O Exército A
K1 atravessou o corredor sem pedir que apressássemos o passo. O saco de sementes permanecia apertado contra nosso abdômen, preso pela mão de Henri, enquanto eu carregava a placa dobrada por Ilana. A cada curva, janelas estreitas mostravam a Torre Flutuante de Batalha um pouco mais próxima. Nenhuma ponte ligava a estrutura ao palácio.
Chegamos a um parapeito aberto. K1 guardou as chaves da cintura, estendeu as asas e saltou. O vento se acumulou sob as penas, sustentou seu corpo e a levou até a torre com uma velocidade que nos obrigou a reagir.
Meu espanto durou o tempo de um passo. Eu a vira servir refeições, abrir portas e cuidar de ferimentos; por isso reduzira suas capacidades às funções que desempenhava no palácio. A condição servil me ensinara uma conclusão sobre ela que seu corpo acabava de desmentir.
— Você sabia que as kinnaras voavam dessa maneira? — perguntei a Henri dentro da consciência.
— Eu sabia que possuíam asas. O restante nós dois deixamos de perguntar.
Seguimos K1. Fenrir percebeu primeiro a mudança de pressão ao redor da torre, e Suzaku respondeu ao campo elétrico que percorria as paredes. Pousamos numa varanda circular, vinte andares acima de uma base que terminava numa ponta metálica. A construção inteira girava lentamente sobre o próprio eixo.
K1 nos conduziu para fora pelo lado oposto. Um campo aberto ocupava uma plataforma presa à torre por quatro braços de metal. No centro, um pedestal sustentava um objeto dourado, curto, formado por um cabo central e duas extremidades que se abriam em pontas curvas.
— Esta é a Vajra de Indra — disse K1. — Ela reconheceu a presença dos novos reis desde a chegada de vocês, mas aguardava uma convocação.
Toquei o cabo. Uma descarga percorreu nossos dedos, subiu pelo braço e parou no peito, onde Suzaku a recebeu sem dor. Henri fechou a mão, e imagens curtas atravessaram a matéria do objeto: um raio entrando por uma das pontas, uma corrente elétrica saindo pela outra com força multiplicada, pedras arrancadas do chão e fileiras de combatentes surgindo sobre a plataforma.
— A arma ensina por contato? — perguntei.
— Entrega impulsos básicos. O domínio pertence ao portador. Indra absorvia raios, devolvia a descarga, atraía objetos e convocava quatro exércitos.
K1 indicou as posições das mãos. Fechar os dedos no centro chamaria o Exército A, formado para combate direto e manipulação de elementos. As duas extremidades pertenciam ao Exército B, responsável por reconhecimento. A parte interna da ponta convocava o Exército C para resgate; o lado do cabo chamava o Exército D, treinado para investigação e camuflagem.
— Se eu chamar o Exército C agora, ele pode retirar pessoas de uma batalha?
— Pode, quando a Vajra recebe uma missão compatível. A ordem atual exige que o Exército A se apresente primeiro.
— Exige segundo quem? A arma responde a você ou conserva uma vontade anterior?
K1 olhou para o céu acima da plataforma. A resposta já estava no modo pelo qual a torre, a arma e os soldados haviam sido preparados muito antes de nossa chegada.
— Segundo Shiva. A Vajra guardou a ordem quando o raio atingiu o palácio.
Henri tocou minha consciência. Concordamos em convocar os combatentes para ouvir a missão, sem oferecer obediência por eles. Fechamos a mão no centro da Vajra e produzimos uma descarga pequena.
O primeiro homem apareceu no ar diante da plataforma e conteve a queda abrindo os braços. Usava placas verdes sobre o peito, tinha a pele escura e uma cicatriz que atravessava o queixo. Faltava a ponta de um dos dedos da mão esquerda. Em vez de procurar o rei, ele se virou e criou uma corrente larga para estabilizar os soldados que surgiam atrás.
Centenas de pessoas ocuparam o céu em linhas. Algumas chegaram envolvidas por água, fogo ou partículas de terra; outras pousaram sobre correntes de ar. O homem de armadura percorreu as fileiras, corrigiu distâncias e só depois se apresentou diante de nós.
— Emanadel, primeiro comandante do Exército A. Recebemos o sinal da Vajra e a marca de Shiva. Qual ordem pertence ao rei?
— Permanecer reunidos até conhecermos a missão. Ninguém atacará ou matará por antecipação.
Emanadel levou o punho ao peito e transmitiu a instrução. O gesto percorreu as fileiras sem gritos. Os soldados ajustaram a formação e esperaram.
Elaryan surgiu ao lado do pedestal. A roupa branca e violeta continuava a mesma do palácio, mas o pequeno guardião não a acompanhava. Alguns combatentes ajoelharam no ar; outros baixaram a cabeça sem romper as linhas.
— Shiva é o nome pelo qual este exército conhece minha autoridade — disse ela, dirigindo-se a nós. — Não gastarei o tempo disponível discutindo os relatos que a Terra construiu em torno dele.
— Então comece pela missão. Quem será afetado?
Elaryan elevou a mão. Um painel apareceu sobre a plataforma e mostrou uma cidade sob céu azul. Construções baixas ocupavam ruas estreitas, e jovens atravessavam praças carregando cestos, ferramentas e recipientes de água. Outra imagem se abriu ao lado: uma massa de pedra e metal avançava pelo espaço.
— O planeta sofrerá o impacto desse meteoro em menos de dez minutos. A cidade será destruída. Cada soldado receberá uma seringa com um soro letal e indolor. Todos os habitantes deverão morrer pelo soro antes do impacto.
Caixas escuras surgiram diante das fileiras. Cada uma se abriu e expôs seringas presas em suportes de metal. Emanadel não tocou na caixa que flutuou diante dele.
— Quantas pessoas vivem ali? — perguntou Henri por nossa voz.
— Mil quatrocentas e oito. São manipuladores de fogo em uma etapa jovem de desenvolvimento.
— Convoque o Exército C e retire todos — ordenei à Vajra, mudando a posição dos dedos.
O metal esquentou e empurrou nossa mão para o centro. Tentei novamente. A parte destinada ao resgate permaneceu rígida, sem responder à descarga.
— Você bloqueou a convocação — falei. — A Vajra sequer permitiu que a energia alcançasse o chamado de resgate.
— Mantive a ordem que trouxe o Exército A. Se deseja salvar essas pessoas por outro meio, terá o tempo que resta.
— Não usaremos o soro. Nem eu nem Henri autorizamos essas mortes.
— A missão continuará com ou sem a aprovação dos dois. Decidam o que farão durante os oito minutos disponíveis.
Elaryan desapareceu. No mesmo instante, a plataforma, a torre e o céu foram substituídos pela cidade exibida no painel. A gravidade puxou o exército para baixo. Emanadel abriu uma corrente de ar sob as linhas, e nós ampliamos a sustentação até que todos pousassem sem atingir os telhados.
Uma faixa luminosa já atravessava o céu. O meteoro crescera o bastante para ser visto durante o dia. As pessoas nas ruas olharam para os soldados, depois para as caixas que continuavam flutuando diante deles.
— Espalhe os pelotões e avise sobre o impacto — ordenei a Emanadel. — Procurem abrigos, veículos, qualquer meio de retirada. As seringas permanecem nas caixas.
— A marca de Shiva trouxe uma segunda ordem — respondeu ele. — Alguns soldados podem considerá-la superior à sua.
— Então transmita as duas e diga que o rei responderá por contrariá-la. Quem escolher o soro deverá ouvir o que ele faz. Ninguém será injetado à força.
Emanadel dividiu as fileiras. Parte dos soldados correu pelas ruas anunciando o meteoro; outros subiram para examinar a região. Um grupo menor abriu as caixas. Fenrir reconheceu medo nos movimentos deles, junto de uma devoção antiga que nossa ordem não alcançava.
Henri tomou a Vajra e tentou atrair os habitantes para o centro da praça. O artefato respondeu a objetos soltos, arrancou uma carroça do chão e moveu placas metálicas, mas resistiu quando direcionado a corpos vivos. Usei o vento para alcançar ruas distantes e espalhei o aviso na língua que a simbiose traduzia.
Alguns moradores correram para construções subterrâneas. Outros atacaram os soldados ao ver as agulhas. Chamas atingiram armaduras, queimaram caixas e fizeram duas linhas recuar. Emanadel separou os grupos com paredes de ar e manteve corredores abertos para quem buscava abrigo.
Elaryan apareceu acima da praça quando restavam menos de quatro minutos. A imagem do meteoro cobria parte do céu e escurecia os telhados.
— Nenhuma nave, passagem ou abrigo deste planeta sobreviverá ao impacto — informou. — O soro oferece uma morte sem dor e um destino posterior que o meteoro não garante.
— Explique esse destino a eles e permita que escolham — respondeu Henri.
Elaryan transmitiu a informação por toda a cidade. Diante da aproximação visível da pedra, algumas pessoas aceitaram as seringas e aplicaram o líquido umas nas outras. Muitas recusaram. Uma mulher levou duas crianças para baixo de uma escadaria; um rapaz lançou fogo contra a caixa mais próxima; grupos inteiros continuaram procurando uma saída.
— O tempo acabou — disse Elaryan. — A escolha disponível agora pertence a mim.
As seringas saíram das caixas. Suspendi uma barreira de vento ao redor das ruas, mas o líquido atravessou o vidro sem carregar as agulhas. Fios transparentes se dividiram no ar e alcançaram cada pessoa que recusara a aplicação. Nenhum soldado moveu os braços. Os moradores caíram onde estavam.
Corremos até a mulher e as crianças. Henri procurou pulsação, Fenrir buscou respiração e Suzaku aqueceu os corpos. O soro já encerrara toda atividade. O mundo desapareceu quando a borda do meteoro incendiou o horizonte.
Surgimos num deserto sob luz vermelha. A gravidade baixa fez vários soldados continuarem subindo depois do transporte, e Emanadel precisou trazê-los de volta com uma corrente descendente. As mesmas caixas reapareceram. Diante de nós, pessoas com rostos adultos tentavam se levantar sobre a areia.
Reconheci a mulher que protegera as crianças. O cabelo e a altura tinham mudado, mas ela conservava o gesto de colocar os dois corpos menores atrás de si. As crianças agora ocupavam formas adolescentes. O rapaz que queimara a caixa abriu os olhos e lançou uma coluna de fogo contra Elaryan.
Ela desapareceu antes do impacto. Sua voz chegou de todos os lados, atravessando a areia e as armaduras sem indicar uma posição que pudéssemos atacar.
— São as mesmas mil quatrocentas e oito pessoas. A ordem continua. Usem apenas o soro.
— Exército A, defesa e contenção — gritei. — Ninguém toca nas seringas.
Emanadel repetiu a ordem. Três soldados hesitaram entre a marca recebida e o comando do rei, mas fecharam as caixas. Os manipuladores de fogo atacaram antes que conseguíssemos falar. Eles lembravam o uniforme, as agulhas e a morte.
Uma linha de chamas atravessou a areia. Ergui o vento e desviei o ataque para o alto. Outros criaram círculos de calor em torno dos pelotões. Emanadel separou o ar em camadas: manteve oxigênio junto aos corpos e retirou da zona superior os gases que alimentavam o fogo. As chamas diminuíram sem sufocar ninguém.
— Precisamos conversar! — transmiti pelo vento. — Nós recusamos a ordem. Elaryan matou vocês no primeiro mundo.
— Vocês trouxeram as caixas! — respondeu a mulher, lançando fogo contra Emanadel. — Vocês estavam ao lado dela.
O ataque atingiu a placa de seu ombro. Emanadel apagou a chama, não revidou e manteve a contenção. Parte do exército criou paredes de terra; manipuladores de água resfriaram a areia; os soldados do ar abriram corredores para afastar os combatentes sem cercar famílias.
Conseguimos interromper o confronto por alguns segundos. As caixas permaneciam fechadas. Então o líquido atravessou novamente as seringas e formou linhas sobre a areia.
Henri e eu levantamos uma corrente contrária. Reunimos cada gota num redemoinho, comprimimos o soro e o empurramos para o alto. Elaryan surgiu no centro da formação, moveu dois dedos e separou o líquido em partículas menores do que o vento conseguia reunir. Elas atravessaram nossas correntes, tocaram a pele dos manipuladores de fogo e desapareceram.
A mulher caiu sobre os joelhos. Segurei seus braços antes que batesse o rosto na areia e apoiei suas costas contra nosso peito.
— Qual é o seu nome? Quero registrar quem Elaryan está matando.
— Syanna. Diga às crianças que eu tentei.
— Elas estão aqui. Continuam atrás de você.
Syanna procurou os dois rostos e perdeu a força. Ao redor, o deserto ficou ocupado por corpos adultos. Nenhum soldado comemorou. Emanadel fechou a mão ferida e olhou para Elaryan.
— A missão do rei era conter. Quem executou essas mortes foi você.
— Registre isso da maneira que desejar — respondeu ela. — O terceiro deslocamento começa agora.
O frio atingiu nossos pulmões. Caímos sobre uma planície de gelo cercada por montanhas. As caixas surgiram pela terceira vez, mas os manipuladores de fogo já estavam de pé. Os corpos tinham amadurecido novamente. Syanna apareceu entre duas pessoas altas, com os cabelos brancos presos junto à nuca e as mãos cobertas por chamas azuis.
— Não abram as caixas! — ordenou Emanadel antes mesmo de olhar para nós.
A primeira onda de calor rachou a camada de gelo. Syanna e os demais uniram as chamas, derreteram um círculo inteiro e alcançaram a terra escura sob a superfície. Uma barreira de fogo subiu ao redor do grupo. O frio exterior deixou de limitar seus movimentos.
Emanadel repetiu a técnica usada no deserto, mas os manipuladores responderam antes que a separação do ar se completasse. A onda de calor impediu a retirada dos gases e empurrou os soldados para trás. Bolas de matéria incandescente atravessaram a barreira. Elas traziam pedra derretida, criada a partir do solo exposto.
Três soldados foram atingidos. Um deles perdeu parte da armadura e caiu com o braço queimado; outro recebeu a lava nas pernas. Henri usou a Vajra para puxá-los para perto, enquanto eu abria uma corrente fria ao redor das feridas sem tocar diretamente a pele.
Subimos acima do campo para observar as montanhas. Um soldado interpretou o movimento como fuga e gritou contra o rei. Emanadel mandou que ele mantivesse a posição.
Os manipuladores de fogo ocupavam o centro de uma bacia. O calor abria o gelo sob seus pés, mas as encostas guardavam neve suficiente para cobrir toda a planície. Henri percebeu a mesma possibilidade que eu.
— Se derrubarmos a neve, podemos apagar a barreira e interromper o ataque. Elaryan usará o soro quando eles estiverem presos.
— Se não fizermos isso, os soldados atingidos morrem agora e a lava alcança o restante. Precisamos abrir uma saída depois da contenção.
— Então faça. Eu puxo os feridos e seguro a Vajra.
Produzi vibrações no ar junto às três encostas. A neve cedeu em blocos, ganhou velocidade e desceu para a bacia. Emanadel compreendeu o movimento, distribuiu soldados do vento ao redor do círculo e manteve a avalanche concentrada longe dos nossos pelotões.
A barreira transformou a primeira camada de neve em vapor. Os manipuladores de água resfriaram a nuvem, condensaram o vapor e derrubaram uma chuva pesada sobre o fogo. Syanna abriu um corredor na avalanche. Outros mantiveram o calor sobre a passagem e começaram a retirar as pessoas.
Congelei apenas a superfície da água para criar paredes em torno das frentes de lava. O gelo avançou mais do que eu ordenara. Uma faixa violeta percorreu a água, tomou nossas correntes de ar e fechou as aberturas ao redor dos manipuladores.
— Solte o gelo! — gritou Henri dentro de nós.
Interrompi a força, mas a matéria continuou endurecendo sob o controle de Elaryan. Syanna atacou a parede com fogo. Uma rachadura se abriu e voltou a fechar. Os soldados do Exército A recuaram quando perceberam que a prisão já não respondia ao rei.
O líquido das caixas atravessou as seringas e entrou na água do degelo. Tentei retirar a umidade da bacia. Elaryan manteve cada partícula no lugar até que o soro tocasse os corpos presos. As chamas azuis de Syanna se apagaram primeiro. As demais desapareceram em seguida.
Baixamos até o gelo. Henri assumiu nossas mãos e tentou quebrar a camada que cobria Syanna. Quando alcançamos o corpo, ela ainda conseguiu abrir os olhos.
— Outra vez vocês estavam aqui — disse, com a voz presa pela falta de força.
— Tentamos impedir. Eu usei a avalanche para conter o fogo, e ela usou o que fizemos para chegar até vocês.
— Na próxima vida, tente chegar antes dela.
Syanna morreu. O gelo ao redor tornou-se transparente, revelando centenas de corpos sob a superfície. A estratégia que salvara os soldados criara o caminho da última aplicação. Eu não dera a ordem de matar, mas nossa decisão entrara na execução.
Emanadel pousou ao nosso lado. O braço queimado de sua armadura soltava fumaça, e dois soldados amparavam o homem ferido nas pernas.
— Eles ficaram mais fortes a cada morte. Num quarto confronto, podem superar o Exército A.
Elaryan apareceu sobre o gelo, acima dos corpos aprisionados e fora do alcance das correntes de vento que ainda controlávamos naquela planície.
— Não haverá quarto confronto. A sequência terminou com o resultado de que eu precisava. O Exército A pode retornar.
— Você queria medir o que cada renascimento faria com eles — falei.
— Eu precisava que atravessassem três mortes dentro deste intervalo. A capacidade que conservaram confirma a etapa seguinte.
— Etapa de quê? Para onde Syanna e os outros foram?
— Essa resposta alteraria escolhas que ainda precisam pertencer a eles. Vocês a receberão quando a próxima ação começar.
— Você matou pessoas para preservar escolhas? Escuta a contradição quando diz isso?
— Eu concluí um processo que vocês não conseguiriam interromper. Também confirmei que Magno e Henri recusariam a ordem, que Emanadel reconheceria o comando defensivo e que o Exército A ainda responderia sob pressão. Cada resultado será necessário.
Henri avançou um passo. Segurei nosso corpo junto com ele, não para obedecer, mas porque Fenrir e Suzaku já buscavam uma abertura de ataque que Elaryan controlaria.
— Não transforme nossa recusa em parte do seu sucesso — disse Henri. — Essas mortes pertencem a você.
Elaryan sustentou o olhar e não respondeu. O gelo, as montanhas e os corpos desapareceram enquanto nossa pergunta ainda atravessava o campo vazio.
Voltamos à plataforma da torre. Os feridos receberam atendimento dos manipuladores de água e de soldados que usavam calor para preservar a circulação. Emanadel ordenou que as caixas fossem deixadas fechadas no chão. O líquido já desaparecera de todas elas.
— Registre o nome de cada pessoa ferida, cada ordem transmitida e cada momento em que Elaryan assumiu o soro — pedi. — Ninguém chamará isso de vitória. Dispense os pelotões depois do atendimento e mantenha os comandantes disponíveis para depor diante do conselho.
Emanadel levou o punho ao peito e chamou dois auxiliares para iniciar os registros enquanto os curadores terminavam o atendimento dos feridos.
— A ordem será cumprida. Também registrarei que a convocação da Vajra trouxe duas autoridades incompatíveis para o mesmo campo.
K1 nos esperava junto à passagem para o palácio. Ela observou as armaduras queimadas, as caixas abandonadas e o sangue no piso. Não perguntou se vencemos.
— Quantas pessoas morreram? — perguntou. — Preciso saber o número exato.
— As mesmas mil quatrocentas e oito pessoas, três vezes — respondeu Henri.
K1 fechou os olhos. Depois conduziu os feridos leves pelo corredor e enviou duas kinnaras para avisar o palácio. Eu caminhei atrás dela com a Vajra numa mão e a placa de Ilana na outra.
Ilana nos aguardava na sala onde a família permanecera. Levantou-se ao ver as queimaduras na roupa e procurou nossos olhos antes de tocar o corpo.
— Vocês convocaram o exército? Ele obedeceu à recusa de vocês?
— Convocamos para ouvir a missão. Recusamos as mortes. Elaryan matou todos e usou nossa defesa no último mundo para alcançá-los.
Ilana segurou a placa amassada, leu novamente as linhas sobre autonomia e devolveu o objeto. A família de Henri se aproximou, mas ninguém tentou transformar o retorno em celebração.
Eu ainda sentia nos braços a superfície do gelo que cobriu Syanna. Elaryan conseguira três mortes sem receber nossa ordem, testara os limites do Exército A e transformara uma decisão defensiva em parte do método. Para impedir que a próxima escolha chegasse preparada por ela, precisaríamos descobrir quem construíra aqueles juramentos, o que a Vajra conservava e quanto K1 sabia sobre Indra e Shiva.