Um Cenário Inesperado Liberdade do Vento · Capítulo 42 de 49
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Um Cenário Inesperado

Drácula se desfez em morcego no meio do primeiro avanço dos dragões e apareceu perto do meu ombro, pequeno demais para carregar a autoridade com que havia atravessado o peito de Carmilla. A guerra explodiu atrás dele com um atraso curto, suficiente apenas para o povo dela entender que a rainha desaparecera e que o homem trazido por Athos tinha sido o autor da morte.

— Desculpe por ter começado a guerra sem avisar antes — disse Drácula, voando ao lado do meu rosto enquanto as primeiras rajadas de fogo cruzavam o lugar onde estávamos. — O outro caminho nos deixava sem chance. Para termos alguma, precisava ser assim.

— Podemos falar disso enquanto fugimos? — perguntei, porque uma explicação filosófica perdia utilidade quando vinha acompanhada de dragões abrindo a boca na nossa direção.

Henri puxou Suzaku antes que eu terminasse de decidir. O corpo se abriu em asas, penas e calor, e eu subi com Drácula acompanhando a corrente ao meu lado. Os dragões vieram atrás de nós, mas a mata fechada começou a quebrar a vantagem deles. Passei entre copas grossas, troncos retorcidos e galhos que se entrelaçavam com densidade de muralha. As criaturas podiam queimar tudo para abrir caminho, mas hesitavam diante das árvores, e aquela hesitação tinha força de lei.

— Certo — falei, mergulhando por uma passagem estreita entre dois troncos. — Você matou a líder deles porque ela era poderosa demais e essa era nossa única chance. É isso?

— Mais ou menos isso — respondeu Drácula. — A morte dela era necessária.

— Você acabou de destruir o coração de uma rainha na frente do povo dela, na frente de Lúcifer e na frente dos lobos que viemos recuperar. "Necessária" não paga nem o começo da explicação.

Drácula manteve silêncio. Aquela ausência de resposta me irritou mais que uma mentira, porque eu já tinha ouvido quietudes parecidas em gente que carregava ordem de outra pessoa e tentava chamar obediência de sacrifício. Henri sentiu a mesma coisa, mas antes que qualquer um de nós insistisse, uma sombra de asas veio contra a corrente.

O pássaro subiu furioso entre os troncos, maior do que qualquer ave comum e rápido o suficiente para usar o próprio vento como golpe. A rajada nos arrancou da proteção das árvores e nos lançou para cima da copa. Os dragões que nos perseguiam aproveitaram a abertura e dispararam fogo ao mesmo tempo. Preparei o ar para desviar parte das chamas, mas o pássaro entrou no caminho e se desfez no incêndio.

— Isso não estava no plano — disse Drácula, ainda em forma de morcego, e pela primeira vez a voz dele carregou surpresa de verdade.

O fogo não matou o pássaro. Ele voltou atrás de nós, nascido das próprias chamas, maior, coberto por escamas sobrepostas às penas e com uma fúria que reconheci antes de ver o rosto humano. O bico se abriu, devolvendo fogo como os dragões, e o jato nos atingiu de perto. Suzaku recuou dentro de mim, a forma alada se desfez, Drácula caiu em corpo humano e nós dois batemos no chão entre raízes altas.

Lúcifer pousou logo depois, também humano, com o rosto marcado por sangue seco e raiva recente. Ele não veio como aliado nem como inimigo inteiro; veio como alguém que acabara de perder uma rainha, um ponto de confiança e a pouca paciência que restava para gente falando em destino.

— Eu não consigo entender — disse ele, andando de um lado para o outro diante de Drácula. — Carmilla estava conversando. Ela conhecia Athos, queria salvar André, tentava avaliar uma crise que não começou aqui. Então você chega, pede perdão e atravessa o coração dela. Eu preciso saber o que está acontecendo.

— Fui instruído a não revelar tudo que está por trás disso — respondeu Drácula.

— Para nós também? — Lúcifer perguntou. — Porque do lado de lá tem vampiros e lobos morrendo por uma decisão que você tomou sem pedir licença a ninguém.

Drácula olhou na direção das copas, onde o clarão da guerra aparecia em flashes entre folhas e fumaça. Ele queria voltar ao campo, mas Lúcifer tinha bloqueado o espaço com o corpo e eu não pretendia deixá-lo sair antes de arrancar alguma coisa útil daquela missão.

— Existe algo além deste confronto — disse Drácula. — Algo além da morte de Carmilla, dos lobos e da disputa entre os nossos povos.

— O meu povo está morrendo lá fora — respondi, e minha voz saiu mais alta que o necessário. — Os lobos vieram da minha cidade, os vampiros de Dracs atravessaram conosco, Carmilla morreu diante de mim e você ainda chama tudo de "além". Se considera esse povo seu também, deveria entender que não dá para executar uma guerra e pedir calma depois.

Henri não segurou minha raiva. Ele também precisava ouvir a resposta. Drácula abaixou o rosto por um instante, e a autoridade dele mudou de lugar: saiu da coroa invisível e caiu no cansaço de alguém que aceitara uma tarefa cruel demais para ser dita com grandeza.

— Todos aqui precisam morrer — ele falou. — Todos nesta guerra. Não pode sobrar ninguém deste confronto. As mortes precisam acontecer em batalhas simples, sem grandes destruições, para que renasçam e evoluam.

O som das chamas ao longe ficou menor por alguns segundos. Lúcifer parou de andar. Eu senti Henri procurar uma contradição imediata e não encontrar uma que desfizesse o mecanismo inteiro. Morrer naquele universo podia ser passagem, mas escolher a morte dos outros continuava tendo gosto de crime quando vinha antes da escolha deles.

— Eles não podem saber — disse Lúcifer, entendendo a parte mais suja antes de mim. — Se souberem que precisam morrer para evoluir, isso pode influenciar a morte e o retorno.

— Renascerão juntos para lutar lado a lado depois disso — completou Drácula.

Eu tinha julgado Drácula por covardia, por estratégia barata, por assassinato político. Continuava julgando. A diferença era que agora eu via a lâmina apertada contra a garganta dele também. Isso não tornava Carmilla menos morta, nem fazia da explicação um perdão.

— Não deve estar sendo fácil carregar essa missão — respondi. — Mas se você matar alguém na nossa frente de novo sem dizer o mínimo necessário, eu vou tratar você como parte da ameaça antes de tratar como aliado.

— Justo — disse Drácula, recolhendo qualquer defesa que ainda tentasse sustentar com a postura.

— E sabendo disso, podemos matar os inimigos ainda? — Lúcifer perguntou.

— Não sei — respondeu Drácula. — Imagino que sim, desde que a guerra não vire massacre de um único lado. Precisamos manejar os embates para que a morte cumpra o efeito esperado.

A palavra "manejar" quase me fez rir, mas o campo de batalha não deu espaço para isso. Manejar gente morrendo era uma expressão pequena demais para o tamanho do horror. Ainda assim, havia lobos presos, vampiros de dois povos e uma guerra que, segundo Drácula, não podia terminar em vitória limpa.

— Então a primeira coisa é liberar os lobos que ficaram contidos — disse Henri por mim. — Se todos precisam atravessar essa morte, deixar parte deles presa só desequilibra o massacre.

— Vamos — respondeu Drácula, retomando a forma de morcego e seguindo à frente por entre as árvores.

Subimos de novo, desta vez sem perseguição imediata. O céu que minutos antes cortava a mata com fogo e asas estava silencioso. Dragões, vampiros e lobos tinham sumido do ar e da clareira principal. A ausência de combate incomodava mais do que o ruído, porque uma guerra daquela não se aquietava por educação.

— O que aconteceu? — perguntei, olhando para a clareira onde tudo tinha começado.

— Não entendo — disse Drácula. — Ficou quieto depressa demais.

— Eles não se matariam todos nesse tempo — Lúcifer respondeu, voando perto o bastante para que eu visse a tensão nos ombros dele.

Um gemido subiu da mata, baixo, molhado, repetido logo depois por outro som mais comprido. Não vinha do céu nem da clareira principal. Inclinei as asas, procurando a direção pelo ar, e Henri apontou antes de mim para uma depressão entre as árvores.

— Lá embaixo — disse ele, já deslocando nosso corpo na direção da depressão entre as árvores.

Lúcifer ouviu na mesma hora e avançou. Seguimos até a beira de um vale aberto no meio da mata, e a cena abaixo tirou por completo o pouco sentido que Drácula ainda tentava dar à guerra.

Lobos, vampiros de Carmilla e vampiros de Dracs estavam misturados numa única massa de mordidas. Ninguém procurava bandeira, rainha, rei ou vingança. Corpos se agarravam para sugar sangue, largavam uma presa ao sentir outra mais próxima e voltavam a ser mordidos por alguém que também sangrava. Havia gente sugando sangue de quem sugava sangue de quem sugava sangue, uma corrente viva e cega, sem frente de batalha, sem estratégia e sem o tipo de morte simples que Drácula dizia precisar.

Henri ficou quieto dentro de mim. Fenrir acordou com uma fome que vinha dele, não da minha vontade, e Suzaku respondeu com calor, queimando por dentro para manter o lobo no lugar. Lúcifer olhava o vale com a boca entreaberta. Drácula, ao nosso lado, perdeu a cor que ainda tinha no rosto.

Aquilo havia passado além da guerra inevitável de Athos e além do plano cruel de Drácula. Outra coisa usava todos eles por matéria.

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