num único empurrão de energia. Nós respondemos do mesmo modo, não por plano, mas por falta de alternativa. Fogo, vento, metal, sangue, raio, gelo, som, varinhas e força bruta se encontraram no meio da praça. O campo de tensão segurou as duas explosões sem permitir que nenhuma avançasse. Eu senti nossos músculos cedendo.
André se ergueu primeiro e disparou contra a parede com tudo que carregava. Subi pelo outro lado e puxei a Vajra, ainda marcada pelo vale. Não queria usá-la de novo. Usei porque a linha inimiga começou a andar. Quando o avanço quase nos quebrou, seres iluminados apareceram atrás de nós, e Athos chegou logo depois. Ele não atacou de imediato. Ficou parado, lendo o conflito com uma atenção que me irritou até eu entender que ele procurava o ponto que sustentava a guerra.
Um homem caiu no centro do choque como um raio. A explosão jogou aliados e inimigos para trás, rasgou o campo de tensão e abriu silêncio no meio da praça. Tinha asas, postura de juiz e uma beleza que me deu vontade de desconfiar antes de ouvir sua voz. Athos avançou um passo. A simples escolha dele de falar em nosso lugar segurou muita gente.
— Eu sou Gabriel e ordeno que parem. Quem ainda tiver juízo deve baixar as armas.
— Gabriel, eu sou Athos. Por mais poderosos que vocês sejam, não acredito que possam fazer frente contra todos nós. Queremos conviver em paz até o final dos tempos.
— Não existe paz com impureza — Gabriel respondeu. — O planeta feito para os puros de coração recebeu outro destino, longe dos seres espalhados pelo Universo. Nosso dever é banir os que não merecem o reino, para que os dignos tenham descanso sem pecado ao redor.
Emma estava a poucos metros de mim. Ela ouviu, inclinou a cabeça e falou com uma ironia seca que atravessou o medo.
— Tem certeza que eles não são os próprios anjos mesmo?
Eu ri por reflexo, entendendo a referência antes de medir a consequência. Gabriel ouviu. O rosto dele mudou, não para raiva comum, mas para insulto religioso. Ele desapareceu e reapareceu diante dela com a mão dentro de seu peito. Arrancou o coração de Emma no mesmo movimento em que ela cravou a Lança do Destino no olho dele. Ela sumiu com a arma e renasceu em outro ponto, teletransportando-se de volta antes que o sangue dele terminasse de cair.
O olho de Gabriel se curou devagar. O céu ficou vermelho junto com ele, e chuva de sangue começou a cair sobre a praça. Nenhum de nós precisava de símbolo tão óbvio, mas aquele povo amava símbolos.
— Esse teatro de asas tenta nos expor ao ridículo — Gabriel disse a Athos. — Como sabe que nossas simbioses também são pássaros?
— Eu não sabia — Athos respondeu. — Só mantenho acordo de liberdade com a minha. Um pássaro precisa ter pelo menos as asas livres.
Ao dizer isso, ele deixou parte da própria simbiose aparecer. Todos do lado dele fizeram o mesmo, cada um à sua maneira. Eu abri as asas vermelhas. O gesto correu entre os aliados e organizou a visão da batalha. Quem mostrava simbiose era nosso. Quem escondia ou apagava a própria forma vinha do outro lado.
— Da próxima vez, extermino aquela garota e todos vocês por completo — Gabriel gritou.
— Vai mesmo? — Elaryan apareceu diante dele, e a chuva de sangue pareceu hesitar por um instante.
Gabriel sorriu com uma satisfação horrível, limpando o sangue do rosto com o dorso da mão, satisfeito demais para notar o quanto aquela alegria já denunciava sua fome.
— Você veio pessoalmente. Finalmente. Esperei tempo demais por esse encontro.
— Se estou aqui, e você sabe que eu conheço o caminho, não acha pretensão demais acreditar que vai me derrotar?
— Conhecer probabilidades não torna ninguém dona do destino. Toda visão pode ser mudada. Quero ver seu rosto quando eu mudar o final.
Eles se chocaram em velocidade que meus olhos só captavam por sobras. A guerra explodiu de novo ao redor. Henri e eu nos separamos para multiplicar defesa e ataque. Fenrir mantinha o faro aberto para distinguir aliados entre a chuva, Suzaku queimava perto do osso, e a Vajra respondia com descargas curtas, mais contenção do que extermínio. Ilana, os pais de Henri e os Mestres do Ar protegiam civis numa zona mais afastada. Fiquei grato por cada metro entre eles e Gabriel.
Athos tentou se aproximar de Elaryan, mas parou quando percebeu outra coisa. Os aliados mortos pelos anjos não estavam retornando. Alguns corpos desapareciam de modo definitivo, apagados pelo golpe no peito. Ele ergueu a voz acima da praça inteira.
— Protejam o coração. Não deixem os anjos atravessarem o peito de vocês.
Até aquele momento, morte tinha sido passagem dolorosa, não fim absoluto. A fala de Athos mudou o peso do chão. Adwig lutava perto dali com o cetro, derrubando inimigos que desapareciam ao contato da ponta. Athos a viu, viu Elaryan, viu Gabriel começando uma técnica nova, e a hesitação dele ganhou formato de lembrança.
Gabriel fechou os olhos e começou a absorver os próprios anjos, um a um, puxando luz, corpo e simbiose para dentro de si. Miguel tentou alcançá-lo e foi repelido. A cada absorção, o ar ficava mais denso. Elaryan desceu ao lado de Athos.
— Você já entendeu o que precisa ser feito? — ela perguntou.
— Dou minha espada para Adwig — Athos respondeu.
— E o que mais ela segurava? — Elaryan perguntou, prendendo Athos no detalhe que ele queria evitar.
Athos olhou para Adwig. O cetro brilhava na mão dela, mas a lembrança que ele perseguia não estava ali, e a ausência daquela imagem doeu nele antes de virar resposta.
— Nada. Nem o cetro. Só a espada, ou o que a espada ainda podia se tornar.
— Pense, Athos. Não olhe para a batalha inteira e esqueça o gesto pequeno.
Ele encarou o campo inteiro. Eu segui o olhar dele e senti o desenho se formando tarde demais: quinze armas, espalhadas entre nós. Adwig com o cetro, Emma com duas, Lúcifer com a espada, Krakor com o tridente, Móretar com outra espada, Athena com uma varinha, Médera com sua arma, André carregando quatro peças, e eu com Vajra e adaga.
— André acumulou o cajado que estava com Hagar e Afrodite, a foice e as duas armas de Brahma — Elaryan disse. — As mais mortais.
— E eu tenho a minha espada — Athos concluiu.
A espada dele brilhou. Gabriel continuava absorvendo anjos. O resto do campo se tornou tempestade material: tiros de energia, gelo, metais enormes reduzidos a pó, alterações de gravidade, vento cortado por ondas eletromagnéticas. Adwig perdeu o cetro num golpe. O anjo que a atingira foi sugado por Gabriel no mesmo segundo. Ela viu Athos erguendo a espada e entendeu antes de muitos de nós.
— Athos, vou limpar a frente — Elaryan disse. — Chegou o momento de Adwig. Faça agora.
André chamou quem estava perto. Emma surgiu pelo lado oposto, Lúcifer abriu caminho com fogo, e eu saltei com a Vajra para sustentar um corredor de raio. Adwig correu até Athos.
— Pegue minha espada — Athos disse. — Chegou a hora de tentarmos sobreviver ao fim do Universo, e tudo depende de você.
Adwig segurou a espada. Elaryan abriu campos e explosões diante dela. André e Emma dispararam de lados diferentes. Eu entrei pelo alto, segurando a pressão com o pouco que a Vajra ainda aceitava me emprestar.
— Agora, Athos — Elaryan gritou. — Antes que Gabriel termine de recolher o próprio exército.
Athos lançou um raio contra a espada nas mãos de Adwig, e o brilho que saiu dela fez as outras armas responderem antes dos próprios portadores.
— Que todas as armas se unam em sua forma original.
As armas saíram de seus portadores. A Vajra deixou minha mão com um puxão seco. A adaga abriu meu cinto e voou. O tridente, as varinhas, espadas, foice, cajado, lanças e lâminas cruzaram o ar em direção à arma de Adwig. Gabriel abriu os olhos no momento em que terminava de sugar os anjos. Todos atacaram. Nada chegou perto dele.
Ele ergueu a mão para atingir Adwig. Athos abriu um portal ao lado do braço dele e usou o próprio corpo para travá-lo. Elaryan segurou o outro. Gabriel explodiu os dois para longe, e por um instante o caminho ficou livre demais para ser verdade.
— Carl! — André gritou. — Ajude ela.
Carl entendeu. Correu em velocidade absurda e se lançou contra a espada, entregando o cálice que potencializava poder junto com a própria vida. A arma brilhou de novo. Adwig recuperou movimento, atravessou Gabriel e cravou a lâmina unificada no coração dele.
— Eu ainda posso morrer — Gabriel murmurou, cuspindo sangue. — Mas vou renascer.
— E você acha que só vocês aprenderam a controlar a partícula cerebral de alguém? — Elaryan apareceu ao lado dele e falou quase em seu ouvido.
Ela apertou o coração preso à lâmina e disparou um choque pequeno, de baixo para cima, atravessando o corpo até o cérebro. Gabriel apagou antes de sumir. A espada brilhou tão forte que Adwig perdeu o equilíbrio. Elaryan puxou a arma da mão dela e cortou a própria palma na lâmina, selando posse com sangue.
Athos chegou primeiro. Nós nos juntamos em volta logo depois, sujos, feridos e sem saber se o silêncio significava vitória.
— Elaryan, o que significa isso? — Athos perguntou. — Devolva a espada.
— Você não confia em mim, meu amor?
— Se acabou, deixe a espada comigo. Dividimos as armas outra vez. Mantemos o poder separado.
— O poder foi feito para ser centralizado e bem administrado, Athos. Prometi uma vida tranquila até o final dos tempos, e vocês terão mais tempo do que teriam em qualquer outro lugar do Universo.
— O que você está escondendo? — Athos perguntou, já avançando antes que ela escolhesse outra resposta.
Athos saltou sobre ela. Os dois desapareceram com a arma. A praça ficou imóvel por um tempo que ninguém mediu. Então Trovar surgiu diante de nós, sem alarde, carregando no rosto uma culpa antiga.
— Desculpem não ter ajudado — ele disse. — Eu não podia estar aqui durante o combate. Elaryan não podia saber.
— Trovar, o que aconteceu? — André perguntou.
— Elaryan levou Athos e as Armas Místicas para o final dos tempos, perto do Big-Bang. Para eles, minutos. Para vocês, anos. Ela pretende usar a partícula cerebral de todos para atravessar o fim e repetir o processo. Athos sabia que isso viria e preparou um plano.
Adwig deu um passo, ainda com sangue no braço, e a voz dela saiu baixa porque a batalha tinha acabado de trocar de tamanho.
— Explique melhor. Depois de tudo isso, ninguém merece receber só metade da frase.
— O que Elaryan e Athos chamaram de visões vinha de lembranças. Fragmentos de ciclos anteriores.
A frase atingiu o grupo com mais força que Gabriel. Móretar foi o primeiro a dar nome ao raciocínio, e o silêncio ao redor dele mostrou que todos já tinham seguido a mesma linha.
— Então tudo isso já aconteceu antes? O início, o fim, o recomeço?
— Sim — Trovar respondeu. — O Big-Bang começa, acaba e recomeça. A tendência é repetir quase tudo, com diferenças discretas. Elaryan usa o poder de todos para buscar algo acima do Universo, mas só consegue preservar as próprias memórias. Em muitos ciclos, ela acreditou chamar isso de visão. Athos recuperou fragmentos, e eu fui uma diferença rara: alguém que, no último ciclo, conseguiu teletransportar sem uma arma mística.
Trovar olhou para cada um de nós, sem pedir que aquilo fosse aceito depressa, porque a verdade chegava tarde e ainda vinha exigindo obediência.
— Desta vez, vamos levar conosco, através de Érebo, todos que tiverem poder suficiente para suportar simbiose comigo. Sem Elaryan carregando sozinha a memória, e com mais pessoas lembrando, podemos mudar a ordem dos acontecimentos e alcançar o objetivo que ela perseguiu do modo errado: descobrir o que existe acima do Universo. Mas vocês ainda têm vinte e cinco anos até o fim. Vivam esse tempo. Protejam quem amam. Quando chegar a hora, eu volto.
— Precisamos fazer alguma coisa agora? — perguntei.
— Garantir que estejam bem. A compatibilidade comigo não será criada por treino, medo ou sacrifício. Quando o momento vier, saberemos quem consegue atravessar. Até lá, vivam.
Trovar desapareceu, deixando uma ordem impossível de obedecer com simplicidade. Olhei para Ilana. Ela chorava sem decidir entre alegria, alívio e pavor. Abracei-a porque nenhuma explicação cabia entre nós naquele instante.
— Acho que podemos ir para casa — eu disse.
— Eu te amo — ela respondeu. — E odeio que isso ainda não resolva nada.
Fomos. A comunidade de lobos, pássaros, gatas, gigantes, vampiros, gnomos e gente sem nome único voltou para o reino em marcha lenta, carregando feridos, ferramentas, crianças e pedaços de casas. Os anos seguintes trouxeram disputa, luto, adaptação, gente recusando mutação, gente exagerando no próprio poder, amores que nasceram de medo e outros que sobreviveram a ele. Também tiveram feiras, dança, arte, comida quente, elfos visitando com frequência, gnomos discutindo com Lúcifer sobre regras de culto e Ilana me lembrando que fim anunciado não autorizava pressa em amar mal.
Quando o prazo de Trovar se aproximou, ele voltou. Fez o teste de simbiose múltipla com todos que aceitaram, não por escolha de valor, mas por compatibilidade concreta. Apenas doze partículas cerebrais suportaram Érebo: eu e Henri, Adwig, Móretar, Silency, Sussurro, André, Emma, Lúcifer, Athena, Afrodite e Hagar. O número ficou pequeno demais diante de um Universo inteiro.
Ilana me encontrou antes da partida. Já sabíamos que a despedida vinha com outra natureza, diferente da morte comum, mas isso não a tornava menor.
— Tem certeza? — ela perguntou. — E se lembrar de tudo mudar você o bastante para me perder?
— Eu vou procurar um modo de fazer você lembrar também — respondi. — O amor não some só porque o Universo tenta reiniciar a casa. E, se numa próxima vida você não se apaixonar por mim, ainda pode encontrar outra felicidade. Eu só sei que, nesta, você foi o amor da minha vida.
— Não é hora de brincar, Magno. Você sabe exatamente onde isso me machuca.
— Foi a minha tentativa ruim de não implorar para ficar.
Ela me puxou, me abraçou e me beijou. Henri voltou das despedidas dele com os olhos vermelhos, e não perguntei de quem tinha se despedido por último. Algumas intimidades precisam de silêncio para continuar sendo verdadeiras.
— Está pronto? — Henri perguntou, voltando para perto de mim depois da última despedida.
— Não — respondi. — Mas vamos antes que eu invente coragem para fugir.
Trovar nos levou para dentro de Érebo. Sem sala, corpo ou caminho, restavam percepção compartilhada, vozes próximas e uma espécie de abrigo feito de sombra consciente. Ele se teletransportou para um ponto de onde poderia ver sem ser percebido. Elaryan acabara de levar Athos para perto do Cinturão dos Planetas. O fim de tudo vinha rápido, branco nas bordas, comprimindo distância, matéria e pensamento.
— Desta vez sua visão não vai se concretizar — Athos disse.
— Sempre se concretiza — Elaryan respondeu. — Até essa fala estava na visão final. Agora é a hora. Adeus.
Elaryan avançou a espada contra Athos. Ele abriu um portal diante do próprio corpo e outro atrás dela. A lâmina entrou pelo primeiro e surgiu às costas de Elaryan. Tudo ficou branco. Por um segundo, acreditei que tínhamos perdido outra vez, e essa crença trouxe o cansaço de todos os ciclos que eu ainda nem lembrava.
— Tive medo de errar o momento — Trovar disse, surgindo diante de Athos quando a luz abriu.
Athos estava vivo. A espada caíra no chão. Elaryan tinha saído do lugar que acreditava controlar. O portal deslocara a lâmina, não o corpo dele, e a arma atravessara a própria dona pelas costas no instante em que ela confundiu explosão branca com fim inevitável.
— Foi brilhante, Trovar — Athos disse. — Só podíamos alcançá-la quando as lembranças dela não vissem mais nada.
— Sua ideia de teletransportar a espada foi incrível. Eu vi a luz e achei que tudo tinha terminado.
— Veio menos de ideia que de lembrança. Da outra vez, teletransportei a mim mesmo e perdi. O ciclo tende a repetir tudo, mas coragem e planejamento mudam detalhes. Elaryan não contava com você porque, na maior parte das vidas dela, você não existiu como fator. Desta vez, você foi o detalhe grande.
Trovar abriu vultos dentro de Érebo. Athos viu nossas projeções: eu com Henri, Adwig, Silency, Sussurro, André, Emma, Lúcifer, Athena, Afrodite e Hagar.
— Mais ninguém conseguiu? — Athos perguntou, procurando um rosto a mais entre os vultos.
— Infelizmente não — Trovar respondeu. — Érebo rejeitou todos os outros.
Athos fechou os olhos. Quando abriu, o tempo para luto organizado já tinha acabado junto com a esperança de aumentar o grupo.
— Então todas as almas do Universo estão conosco. Agora só nos resta torcer para acordarmos do outro lado e planejarmos direito o que Elaryan começou errado: derrubar o que está por trás deste Universo.
O fim chegou sem barulho suficiente para merecer o nome. Tudo perdeu borda, depois cor, depois distância. Não senti o corpo acabar. Senti o vento se retirar, guardando fôlego para outra tentativa.
E o vento voltará, quem sabe me trazendo com ele em Afrodite e a Beleza da Tempestade, porque algumas histórias só aprendem a começar depois que aceitam acabar.